“Rolezinho” e os Zumbis de Romero

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Zumbis no shopping.

Zumbis sempre me intrigaram. Ao mesmo tempo que aparentam ser humanos, nada em seu comportamento evidencia isso: são maquinas de matar e comer incessantes, com preferencia especial pela carne humana. São monstros, pura e simplesmente, sem nenhum tipo de sentimento, exceto fome.

Dentro da escala de “coisas que podemos matar sem nenhum tipo de paradoxo moral”, zumbis provavelmente encabeçam a lista. Os jogos de videogame e filmes notaram isso rapidamente. Zumbis nutrem nossa necessidade por violência justificada: você pode explodir a cabeça de um zumbi sem remorsos, mas um vilão, mesmo o pior de todos, pode receber um pouco de compaixão. Afinal, como diria o Batman: “Escória, mas até escória tem família“.

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Batman não mata, nunca.

Mas o que isso tem a ver com os “rolezinhos”? Bom, hoje cedo fui ler o editorial na Folha da Elaine Cantanhede, no qual ela aponta diversos paralelos entre os “rolezinhos” e os protestos do ano passado contra as tarifas de ônibus. Ela aponta, entre outras coisas, que antes falávamos de um movimento de classe média politizada (de certa forma) e que, após ser reprimido, explodiu nacionalmente. Segundo Cantanhede, os “rolezinhos” são um movimento análogo, motivados pela alienação dos jovens de classe baixa do mundo consumista e ostentador, exemplificado na figura dos shoppings centers. O ponto central, eu acho, é que a não-compreensão das vontades dos indivíduos em ambos os casos levou a uma atitude do governo que só piorou as coisas, e isso falou diretamente para mim. Apesar de estar envolvido nos protestos contra o aumento das tarifas, e “entender” o movimento, eu não entendo o “rolezinho”. Eu estou de fora. E isso me lembrou de Romero.

George A. Romero é um dos meus maiores ídolos. Foi ele que concebeu essa idéia de zumbi que temos hoje em dia: sem mente, faminto, meio morto e em decomposição, que se arrasta lentamente atrás de suas vitimas. Esse conceito foi lançado inicialmente em seu filme “A Noite dos Mortos-Vivos”, um filme que chocou uma geração ao subverter a narrativa padrão de filmes de terror: “monstros aparecem, matam todo mundo, menos o herói, que mata os monstros e foge com a mocinha”. Não… nada termina bem. Sabe aquele tema comum em histórias de Zumbis, no qual os zumbis são ruins, mas são os humanos que te ferram no fim? Então, Romero começou isso, nesse filme.

Romero ainda explorou outros aspectos da idéia dos zumbis: sendo essas máquinas inumanas de matar, é impossível entender suas vontades (se é que eles tem alguma). Você só precisa se defender, matando de preferência, sempre lembrando que eles não são “gente como a gente”. Em “A Noite dos Mortos-Vivos”, os sobreviventes se escondem em uma casa de subúrbio americano (aqueles bairros onde a classe média vai para fugir da “violência da cidade”), mas na sequência, “A Madrugada dos Mortos-Vivos”, eles se escondem em um Shopping Center. E foi nesse filme que finalmente entendi a mensagem: enquanto a minoria privilegiada se esbanjava dentro do Shopping, a multidão faminta apenas olhavam pelas grandes vitrines. Mas Romero adverte: o equilíbrio é instável. Uma hora a pressão é grande, as portas quebram e os mortos invadem.

E eles invadiram.

6 respostas para ““Rolezinho” e os Zumbis de Romero”

  1. Acho que te falta entender o rolezinho.
    Você não teria escrito o texto se o entendesse.

    Quanto aos zumbis, eles foram pessoas antes. Pessoas com família. Já vi em um filme ou outro o dilema de se matar um zumbi que há pouco era alguém que estava do seu lado, ou matar alguém que inevitavelmente se transformará em zumbi, pois já está contaminado.

    Tente escrever de novo, mas não delete esse. 🙂

    1. Eu não estou inventando nada sobre a leitura crítica social de Romero. Ex:

      “Some critics have seen social commentary in much of Romero’s work. They view Night of the Living Dead as a film made in reaction to the turbulent 1960s, Dawn of the Dead as a satire on consumerism, Day of the Dead as a study of the conflict between science and the military, and Land of the Dead as an examination of class conflict.”

      http://en.wikipedia.org/wiki/George_A._Romero

      Aqui também um texto sobre isso, em portugues: http://fabneme.blogspot.com.br/2008/07/crtica-social-de-george-romero.html

      Um bom filme, na minha concepção, são aqueles que permitem diversas leituras significativas, e não apenas uma visão literal de sua narrativa.

  2. Sem essa ne minha gente de jovens oprimidos a margem da sociedade consumista, representada em um shopping.
    Por favor me poupem…querem ir ao shopping? Por favor entrem e divirtam-se como pessoas normais e nao coni zumbis descontrolados!!!!!

    1. A gente tem que lembrar sempre que explicar algo (ou analisar) não significa endossar algo. Por exemplo, se alguem concluir que pobreza e desigualdades sociais são os principais fatores influenciando violencia e criminalidade, isso não significa que violencia e criminalidade “estão OK”.

      Dentre os pontos da obra do Romero é exatamente à crítica da desumanização de segmentos da sociedade, que é a transformação dessas pessoas em monstros incapazes de julgamento moral e ético (“zumbis”). Olhar para essas pessoas como humanos não significa eximi-los de culpabilidade, quando culpa é justa. Longe disso

  3. Fabio, role e so pra quem mora na ZS do Rio. Tipo: partiu praiana? Depois bora dar um role de bike na Lagoa?
    O pessoal da ZL de SP copia funk de favela carioca. O que me preocupa nessa garotada, seja de onde for e a alienacao mental. O poder publico e as redes sociais mascaram e reforcam um padrao sem desenvolvimento real. A garotada tem que se divertir sim, mas com opcoes de boa qualidade.
    Quero mais vida de qualidade para todos. Nao sera o consumo e uma irrealidade de igualdade que as teias virtuais tecem na idealizacao dos jovens que fara valer uma vida de lazer genuino. Mais estudo, mais lazer de qualidade reconhecida e nao alienatoria/zumbiloide.

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