Esse Brasilão Imenso

Cumpri mais uma etapa de minha “Peregrinação” pelo Brasil. Desta vez me bandeei para o lado da Caatinga. É outro mundo. Muito bem descrito por Euclides da Cunha em Os Sertões.
Fui de ônibus, junto ao nosso povo, em um Gontijo “Sertanejo” (N.° 15305), linha de Belo Horizonte – MG a Fortaleza no Ceará. É chão que não acaba mais. Os passageiros, como sempre, são gente humilde e lutadora. Um jovem casal, com três crianças, saiu de Governador Valadares para tentar a vida em Canindé, no Ceará. Um senhor, Seu Francisco, partiu de Belo Horizonte, ia visitar sua mãe em Icó, também no Ceará, a cidade de João Grilo e Chicó, imortalizada pelas mãos e pela cabeça privilegiada de Ariano Suassuna em O Auto da Compadecida.
Durante a viagem, os ambientes foram se sucedendo, das pastagens degradadas do Médio Rio Doce, em Minas Gerais, a uma maior diversidade de uso dos solos na Bahia. A partir de Itaobim, ainda em Minas Gerais, a BR-116 segue cortando uma área de transição entre a Mata Atlântica e a Caatinga. As terras são utilizadas com pastagens, culturas de eucalipto, café, mandioca, e hortaliças nos arredores das cidades (lembrei-me do assunto tratado por nossa colega Flávia, aqui no Geófagos). E assim, à medida que se avança para a Bahia, vai-se lentamente adentrando a Caatinga, na Bahia central, onde se encontram plantações de palma forrageira e muitos leitos secos de rios.
Observei extensas áreas de Murundus (morrotes com mais ou menos um metro a um metro e meio de altura em relação ao nível do terreno). Sua gênese é um objeto de discussão muito interessante, merece um post no Geófagos.
À medida que adentrávamos a Caatinga, fui recordando minha graduação, quando ainda haviam umas disciplinas intituladas Estudos dos Problemas Brasileiros, as tais EPBs. Lembro-me de que se falavam de uns “Projetos de Combate à Seca no Nordeste”, da antiga SUDENE. Na época eu ainda não tinha a maturidade necessária para observar e criticar tal equívoco. Qualquer iniciativa que objetive “o combate à seca” no Nordeste já nasce equivocada. Ninguém combate a seca e sai vitorioso, é uma luta nos moldes de Dom Quixote de La Mancha com seus Moinhos de Vento. Parece que enxergaram o equívoco e mudaram o nome da coisa para “Programa de Convivência Com a Seca”. Aí sim, menos mal! Dá para fazer uma ou outra proposta!
Abrindo um parênteses, em relação aos norte-americanos, o meu antiamericanismo refere-se à sua política externa e ao seu modus vivendi. Mas devemos reconhecer que eles são pragmáticos. Cito como exemplo Las Vegas, onde corre “um rio de dinheiro” em pleno deserto. Foi uma excelente idéia, diga-se. Adequaram uma atividade rentável a uma região desértica, imprópria para a maioria das atividades econômicas.
Não estou propondo, necessariamente, uma Las Vegas para a Caatinga, com uma Boulevard Caatingueira. Até porque as condições climáticas da Caatinga ainda permitem uma série de atividades econômicas, inclusive agropecuárias e alguns usos do solo. O Nordeste não é um deserto. Mesmo assim, todas as atividades que incentivem o turismo são bem vindas.
Além disso, há outras questões fundamentais. Lembro-me de uma excelente crônica do saudoso jornalista Henfil, irmão do Betinho (Herbert de Souza). A crônica tem o título de “Golô”. Nome dado a um retirante nordestino que “morava” em uma praça de Belo Horizonte. Na crônica, em defesa de Golô e seus irmãos, Henfil pede que não mandem donativos para o Nordeste. Mandem, sim, caminhões de advogados. Pois os maiores problemas do Nordeste não serão resolvidos com donativos ou água, mas sim com advogados, toneladas de advogados.
PS. Quem tiver interesse na crônica, pode me pedir por e-mail:
(elton_valente@yahoo.com.br).
PS.2 [Errata] A cidade de João Grilo e Chicó é Taperoá, na Paraíba, e não Icó, no Ceará, como afirmei equivocadamente no texto. Esta correção é creditada a um paraibano legítimo, Ítalo Rocha, pessoa muitíssimo cara ao Geófagos. Portanto, peço humildes desculpas à Comunidade Geofágica, ao Ítalo, aos paraibanos e à Ariano Suassuna pelo meu equívoco.
Muita saúde a todos!
Elton.

