O Homem e o Planeta: a real dimensão de nossa grandeza, ou pequenitude!

Existe um provérbio onde se diz que não há soluções fáceis para problemas difíceis. Corroborando o velho provérbio, encontramos obstáculos praticamente intransponíveis para a equalização das questões ambientais, sociais e econômicas da civilização. Primeiro porque, como já afirmei aqui no Geófagos, crescimento econômico não se harmoniza com sustentabilidade ambiental, são coisas diametralmente opostas, uma só vai em detrimento da outra. Além disso, o maior dos problemas encontra-se no próprio homem, pois há princípios humanos que são imutáveis, daí o grande sucesso universal das Tragédias Gregas.
Responda rápido: qual é a espécie que melhor representa o Planeta Terra?
Se as respostas a esta pergunta fossem registradas, eu me arrisco a dizer que por maioria esmagadora de votos a vencedora seria a espécie humana. Digo mais, dificilmente alguém questionaria a pergunta, argumentando que ela foi mal formulada, porque uma só espécie não é suficiente para representar a Terra, ou a Biosfera.
Sabem o que é isso? Desculpem a franqueza, mas chama-se Megalomania, Arrogância, Pretensão, Egocentrismo e Estupidez. A razão disso, Darwin explica muito mais que Freud. Faz parte da natureza humana achar-se como tal, isso foi importante em um passado muito remoto.
Agora nós estamos na onda de “destruir” e “salvar” o planeta. É mais um enredo de epopéia maniqueísta megalomaníaca que nos propomos. Vez em quando a humanidade, desde que ela assim se compreende, é assaltada por um delírio coletivo desta natureza, respaldado por quase nada de ciência e tudo de sensacionalismo, quando não misticismo e outros sentimentos ungidos na fonte alucinógena da espiritualidade. E lá vamos nós outra vez, nestes tempos de aquecimento global.
O modelo de agricultura que se pratica hoje, as agressões aos solos, à cobertura vegetal, aos rios, lagos e oceanos são maiores e mais comprometedores do futuro do que “as emissões de gases” simplesmente. Estes estragos remontam ao Holoceno, desde que o homem deixou de ser uma espécie com um número limitado de indivíduos, relativamente integrada ao ecossistema, e tornou-se uma espécie cosmopolita, inventora de tecnologias. Foi bom para a espécie e muito ruim para a superfície do planeta. A atmosfera entrou nessa dança há pouco mais de um século, ou dois. Mas uma chaminé de usina soltando fumaça a todo vapor e um engarrafamento de automóveis, caminhões e ônibus produzem um enorme efeito na fotografia, e na tela.
O homem certamente é responsável por uma parcela no atual aumento da temperatura global. E o vilão dessa história não é só as emissões diretas e indiretas de gases, como querem muitos. Um bom exemplo são as mudanças no albedo (relação entre a luz recebida e refletida) da superfície terrestre, causadas pelas atividades humanas, que certamente têm alguma relação com o aumento da temperatura global. Mas, ao que tudo indica, ninguém quer saber deste assunto, muito menos do fato de que a Terra á capaz de aquecer-se e resfriar-se sozinha. A “razão do evento” tem de estar no fato de que “somos nós os protagonistas”!(?).
De qualquer forma, o homem faz parte desta equação, mas estamos superestimando “nossa variável” porque somos uns megalomaníacos incorrigíveis (sem contar o apoio dos espertalhões). Temos certeza de que somos o supra-sumo da criação(?), temos Deus(?) a nosso favor(?), somos capazes de salvar o planeta(?) ou acabar com ele de vez(?). Somos capazes de mudar o clima global com a nossa presença(?). Somos capazes de empurrar, chutar o planeta para uma era de aquecimento(?), que será seguida de uma glaciação(?). Quanta pretensão a nossa! Na verdade, somos o nosso maior problema. Nós não oferecemos nenhuma ameaça grave à existência deste Planeta. Somos ameaça grave, gravíssima, sim, à nossa própria existência. E quando se diz “salvar o planeta”, entenda-se “salvar a nós mesmos” com a maior dose de egocentrismo possível, pois nós nos consideramos como o próprio planeta. Comparando com a idade geológica da Terra e da grande maioria das espécies, ou a classe dos mamíferos, nossa espécie chegou aqui há pouquíssimo tempo, no último minuto, e queremos ser “os donos da bola” e estabelecer as regras do jogo.
E isso vai continuar assim, pelo menos enquanto a Terra não “se aborrecer” com a nossa presença e não nos transformar em fósseis de dentes arreganhados feito os Dinossauros. Vejam que para isso basta UM ÚNICO “sacolejo”. E nós crentes que a ameaçamos – provocação é diferente de ameaça – Ela, sim, ao mesmo tempo que nos oferece as condições básicas de sobrevivência, nos oferece também diversas possibilidades, potencialíssimas, de acabar com a nossa raça.
Se fôssemos mais humildes, mais racionais e menos fantasiosos, talvez pudéssemos divisar a verdadeira dimensão de nossa pequenitude, respeitar, de verdade, os ciclos da Natureza, viver melhor e, quem sabe, ser “grandes” de verdade, e até arriscar uma proposta menos sombria em relação ao nosso futuro.

