Blogs de ciência versus Jornalismo científico, uma polarização inexistente

Sempre na mais adiantada vanguarda de qualquer assunto referente ao meio científico, a Nature de ontem publicou a reportagem Science journalism: Supplanting the old media?, escrita por Geoff Brumfiel, tecendo numerosos e relevantes comentários acerca de pesquisa que demonstrou a gradual eliminação de seções dedicadas à Ciência em meios de comunicação tradicionais. Pelo que se lê no ensaio, os blogs de Ciências, notadamente aqueles escritos por cientistas praticantes, têm cada vez mais influência na comunicação de fatos científicos, tanto para leigos quanto para jornalistas científicos. O autor e alguns entrevistados chegam a aventar a possibilidade de uma polarização, um conflito de interesses pela sobreposição de funções. Não acredito que realmente exista, ou devesse existir um tal conflito.
Meu ponto de vista é de que os blogs de ciência podem em grande parte complementar o jornalismo científico tradicional. O blog de ciência, além do viés noticioso, tem um viés principal educativo. Não se trata apenas de saber o que está sendo ou foi feito, mas de entender, ainda que incipientemente, de que modo e por que se faz determinada pesquisa, entre outras coisas. Junto a uma notícia, uma noção, e razoavelmente confiável porque obtida de alguém da área. Como bem diz John Timmer, um dos entrevistados, “A idéia [do blog de ciência] é disponibilizar às pessoas já interessadas em ciência um vislumbre maior de como a pesquisa funciona”.
Não se sugere que os blogs de ciência substituam os meios tradicionais de divulgação. No entanto, o viés educativo dos blogs, se bem e independentemente feito, pode permitir o incremento do senso crítico do próprio leitor ao lhe disponibilizar, além de uma simples notícia, um ensinamento. Achar, como afirmam alguns dos entrevistados na matéria, que um blogueiro cientista será inevitavelmente menos independente ou crítico que um jornalista é ingenuidade ou simples má fé. Aliás, o blogueiro típico em geral inicia seu blog voluntariamente, sem pagamento algum que não a esperança de que alguém o leia e comente. Não há como ser mais independente. Não há um editor a lhe observar por cima do ombro ou uma política editorial (muitas vezes influenciada pela política real) a lhe vigiar as palavras.
Os colegas de ScienceBlogs PZ Myers e Bora Zivkovic, também ouvidos, ecoam as reclamações de muitos pesquisadores ao falar das distorções de suas palavras em reportagens sobre ciência na mainstream media, geralmente utilizando um tom sensacionalista para vender que, ao invés de informar, tem sido a ênfase de muitos órgão tradicionais. O sensacionalismo irresponsável compromete a confiabilidade das informações e até mesmo a percepção pública da ciência.
O blog de ciência independente, creio eu, tem o potencial de corrigir estas distorções. Antes de ser uma ameaça, o blog de ciência é um complemento importante ao jornalismo científico tradicional, ao elevar o nível do discurso e realmente divulgar o conhecimento científico.

Discussão - 8 comentários

  1. manuel disse:

    Sim,Ítalo,aqui do meu posto de simples leitor,nada mais,estou consigo. De resto,como o Ítalo bem sabe,não é só o sonho que comanda a vida,como diz o poeta,mas,sobretudo,
    entre outos nortes,os interesses,legítimos ou ilegítimos. E quanto aos blogueiros parece serem interesses pesoais o que,fundamentalmente, os move.
    Muito boa saúde e muito bom trabalho

  2. maria disse:

    concordo com você, a polarização não deveria existir. mas o assustador desse texto da nature é afirmar que a crise está deixando os jornalistas de ciência desempregados, que os jornais estão fechando suas editorias de ciência – que estão entre as acessórias. como isso se resolve?

