Ciência e Subjetividade!

Nobres colegas!
Estou com a versão definitiva de minha tese pronta para a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UFV, ou seja, com isso vou cumprir com o último dos “doze trabalhos” desta fase da vida, que escolhi e que me trouxe muita satisfação pessoal.
Aproveito para dizer, em tom de nostalgia e saudade, esse “charme brasileiro de alguém sozinho a cismar”, que tenho uma enorme dívida de gratidão com a Serra do Cipó. Dívida esta que eu mesmo me atribuí, pois a Serra, metaforicamente falando, não me cobrou nada, nem a admiração por aquela beleza surpreendente. Peço licença para saldar um pouco dessa dívida aqui. É certo que precisamos separar o que é ciência, necessária e objetiva, do que é subjetivo, adverbial, e lúdico. Mas, por favor, estas coisas não precisam ser díspares, adversas, opostas. Elas podem, e devem, conviver de forma independente e sadia, mas dando-se à virtude, numa atitude ética e oportuna, do auxílio mútuo, enquanto fatores da evolução humana.
Digo isso porque estas duas atitudes se aproximaram de forma bastante imperativa durante o meu trabalho na Serra do Cipó. Quando conheci a Serra, no curso do meu doutorado, inevitavelmente o primeiro modelo que se construiu sob minha percepção foi subjetivo. Depois, numa tentativa de desvendar a matemática por trás daquela beleza toda, vieram as análises, correlações e conclusões objetivas, científicas, necessárias. A ciência é necessária!
E assim, depois da tese pronta, das conclusões revistas, pensei: é insatisfatório, além de injusto, que se desenvolva uma pesquisa científica em um lugar como a Serra do Cipó e tal trabalho, embora necessariamente objetivo, não revele de alguma forma, em algum canto ou parágrafo, que o seu autor não foi apenas um pesquisador-observador frio, mecanicista, que não enxergou ali nada mais do que fatores ambientais e a convergência de variáveis pedobioclimáticas. A Serra do Cipó não merece isso, assim como muitas outras riquezas naturais desse Brasilão imenso, e do mundo.
Daí, senhores, eu me senti na obrigação moral e ética de manifestar o meu entendimento pessoal, subjetivo, adverbial, em relação à Serra. Em uma página da tese, anterior aos agradecimentos (pois não realizei o trabalho sozinho), eu registrei essa percepção. Dei-lhe o título de A Serra do Rio Cipó. Peço licença, de novo, para disponibilizá-la aqui no Geófagos:
A Serra do Rio Cipó, na Cordilheira do Espinhaço, em Minas Gerais, é um ambiente extremamente peculiar. Há ali uma convergência de fatores ambientais, geológicos, geomorfológicos, pedológicos, fitofisionômicos e climáticos, que moldam um sistema admirável. É um ambiente pobre em recursos químicos, no que tange aos solos e às rochas que lhes dão origem. No entanto, é um sistema que compõe uma paisagem espantosamente bela, apresentando geoambientes diversos, que se sucedem em curtos espaços ao longo da Serra, formando gradientes de campos graminosos, matas de candeia e capões florestais.
Quando se analisa aquela composição ambiental com o olhar objetivo e necessário da ciência, esbarra-se com um contraste, que se manifesta em um aparente paradoxo. O sistema é pobre, paupérrimo, em recursos químicos do ponto de vista nutricional, no que reza a cartilha da fertilidade do solo com seu viés agronômico, embasado na filosofia mecanicista. Mas ali estão irrecusáveis, diante dos olhos, os capões de mata, as vochysias, candeias, byrsonimas, velózias, paepalanthus, richiteragos, lavoisieras, marcétias, microlícias e muitos outros gêneros de plantas que se desenvolvem impávidas. Quando florescem, elas apresentam seus indescritíveis canteiros naturais, colorindo a Serra com variadas tintas.
A quem se dá o prazer (ou não) de enxergar esse fato, a natureza é imperativa, mostrando de forma inquestionável que a pobreza é um conceito relativo, restando-nos, da surpresa, o deslumbramento, pois é impossível ser indiferente diante daquela paisagem.

Discussão - 3 comentários

  1. manuel disse:

    Caro Elton,
    Estou aqui muito atrapalhado,pois não sei por onde começar.O seu texto colocou-me nas nuvens,talvez no propósito de ir por aí fora,rapidamente,a caminho da Serra do Cipó,um outro Eldorado.
    Seria coisa em vão,já que o Elton ma mostrou tal qual é,uma muito bela Serra,de uma beleza que a pobreza do solo aparentemente não prometia. Quanto enganam,pois,as aparências. Essa Serra é uma lição viva,sempre activa. Só esperará que a apendam quem a visite.
    Posto isto,as minhas felicitações por ter chegado ao último patamar “desta fase” da sua vida. Mas as “fases” de uma vida náo se esgotam,que a vida,as vidas,não quererão.
    Para terminar,notar que o Elton referiu duas vezes sozinho. “Esse alguém sozinho a cismar” é equívoco. Não há
    “Crusoés puros”. Embora sós,estamos sempre acompanhados,das recordações de muita coisa.”Não realizei o trabalho sozinho”. Pois não. Só o que o Elton tem lido! As companhias que aí estão,bem vivas,e proveitosas.
    Ah,tinha-me esquecido do “conceito relativo”,quanto à pobreza. E a beleza também,tudo,afinal,relativo,ainda que haja alguém que não goste,que não queira.
    Um abraço,Elton,e obrigado por me dar a ver tanta beleza,não pobre,mas muito rica.

  2. Karl disse:

    Elton, vou te dar os parabéns pela tese só depois que passar pela banca, porque meu “parabéns” é muito raro e eu não o inflaciono por aí.
    Por outro lado, parabéns pelo texto. Não entendi 48,3% dos termos, mas esse é um daqueles textos supradisciplinares que transcendem a cultura de cada profissional. Para você ter uma idéia, é assim que me sinto quando vejo um paciente. O conceito de pobreza é, ele mesmo, pobre. Obrigado.

  3. Elton Valente disse:

    Manuel,
    Mais uma vez, obrigado por sua gentileza!
    Karl,
    A tese já passou pela banca (um alívio). A entrega na PPG é a última etapa, é a versão definitiva da tese, aprovada e corrigida para publicação. Espero que ela sirva para alguma coisa, além de ocupar espaço nas estantes da UFV.
    Assim sendo, sou-lhe muitíssimo grato pelos “duplos” parabéns, raros, pela tese e pelo texto.

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