Discussão - 14 comentários

  1. Claudia Chow disse:

    Vamos ver por tamanho? Dá uma olhada nessas imagens ( http://scienceblogs.com.br/ecodesenvolvimento/2007/11/uma-questao-de-escala.php ), veja a significancia do homem pro universo… Somos poeira cosmica, qdo as pessoas vao se dar conta?

  2. Felipe Lucio disse:

    Ótimo artigo!
    Sintetizou muito bem o que sempre digo pro pessoal do grupo “vamos salvar o mundo das cáries”…

  3. manuel disse:

    Caro Elton
    Nem de propósito,este outro texto,porque quase em simultâneo com o seu,que aqui deixo à sua consideração. Depois de ler novamente o seu,conto dizer alguma coisa a ele atinente.Para já,é mesmo só essa meia dúzia de linhas à frente.
    Quinta-feira, 7 de Maio de 2009
    PALAVRAS
    A pouco e pouco,uma percepção,cada vez mais certeza,se foi apoderando dele. Sentia-se cada vez mais ele,só ele,como um ilhéu,rodeado inteiramente por estranhos. Mais ainda, essa percepção não se confinava a ele apenas,estendia-se a todos,vendo-os a todos também como uns ilhéus.
    Era uma percepção que se traduzia na realidade do EU e do TU,bem diferenciados,sendo uma pura ilusão a alma gémea,ou complementar. O EU limitava-se a usar o outro,qualquer que ele fosse,para satisfação pessoal,e mais nada. Sentia-se melhor com o outro,simplesmente.
    Só convenções levavam a suportar desentendimentos inultrapassáveis,geradores de mal estar, que o Eu recusava,e o TU também. Dalgum modo,tanto o EU ,como o TU,usavam e deitavam fora,por já se estar a ferir a realidade de cada um,a suprema realidade.
    Amor,amizade,não passavam,pois,de palavras. Eram sentimentos ilusórios,possíveis só com anjos,e anjos não eram o EU e o Tu,sujeitos a uma vida de luta,do salve-se quem puder,fazendo recurso a sabia-se lá que armas. Pobres dos fracos,que,para sobreviverem,têm,muitas vezes,de se submeterem,mostrando-se bonzinhos,em tentativa de amansar os fortes,de escaparem.
    Publicada por msg em 6:40
    E quase pronto,Elton. Da primeira leitura,sôfrega,do seu,estou como o Ítalo. Excepcional texto.
    Um abraço.

  4. Elton Valente disse:

    Prezada Cláudia e Prezados Senhores,
    Meus sinceros e fraternos agradecimentos a todos!
    Cláudia,
    Gostei muito das imagens!
    Manuel,
    Que belo texto o seu! Mais uma vez você nos brinda com sua sensibilidade e sabedoria!
    Parabéns!

