Deus, hidroxicloroquina e unicórnios: é impossível demonstrar um negativo?

Quem est√° habituado √† discuss√£o teol√≥gica est√° familiarizado com a afirma√ß√£o de que seria ‚Äúimposs√≠vel demonstrar uma negativa‚ÄĚ. Ela √© rotineiramente usada por crentes e apologetas para argumentar que, ‚Äúsegundo a l√≥gica‚ÄĚ, √© imposs√≠vel dizer que Deus n√£o existe, mesmo na total aus√™ncia de evid√™ncias da sua exist√™ncia. Logo se voc√™ cr√™ em Deus por f√© apenas (sem evidencia), voc√™ n√£o estaria sendo irracional ou il√≥gico. Esse argumentos sempre me soou estranho, mas eu honestamente n√£o havia pensado nele por anos at√© que me deparei com alguns debates recentes na internet envolvendo a hidroxicloroquina e sua efic√°cia. A discuss√£o segue mais ou menos assim:

Crítico da hidroxicloroquina РFoi demonstrada a ineficácia da hidroxicloroquina

Defensor da hidroxicloroquina РNão foi demonstrada sua ineficácia, porque é impossível demonstrar uma negativa.

O que para mim o curioso nessa hist√≥ria toda √© que a frase de efeito, ou tru√≠smo, usado para corroborar esse racioc√≠nio, de que  ‚Äú√© imposs√≠vel demonstrar uma negativa‚ÄĚ √© obviamente falso. √Č completamente l√≥gico derivar um argumento formal no qual a conclus√£o √© a inexist√™ncia de algo. Por exemplo, digamos que estejamos argumentando sobre a exist√™ncia de unic√≥rnios. Eu poderia montar o seguinte argumento

  • P1 ‚Äď Se unic√≥rnios existem, deveria haver alguma evidencia deles no registro f√≥ssil.
  • P2 ‚Äď N√£o existe evidencia de unic√≥rnios no registro f√≥ssil.
  • Conclus√£o- Unic√≥rnios n√£o existem.

Esse √© um argumento logicamente v√°lido no qual a conclus√£o (uma negativa) √© a consequ√™ncia l√≥gica das premissas. Proposi√ß√Ķes negativas s√£o t√£o demonstr√°veis quanto proposi√ß√Ķes positivas.

‚ÄúMas, calma l√°‚ÄĚ, voc√™ pode pensar ‚Äúo registro f√≥ssil √© notoriamente incompleto. Esp√©cies podem simplesmente n√£o estar representadas sem que isso signifique que elas nunca existiram‚ÄĚ.

Esse argumento remete ao problema da indu√ß√£o, que diz basicamente que nenhuma generaliza√ß√£o baseada em observa√ß√Ķes limitadas pode ser bem sucedida. O exemplo cl√°ssico √© a ideia de que, n√£o importa quantos cisnes brancos voc√™ encontre na natureza, voc√™ nunca vai poder dizer que todos os cisnes s√£o brancos, visto que voc√™ ainda pode encontrar um cisne negro que refute essa generaliza√ß√£o. √Č importante ressaltar que, enquanto isso n√£o invalida a ideia que proposi√ß√Ķes negativas s√£o demonstr√°veis, isso parece levantar um problema s√©rio para premissas que sustentem supostas inexist√™ncias.

Por√©m, nem todas proposi√ß√Ķes s√£o iguais. Imagine que, ao inv√©s de voc√™ estar buscando cisnes negros, voc√™ que saber se um gene X est√° associado com a cor das penas em cisnes negros. Uma pr√°tica em gen√©tica para entender o funcionamento de um dado gene √© exatamente deletar esse gene de um embri√£o, ou ‚Äúnocautear‚ÄĚ o gene. Se o gene era associado com a cor das penas, voc√™ espera que o embri√£o com o gene nocauteado desenvolva penas brancas (ou n√£o-negras). Se o embri√£o continua desenvolvendo penas negras, voc√™ pode afirmar que o gene X n√£o tem efeito sob a colora√ß√£o negra das penas. Em forma de argumento formal:

  • P1- Se o gene X determina a cor negra da pena, sua remo√ß√£o produziria penas sem essa colora√ß√£o
  • P2- A remo√ß√£o do gene n√£o afeta a cor da pena
  • Conclus√£o- O gene X n√£o afeta a cor da pena.

Nesse caso não há ambiguidade alguma: uma vez que o mecanismo é proposto e testado, a ausência de um efeito implica que sua hipótese foi refutada: o mecanismo, como designado, não existe. A diferença é que, quanto mais específica é sua premissa inicial, mais certeza você pode conferir à sua conclusão.

O caso de medicamentos tem mais a ver com o encontrar um mecanismo genético do que buscar unicórnios no registro fóssil: a ação de um remédio depende de que um mecanismo proposto seja verdadeiro, ou potencialmente verdadeiro. O que nos trás à hidroxicloroquina.

