Matthew Chapman fala sobre o sincretismo religioso brasileiro.

Estou começando a ler o livro “Trials of the Monkey” (O Julgamento do Macaco), de Matthew Chapman, autor, roteirista de cinema e descendente direto de Charles Darwin. Menciono esse ultimo não porque acredito que a grandeza de seu ancestral tenha reverberado ao longo das gerações. Pelo contrário: Chapman é, de muitas formas a antítese de Darwin, um homem pouco intelectualizado, pragmático, ateu e perdido, características certamente influenciadas pelo nome de seu ancestral. Segundo ele próprio:

[…] Foi quando fui levado para o zoológico aos seis anos de idade e ao observar os macacos enfiando o dedo no nariz, se coçando e tentando fazer sexo em público que tive certeza: evolução era um io-io e, no meu caso, o io-io tinha quase atingido o fim da corda. Ele tinha que ser puxado alguns centimetros para subir novamente. Se Charles Darwin era o topo, eu seria o fundo. […] Simples mediocridade acadêmica não seria o suficiente. Eu tinha que ser pior que isso. Eu tinha que batalhar contra a educação com tudo que eu tinha.   Assim como Charles era obstinado e diligente na sua coleção de fatos, eu o seria em rejeita-los. Essa seria a minha defesa contra o esmagador peso da história da familia.

Assim como seu ancestral, entretanto, ele parece carregar consigo um enorme amor por sua filha e sua esposa religiosa. Curiosamente, a esposa de Chapman é Denise Dummont, ex-atriz brasileira. Chapman se refere a ela de forma incrivelmente amorosa e com grande admiração, inclusive quando comenta de sua fé supersticiosa, característica que inicialmente ele repudiou, para depois aceitar e admirar. Ao comentar sobre a fé de Denise, Chapman acaba falando sobre a fé brasileira de uma forma interessante e distanciada:

Essa fé é a fonte de tudo que eu amo nela e de tudo o que discutimos. Denise se identifica como Católica, e ainda sim acredita no direito da mulher de escolher [aborto], contracepção, e direitos dos homossexuais. A madrinha brasileira de nossa filha é uma lésbica. Mesmo sendo Católica, Denise acredita – tão casualmente e naturalmente quanto você e eu acreditamos na previsão do tempo – em Candomblé, a mais Africana de todos os sectos de Macumba. Trazida por escravos, o Candomble foi sincreticamente combinado com Catolicismo de tal forma que as fitas de boa sorte africanas  que Denise usa ao redor do pulso veem de uma igreja na Bahia onde foram abençoadas por um Padre [Fitas do Senhor do Bonfim]. De todas as deidades na religião do Candomble temos Iemanja, a deusa–ou santa– do mar, para quem nós jogamos oferendas de flores no Ano Novo; Oxalá, o pai de todos os santos; e Oxum, a deusa da água doce, que é uma das santas de Denise. Todo mundo tem pelo menos dois santos, determinados pelo auto-sacerdote, ou Pai de Santo, através dos búzios. 

No Brasil, ninguém é tido como primitivo, ou insano ou excêntrico por acreditar em tudo isso. Uma noite eu jantei com o Chefe do Protocolo do Presidente do Brasil. Ela falava um inglês perfeito e francês e tinha graduação em ciências políticas em uma universidade europeia.  Na noite seguinte, andando na praia, eu a vi dançando ao redor de uma fogueira, enquanto um sacerdote vestido de branco da Bahia conjurava encantamentos ao som de vinte tambores. Intelectuais, empresários, políticos, doutores, qualquer um pode visitar um Pai de Santo e fazer sacrifícios de animais para trazer boa sorte, ou espantar os maus-augúrios e depois ir em uma igreja católica para acender um vela. Um amigo meu, que é um dos mais poderosos homens da TV brasileira, me disse que se ele dobra o dinheiro dele de uma maneira particular, isso iria assegurar sua contínua prosperidade. Ele dobra o seu dinheiro dessa forma. Denise acredita que se ela acender uma vela na frente das fotos de minha mãe morta e do seu pai morto, isso os estimulará a trabalhar em nosso benefício e nos trazer boa sorte.  Fé supersticiosa é o sine qua non da vida Brasileira em diversos níveis.

Não posso deixar de evidenciar o romantismo nessa passagem. Afinal, mesmo com nosso sincretismo religioso, religiões africanas sempre foram, de uma forma ou outra, discriminadas. Porém me parece um ideal interessante de espiritualidade: a assimilação sincrética soa avessa ao fundamentalismo religioso. Se esse de fato é o caso, talvez o sincretismo e a diversidade sejam um bom ideal para a causa humanista secular.

5 respostas para “Matthew Chapman fala sobre o sincretismo religioso brasileiro.”

  1. Sincretismo é uma das coisas mais fantásticas que acho, no que se refere a religião e sociedade. Às vezes eu vejo humanidade, cultura e religião como seres monstruosos, plásticos, que se mesclam o tempo todo, e na maior parte do tempo não dá pra diferenciar um do outro.E ao mesmo tempo, acho cômico os poucos fundamentalistas que existem por aí, de qualquer religião, que juram que sua religião é imutável e independente do que acontece com a cultura do povo.E uma pergunta: você tem idéia de quem seja o “um dos mais poderosos homens da TV brasileira”?

    1. Ele não fala explicitamente no livro e é dificil ter certeza de qual é a data dessa colocação. Eu diria que um bom começo para descobrir é ver quem foi tal Chefe do Protocolo do Presidente do Brasil que bate com a descrição. A partir dai podemos ter uma data aproximada para tentar investigar quem seria tal personalidade.De qualquer forma, isso seria um chute pouco preciso.

  2. Sacríficio de animais está longe de ser um dos aspectos positivos das religiões afro-brasileiras… são feitos para obtenção de benefícios materiais (ou malefícios materiais a desafetos). Em outras palavras, bruxaria. Na verdade, o Matthew Chapman obviamente não foi muito a fundo na sua investigação das religiões afro-brasileiras (claro que não somos os únicos a tê-las! e o sincretismo não é apenas com crenças africanas, também indígenas… vejam os caboclos que “baixam” em todos os terreiros). Muito dos comentários dele sobre a generalidade dos cultos afro-brasileiros entre a elite brasileira também devem ser enviesados (embora a encomenda de trabalhos de magia negra, em minha opinião muito sincera! – deve ser prática comum mesmo).

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