O aquecimento não é o único problema ambiental relevante

Eu não tenho dúvidas de que o maior problema das Ciências Ambientais, hoje em dia, é que elas passaram a ser tratadas como “Religiões Ambientais“. Os dogmas imperam, as decisões (pelo menos parte delas) têm sido tomadas com base em fé e não em dados concretos. É como disse anteriormente, quem vai contra é tratado como um pecador perante um tribunal de inquisição católico.
 
O pior é que atitudes como essas acabam fomentando os questionadores da “problemática ambiental”, ou mesmo os aproveitadores dela. Essa questão de crédito de carbono, por exemplo. Ela é tão ridícula que hoje é mais fácil você receber créditos caso desmate uma área e implante uma “floresta” de eucalipto do que quando o cidadão preserva a mata nativa.
 
A discussão das causas do aquecimento global também desviam o assunto em pelo menos dois sentidos preocupantes. O primeiro, refere-se ao não combate à vulnerabilidade das populações aos efeitos das mudanças climáticas (já que o aquecimento global, atropogênico ou não, é um fato consumado). O outro é bater na tecla do aquecimento e esquecer-se por completo das questões toxicológicas das emissões industriais. Ao invés de discutir-se tais aspectos, o que observa-se é uma verdadeira guerra de “egos”, onde as duas vertentes preferem ficar discutindo quem está com a razão do que tomar medidas realmente efetivas.
 
Outras questões também podem ser colocadas, uma delas é o caso Amazônia. A mídia e os políticos desviam toda a atenção para o “pulmão do mundo” enquanto o cerrado, aí no Centro Oeste, é devastado sem dó nem piedade. A Mata Atlântica então coitada, é melhor nem comentar. E Norman Myers há algum tempo já definia esses dois ecossistemas como hotspots (áreas de conservação e preseração prioritárias). E a questão do saneamento básico? Os lixões continuam  aí pelo país. Órgãos ambientais estaduais e federais se gabam por implantarem aterros “controlados” (que nada mais são que enterros de lixo, uma vez que o tratamento de efluentes não existe nesse tipo de aterro). Tratamento de esgoto efetivo está longe de ser uma realidade na maior parte dos municípios. 
 
Enfim, ficaria escrevendo por mais um bom tempo aqui, mas vou parar. Acredito que só tratando as questões ambientais cientificamente, e não religiosamente, é que pode-se chegar a resultados práticos satisfatórios. Continuando como está, muito me preocupa o futuro da humanidade (não do planeta).
Carlos Pacheco
 

Discussão - 22 comentários

  1. Assino embaixo, menos disso:
    Estou pra ver alguém ganhar crédito de carbono por ter desmatado uma floresta e plantado eucalipto. Quem tiver acesso a qualquer processo referente a isso, por favor, me mande. Eu desconheço.

  2. Ah! Lembrei de outra coisa!
    Certa vez, discuti com uma colega de curso, o fato de “escolhermos” espécies para preservar. Por exemplo – tartaruga marinha ou peixe-boi.
    Fato é, que, chamando a atenção de um bicho “fofo” conseguimos verbas para preservar outros bichos e plantas. Outro exemplo: quem gosta de Lilo e Stitch sabe que a Terra só havia sido poupada da destruição por conta dos pernilongos.
    Enfim. Atrair a atenção para um problema NEM SEMPRE é se esquecer de outros.
    Não me entendam mal! Não estou dizendo que somos um país que prioriza preservação do que quer que seja – aliás, não priorizamos quase nada ambiental em termos de país.

  3. geofagos disse:

    Paula,
    É apenas força de expressão. Desmatar hoje, pode até ser que não gere créditos. No entanto, quem desmatou no passado e hoje planta florestas, sim, esses ganham.
    Enfim, espero que tenha entendido o sentido.
    Abraços,
    Carlos Pacheco

  4. Ítalo M. R. Guedes disse:

    Paula, acho que o Carlos apenas utilizou um recurso retórico aqui, para chamar a atenção quanto ao imediatismo e falta de seriedade do que se tem feito e discutido.

