Um peixe chamado Dawkins (e notas sobre feminismo cético)

Saiu recentemente, na nova edição da revista científica “Ichthyological Exploration of Freshwaters”, um artigo de revisão taxonômica e filogenia do genero Puntus de peixes do Sul da Ásia. O trabalho não traz grandes conclusões, fora o estudo de um grupo de peixes diversificados que necessitava de uma avaliação. Porém, chama a atenção o nome do novo gênero proposto para uma pequena linhagem dentro do grupo:
Filogenia molecular baseada no gene cyt-B. Retângulo vermelho evidencia Dawkinsia, genero novo.

Exato. O gênero Dawkinsia é uma homenagem ao Richard Dawkins. O artigo ainda explica:

Etimologia. O gênero foi nomeado segundo Richard Dawkins, por sua contribuição para o entendimento do público da ciência e, em particular, a ciência evolutiva, gênero feminino.

Agora, eu não sou taxonomista (apesar de ter contribuído para alguns trabalhos de taxonomia), e não sei ao certo como funciona o código de nomenclatura de gêneros novos (ou mesmo se peixes tem uma regra especial), mas achei deveras irônico o fato do nome ter o gênero feminino, tendo em vista o fiasco que Dawkins se meteu na comunidade cética.

Para quem não conhece a história: no ano passado, durante uma convenção cética em Dublin, a blogueira e vlogueira Rebecca Watson (a.k.a. Skepchic) recebeu uma cantada em um elevador. Segundo o relato dela:

No bar, mais tarde naquela noite, […], nós estávamos no bar do hotel. “4 a.m.”, eu disse, “já é demais para mim, rapazes, eu estou exausta. Eu vou para a cama”. Então eu andei até o elevador e um homem entrou no elevador comigo e disse: “Não leve isso a mal, mas eu te acho muito interessante e eu gostaria de conversar mais. Você gostaria de vir para o meu quarto para tomar um café?”. Só uma palavra para os sábios: Rapazes, não façam isso. Eu não sei outra forma de dizer que isso me deixa incrivelmente desconfortável, então eu vou simplesmente dizer que eu era uma mulher solteira, em um país estrangeiro, as 4 da manhã, em um elevador de hotel, com você, apenas você… não me chame para o seu quarto de hotel logo após eu ter terminado de dizer que eu fico desconfortável quando homens me sexualizam dessa forma.

Para os que não sabem, “tomar um café” costuma ser um eufemismo.

A ênfase (negrito) é minha, porém é essa parte do discurso que a Rebecca reitera como sendo o ponto da sua colocação sobre o incidente. De qualquer forma, o que aconteceu depois é ainda meio confuso: eu não sei se a Rebecca fez outras afirmações, ou se apenas o que veio depois da frase destacada realmente ofendeu os homens das comunidades céticas, mas a discussão e agressões atingiram um nível tão impressionante que acho que só pode ser descrito como o primeiro e maior flame war internacional da internet. A coisa toda atingiu um nível tão baixo que Dawkins interferiu na conversa, de forma desastrosa, através de um comentário postado no blog Pharyngula (infelizmente o comentário original parece ter sido apagado, mas reproduzo abaixo):

Querida Muslima, 

Pare de reclamar. Sim, sim, nós sabemos que sua genitália foi cortada com uma navalha e … (bocejo)…  não me conte novamente, eu sei que você não pode dirigir um carro, e você não pode deixar sua casa sem um parente homem, e o seu marido pode bater em você, e você será apedrejada até a morte se cometer adultério. Mas pare de reclamar. Pense no que suas pobres e sofredores irmãs americanas tem que lidar. 

Nessa semana eu escutei que uma delas, que se chama Skep”chick”, e você sabe o que aconteceu com ela? Um homem em um elevador convidou ela para o seu quarto para tomar um café. E eu não estou exagerando. Ele realmente fez isso. Ele convidou ela para o seu quarto para tomar um café. Evidente que ela disse não, e evidente que ele não encostou um dedo nela, mas mesmo assim… 

E você, Muslima, pensa que tem que reclamar de misoginia! Pelamor de Deus, cresça, ou pelo menos adquira uma casca mais grossa.
Richard

Aparentemente a ideia era simular uma carta a uma muçulmanda (“Muslima”) que sofre atos horrivels de abuso, sugerindo que os reais problemas trazidos pela misoginia são aqueles sofridos pelas mulheres ocidentais. A intenção é clara: você, mulher vitima de misoginia “leve” não deveria ligar, afinal, tem pessoas passando por piores situações que a sua. Quando esse tipo de “lição de moral” é emitida, eu sempre me pergunto: deveríamos então nos sentirmos melhores quando estivermos com doenças terminais, apenas por não estarmos mortos? A lógica me parece a mesma.