Presidente Jair Bolsonaro no jardim do Palácio da Alvorada alimentando as emas e mostrando a caixa do remédio cloroquina para as emas, a mesma caixa que mostrou para os apoiadores no ultimo domingo 19/07. Sérgio Lima/Poder360. 23.07.2020

Querida de tr√™s em cada tr√™s l√≠deres com tend√™ncias autorit√°rias no continente americano (Trump, Bolsonaro e Maduro), a hidroxicloroquina foi alardeada com um poss√≠vel tratamento ao COVID19 com base em um estudo feito em c√©lulas in vitro (em placas de petri; aqui e aqui). Esse estudo demonstrou que a hidroxicloroquina em conjunto com azitromicina era capaz de prevenir a entrada do v√≠rus em c√©lulas vivas. Em investiga√ß√Ķes sobre a efic√°cia de medicamentos, a exist√™ncia de algum tipo de efeito in vitro √© considerado premissa b√°sica para que mais estudos sejam realizados, para observar se um rem√©dio pode ter efeito em seres vivos e, em √ļltima analise, humanos. De qualquer maneira, esse estudo deu o pontap√© inicial √† investiga√ß√£o sobre a efici√™ncia da hidroxicloroquina contra o COVID19, resultando em diversos trabalhos que buscaram encontrar um efeito da droga em seres humanos infectados.

Nada disso seria particularmente problemático se políticos não tivessem tomado para si o papel de decidir, com base em evidencias problemáticas, quais são os tratamentos que devem ser seguidos. O que temos agora é a pior situação possível: enquanto a ciência demonstra a total ineficácia da hidroxicloroquina no tratamento de COVID19 (ver aqui e aqui, por exemplo), políticos e entusiastas destes mesmos governantes se veem na posição de ter que defender pseudociência por motivos meramente ideológicos. E é nesse momento que vemos as pessoas se agarrarem cada vez mais desesperadamente à argumentos falaciosos para defender sua posição. No caso da hidroxicloroquina, como coloquei anteriormente, surge essa ideia de que seu efeito positivo não pode ser negado, pois seria impossível demonstrar uma negativa. Como já argumentei, essa afirmação é falsa (é incrivelmente simples demonstrar um negativo). Mas seria esse o caso da hidroxicloroquina?

Pra entender isso, precisamos entender um pouco como supostamente a hidroxicloroquina deveria funcionar. Para entrar nas c√©lulas animais, o coronav√≠rus pode se valer de dois mecanismos. O primeiro √© se ligando a receptores de superf√≠cie das c√©lulas do hospedeiro para introduzir o seu material gen√©tico diretamente no interior da c√©lula. No segundo mecanismo, o v√≠rus √© absorvido por invagina√ß√Ķes da membrana celular (endossomos) e invadem o citoplasma celular a partir da√≠. Esse segundo mecanismos, o realizado por endossomos, necessita de uma prote√≠na funcional chamada catepsina L, que necessita de um meio √°cido para funcionar. Nesse contexto, a hidroxicloroquina atua diminuindo a acidez do meio intracelular, impedindo a a√ß√£o da catepsina L, impedindo a entrada do coronav√≠rus na c√©lula. Para voltar para nossas preposi√ß√Ķes, podemos descrever a atua√ß√£o da hidroxicloroquina da seguinte forma:

  • P1- Para a hidroxicloroquina funcionar no combate a COVID19 ela necessita prevenir a entrada do coronav√≠rus nas celulas pulmonares humanas.
  • P2- Hidroxicloroquina diminui a acidez intracelular, afetando o funcionamento da catepsina L.
  • P3- Catepsina L √© usada pelo coronav√≠rus para entrar na c√©lula.

Segundo essa lógica Рe essa era a lógica que poderíamos aceitar no começo do ano Рa hidroxicloroquina (potencialmente) funcionaria no combate a COVID19. Mas o diabo mora nos detalhes. As células usadas inicialmente para demostrar que a hidroxicloroquina funciona in vitro eram culturas de células de rins de macacos. Essas células normalmente apresentam resultados bons o suficiente para a maior parte dos fármacos, porém no caso do coronavírus a coisa parece ser mais complicada. Enquanto é verdade que em células de rim a Catepsina L é essencial para a ação de entrada do vírus, células pulmonares humanas não apresentam essa enzima em grandes quantidades. Ao invés, o mecanismo de entrada do coronavírus na célula é mediada por uma enzima chamada TMPRSS2. O problema é que, diferente da Catepsina L, o funcionamento da TMPRSS2 não é afetado pela alteração da acidez do meio celular. De fato, um estudo recente em células pulmonares humanas demonstrou que a hidroxicloriquina é incapaz de impedir a invasão das células pelo coronavirus. Assim, podemos atualizar a descrição da atuação da hidroxicloroquina da seguinte forma:

  • P1- Para a hidroxicloroquina funcionar no combate a COVID19 ela necessita prevenir a entrada do coronav√≠rus nas celulas pulmonares humanas.
  • P2- Hidroxicloroquina diminui a acidez intracelular, afetando o funcionamento da catepsina L.
  • P3- Catepsina L √© usada pelo coronav√≠rus para entrar em c√©lulas de rim.
  • P4- TMPRSS2, que √© usada pelo coronavirus para entrar em c√©lulas pulmonares, n√£o √© afetada pela hidroxicloroquina.

