Peixes cegos, Elliott Sober e “A Farsa da Evolução Teísta”

Quem me conhece sabe que considero a noção de “Evolução Teísta” uma grandessissima bobagem.

A alcunha “evolução teísta” foi popularizado pela Eugene Scott (uma agnóstica até onde sei) da NCSE, uma instituição voltada para a defesa de ciência, especificamente evolução e aquecimento global, por serem ideias as científicas mais politicamente atacadas por motivos ideológicos e religiosos. Em seu artigo, Eugene coloca que evolução teísta seria:

“(…) a posição teológica na qual Deus cria através das leis da natureza”

o que estaria em claro contraste com a evolução ateia (sic) ou puramente materialista, que não contaria com nenhuma intervenção divina. Agora, como essa noção de compatibilização entre evolução e teísmo é possível não foi abordado por Scott. Seu único objetivo é fazer com que o máximo de pessoas aceitem em entendam evolução, mesmo que isso se dê através de aceitação de alguma noção idiossincrática. E eu não tenho nenhum problema com isso: é um motivo nobre, defendido também por instituições religiosas como o Biologos do Dr. Francis Collins. O meu problema começa quando eu vejo os argumentos que defendem essa compatibilidade, e noto que eles são completas bobagens. Por exemplo, o teólogo e bioquímico Alister McGrath, ao discutir a posição de Santo Agostinho sobre o Gênesis, afirma que

“Para Agostinho, Deus trouxe tudo à existência, em um único momento de criação. No entanto, a ordem criada não é estática. Deus dotou-a com a capacidade de se desenvolver. Agostinho usa a imagem de uma semente adormecida para ajudar seus leitores compreender este ponto. Deus cria sementes, que irão crescer e se desenvolver no tempo certo. Usando uma linguagem mais técnica, Agostinho pede a seus leitores para pensar na ordem criada como contendo causalidades divinamente embutidas que surgem ou evoluem em um estágio posterior.”

Como isso é uma posição sobre “evolução” (fala sobre origem do universo) e teísmo (tá mais para deísmo), me foge completamente! Agora, meu desprezo mais profundo por essa concepção vem da premissa implícita de que existe alguma distinção entre a teoria evolutiva moderna, como aceita por um materialista, e a teoria evolutiva como aceita por um teísta. Porque se existe, um dos dois está errado. E adivinha qual é a teoria aceita pela comunidade científica e quantas vezes ela se vale de um deus teísta?

Giuliano Thomazini Casagrande

Talvez motivado por um similar desprezo, Giuliano Thomazini Casagrande, do blog “Materialismo-Filosofia”, publicou um fantástico post intitulado “A Farsa da Evolução Teísta”, no qual ele ataca de forma voraz a idéia. Sugiro a leitura. O Giuliano tem uma erudição impressionante e uma língua ferina que não poupa ninguém:

O exemplo da produção de variedades domésticas é bastante esclarecedor. As mutações aleatórias fornecem aos criadores de plantas e de animais a matéria bruta para a elaboração de uma imensa variedade de novas linhagens. O método utilizado – de forma consciente ou inconsciente – pelos criadores é a seleção cumulativa, durante sucessivas gerações, de ligeiros desvios anatômicos ou comportamentais de natureza hereditária. Ora, as mutações que surgem aleatoriamente nada têm de milagrosas: um focinho um pouco mais curto, uma pelagem mais densa, um temperamento mais dócil, flores mais vistosas etc. A prática dos cruzamentos seletivos, ao longo de séculos ou de milênios, permitiu aos criadores, por exemplo, a transformação do lobo (Canis lupus) em centenas de raças caninas tão diferentes quanto o chihuahua, o são-bernardo e o buldogue. Quanto à maioria das plantas domesticadas, um leigo não faz ideia das diferenças que as separam de suas ancestrais selvagens. Em poucos séculos, os horticultores obtiveram, por exemplo, variedades como o repolho doméstico, o brócolis, a couve-flor e a couve-de-bruxelas a partir de um único ancestral, o repolho selvagem (Brassica oleracea); e somente um idiota diria que essas variedades foram produzidas por Deus.

Darwin observou que, em estado natural, as pressões ambientais desempenham o papel dos criadores humanos. No notório caso das Ilhas Galápagos, prosperaram as mutações aleatórias que conferiam aos tentilhões (migrados do continente sul-americano) um incremento adaptativo a condições de vida distintas: bicos de diversos tamanhos e formatos, úteis para as dietas mais variadas.

De modo análogo, peixes não relacionados de diferentes regiões do globo são isolados em cavernas e apresentam as mesmas respostas adaptativas (evolução convergente): uma progressiva atrofia do aparato visual, por exemplo. O cenário proposto pelos acomodacionistas é ridículo. A cada vez que uma população de peixes fosse isolada num ambiente trevoso, um designer inteligente operaria uma sequência correspondente de mutações que resultaria na redução do aparato visual. Com a mesma razão um teólogo poderia afirmar que Deus está por trás de um fenômeno como a deriva continental. Na Antiguidade, relâmpagos e trovões eram atribuídos a Zeus, e terremotos, à fúria de Posídon. Isso faz pensar que o discurso “sofisticado” de um Plantinga não passa de superstição ancestral apresentada sob a cobertura de ouropel de um jargão acadêmico embolado.

ouch!

Mas, claro, nenhum evolucionista teísta de fato liga para espécies insulares, ou para raças de cachorro, repolhos ou peixes cegos. O que importa somos nós -seres bípedes, de telencefalo desenvolvido- e como nos encaixamos no plano divino, qualquer que seja ele. Mas para alcançar o status da evolução materialista, a evolução teísta tem que tratar também desses fenômenos. E quando fazemos isso, evidenciamos a futilidade da empreitada.

Agora, eu acho que o Giuliano deu pouca atenção para o que eu considero talvez o melhor argumento “evolucionista teísta” que, não coincidentemente, é o que parece estar menos presente na cabeça dos advogados dessa ideia. Queria também explorar um pouco mais o exemplo sobre peixes cegos, um assunto que considero fascinante.

Visto que isso ficaria longo demais para um único post eu dividi o assunto em 2 posts a serem colocados a seguir, um tratando sobre peixes de cavernas e outro sobre as visões de Elliott Sober sobre essa questão. Ambos podem ser tomados como posts independentes sobre esses assuntos.

1o Post: Devolvendo a visão aos cegos, Mendel-style!

2o Post: O melhor argumento para o “Evolucionismo Teista”

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