  5. manuel disse:

    Caro Elton
    Cá estou eu,mais uma vez. Reli o seu longo,rico texto,e fui apontando o que me pareceu de mais importante. São só duas dúzias de pontos,e que pontos! Cada um dava para um tratado,se fosse um tratadista a fazê-lo.
    Mas fiquemos só com uns poucos.
    “Princípios humansos que são imutáveis”. Pois é com estes princípios,por não haver outros,que se tem,ou se tinha,de dar soluções a” problemas difíceis”,a ultrapassar “obstáculos praticamente intransponíveis”,a “corrigir questões ambientais,sociais(sobretudo estes,acham muitos,acha o Elton),económicos”.~
    “A espécie que melhor representa”. Boa pergunta. Melhor em quê? Se todas,mas todas,levam a mesma bandeira – VIDA. A maioria diria o mesmo,ou não fossem “imutáveis os princípios”. Tinha de ser essa a resposta,a humana,pois claro,tanto mais que as outras ficariam caladas. Caso pudessem falar,seria o bom e o bonito. Somos nós diriam uns,somos nós diriam outros,um outro sarilho mais.
    “Quase nada de ciência e tudo de sensacionalismo…misticismo”. Sim,o fim do mundo,os protagonismos,os interesses,mas temos de convir
    que há muito de ciência,aqui,ali,um pouco por toda a parte,parecendo-me com os EUA à cabeça.
    O “modelo da agricultura”. Pois é,o mal foi o homem sair lá das cavernas,descer lá das árvores altas,algumas espinhosas,e começar a desmatar,a derrubar a floresta,a revolver a terra. Outro sarilho.
    “A Terra é capaz de aquecer…”. Será,ao fim e ao cabo,como as suas muitas irmãs(?),sem ninguém lhes ter ensinado. Agora,não um sarilho,mas um prodígio dos grandes,graças aos Sóis”,e não só(o que para aí vai por esses espaços,e mais espaços a haver,ou já havidos).
    “Os espertalhões”. Gostei. Sabem-na toda.
    “Deus a favor”. Gostei. Gostava de ter lá estado para ouvi-lO. Uma coisa desejo eu em relação a DEUS. Quando ELE disser de SUA justiça que o dida para todos,sem faltsr um,por mais escondido que esteja.
    “Somos o nosso maio problema”. 20 valores,Elton,se mais fosse preciso dava-os de muito boa vontade. “Somos o nosso maior problema”,quer sejamos ,ou não os reis da Natureza.
    A Verdade,Elton,a Verdade. É aqui que está tudo. A Verdade.Para lá chegarmos,não será com grandezas,mas sim com humildade. Estamos cá,grandes,pequenos,pequeníssimos,sabe-se lá porquê,para quê. Estamos cá,e uma coisa é certa,nenhum,qualquer que sejao tamanho,está cá porque quis,porque foi consultado. E o aparentememte injusto,face á natureza do homem,e da mulher,são as diferenças de tudo,e demais alguma coisa. Arrepiante.
    Bem,Elton,é tempo de acabar. Desculpe os erros que aí ficam,mas a culpa foi do seu texto,um texto visceral.
    Eu sou um nabo em muita coisa,e da net,uma desgraça. Estou a ler os erros,e não lhes posso tocar,porque acabava por ter de escrever tudo outra vez.

  6. Elton Valente disse:

    Prezado Manuel,
    Muito me honra e enriquece dialogar com você.
    Há sempre uma “nova leitura” a ser descoberta, em qualquer texto (dos mais humildes, como os nossos, aos Machadianos ou Shakespearianos), e você é um mestre em encontrá-las, posso dizer isso depois das excelentes e proveitosas “cartas” que você troca conosco via Geófagos.
    Muito obrigado!
    Muito obrigado também pelo “visceral”, que você usou para qualificar meu texto. Fiquei muito lisonjeado.

  7. Chloe disse:

    gostei bastante do seu texto.
    e fiquei curiosa pra saber, na sua opinião, qual é a espécie que melhor representa o Planeta Terra?
    ; )
    C.

  8. Elton Valente disse:

    Prezada Chloe,
    Inicialmente, sou muito grato por sua atenção ao Geófagos e ao meu texto.
    Quanto à espécie, é como eu disse no texto, “uma só espécie não é suficiente para representar a Terra, ou a Biosfera”.
    Acho que o “enredo” da vida é que representa bem o Planeta Terra, é o seu diferencial. Portanto, para representá-lo, necessitamos de todas as espécies, pois todas são importantes, incluindo-se aí a “biografia” das já extintas.
    Admito, talvez, um certo exagero nesta postura, mas, sinceramente é o que sinto.