E disso segue que

  • C- Hidroxicloroquina n√£o funciona no combate a COVID19 atrav√©s do mecanismo proposto.

O que mostra que é plenamente lógico afirmar que a hidroxicloroquina não funciona.

√ďbvio que isso n√£o vai satisfazer os defensores da droga, pois in√ļmeros outros mecanismos podem ser propostos, inclusive mecanismos sem o menor respaldo cient√≠fico, como foi o caso da “p√≠lula do c√Ęncer”, uma droga sem efeito tamb√©m defendida pelo presidente da rep√ļblica.

Eu acredito que a luta pela hidroxicloroquina vai durar muito mais tempo depois que sua discussão acadêmica estiver de fato encerrada. Estamos entrando em um caminho onde teorias conspiratórias, pseudociência e pseudofilosofia estarão intrinsecamente ligados com a política nacional. Vai ser um caminho tortuoso. Boa sorte a todos nós.

*Para os nerds: sim, eu estou mais que ciente das problematicas sobre o grau de confiabilidade em resultados experimentais e estat√≠sticos. Voc√™ pode transformar todos esses argumentos em probabil√≠sticos e chegar a conclus√£o que a hidroxicloroquina muito provavelmente n√£o funciona (o que √© basicamente a mesma, visto que a unica “certeza” que podemos ter em termos cient√≠ficos s√£o aquelas referentes √† altas probabilidades).

Alguns n√ļmeros sobre a reforma da previd√™ncia

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H√° alguns dias eu divulguei o texto O que n√£o te contaram sobre a Reforma da Previd√™ncia que apresentava algumas avalia√ß√Ķes sobre os poss√≠veis impactos da nova reforma da previd√™ncia. Uma das conclus√Ķes desse artigo que mais me chamaram a aten√ß√£o est√° representada na figura abaixo, no qual o autor mostra que, se a idade m√≠nima de aposentadoria fosse a proposta pelo governo (65 anos), brasileiros teriam aproximadamente 6 meses de vida saud√°vel ap√≥s a aposentadoria, enquanto os demais pa√≠ses usados como compara√ß√£o teriam em m√©dia 6 anos.

 

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Por√©m algumas pessoas levantaram em resposta a esse texto, inclusive na sess√£o de coment√°rios do artigo, que esta conclus√£o estava equivocada por se basear na expectativa de vida m√©dia com sa√ļde chamada HALE (uma modifica√ß√£o da expectativa m√©dia ao nascer). O argumento √© que, para saber quanto tempo de vida uma pessoa vai ter aposentada, o que importa √© a expectativa de vida m√©dia na idade da aposentadoria, e n√£o a no nascimento, que est√° influenciada por diversos fatores, como por exemplo moralidade infantil e morte na juventude em decorr√™ncia de viol√™ncia.

E sim, de fato o Brasil √© um dos pa√≠ses com mortalidade infantil mais elevada, o que parece impactar negativamente a expectativa m√©dia ao nascimento. No gr√°fico abaixo eu mostro a rela√ß√£o entre a expectativa de vida ao nascimento contra a expectativa de vida aos 65 anos (tamb√©m chamada de expectativa de sobrevida) e √© f√°cil ver que Brasil, R√ļssia e M√©xico tem uma expectativa de sobrevida muito superior a o que √© esperado pela sua expectativa de vida ao nascimento.

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Rela√ß√£o entre expectativa de vida (ao nascimento) e expectativa de sobrevida (aos 65 anos). Reta representa uma regress√£o por quadrados m√≠nimos ignorando os pa√≠ses mais divergentes (R√ļssia, M√©xico e Brasil).

 

Ent√£o me parece que, se “o que importa” √© de fato a idade ao se aposentar, ent√£o dever√≠amos observar e comparar o Brasil em rela√ß√£o a outros pa√≠ses que tem aposentadoria minima de 65 anos e qual √© a taxa de sobrevida m√©dia desses pa√≠ses e tirar da√≠ nossas conclus√Ķes. Nos gr√°ficos abaixo eu compilei a taxa de sobrevida aos 65 anos dos pa√≠ses da OCDE (os mesmo usados para justificar a proposta do governo) que fixaram a idade m√≠nima de aposentadoria aos 65 anos .

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Expectativa de sobrevida de homens em países da OCDE que apresentam idade mínima de aposentadoria aos 65 anos.

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Expectativa de sobrevida de mulheres em países da OCDE que apresentam idade mínima de aposentadoria aos 65 anos.

