{"id":374,"date":"2009-04-28T13:45:10","date_gmt":"2009-04-28T16:45:10","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/geofagos\/2009\/04\/consumidores_de_luxo_de_potass\/"},"modified":"2009-04-28T13:45:10","modified_gmt":"2009-04-28T16:45:10","slug":"consumidores_de_luxo_de_potass","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/geofagos\/2009\/04\/28\/consumidores_de_luxo_de_potass\/","title":{"rendered":"&#8220;Consumidores de luxo&#8221; de pot\u00e1ssio"},"content":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1via Alc\u00e2ntara<br \/>\n<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/geofagos\/2009\/04\/nova_reserva_de_potassio_pode.php\">O \u00faltimo texto do Juscimar<\/a> me lembrou uma quest\u00e3o que tenho vivido na pr\u00e1tica, desde que comecei a trabalhar como pesquisadora e passei a me envolver efetivamente com fertilidade do solo. Digo &#8220;efetivamente&#8221; porque uma coisa \u00e9 a academia e outra \u00e9 a realidade do campo e da pesquisa. Acho muito bom que tenhamos uma nova reserva de pot\u00e1ssio em nosso territ\u00f3rio e concordo plenamente com o fato de que s\u00f3 h\u00e1 vantagens em acabar a carteliza\u00e7\u00e3o do KCl (ou de qualquer coisa!). Obviamente tenho minhas preocupa\u00e7\u00f5es ambientais e sociais no que diz respeito \u00e0 extra\u00e7\u00e3o nessas reservas, mas isto \u00e9 outro ponto.<br \/>\nO assunto sobre o qual quero tratar aqui perpassa o fato de termos uma nova reserva e, ao mesmo tempo, pode ser modificado por esse fato &#8211;  se para pior vai depender de quem trabalha na \u00e1rea. Essa assunto \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o excessiva de pot\u00e1ssio que, me parece, ocorre hoje na agricultura brasileira. Grande parte do pot\u00e1ssio extra\u00eddo das reservas mundiais \u00e9 utilizada para a obten\u00e7\u00e3o dos formulados comerciais (fertilizantes com propor\u00e7\u00f5es definidas de nitrog\u00eanio (N), f\u00f3sforo (P) e pot\u00e1ssio (K) &#8211; os famosos NPK). Outra parte \u00e9 utilizada como fertilizante simples, o pr\u00f3prio KCl, principalmente nas aduba\u00e7\u00f5es de cobertura (aduba\u00e7\u00f5es realizadas durante o ciclo das plantas para complementar a aduba\u00e7\u00e3o de plantio, em que se fornece N, K e, em alguns casos, micronutrientes). Bom, a utiliza\u00e7\u00e3o excessiva de K sobre a qual falo \u00e9 causada pela utiliza\u00e7\u00e3o excessiva de formulados. Explico. Os formulados mais utilizados comercialmente s\u00e3o o NPK 4-14-8 e o NPK 4-30-16. Estas f\u00f3rmulas significam o seguinte, tomando como exemplo a primeira: em 100 quilos do produto est\u00e3o presente 4 quilos de N, 14 quilos de P-P2O5 e 8 quilos de K-K2O. Portanto, fornecem os tr\u00eas nutrientes, ao mesmo tempo, em propor\u00e7\u00f5es diferentes.<br \/>\nO que acontece nos solos brasileiros \u00e9 que a necessidade de aduba\u00e7\u00e3o fosfatada \u00e9 muito maior do que a necessidade de aduba\u00e7\u00e3o pot\u00e1ssica, mesmo que esses dois elementos estejam presentes em teores proporcionalmente baixos no solo. Isto ocorre devido \u00e0 alta capacidade de fixa\u00e7\u00e3o do P dos nossos solos altamente intemperizados, nos quais, a grosso modo, as plantas s\u00f3 absorvem o P ap\u00f3s ter sido praticamente saturada toda a capacidade de fixa\u00e7\u00e3o desse elemento no solo &#8211; \u00e9 como se elas ficassem com a raspa do taxo. Assim, s\u00e3o necess\u00e1rias, em geral, altas doses de P (aplicado na forma de P2O5) para que se obtenha teores adequados ao crescimento e desenvolvimento das culturas (para sobrar uma raspa generosa!). Caso a dose recomendada de P-P2O5 seja alta, \u00e9 extremamente dif\u00edcil, com a utiliza\u00e7\u00e3o de um desses formulados, que se consiga suprir essa necessidade sem ultrapassar as doses recomendadas de N e K, mesmo que estas sejam tamb\u00e9m altas &#8211; numericamente nunca ser\u00e3o t\u00e3o altas quanto a de f\u00f3sforo, basta olhar os boletins de recomenda\u00e7\u00e3o. Na pr\u00e1tica o que ocorre \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o de formulados (ex.: 3 ou 4 ton.