  9. Olá Elton,
    Ótimo post, assunto muito pertinente e bem colocado. Nessa linha de pensamento, eu recomendo fortemente assistir este vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=X_Di4Hh7rK0) de George Carlin, comediante stand-up americano (que faleceu ano passado), cai como uma luva no seu texto (na minha modesta opinião). Eu acho muito divertida a maneira como ele encara esse mesmo problema da Megalomania humana. É um “tapa na cara” de muitos desses Arrogantes que acham que tudo gira em torno da espécie humana. A maioria esmagadora dos seres humanos não faz idéia de quão pequenos nós somos em relação ao todo onde vivemos.
    Um abraço e parabéns pelo post (e pelo blog).

  10. Caro Elton, parabéns pelo seu texto. Gostaria de comentar com você sobre sustentabilidade. Você disse acreditar que não há como compatibilizar crescimento econômico e sustentabilidade ambiental. Vejo de uma maneira totalmente diferente: não há como separar o ambiental do econômico e do social! Sustentabilidade é um conceito muito mais amplo: algo só é sustentável se o for ambientalmente, socialmente e economicamente. Não existe sustentabilidade ambiental, só sustentabilidade. O que vai mal no momento é o excesso de consumo, mas é preciso conciliar produção (de alimentos e de tudo o mais), consumo consciente e preservação dos recursos naturais. E creio piamente que é possível. Também não nos vejo separados da Terra, muito pelo contrário, também somos a Terra. E se cuidamos mal dela é porque ainda cuidamos mal de nós próprios. Não é megalomania, mas somos a única espécie consciente dos própios atos. A única que não age puramente por instinto. Um sopro mais forte do vento pode nos expulsar, mas sermos pequenos não nos isenta nem condena. Gostei do tema! Que a gente possa “conversar” mais vezes sobre isso.

  11. Fernanda Wink disse:

    Amo muito o nosso Planeta e colaboro para a preservação do meio ambiente.

  12. MaRosário disse:

    “Se fôssemos mais humildes, mais racionais e menos fantasiosos, talvez pudéssemos divisar a verdadeira dimensão de nossa pequenitude, respeitar, de verdade, os ciclos da Natureza, viver melhor e, quem sabe, ser “grandes” de verdade, e até arriscar uma proposta menos sombria em relação ao nosso futuro” [Elton Valente]
    Fechou com chave de ouro… Obrigada pelo “Presente Literário de uma boa Consciência Sócio-Ambienal”, meus parabéns aos adultos que lhe influenciou e lhe educou… Eu concordo plenamente que é muita pretensão de alguns seres humanos, acharem que a vida e a morte do Planeta Terra está nas mãos dos seres humanos… O Planeta já superou “males” bem piores que seres humanos, seus lixos e CIA Ilimitada… Ou nos “educamos”, ou também seremos “Expulsos do Paraíso”
    Saudações Cordiais.

  13. Paulo Luiz Mendonça. disse:

    Humanos X planeta terra.
    Dizem ás religiões que Deus criou o homem para habitar a terra. Penso o seguinte, se Deus existir realmente ele não criaria algo tão pernicioso para destruir a sua obra prima que é este planeta.
    Porque penso assim, é só observarmos as belezas naturais, como a flora e a fauna vejam quanta beleza e equilíbrio existe em todo o sistema. Rios caudalosos, florestas exuberantes, montanhas de raras belezas, veja os animais vivendo no mais perfeito equilíbrio.
    Pergunto, por que Deus criaria o homem em um lugar tão equilibrado e cheio de paz, não há nenhum sentido prático nisso, acho que nós humanos somos intrusos neste paraíso, estamos aqui para deturpar a estabilidade deste reino maravilhoso.
    Veja, estamos destruindo florestas, poluindo rios, mares e oceanos, estamos desequilibrando a vida animal, estamos destruindo a camada de ozônio que protege o planeta dos raios ultra violeta.
    Vocês acreditam que alguém criaria um planeta com tanta beleza, e posteriormente colocaria neste paraíso um destruidor sem escrúpulos como nós! Com toda certeza, fomos criados pela evolução natural ou somos intrusos, vindo de outro planeta perdido nos confins do universo.
    Paulo Luiz Mendonça.

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