Observando esses gr√°ficos podemos observar duas coisas principais. 1- Dentro dos pa√≠ses escolhidos como crit√©rio de compara√ß√£o, o Brasil se encontra entre os com taxa de sobrevida mais baixa. 2- A taxa de sobrevida √© de 16.6 anos para homens e 19.7 para mulheres. Ou seja, enquanto √© verdade que, uma vez que voc√™ se aposente, voc√™ vai ter mais de uma d√©cada e meia de sobrevida, o Brasil ainda est√° dentre um dos piores pa√≠ses com regras similares para a aposentadoria.

Se observarmos o caso dos homens (que apresenta muitos mais pontos de compara√ß√£o, visto que a maioria dos pa√≠ses admite idades distintas para homens e mulheres), vemos que o Brasil se agrupa com pa√≠ses como M√©xico e Chile, o que me parece esperado visto que s√£o ambos pa√≠ses latino-americanos com mais similaridades geopol√≠ticas conosco do que os demais pa√≠ses listados. Vale tamb√©m notar que essas diferen√ßas s√£o pequenas e que, para ambos os sexos, a expectativa de sobrevida brasileira difere da m√©dia em 1.25 anos para homens e 1.35 anos para mulheres.

Ent√£o, ao menos desse ponto de vista, n√£o parece que a reforma da previd√™ncia √© particularmente danosa, principalmente de quem j√° ganha o benef√≠cio m√≠nimo. Por√©m me parece que um dos maiores receios das pessoas est√° na ideia de que voc√™ vai morrer sem se aposentar, e os dados expostos acima n√£o resolvem essa quest√£o. Afinal, se voc√™ j√° se aposentou, voc√™ est√° fora da demografia para qual esse medo √© uma realidade. Me parece que uma avalia√ß√£o mais precisa dessa quest√£o deva ser feita n√£o confrontando expectativas de vida, mas quantas pessoas de fato morrem antes de atingir 65 anos e que antes poderiam se aposentar. Se usarmos a idade m√©dia de aposentadoria no brasil como par√Ęmetro (59 anos), vamos que entre a faixa etaria de 55-59 anos e a de 65-69 anos temos uma perda de aproximadamente 2 milh√Ķes de homens e 2 milh√Ķes de mulheres, o que totaliza 2% da popula√ß√£o. Por√©m, isso √© um cen√°rio extremamente pouco conservador, visto que a maioria dos brasileiros j√° se aposentam por idade e n√£o por tempo de contribui√ß√£o. Se considerarmos apenas os aposentados por tempo de contribui√ß√£o (que se aposentam em m√©dia com 55 anos), esse valor seria reduzido para menos de 1% da popula√ß√£o. Esse valor √© alto? Dificil dizer. Obviamente √© m√° not√≠cia para as pessoas diretamente afetadas, mas est√° longe de ser catastr√≥fico.

Enfim, o que tudo significa? Que a reforma proposta pelo governo é a melhor possível? Provavelmente não. Mas também não significa que todo argumento em favor ou contra ela é automaticamente bom.

 

Olavo de Carvalho fala que procurar B√≥son de Higgs √© “coisa de QI 12”

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A primeira vez que cruzei com o sr. Olavo de Carvalho foi na era pr√©-google da internet, antes de entrar na faculdade, quando frequentava sites de m√≠dia alternativa e de movimentos sociais. Na √©poca, coment√°rios no site do Centro de M√≠dia Independente deram a entender que contribuidores de outro site, o M√≠dia Sem Mascara, um site de noticias e teorias conspirat√≥rias de direita comandado pelo Sr. Olavo, estavam tentando plantar um coment√°rio no CMI amea√ßando o sr. Olavo de morte. A motiva√ß√£o seria ferir a credibilidade do CMI, por algum motivo pol√≠tico que me foge.

Essa foi a primeira vez que vi esse tipo de embate na internet, com fac√ß√Ķes bem definidas, que se odiavam e usavam de todas as t√°ticas para minar seus oponentes. Obviamente nessa √©poca eu n√£o sabia da exist√™ncia de criacionistas. Bons tempos…

De qualquer forma, de l√° para c√° o sr. Olavo parece ter capitalizado em cima da sua influencia intelectual, gerando uma esp√©cie de culto a personalidade que o tem em alta estima. Talvez o √°pice da sua popularidade foi ter atra√≠do a aten√ß√£o de artistas conservadores como Dan√≠lo Gentili e Lob√£o, que parecem o usar como fonte para suas…. err… “teorias” sociol√≥gicas. O sr. Olavo se vangloria de grandes feitos, como ter refutado cientistas como Einstein, Darwin e Newton. O Sr. Carvalho tamb√©m defende que o Sol gira em torno da Terra, que a Pepsi usa fetos para ado√ßar suas bebidas, que existem evidencias cient√≠ficas para experi√™ncia extra-corp√≥reas e que existe uma conspira√ß√£o global comunista. Ouro puro.