Eu honestamente não sei o que fez Dawkins se portar assim. Suponho que, da mesma forma que existem trolls machistas que adoram ameaçar mulheres, imagino que existam trolls feministas radicais que se aproveitaram da ocasião para defender seus ideais. Quando isso ocorre, rapidamente posições se formam não apenas por alinhamento ideológico, mas por repudio à algum tipo de pensamento: “eu acho tal tipo de pensamento abominável, essa pessoa se identifica como X, logo vou me associar com a posição contrária”. Não que eu ache que isso justifica a atitude de Dawkins, pois mesmo que ele tivesse respondendo à uma falsa visão do que a Rebecca disse, isso não o exime de não checar suas fontes, ou mesmo de falar com a própria Rebecca (visto que eles tiveram contato durante essa mesma conferencia).

Não estou dizendo que todas as feministas são assim, obviamente, mas temos grupos extremos dentro de qualquer grupo, sejam cristãos, ateus, feministas, vegetarianos, etc. Por exemplo, recentemente a vloggeira Laci Green foi perseguida e ameaçada no Tumblr por um grupo de feministas pelo fato de ter usado um termo aparentemente pejorativo para se referir a transexuais, mesmo depois de ter se desculpado oficialmente pelo fato. Eu sempre digo que a proporção de idiotas em qualquer subgrupo da população humana parece ser constante. Não vejo porque seria diferente para as feministas.

Por falar em idiotas e feminismo, recentemente eclodiu outra flame war no FreeThoughts Blogs. Para quem não sabe, os FTB foram idealizados por PZ Myers (o mesmo que bloga no Pharyngula, o blog onde Dawkins postou seu comentário infeliz) para ser um lugar onde bloggeiros pudessem avançar suas idéias e o ideal do Pensamento Livre (que não é o mesmo que dizer o que lhe vier na cabeça). Recentemente, os FTB adicionaram Phil Mason (a.k.a. Thundef00t), um dos maiores vlogeiros ateus do youtube. Thunderf00t é conhecido, entre outras coisas, por defender a liberdade de expressão acima de tudo, o que o fez ser taxado de racista e de misógino. Ele está por trás do Dia de todo mundo desenhar Mohammed, um movimento, na minha opinião, no mínimo equivocado.

De qualquer forma, a inclusão de Thunderf00t no FTB não foi recebida com entusiasmo pelos membros, coisa que foi agravada pela publicação do primeiro post de Thunderf00t, argumentando exatamente que o problema de sexismo em convenções céticas (uma discussão que ganhou força com a discussão acerca do caso da Rebecca Watson) não era uma questão séria:

Resumindo, existe “assédio” em conferências? Eu não vi realmente nada acontecendo nas próprias conferências, apesar que nos bares em outros lugares, claro que ele acontece (apesar que discutivelmente não mais do que ocorrem em qualquer outro bar ao redor do pais). – De meia dúzia de conferências, isso dá uma ideia da extensão do problema.

Ou seja: você, mulher vitima de misoginia “leve” não deveria ligar, afinal, temos coisas melhores para nos preocupar segundo nossa análise de custo-benefício. Soa familiar, não? De qualquer forma, uma onda de críticas irrompeu, culminando na expulsão do Thunderf00t do FTB por PZ Myers, apos aproximadamente 10 dias de site.

O que torna tais situações realmente desagradáveis, até onde vejo, é a desigualdade entre a capacidade de julgar a sua própria postura em relação a estereótipos racistas ou misóginos. Afinal, uma pessoa pode ter atitudes misóginas sem se identificar como tal (o que imagino que seja raro, inclusive). Tal dissonância pode produzir discursos que são idealizados como harmonizadores, mas são realizados como nocivos. Duvido que Dawkins e Thunderf00t se vejam como misóginos e eu não chamaria eles assim. Mas me parece óbvio que seus discursos se aproximam mais de um discurso misógino do que de qualquer outra coisa.