  3. Thiago disse:

    Acredito que a discussão, da maneira que foi colocada, tem qualquer coisa de errada…
    Colocar blogs de ciência e jornalismo científico como equivalentes me é estranho. Quer dizer, jornalismo científico é, grosso modo, a atividade jornalistica que cobre acontecimentos relacionados à ciência. Blogs de ciência por outro lado são uma ferramenta que, tanto podem ser de divulgação científica quanto de jornalismo científico.
    São coisas bem diferentes. Ou não? Podemos discutir se os blogs de jornalismo científico vão afetar o jornalismo científico feito nas mídias tradicionais. Da mesma forma, podemos nos perguntar se os blogs de divulgação científica vão afetar a divulgação científica feita em mídias tradicionais…
    Agora, generalizar “blogs de ciência” para blogs de divulgação E/OU de jornalismo científico é um bocado exagerado. É o mesmo que dizer que revistas de divulgação científica, como a Scientific American, possuem o mesmo status que a coluna de ciência de um jornal qualquer.
    Enfim, estou só sendo chato com estas definições… Mas acho mesmo que são importantes, até para que no caso de uma discussão, todos os envolvidos saibam exatamente do que estão falando.
    Do contrário corre-se o risco de cair no problema da incomensurabilidade khuniana e não se chegar a lugar algum…

  4. manuel disse:

    A um mero observador como eu,a questão que o Ítalo pôs é,aparentemente,muito simples. Divulgar ciência pressupõe,antes de mais nada,que se seja do meio,que se saiba , ou se julgue saber ,o que se está dizendo-escrevendo.
    Depois,pode-se fazê-lo,ou por gosto,para ocupar tempo,ou como um profissional. Em qualquer dos casos,é fundamental que se seja isento,que não se esteja lá com ideias preconcebidas,que o móbil seja informar,e não, intencionalmente ,formar,como,na aparência,tem acontecido nos casos polémicos do aquecimento global e dos transgénicos.

  5. Manuel,
    Discordo desse ideal de blog científico isento. Você conhece algum blog (bom) de ciência que é isento?
    A janela de comentários dos blogs serve justamente para fazer a critica do blogueiro caso ele extrapole nos seus preconceitos e parcialidades. Mas preconceitos são o a priori Bayesiano de todo cientista, fruto inconsciente de seu treinamento e conhecimento tácito acumulado.
    Cientistas, assim como juizes, não são isentos: usam seu julgamento e bom senso (qualidades subjetivas) , em vez de usar algum algoritmo de produção de conhecimento falsamente (ideologicamente?) chamado de método científico.
    O importante é que a blogosfera científica como um todo, na sua conversação e contraposição de visões, seja mais imparcial, objetiva e isenta. Não os blogs individuais, que em geral são colunas opinativas de seus blogueiros.
    Mas concordo que existe diferença entre blog “subjetivo” de cientista (opinativo) e blog noticioso “objetivo” de ciencia (por exemplo aquele que ganhou o ultimo Best Blogs Brazil…

  6. manuel disse:

    Osame Kinouchi,
    Agradeço o seu comentário. À sua pergunta,respondo que não conheço,mas gostaria de conhecer,como,suponho,que gostaria também. Era sinal de que alguma coisa tinha mudado,para melhor. Fiquemo-nos,assim,há falta desse ideal,no seu ” seja
    mais imparcial,objectiva e isenta”.

  7. Até pode, nada impede. Mas, precisa de energia para ter Internet ligada para escrever a matéria. Se a natureza não tiver ok, a bateria acabar, como fica a ciência?

    Se tudo o que temos de arqueologia e museologia fosse escrito tudo pela “Internet”, se naqueles tempos antigos existisse Internet, hoje não teríamos nenhum dado confiável, pois tudo poderia ser deletado num simples pane ou falta de energia.

    Diferente de registros sólidos em papel, pedras, etc… Mesmo com chuvas, desastres naturais, a arqueologia resiste.

    O registro material das informações é que o faz a HISTóRIA e não é diferente da Ciência.

    O que faz um homem ser civilizado? O conhecimento da escrita. Qual a diferença da História e Pre-história? É que na Pré-história não existe a escrita como documento, apenas símbolos, ícones.

    Já a História começa com a invenção da escrita.

    Sem a escrita reservada, preservada, não existe História.

    Muito menos uma História de Ciência. Isso é sério. A Internet e mídias digitais são úteis são, podem ser instrumentos muito eficientes na divulgação da ciência, mas o material escrito em papel, PRECISA SER PRESERVADO. São informações, estudos de milhares de anos de pesquisa que chegaram até nós.

  8. Homens, criem fórum de ciências no Yahoo Grupos. É melhor do que no Yahoo Perguntas e respostas. É mais fechado e qualquer coisa o moderador bloqueia os intrusos.

    Sissi Twingle

    Simone L. F. Guimarães
    (Morro lutando!) Morro lutando pelo meu jornalismo científico. Nem que tenha que participar da revista de proteção das hienas loiras… GRRRR

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