Professor ou pesquisador?

Não é porque me encontro, finalmente, numa posição profissionalmente confortável que deixarei de comentar indignado as distorções na contratação de profissionais com pós-graduação no país, principalmente nas universidades públicas. Nos concursos para professor universitário atualmente se confere uma relevância grande ao currículo de publicações de um doutor ou mestre. Publicações são interessantes, não discordo, e podem ser uma medida razoável da capacidade do profissional em divulgar as pesquisas que fez ou faz. Mas, parafraseando o rei de França, onde está o trecho no testamento de Adão que obriga todo professor universitário a ser pesquisador? De que vale um excelente pesquisador com um espesso currículo que dê aulas execráveis? Em universidades com programas de pós-graduação sólidos e com estabelecida história de pesquisa, pode ainda valer muito, mas em universidades em que sequer há tais programas, em que o foco é a formação de profissionais com perfil mais técnico que acadêmico, não seria muito mais interessante profissionais com excelentes abilidades técnicas e didáticas mesmo que sem um currículo de tar torsicolor? O grande problema é a macaqueação, a ânsia ignorante de imitar as soluções americanas para problemas que eles têm e nós não temos. Isso mesmo. As universidades americanas de pesquisa costumam contratar (sem concurso) pesquisadores de comprovada competência. Comprovada pelas publicações relevantes em relevantes periódicos. Mas eles têm a solução, que não adotamos, para os profissionais com pós-graduação que não queiram ser pesquisadores: universidades voltadas prioritariamente ao ensino. Eça de Queirós, no século XIX, já se afligia pela insistência de seu conterrâneos em imitar desastradamente os estrangeiros, em geral de forma grotesca. Que falta faz aos fazedores de políticas (e a todos nós) ler os clássicos. Deixaríamos de ser tão estúpidos.

Discussão - 7 comentários

  1. H.perpetuo disse:

    Nobre Ítalo, sou academico de direito do 4° periodo, e aqui em brasilia, so se ouve, CONCURSO, CONCURSO e MAIS CONCURSO, sim, certamente é uma estabilidade para a vida social, mas muitos pensam em questao de dinheiro, e não pela importancia do papel de tal serviço para a sociedade, meu projeto, é ser professor, não sei se professor ganha muito, mas acredito em uma causa, e que todo professor tem que assumir um compromisso em tentar ampliar mentes, e com isso, pressupoe que ele tem que ser tambem um pesquisador, nao necessariamente fazer publicações (que tambem é sempre bom para o professor, e para aqueles que observam tais publicações), porem, acredito que essa é a verdadeira função do professor, sempre colocar seu ponto de vista, mas sempre tentando criar um sentimento critico em seus alunos, para que ambos se desenvolvam juntos.
    Como academico, observo aqui na minha instituição, que muitos professores são contratados por causa de seus curriculos e projetos, e na hora da aula, não conseguem transmitir de forma especifica tal materia, transformando a aula, em uma coisa chata, por isso penso, que para ser professor, vc tem que estar bem mais comprometido com a causa, e não apenas formular publicaçoes, com a finalidade de as pessoas, lembrarem de vc como uma pessoa inteligente.
    abraços.

  2. João Carlos disse:

    Embora eu concorde integralmente com você, me pergunto: como seria quantificada a avaliação dos méritos de um professor?

  3. manuel disse:

    Caro Ítalo
    Em primeiro lugar,encantado por ter lembrado Eça de Queirós,o genial Eça,o sempre actual Eça,da
    Campanha Alegre,e não só,e não só.
    Lendo o seu texto,recordei-me eu do
    Quem sabe faz,Quem não sabe ensina.
    Mas,como bem se sabe,há quem tenha desempenhado,e há quem desempenhe bem as duas funções,que,
    infelizmente,nem sempre estão juntas. Mas que o investigador pode dar uma grande ajuda ao professor não tenhamos dúvidas. Tive um professor, que era também investigador, que confessava ser uma aula um tormento para ele. É que tinha o pavor de estar a transmitir aos alunos coisas do passado. Claro,era este um professor especial. Tinha-se doutorado em Oxford. Pois,cerca de vinte anos depois ainda lá se via rasto dele.
    Muito obrigado por estar aqui a”falar” consigo,e desejo que tudo lhe esteja a correr pelo melhor.

  4. Michele disse:

    Concordo com você, Italo. Durante a graduação tive professores portadores de título, porém que não conseguiam estabelecer uma relação de ensino-aprendizagem com os alunos. Pior ainda, tive professores que não eram nem bons pesquisadores, nem bons professores! Sem querer desmerecer o peso do currículo, mas um bom currículo não significa que o profissional seja bom, ainda mais em tempos de “ciranda de citações”; são comuns os casos de gente que tem um enorme currículo, mas na verdade fez muito pouco do que está lá!
    Abraço!

  5. Luís Brudna disse:

    Já fui de banca de concurso.
    No concurso foi avaliada a capacidade em ´dar uma boa aula´, com a prova de didática.
    Concordo que existe um exagero em observar a quantidade de artigos publicados.
    Penso que isso existe pq os professores que já estão na equipe querem colegas também fortes em pesquisa, para serem ´companheiros´ de grupo de pesquisa e conseguir ainda mais recursos do CNPq.
    Algo que poucos falam é se alguém tem boas experiências em atividades de Extensão.

  6. Claudia Chow disse:

    Tive vários professores experts, respeitadissimos em suas áreas q nao tinham a menor condicao de dar aulas, principalmente para a graduacao. Acho q a ideia ter pesquisadores e professores juntos perfeita, mas obriga-los a fazer as 2 coisas é muito complicado, um dos lados sai perdendo.
    Qto a avaliacao de professor basta realizar uma avaliacao no fim de toda disciplina pelos proprios alunos, ai a gente descobre quem sao os mais aptos e aplicados.

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