\/ha) sem levar em considera\u00e7\u00e3o a an\u00e1lise qu\u00edmica do solo, que muitas vezes nem \u00e9 realizada.<br \/>\nA utiliza\u00e7\u00e3o dessas doses de formulados \u00e9 uma decis\u00e3o tomada por produtores e ou engenheiros agr\u00f4nomos com base em v\u00e1rios crit\u00e9rios que n\u00e3o discutirei aqui, mas que v\u00e3o desde a facilidade de aplica\u00e7\u00e3o (para se utilizar fertilizantes simples, ou seja, um que forne\u00e7a N, outro que forne\u00e7a P e outro que forne\u00e7a K, \u00e9 preciso fazer mistura, o que requer mais tempo e m\u00e3o-de-obra) at\u00e9 a sugest\u00e3o do vendedor ou do vizinho ou agr\u00f4nomo da fazenda ao lado. A facilidade de aplica\u00e7\u00e3o \u00e9 compreens\u00edvel, mas a displic\u00eancia n\u00e3o. O que comecei a notar no meu trabalho como respons\u00e1vel por um laborat\u00f3rio de fertilidade do solo e pelas minhas andan\u00e7as por a\u00ed \u00e9 que, apesar de os teores de P no solo continuarem baixos ou m\u00e9dios, os teores de K est\u00e3o quase sempre altos ou muito altos. \u00c9 a utiliza\u00e7\u00e3o dos formulados. Quero deixar claro que n\u00e3o sou contra os formulados, mas saliento que, na maioria dos casos, eles devem ser utilizados juntamente com fertilizantes simples. Podemos suprir todo ou quase todo o N e o K numa aduba\u00e7\u00e3o de plantio com um formulado e complementar a dose de P requerida com um fertilizante simples fosfatado. Isto \u00e9 pura matem\u00e1tica. \u00c9 bom senso.<br \/>\nE qual \u00e9 o problema do excesso de K nos solos? Como disse o Juscimar n\u00e3o se conhece sintomatologia de excesso de K, mas como c\u00e1tion que \u00e9, o K em excesso poder\u00e1 causar desequil\u00edbrios em rela\u00e7\u00e3o ao Ca e ao Mg (tamb\u00e9m c\u00e1tions) por ser absorvido preferencialmente pelas plantas. J\u00e1 vi casos de defici\u00eancia de Ca no meio do ciclo (em tomateiro) por causa do excesso de K e ouvi v\u00e1rios relatos similares. Nesses casos, ocorre o &#8220;consumo de luxo&#8221; de K &#8211; a planta o absorve mas n\u00e3o o utiliza. Al\u00e9m, disso, e a\u00ed entram as reservas de pot\u00e1ssio do Brasil (e do mundo), estamos desperdi\u00e7ando pot\u00e1ssio! Mesmo com uma nova reserva no Brasil, mesmo com dezenas de novas reservas que apare\u00e7am pelo mundo, estamos desperdi\u00e7ando pot\u00e1ssio! Esta n\u00e3o \u00e9 uma era de desperd\u00edcio e \u00e9 preciso que todos entendam isso. Esta \u00e9 uma era de sustentabilidade. Portanto, que comecemos a pensar sobre a necessidade de consumo interno de pot\u00e1ssio. Qual \u00e9 o real &#8220;tamanho&#8221; dessa necessidade? E que fa\u00e7amos bom uso da nossa nova reserva, com reserva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1via Alc\u00e2ntara O \u00faltimo texto do Juscimar me lembrou uma quest\u00e3o que tenho vivido na pr\u00e1tica, desde que comecei a trabalhar como pesquisadora e passei a me envolver efetivamente com fertilidade do solo. Digo &#8220;efetivamente&#8221; porque uma coisa \u00e9 a academia e outra \u00e9 a realidade do campo e da pesquisa. 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