Em um v√≠deo postado recentemente no youtube, Olavo ataca de novo a f√≠sica moderna, comentando especificamente sobre o B√≥son de Higgs.

[youtube_sc url=”https://www.youtube.com/watch?v=RkpdtZNiv44&”]

No v√≠deo, um de seus alunos faz uma coloca√ß√£o de que a busca pela Part√≠cula de Deus (o B√≥son de Higgs) seria um “del√≠rio cientificista”. O que ele quer dizer exatamente com isso, s√≥ deus sabe, o que n√£o parece impedir o sr. Carvalho de opinar a respeito. Segundo ele:

Veja…. Se voc√™ tentar encontrar a raz√£o da exist√™ncia da mat√©ria numa part√≠cula da mat√©ria… √© coisa de QI 12.

O que me parece que o sr. Olavo est√° querendo apontar √© que existe uma contradi√ß√£o em tentar explicar toda a exist√™ncia atrav√©s de uma part√≠cula da mat√©ria, visto que a part√≠cula seria tamb√©m material, o que implicaria que toda a mat√©ria n√£o teve sua origem explicada.

Apesar de parecer que o sr. Olavo tem um ponto aqui, existem duas quest√Ķes que precisam ser elucidadas: 1) o B√≥son de Higgs n√£o est√° procurando explicar a exist√™ncia da mat√©ria e 2) mesmo se estivesse, a detec√ß√£o do B√≥son seria apenas a corrobora√ß√£o de uma teoria, e essa sim √© que apresenta poder explicativo.

O primeiro ponto é o mais simples. O Bóson de Higgs procura explicar o porque as partículas elementares apresentam massa diferente de zero. O Bóson é parte do Modelo Padrão de física de partículas, que descreve a composição da matéria e como seus diferentes constituintes interagem.

Talvez a confus√£o do sr. Olavo e seu aluno venha do fato de que o B√≥son foi chamado de “a Part√≠cula de Deus” em um livro de autoria do f√≠sico Dr. Leon M. Lederman. Talvez por suas predisposi√ß√Ķes religiosas (o sr. Olavo √© um crist√£o convicto) somadas a uma certa quantidade de ignor√Ęncia sobre o assunto, ambos parecem assumir que se algo tem o nome de “Deus”, ent√£o ele deve explicar tudo. O problema desse racioc√≠nio √© √≥bvio, mas para piorar ainda mais, o nome de “Part√≠cula de Deus” foi uma decis√£o editorial. Segundo o Dr. Lederman:

Porque a Part√≠cula de Deus? Bom, duas raz√Ķes. Primeiro, o editor n√£o nos deixou chamar de “A Part√≠cula Maldita”, apesar desse ser um t√≠tulo mais adequado dada a sua natureza trai√ßoeira e o trabalho que ela tem causado. A segunda √© que ele [o nome] tem uma conex√£o com outro livro, um muito mais antigo…

E aqui Lederman est√° se referindo ao Genesis B√≠blico. Ent√£o, apesar da confus√£o ser compreens√≠vel, √© v√°lido notar que o que importa para a validade de uma empreitada cient√≠fica √© a validade das suas premissas te√≥ricas, e n√£o o maldito nome que associaram a ela.

Agora ao segundo ponto. Vamos assumir que existe uma hip√≥tese que explica a exist√™ncia de toda a realidade e de todas as propriedades de todas as coisas que nela residem. Agora ainda assumir que essa hip√≥tese prediz que, se ela √© verdade e se todos os processos que ela descreve aconteceram, ent√£o poder√≠amos ver um sinal disso na natureza, como na presen√ßa de uma part√≠cula elementar qualquer. Podemos colocar isso em um formato silog√≠stico simples:

  • P1- A hip√≥tese X contem modelos e processos.
  • P2- Um desses modelos prev√™ a exist√™ncia de uma part√≠cula na natureza

Agora, vamos assumir ainda que

  • P3- Tal part√≠cula existe na natureza

Isso significa que a hip√≥tese X est√° correta? Bem, n√£o. Essa quest√£o remete ao problema da indu√ß√£o em ci√™ncia, na qual n√£o existe um numero finito de observa√ß√Ķes que possa corroborar qualquer generaliza√ß√£o.

Por√©m, observar a presen√ßa de tal part√≠cula definitivamente significa que n√£o podemos dizer que ela √© falsa. Isso, em ci√™ncia, √© o suficiente para constituir uma “hip√≥tese de trabalho”, uma hip√≥tese provis√≥ria que ser√° subsequentemente testada e, se todas as tentativas de demonstra-la como sendo falsa falharem (ou se todos as observa√ß√Ķes forem consistentes com a hip√≥tese), ent√£o essa ideia pode se consolidar na ci√™ncia com um alto grau de certeza.