  5. Ítalo M. R. Guedes disse:

    Um professor nosso de Viçosa, o Carlos Schaefer, chama isso de “efeito panda” – é mais fácil chamar a atenção pública para a matança de “bichinhos fofinhos” ou de biomas exuberantes como a Amazônia. Enquanto isso, a caatinga e os mocós são inexoravelmente dizimados, não deram sorte de ser “bonitinhos”. O cerrado então, além de ter árvores retorcidas, ainda teve o atrevimento de estar no caminho do agronegócio.

  6. manuel disse:

    Muito boa noite,Carlos
    Só agora dei conta do seu post. Mas que desafio. Um comentário a quente,na linha,se bem recordo,do que já aqui foi dito,mas que não se perde nada lembrá-lo.
    Pois não,o aquecimento global não é o único problema ambiental relevante. Entre outros relevantes,é o humano muito relevante,talvez o mais relevante.Que vale ter um ar muito respirável,muito oxigenado,se a vida de esmagadoras camadas de humanos está irrespirável? E o mais triste é muitos nem darem conta disso.
    Que vale cuidar do aquecimento do ar,se frias são,e continuarão a ser,as vidas de tantos?
    Isto,até,parece,por vezes,ser utilizado,um tanto habilnmente,para acudir aos esfomeados,em vez de acudir ao ambiente físico.
    Bem Carlos,devo estar com sono,ou perturbado por ter acordado com algum pesadelo. Desculpe,mais uma vez,mais uma incursão,talvez descabida.
    Muita saúde e muito bom trabalho,no sentido de resolver problemas fundamentais do ambiente.

  7. Claudia Chow disse:

    Concordo, concordo, concordo.
    O Aquecimento Global já está acontecendo e se nao combatermos as causas só vamos enxugar gelo. Sim, tentar minimizar as consequencias (combatendo as causas, por favor) ajuda a minimizar outros problemas ambientais, mas assim como na educacao nao dá pra focar em apenas um ponto, o todo deve ser trabalhado.
    Qq um sabe q meio ambiente é td, mas infelizmente nao é encarado dessa forma na economia, na política…

  8. geofagos disse:

    Olá a todos,
    Concordo com vocês. Entretanto, não é o que vejo acontecer. Outros problemas ambientais têm sido deixados de lado enquanto alguns são exaustivamente discutidos. Quem trabalha com meio ambiente tem que levar em consideração o todo e não a parte. Há muito tempo venho dizendo que, para mim, a conservação e preservação no Brasil só serão possíveis à medida que efetivas medidas de combate às desigualdades sociais forem tomadas. Isso também se aplica à “violência pública” (pois segurança que não é), saúde, etc… Mas também existe a necessidade de dar-se a profissionais da área a real chance de tomar decisões, sem politicagem. Enfim, é por aí.
    Carlos Pacheco

  9. geofagos disse:

    Paula,
    Lembrei-me de uma discussão que tive com um amigo dia desses. Eu o questionava sobre o pagamento de créditos de carbono para empresas produtoras de papel e celulose. Ora, florestas não são a matéria prima para seus meios produtivos? Então não perderia-se o sentido o pagamento de créditos à elas? E indústrias recicladoras de papel, elas recebem créditos? E quem mais coopera para o ambiente como um todo, os plantadores de “florestas” de eucalipto ou as indústrias de reciclagem de papel?
    Enfim,
    A discussão vai longe.
    Abraços,
    Carlos Pacheco

  10. geofagos disse:

    Oi Manuel,
    Concordo plenamente com você. Não há desenvolvimento sustentável sem haver sustentabilidade humana. E essa, infelizmente ainda está longe de ser alcançada.
    Um forte abraço,

  11. geofagos disse:

    Exato Cláudia,
    A discussão sobre as causas é importante para que se tome medidas mais efetivas. Entretanto, havendo um consenso com relação ao aquecimento (seja ele antropogênico ou não) é necessário que tome medidas preventivas. O que não dá é pra ficarmos estagnados no tempo enquanto pesquisadores com egos infladíssimos quase se matam pra ver quem está com a razão.
    Enfim,
    Abraços,
    Carlos Pacheco