O que podemos tirar de tudo isso? Bem… com certeza podemos dizer que o antigo gênero Puntus, do Sul da Ásia, agora é dividido em diversas linhagens. Cinco linhagens, pra ser mais preciso…

Referência

Rohan Pethiyagoda, Madhava Meegaskumbura, & Kalana Maduwage (2012). A synopsis of the South Asian fishes referred to Puntius (Pisces: Cyprinidae) Ichthyological Exploration of Freshwaters

14 respostas para “Um peixe chamado Dawkins (e notas sobre feminismo cético)”

  1. Sobre o “eu acho tal tipo de pensamento abominável, essa pessoa se identifica como X, logo vou me associar com a posição contrária”, não precisamos ir tão longe. Dois relativamente conhecidos vloggers da ateosfera brasileira fizeram recentemente vídeos justamente com essa posição. E claro, qualquer um que criticou era uma feminazi.

    1. Não estou familiarizado com essa ocasião se não teria mencionado explicitamente aqui.Muito do discurso que vejo sobre o assunto é muito mal direcionado: algumas pessoas pensam que ser feminista é o oposto de ser machista. Confesso que o termo é ruim (“feminismo”), mas isso tem seu motivo histórico. Nada justifica, claro, não ir além de uma definição e observar os reais pontos defendidos pelas pessoas.Obrigado pelos comentários 😉

    2. Assistirei os vídeos e lerei sua resposta com mais calma (apenas passei por cima). Então você também é vloggeiro? Interessante. Não pude deixar de notar que você indica no seu canal o do thundef00t. Você tem opinião sobre os recentes ocorridos entre ele e o FTB?

    3. Então, sobre esse dramalhão de novela mexicana, eu sou fã dos vídeos de ciência do Thunderf00t, mas sempre que ele se mete a falar de outros assuntos, na minha opinião acaba sendo uma visão limitada e “racionalizada” demais. Racionalizada no sentido de ignorar qualquer caráter social, emocional ou mesmo humano. Parece que para ele se algo não pode ser descrito com números e equações, então é besteira.E a atitude dele no FTB foi praticamente de troll. Todos os posts dele foram sobre um assunto que, de acordo com dele, não deveria receber tanta atenção. Contraditório. Por outro lado, a expulsão rápida pelo PZ me pareceu meio exagerada demais. Deu pra sacar que o PZ ficou putasso e levou pro lado pessoal.Enfim, resumindo, pra mim foi uma atitude infantil seguida outra, e que foram respondidas com uma atitude um pouco extrema demais.

    4. Eu confesso que não compartilho a admiração pelos trabalhos de ciência do Phil Mason. A opinião habital é que ele é eloquente, porém eu apenas acho que ele tem sotaque ingles :)Seus videos contra criacionismo eram bons, mas os de ciência são, na maioria das vezes, enfadonhos. Um canal muito melhor, na minha opinião, é o scyshowhttp://www.youtube.com/user/scishow?feature=g-u-uMuito melhor produzido, muito mais acessivel para o leigo (muito mais simples também), e lindamente ilustrado. É feito por um dos vlogbrothers, até onde entendo. Fica a dica.

    5. Conheço e gosto muito! Conteúdo muito melhor pensado e exposto. Seus vídeos são referencias muito boas.Mas o que mais admiro é sua capacidade de mudar de ideia e rever conceitos. Acho uma caracteristica muito importante em uma pessoa e, principalmente, em um pesquisador.

  2. O caso do Dawkins não é único e nem raro neste meio.Já vi um bom números deste casos. O pessoal acaba confundido crítica construtiva com crítica destrutiva.Belo post Fábio.