O ponto central disso tudo √© que, se observamos a part√≠cula, o que contem poder explicativo √© a hip√≥tese, e n√£o o fato. Fatos n√£o explicam nada, e apesar de o Olavo colocar esse ponto (de certa forma), ele parece confundir deliberadamente o que √© fato e o que √© hip√≥tese para fazer uma afirma√ß√£o verdadeira (“fatos n√£o apresentam poder explicativo”), por√©m irrelevante fora da representa√ß√£o fantasiosa de o que cientistas realmente fazem. √Č um festival de bobagem.

Ou, quem sabe, o Olavo acabou de refutar a priori o modelo padr√£o da f√≠sica de part√≠culas. Mais uma refuta√ß√£o colossal para a lista dele, eu suponho…

Criacionista da Terra Jovem distorce pesquisa de brasileiros para corroborar o Design Inteligente

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Esse √© Dr. Marcos Nogueira Eberlin. Professor da Unicamp. Pesquisador. Membro da Associa√ß√£o Brasileira de Ci√™ncia. Criacionista. Eberlin √© um daqueles esp√©cimes raros que acredita na literalidade do livro Genesis. O que o torna mais raro ainda √© o fato de ser um pesquisador de alto impacto, apresentando um √≠ndice de produtividade impressionante para qualquer √°rea de conhecimento acad√™mico (mais de 800 artigos publicados, citados mais de mil vezes).

Talvez por ser um daqueles poucos criacionistas com credenciais cient√≠ficas, Dr. Marcos Ebelin se tornou um garoto propaganda do Design Inteligente, uma vers√£o menos pretensiosa do criacionismo, que apenas busca demonstrar que algum aspecto da realidade (normalmente focando em organismos e estruturas biol√≥gicas) foi criado por uma intelig√™ncia divina superpoderosa. A despeito disso, Ebelin em todo o seu discurso se assemelha mais a um criacionista terra jovem, tomando como literal os relatos b√≠blicos da cria√ß√£o especial (m√°gica) das esp√©cies e na historicidade do dil√ļvio universal de No√©.

Com o tempo, Dr.Eberlin perdeu toda e qualquer pretens√£o de sutileza ao defender suas cren√ßas anti-cient√≠ficas, utilizando-se do facebook como sua principal m√≠dia. Dentre referencias abundantes a sites criacionistas como o answersingenesis.org, podemos encontrar posts como o abaixo:

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De onde saem informa√ß√Ķes como a de que somos mais similares a porcos do que a chimpanz√©s (chamados de “chimpas”) me √© um mist√©rio. Mas talvez o mais impressionante √© o estilo de escrita e argumenta√ß√£o utilizado por um pesquisador que estaria dentre um dos mais produtivos do Brasil.

Recentemente o Dr. Eberlin resolveu argumentar, em uma série de posts em sua página pessoal, que algumas pesquisas desenvolvidas por pesquisadores brasileiros corroborariam o Design Inteligente:

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Nesse post o Dr. Eberlin sugere que a pesquisa referida corroboraria a hip√≥tese de Design Inteligente, e ainda sugere que isso n√£o foi dito no texto do artigo pois tais especula√ß√Ķes seriam proibidas dentro da academia (referida pelo Dr. Eberlin como Akademia, talvez como uma referencia √† Nomenklatura, um meme usado por outro criacionista brasileiro).

Intrigado com essa afirma√ß√£o, eu resolvi perguntar diretamente ao principal autor do trabalho, o Dr. Marcus Smolka, se seu trabalho poderia ser interpretado como uma corrobora√ß√£o do Design Inteligente. Abaixo reproduzo na integra a resposta do Dr. Smolka:

Ol√° Fabio,

Obrigado pela mensagem. Definitivamente NÃO concordo que minha recente publicação seja suporte, em qualquer maneira, para a idéia de DI. O Prof. Eberlin tem o direito de interpretar meu texto do jeito que quiser, porém, me parece que ele esteja fazendo um jogo equivocado de palavras para tentar vender a idéia de DI. Realmente não entendo a lógica dele. Pessoalmente, acho um desfavor a ciência.
Um abraço,
Marcus

Ou seja, nada no resultado reportado na revista Molecular Cell est√° sustentando a tese criacionista do design inteligente.

Pode parecer picuinha, mas esse caso evidencia o Modus Operandi dos criacionistas do DI: eles n√£o produzem nada que corrobore sua tese, se limitando a canibalizar os esfor√ßos alheios, distorcendo os achados e interpretando-os de forma que os beneficie.

Isso n√£o √© uma pr√°tica honesta, e n√£o √© algo que um pesquisador do calibre do Dr. Eberlin deveria se reduzir a fazer. Mas √© exatamente isso que ele faz.

Só nos resta perguntar o porque.