  12. manuel disse:

    Boa noite,Carlos
    De acordo com o título do seu post,era só para referir que a Comissão Europeia não está nada satisfeita com alguns dos Estados-Membros,por não terem tido em devida conta as partículas em suspensão no ar que se respira,como as PM10,que eu,
    distraído,só há pouco tempo é que dei conta delas. Enfim,ignorâncias,inteiramente desculpáveis,pois há tanta coisa que se desconhece.
    Muita saúde e muito bom trabalho,nesse vasto e sério campo do AMBIENTE.

  13. manuel disse:

    Caro Carlos
    Já deve saber,eu não sabia,ou melhor,tinha lido qualquer coisa a este respeito em Março de 2008.
    Na Web,li isto há pouco.
    “In Antarctica,Wilkins Ice Shelf to break up:a victim of warming”.
    Reuter Blogs Environment Global
    Environmental chalenges January 20th,2009.
    Desculpe,mas como uma criança que recebeu um brinquedo,não resisti a mostrá-lo.
    Um abraço.

  14. geofagos disse:

    Caro Manuel,
    É esse o sentido do post. Mostrar que enquanto se discutem exageradamente as origens do aquecimento global, esquecem-se dos outros problemas. Inclusive outros mais relacionados à poluição atmosférica.
    Enfim, a ciência exige uma visão ampla do pesquisador e parece-me que muitos estão esquecendo disso.
    Abraço.
    Carlos Pacheco

  15. geofagos disse:

    Prezado Manuel,
    Na verdade eu não havia lido esse material ainda. Foi muito bom tê-lo indicado. Vou lê-lo. Muito obrigado.
    Grande abraço,
    Carlos Pacheco

  16. Luiz Bento disse:

    Grande Carlos,
    Concordo com sua ideia. Só acho que a discussão da causa do aquecimento global não tem nenhum efeito contrário. Acho que é mais um motivo para discutirmos ciência e mostrarmos para o público leigo que nada é tão simples como parece. Isso sim é ciência e não apenas postar ou publicar todos os dias que 1 milhão de espécies vão desaparecer, colocar foto de urso polar, etc.
    Um acréscimo. Olha essa reportagem que fala sobre um estudo que trata da emissão de gases por biocombustíveis e gasolina. Ele cita exatamente o que você ressaltou no texto. A preocupação com as consequências do uso destes novos produtos. Coisa que pouca gente fala sobre…
    http://www.agencia.fapesp.br/materia/10051/divulgacao-cientifica/custos-dos-biocombustiveis.htm

  17. manuel disse:

    Caro Carlos
    O comentário do Luiz Bento me despertou. Os biocombustíveis,mais uns actores nesta peça,que não se sabe bem,se a classificar como
    dramática,cómica,ou outra designação à escolha. O etanol,o biofuel. O etanol do amido,o etanol da celulose ou das hemiceluloses. A Web vem-se fazendo eco de muita coisa escrita. É um não saber-se para onde virar. Há uns tempos que entrou em cena a switchgrass,a menina bonita,perdõem-me a expressão, do etanol celulósico.
    Da Web, respiguei três informações,que julgo interessantes:
    I – Acelerating the cellulosic ethanol industry. Biocycle January
    2009,Vol 50
    II – Biofuel:major net energy from switchgrass-based ethanol.
    Science Daily,January 14,2008
    III – Grass makes better ethanol than corn does. Scientific American,January 8,2008.
    Como sa sabe,o etanol pode vir de muita coisa,desde que essa coisa tenha amido,celulose,hemicelulose,
    ou seja,que tenha açúcares. Os químicos e os bioquímicos sabem disso,e sabem,com ácidos,enzimas,e leveduras,fazer o “milagre”.
    Mas minha nossa senhora,como,às vezes,se diz aqui.O que vai ser dos preços de alguns “staples”,sim,o que vai ser?
    Depois,a celulose. Quando se começa a ouvir que o etanol pode vir da cerradura,da polpa de papel,e demais,mas estes dois é que interessam para aqui agora,ai minha nossa senhora,outra vez,ai a “minha rica floresta”,ai as”minhas ricas Amazónias”.
    Deus nos acuda,não só por isto,mas também por isto.
    Quem diz Deus,diz o Sol,diz as outras energias limpas,que todos bem conhecemos.
    Era só isto. De resto,cheguei ao fim,fiquei sem mais nada no saco.
    Desculpe,Carlos,mas quando se fala de energias,também nos chega mais um bocadinho de uma delas,pelo menos.
    Muito boa noite,muito boa saúde,muito bom trabalho.