  3. Sério mesmo que dar uma cantada é “misoginia leve”? O que consiste em não ser misógino, então? Só pra eu saber no caso de eu não querer mais ser “misógino”…E tenho uma dúvida: se eu levar cantada eu sou também vítima de “misandria”? E, se for, uma cantada dada por uma mulher a um homem é qual tipo de “misandria” leve ou pesada? Sim, porque não é que eu seja lindo, um perfeito espécime de homem não, mas tem mulher que se interessa, e muitas (mentira, não tantas, mas algumas) vezes tomam a iniciativa de me “agredirem” com algum “eufemismo”. Então, exatamente em que ponto e qual momento uma cantada deixa de ser agressão? Por favor me respondam. Porque o misógino aqui, assim como o Dawkins não consegue mesmo entender como um convite para tomar um café (seja este um eufemismo para seja lá o quê ou não) recusado e não insistido pode se tornar um quase estupro ou mesmo uma “leve agressão misógina”.Sapos coaxam, pica-parras dançam e seres humanos convidam para tomar café.Agora, quanto a vocês, céticos feministas, como vocês demonstram interesse sexual pelas fêmeas da sua espécie?

    1. Tomando a liberdade de responder aqui com minha opinião.Não é só a cantada. Tem todo o contexto. Num bar puxar papo com uma mulher, elogiando, é bem diferente que chamar uma mulher para o seu apartamento, no meio da madrugada, dentro de um elevador. Pra você e pra mim pode não parecer nada, mas pra mulheres que sofrem diariamente o risco de assédio e estupro, faz uma grande diferença.Para ter uma idéia do que mulheres passam no dia a dia, recomendo acompanhar essa página: https://www.facebook.com/#!/CantadaDeRua?fref=ts

    2. Muito bom, D-Dimensões. Iria sugerir exatamente essa mesma página. Não estou com muito tempo para responder mais a fundo, Daniel, mas uma coisa que posso falar é que a grande maioria das pessoas que se revolta com a caracterização de cantada domo misoginia não foi misógino ao passar uma cantada. Como o D disse, existe contexto. Dizer que cantada pode ser uma forma de misoginia não implica que todas elas são frutod e misoginia ou constituem um contexto misogino.Para isso, sugiro conversar com as meninas do Cantada de Rua.abraços,

  4. Sabe, Fábio, eu ainda não estou convencido que exista misoginia em demonstrar interesse sexual e/ou afetivo em uma mulher, desde que não seja colocada qualquer pressão sobre a mesma, como é o caso quando o homem em questão tem alguma relação de poder com a mulher. Mulheres sofrem com a misoginia? Não há dúvida! Mas não há misoginia na tentativa de aproximação sexual, desde que não seja exercida força de qualquer espécie. Quanto a escolher o bar ou o elevador, muitos homens que conheço preferem o segundo, pois na hipótese de ser recusado, não suportariam bem a rejeição em frente ao grupo social. A maioria dos humanos é inseguro, mesmo que aos homens não seja permitido demonstrá-lo. Eu, particularmente, tive mais e melhores relacionamentos nascidos de contatos casuais por trabalho, supermercado ou viajem de ônibus do que em bares e baladas. A dúvida do Daniel é muito pertinente: quem pode dizer onde passa a linha limite? É muito fácil de perceber que uma garota que passa a balada te olhando pode ser cantada e a paciente no consultório pelo seu médico não pode. Mas onde deve passar o limite? Acha que é possível que ele não seja objetivo e que as pessoas não concordem sobre ele? Acha possível que um homem que realmente acredita na igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres possa fazer uma aproximação sexual num contexto em que uma específica mulher considere misógino? Não acabamos vendo aquilo que esperamos ver?

    1. O limite quem estabelece são as pessoas e as relações sociais. Não podemos outorgar que uma pessoa se sinta confortável em uma situação que ela não se sente. Claro, muitos desconfortos podem ser injustificados, exemplo: alguém que não se sente confortável com homossexuais se beijando. É injustificado porque o individuo não faz parte. Nesses casos podemos argumentar e discordar.

      Agora imagine a situação: uma pessoa não gosta de ser tocada por ninguem. E tem gente que vai insistir em toca-la porque todo mundo se toca. Você não pode demandar que as demandas por espaço pessoal de uma pessoa se adequem a o que o resto pensa que é o “normal” porque você não quer se dar ao trabalho de avaliar os interesses individuais de cada pessoa. Isso é autoritarismo. As pessoas precisam ser respeitadas em sua individualidade e reconhecidas como tal. Caso o contrário, estamos fazendo julgamentos com base em identidade de grupos ou sexo. E isso passa a ser sexismo.

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