PARA ESCLARECER ALGUNS FATOS

Por Elton Luiz Valente

Eu imaginava até há pouco que não haviam dúvidas, tanto para os nossos leitores mais assíduos, quanto para os leitores fortuitos, de que o Geófagos é uma página que tem como norte a Ciência e, entre outras coisas, defende a Teoria da Evolução de Sir. Charles Darwin como a explicação lógica, fundamentada em bases científicas, para explicar a vida na Terra. Mais que isso, consideramos também que Darwin é um marco na história da ciência e da humanidade.

Às vezes nossos artigos, principalmente os meus, são redigidos com uma boa dose de bom humor e ironia. O que pode ser percebido na maioria dos meus textos, inclusive nesse último, intitulado “O Vestibular do Juízo Final”.

Parece que alguns leitores não entenderam isso, ou pelo menos um, o que já é suficiente para justificar este esclarecimento. Referindo-se ao artigo mais recente, e confundindo tudo, o leitor me enviou ontem um e-mail com a seguinte afirmação:

“… infelizmente temos uma dicotomia insanável: sou ateu, não posso considerar textos ou deduções ou considerações que não tenham base lógica, comprováveis e acima de tudo, com evidências” (sic.).

Santa Maria Madalena! Meu Deus! São Charles Darwin! Alguém que “não pode considerar” determinados textos, quaisquer textos, é um fundamentalista de sua própria crença, seja ela qual for; mesmo a crença de que não existe Deus. Pois o fundamentalista não admite nenhuma forma de pensamento diversa da sua. Não admite nem mesmo conhecer os argumentos da parte contrária. É daí que nasceram todos os males da humanidade. Vale a pena repetir! É daí que nasceram todos os males da humanidade!

Quem quer defender uma causa com bases éticas, morais e científicas não pode abster-se de considerar os argumentos da outra parte. É o mínimo que se espera da conduta de adversários dignos. Até porque a crítica bem fundamentada é aquela que se espera vir de uma autoridade que detenha pleno conhecimento do objeto criticado. Senão ela não tem valor, torna-se vazia em si mesma.

A quem ainda não percebeu, o Geófagos defende a Teoria da Evolução, o Geófagos é Darwinista, mas nós não somos radicais. Ao contrário, nós defendemos o diálogo bem fundamentado, sem viés fundamentalista, sem radicalizar, sem fazer da ciência um dogma. Portanto não apoiamos, por exemplo, atitudes como a de Richard Dawkins na sua “cruzada” contra os Criacionistas, ainda que Dawkins seja um cientista brilhante, como o é.

O objetivo deste cronista que vos escreve não é jactar-se ateu, ou transformar Criacionistas em Evolucionistas, ou Religiosos em Ateus. Não! O que se quer é apenas falar de Ciência numa forma mais “palatável”, às vezes ironizando, às vezes brincando com temas bíblicos. E nesta área da religiosidade, mostrar, com argumentos racionais, plausíveis, com bom humor, que os seres humanos não são anjos decaídos e sim animais diferenciados em alguns aspectos (alguém já disse algo parecido com isso, não me lembro quem).

É preciso respeitar todas as formas de entender o mundo. Elas só não podem virar dogmas, nem projetos políticos, nenhuma delas. É contra isso que se precisa lutar. A espiritualidade, a religiosidade, que são sentimentos entranhados na essência humana, deveriam ser usados apenas para fins pacíficos e lúdicos, nada mais. E que não existissem problemas em brincar com essas coisas.

Para finalizar, eu, particularmente, considero que Deus é apenas o efeito colateral da inteligência humana. Mas devo, no mínimo por questões éticas, respeitar aqueles que crêem na Santíssima Trindade, ou coisa parecida, desde que eles também respeitem a minha forma de enxergar o mundo e o universo. Mas para isso, eu não me abstenho de ler bons livros, a Bíblia inclusive, nem mesmo aqueles panfletos que “missionárias” e “missionários” eventualmente deixam em minha porta. Somos livres para discordar e criticar, mas é preciso ter conhecimento e bases argumentativas sólidas, racionais e éticas. Para tanto é preciso ler, TUDO, mesmo que você não concorde com nada. É o que eu recomendo para os nossos estimados leitores.

E não me abstenho de desejar um Feliz Natal a todos, indistintamente.