  18. geofagos disse:

    Fala Luiz,
    Mas eu concordo com sua opinião. A discussão realmente tem que continuar, entretanto, tem que ser feita de maneira responsável e com objetividade. Não da forma como muitas vezes vem sendo conduzida, para inflar egos. E também não em detrimento de outras questões importantes. E ainda, sem “efeito panda” (é preciso que a população também se conscientize dos outros “lados da moeda”). Enfim, eu penso assim.
    Quanto à matéria, realmente interessante. Acho que é por aí, não só visar o efeito estufa, mas também outros efeitos que podem afetar sobremaneira a saúde humana.
    Até a próxima,
    Carlos Pacheco

  19. geofagos disse:

    É isso mesmo Manuel,
    Antes da “enxurrada” de biocombustíveis deve-se haver uma outra “enxurrada” de informações e de estudos de impactos, não só ambientais, mas também sociais. Aberturas de novas fronteiras agrícolas e sobretudo o impacto na segurança alimentar têm que ser muito, mas muito bem analisados. E isso deve ser feito antes que utilização em massa dos biocombustíveis se torne realidade.
    Enfim, mais uma vez trago a minha maior preocupação em pauta, a sustentabilidade não pode ser só ambiental mas também deve ser social.
    Até a próxima Manuel.
    Carlos Pacheco

  20. manuel disse:

    Caro Carlos
    Em primeiro,se me permite,é para trocar,no meu comentário anterior,um c por um s(é serradura,de serra). Com tanto ler inglês,ou americano,já se cometem erros destes.
    E,já agora,se me permite,mais duas referências,a propósito da “cellulose as a fuel”. Parece estar na moda,pelo que já não estou a gostar disto,e doutras relacionadas.
    I-Strategy -cellulose digested for fuel:protozoans. Mixotriche protozoans digest cellulose for termite metabolism.
    II- Rare fungus discovered that converts plant cellulose to diesel fuel. The upshot is that this could convert wood waste,paper waste,corn waste and other crop wastes into usable”myco-diesel” to power engines.
    Como insinuei atrás e é demasado sabido,cá por coisas,é só ir ao Google e pôr lá “cellulose as a fuel”.
    O já não estou a gostar é evidente. Isto,por vezes,começa-se numa ponta,e,depois,é um sarilho.
    Começa-se pelos “wastes”,e,depois,escusa-se de acrescentar mais nada.
    Em relação aos “staples” do comentário anterior,pode-se chegar,se é que não se chegou já lá,ao estar a extrair deles “fuel”,em vez de os empregar no encher a barriguinha de muitos.
    Isto não é ciência,mas é vida,que deve também interessar aos cientistas,e a todos.
    Desculpe,Carlos,mas era,sobretudo,por causa do erro.
    Muito boa saúde e muito bom trabalho,em prol da ciência e de tudo o mais que à ciência diga respeito,tendo em vista o bem-estar de todos.

  21. manuel disse:

    Caro Carlos
    Veja lá a coincidência,eu a colocar,como vocês dizem,um comentário asi dirigido,e o Carlos a enviar outro. “What a coincidence”.Coisas que acontecem,sem necessidade de ir à bruxa para uma explicação.
    Obrigado,e desculpe o tempo que lhe estou a tirar,tempo do seu precioso tempo,tempo que já não volta.

  22. ROBSON disse:

    A amazônia não e o pulmão do mundo porque protus mais gás carbono na
    noite sô tenho 8 anos

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