Em defesa do CFBio contra o Criacionismo

projeto de lei 8099 - criacionismo

 

Recentemente o Conselho Federal de Biologia (CFBio) publicou uma nota repudiando a PL8099 do Pastor e Deputado (nessa ordem de import√Ęncia) Marcos Feliciano que tornaria o ensino do Criacionismo obrigat√≥rio em escolas. O projeto de Lei em si √© um absurdo pelo festival de equ√≠vocos e imprecis√Ķes. Nesse sentido, o CFBio se adicionou a uma multiplicidade de associa√ß√Ķes acad√™micas e de ensino no rep√ļdio dos avan√ßos dos projetos criacionistas no Brasil, dentre elas:

Por√©m o que me chamou mais aten√ß√£o foi a publica√ß√£o do Maur√≠cio Tuffani no seu blog na Folha. Segundo Tuffani (divulgador que eu respeito bastante), a afirma√ß√£o do CFBio foi equivocada, principalmente por conta da √ļltima frase na seguinte cita√ß√£o:

Ao contr√°rio do que est√° exposto no PL 8099/2014, a Teoria da Evolu√ß√£o n√£o √© uma cren√ßa e, portanto, n√£o tem nenhum fundamento dizer que ensinar evolu√ß√£o nas escolas √© violar a liberdade de cren√ßa. O evolucionismo se baseia em observa√ß√Ķes fundamentais e em pesquisas cient√≠ficas que surgiram com experimentos devidamente comprovados. A Evolu√ß√£o das esp√©cies atrav√©s da sele√ß√£o natural n√£o √© uma teoria, mas uma cole√ß√£o de fatos amplamente comprovados.

Segundo Tuffani, o texto se contradiz ao dizer que a teoria evolutiva é primeiramente uma teoria e depois que ela não é uma teoria, mas uma coleção de fatos. Além disso:

 Ao negar, em vez de corrigir, a falaciosa afirma√ß√£o de que ‚Äúa evolu√ß√£o √© s√≥ uma teoria‚ÄĚ, at√© mesmo alguns cientistas acabam afirmando uma grande bobagem, a de que a teoria da evolu√ß√£o √© cientificamente comprovada. √Č uma bobagem porque nenhuma teoria cient√≠fica pode ser comprovada. E a explora√ß√£o dessa bobagem tem feito sucesso.

Tuffani aqui se refere √† t√°tica criacionista de tentar igualar o termo “Teoria” no seu uso cientifico, que √© um conjunto de modelos que busca explicar uma cole√ß√£o de fen√īmenos, com o seu uso informal, que seria algo como um chute ou uma opini√£o n√£o corroborada. Segundo os criacionistas, o fato de a Teoria Evolutiva ser chamada de “teoria”, demonstra que ela n√£o √© corroborada, logo pode ser descartada em favor de outra teoria qualquer, como o Criacionismo. O Tuffani faz um bom trabalho de evidenciar essa quest√£o, ent√£o sugiro ler o post dele para essa quest√£o.

Por√©m eu n√£o pude deixar de demonstrar espanto com o posicionamento do Tuffani, visto que a vis√£o exposta no site do CFBio √© id√™ntica a o que muitos bi√≥logos e defensores da evolu√ß√£o defendem: de que evolu√ß√£o, al√©m de uma Teoria, √© um Fato. Se olharmos por esse lado, o texto do CFBio n√£o √© contradit√≥rio, pois primeiramente fala sobre a Teoria evolutiva, e depois se refere ao fato (ou fatos) da evolu√ß√£o. Nada de espantoso.

Agora, eu sou completamente contr√°rio a essa ideia: nada pode ser um fato e uma teoria ao mesmo tempo. J√° escrevi alguns posts sobre o assunto e pretendo retomar essa discuss√£o algum dia:

Mas o ponto é, essa ideia de que evolução é um fato é extremamente difundida, e não é nem de longe algo que é obviamente errado para a maioria de pesquisadores e leigos que aceitam a evolução.

Eu concordo com Tuffani de que tal vis√£o √© equivocada e que o CFBio errou em n√£o abordar o equivoco central na tese criacionista. Por√©m tamb√©m compreendo que o CFBio n√£o √© uma entidade acad√™mica, e que est√° apenas expressando o que eles acreditam ser uma tese correta, tendo em vista a difus√£o dessa ideia dentre bi√≥logos.

Em outras palavras: pisaram na bola, mas é compreensível.

Não façam de novo.

Feio.

Deus é o ovo

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Cientificismo, segundo o filosofo Tom Sorell, √© a “demasiada valoriza√ß√£o da capacidades da ci√™ncia natural em compara√ß√£o com outros ramos do aprendizado ou cultura”. Em outra palavras, √© o uso inapropriado da ci√™ncia e das teorias cient√≠ficas para explicar fen√īmenos que normalmente n√£o s√£o da al√ßada de uma √°rea de conhecimento espec√≠fica.

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“Hey, bob. Que tal a gente elaborar um construto social elaborado, com rela√ß√Ķes complexas com mitos de nossa cultura para que a gente possa, eventualmente, comer um bif√£o?”