Discussão - 8 comentários

  1. manuel disse:

    Caro Elton
    Foi um prazer lê-lo,como sempre,aliás,foi um prazer. Quase que dispensa lá ir,tais as sugestões,ainda para mais condimentadas de literatura.
    Mas que ideia,ainda que muito pragmática,a de Las Vegas. Pragmatismo à parte,de certo ponto de vista,de bota de elástico,claro,seria a última coisa a fazer,por tudo e mais alguma coisa,tanto mais que por esse “pobre-rico” mundo não faltam “outros Las Vegas”.
    Fiquei com curiosidade pelos Murundus,uma inteira novidade para mim,e voltei a ficar triste por causa do Nordeste. Pode ser que as alterações climáticas de que se fala,e se sente,ou se lê,tragam boas perspectivas para lá,que já devem estar fartos de tanta seca.
    Um abraço,salientando,mais uma vez,o prazer da leitura do seu texto.

  2. Lucia Malla disse:

    Elton, seu post é emocionante. Mas neste em particular, desculpa a sinceridade, o q mais me emocionou foram as lembranças q vc me trouxe da UFV… das EPBs! O Centro de Vivências lotado. Fotografias na cabeça de um tempo maravilhoso.
    Aliás, vcs geófagos sempre me pegam por esse viés da saudade… 🙂
    Parabéns. E que venham mais relatos da caatinga.

  3. Caríssimo Elton,
    Belíssimo texto! Sei bem do que você fala porque fiz este mesmo trajeto, talvez no mesmo ônibus, muitíssimas vezes e sob quantas impressões. Acho que cabe bem mais uns textos relatando o que você viu. Olhe, para ser chato, só tenho uma correção a fazer: a cidade de João Grilo e Chicó é Taperoá, no Cariri Paraibano, cidade natal da família natal de Ariano Suassuna, os Vilar e próxima da mística e bela cidade caririzeira de Monteiro, terra natal e refúgio de uns tais Rocha Guedes.
    Grande abraço,
    Ítalo.

  4. Elton Valente disse:

    Prezado Manuel,
    Agradeço muitíssimo suas observações, que trago em grande conta. Aliás, tenho batizado minhas andanças de “peregrinações” porque você assim o fez e eu gostei muito.
    Quanto aos murundus, acho que tenho alguma coisa sobre eles no formato digital. Também tenho um colega que trabalhou com isso na sua pós-graduação.
    Mande o seu e-mail para mim que eu lhe envio as informações que tenho.
    Um abraço e muita saúde!

  5. Elton Valente disse:

    Prezada Lúcia,
    Inicialmente, agradeço a sua presença aqui no geófagos, isto nos deixa muito honrados.
    Também tenho muita saudade daqueles dias de UFV. Às vezes tenho saudade até do Bandejão.
    Muito obrigado pelos elogios.
    Muito sucesso e muita saúde pra você!

  6. Elton Valente disse:

    Ítalo Rocha,
    Peço desculpas aos Geófagos pela falha sobre Icó. Culpa de minha ignorância. Acho que isso ficou em minha cabeça por causa de uma música do Raimundo Fagner, tem um trecho assim: “… o Chicó tá no Icó…”, deve ser por isso.
    Falando em música (agora eu sei!), Taperoá também é a terra de Vital Farias, autor de belíssimas canções, que você conhece muito bem.
    Um abraço e obrigado pelos elogios e pelas correções!

  7. locatelli disse:

    Meu amigo, bom ter notícias suas, mesmo que indiretamente.
    Como sempre bem passeando entre lugares e palavras. Parabéns. Abraço

  8. Elton Valente disse:

    Locatelli,
    Obrigado pela atenção.
    Estou, provisoriamente, de volta a Viçosa. Meus “passeios” são uma tentativa de sair do limbo. Às vezes frustrantes, quase sempre decepcionantes. Tem muita carta marcada nesse jogo e isso é terrível sob vários aspectos, o problema é que geralmente só ficamos sabendo quando vamos lá lutar contra os hipócritas. A gente tem de fazer uma força danada e pagar caro para ser livre das amarras e armadilhas do sistema. Mas tenho tentado extrair coisas boas dessas andanças. Pelo menos algum assunto, mesmo que geral, para o Geófagos.
    Um abraço fraterno!

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