Discussão - 7 comentários

  1. Luiz Bento disse:

    Fala Elton,
    Acho que você tocou em uma questão muito pertinente, mas sem resolução. A base dos criacionistas e muitos religiosos é que a bíblia ou qualquer outro livro sagrado é A verdade. No dia que eles fizerem o que você pede no post, eles deixarão de ser ortodoxos. Acho que o maior problema não é fazer com que eles leiam textos científicos/críticos. Eles podem até ler, mas sem nenhuma profundidade.
    Os principais argumentos criacionistas vem de argumentos tirados de leituras superficiais de textos científicos, onde eles procuram qualquer coisa “pouco” explicada ou sem provas tão contundentes e tentam desqualificar toda uma teoria. Coisa de quem não quer dialogar e entender o outro lado. Neste caso, só leitura não adianta.
    Além disso acho que cientistas e religiosos ortodoxos nunca irão se entender pois tem premissas opostas. Uma pergunta muito recorrente é “E se Darwin estivesse errado?”. Eles não conseguem entender que não existe dogma na ciência (pelo menos não deveria). Darwin não é O salvador. Não encaramos ele como acima do bem e do mal. A teoria defendida por ele e Wallace é a melhor explicação escrita até hoje. Amanhã isso pode ser diferente. E esta é a beleza da ciência.
    Sou leitor assíduo do geófagos e não tenho dúvida nenhuma do posicionamento de vocês.
    Abraços e boas festas.

  2. É isso mesmo Luiz. Muito obrigado por sua participação aqui!
    Um forte abraço e boas festas!

  3. Susana disse:

    Não consigo lembrar agora onde li, mas foi um artigo ou comentário que falava exatamente sobre esta filosofia. A importância da diversidade e do diálogo aberto entre idéias (antagônicas).
    De que em nada contribui ao desenvolvimento intelectual ou social, agregar-se num grupo fechado de pessoas com similaridades. Elas vão ficar discutindo entre si o que é o melhor no mundinho delas, até o momento que algo novo for adicionado, o que gerará conflitos ideológicos, negação e frustração, choque cultural.
    Vejo bastante disso entre ateístas adolescentes. Umas ganguezinhas dispostas a escrachar as crenças alheias, quando nem conseguem apoiar suas próprias sem consultar um Wikipedia da vida. Soldadinhos da “cruzada” de Dawkins.

  4. manuel disse:

    Caro Elton
    Estava de “férias”,mas o seu desafiante texto “obrigou-me” a interrompê-las.
    De facto,Ciência é uma coisa,e que importante ela é,e Crença em Deus uma coisa ainda mais importante,para os crentes.
    Claro que o método científico não se pode aplicar a Deus. Que bom seria se tal fosse possível,mas paciência. Talvez um dia o seja,quem sabe?,pois a Ciência não pára.
    Por isso Pascal,que era um crente,veio com a aposta. Ele achava que era melhor apostar no sim,ou seja em Deus. Se existisse,”ganhariam” uns,e “perderiam” os outros. Se não existisse,o que seria uma desgraça das grandes,perderiam todos.
    Mas até lá,até um esclarecimento definitivo,deviam comportar-se todos com muito juizinho,que assim é que era bonito,como,aliás,o Elton aponta.
    Como o Doutor,Professor,Biólogo,
    Investigador,Escritor,Divulgador,deOxford,é que parece que não. O que ele disse numa entrevista aí do Globo! Que ser crente era meio caminho andado para fazer as coisas mais horríveis,coisas de que os não crentes nem se lembrariam. Assim ,não.
    Mais uma vez,UM BOM ANO DE 1909,para não crentes e crentes,em especial dos Geófagos.

  5. manuel disse:

    Caro Elton
    Olha o grande disparate! 1909! 2009,pois claro. Logo 100 anos.Oh tempo,volta para trás,é uma expressão que aqui se usa. Não se lucrava nada com isso,aparentemente.
    Desculpem-me. Foi das “férias”.
    Esperemos que não tenha cometido mais disparates. Se cometi,já sabem,foi das “férias”.

  6. Luiz Bento disse:

    Pelo menos eles consultam o wikipedia. Acho que consultar só a bíblia é pior 😉

  7. Muito obrigado Manuel, em nome da Comunidade Geofágica.
    Quanto ao 2009-1909, não se preocupe, eu também cometo estas pequenas confusões freqüentemente; alé disso, o Calendário Gregoriano é, por natureza, impreciso.
    Feliz Ano Novo pra Você também!

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