Stephen Jay Gould deu um exemplo disso em seu artigo sobre o “adaptacionismo” nas ci√™ncias biol√≥gicas, que √© a tentativa de explicar todo e qualquer fen√īmeno nos organismos vivos como sendo produto de sele√ß√£o natural. Em seu artigo co-autorado por Richard Lewontin entitulado “The Spandrels of San Marco and the Panglossian Paradigm: A Critique of the Adaptationist Programme” de 1979, Gould exemplifica a quest√£o quando critica a sugest√£o de E. O. Wilson, pai da sociobiologia, de que o consumo de carne humana (canibalismo) em culturas astecas poderia ser um reflexo de uma falta cr√īnica de prote√≠na animal, ignorando toda uma literatura antropol√≥gica avaliando o significado e as poss√≠veis causas culturais de tal fen√īmeno.

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O que acontece com um paleontólogo ao escutar que dinossauros são uma construção social.

 

Usualmente a acusa√ß√£o de “cientifismo” √© aplicado ao uso de ciencias naturais (qu√≠mica, f√≠sica, biologia, geologia, etc) em outras √°reas, usualmente humanas. Mas n√£o h√° nenhum motivo para que o emprego do termo seja assim√©trico: muito do chamado “p√≥s-modernimo” √© o emprego de t√©cnicas e conceitos provenientes das humanidades, principalmente cr√≠tica liter√°ria, em outras ci√™ncias. Nesses casos a validade de uma teoria cient√≠fica deixa de ser avaliada de acordo com sua adequa√ß√£o √†s evid√™ncias emp√≠ricas (marca fundamental das ci√™ncias) e passa a ser avaliado quanto a sua adequa√ß√£o √† ideologias e processos sociais. A validade da evolu√ß√£o deixa de ser seu escopo explicativo, mas um julgamento da cultura que permitiu o surgimento dessa teoria (europ√©ia, renascentista, branca e machista), e o significado dessa ideia para a sociedade.

Acusa√ß√Ķes de cientificismo tamb√©m s√£o comumente usadas por alguns religiosos e te√≥logos ao acusar cientistas de tentar “opinar” em assuntos religiosos do ponto de vista cient√≠fico. Por exemplo, Victor Stenger, no seu livro “The Fallacy of Fine-tunning” afirma que

“(…) as observa√ß√Ķes da ci√™ncia e dos nossos sentidos n√£o apenas mostram a aus√™ncia de evidencias para [a exist√™ncia] de Deus mas tamb√©m d√£o evidencias para al√©m da qualquer d√ļvida razo√°vel de que um Deus que tem um papel t√£o importante e cotidiano no universo como o Deus Judaico-Crist√£o-Islamico n√£o existe”

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“Meus super-sentidos n√£o detectam a presen√ßa de nenhuma entidade omnipontente, omniciente e omnibenevolente no universo. Parece que sou a √ļnica divindade solar por aqui mesmo…”

Segundo alguns religiosos, usar a ci√™ncia para analisar afirma√ß√Ķes sobre o supernatural e o divino s√£o exemplos de cientificismo, visto que √© a utiliza√ß√£o da ci√™ncia (natural, normalmente) em uma √°rea na qual ela n√£o se adequa, que seria a teologia.

Visto que a acusa√ß√£o de cientificismo √© t√£o rotineiramente utilizada por intelectuais religiosos para defender sua f√© de intelectuais ateus, me soa particularmente ir√īnica a utiliza√ß√£o de achados cient√≠ficos como base para afirma√ß√Ķes de f√©. Um exemplo claro disso √© no chamado “Argumento Cosmol√≥gico para a Exist√™ncia de Deus”. O argumento tem a seguinte forma:

  • [P1]- Tudo que que come√ßa a existir tem uma causa
  • [P2]- O universo come√ßou a existir
  • [C]- o universo tem uma causa (que √© Deus, por sinal)

A validade da conclus√£o depende da validade das premissas, e o que √© usualmente utilizado para corroborar a segunda premissa, √© a teoria do Big-Bang, que afirma que o universo vis√≠vel atual teve uma origem em um ponto espec√≠fico de nosso passado, aproximadamente a 15 bilh√Ķes de anos atr√°s.

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Bom, acho que isso explica o per√≠odo inicial de infla√ß√£o c√≥smica…

 

Obviamente eu n√£o estou sugerindo que te√≥logos n√£o deveriam se basear em ci√™ncia e fatos conhecidos para tirar suas conclus√Ķes sobre o universo. Por√©m essa empreitada √© f√ļtil quando todos os argumentos baseados em ci√™ncia s√£o necessariamente provis√≥rios e tentativos, o que est√° em claro desacordo com a necessidade do te√≥logo de se comprometer com uma conclus√£o espec√≠fica.

Robert M. Price brilhantemente exemplificou essa quest√£o durante durante um debate com o filosofo e apologeta crist√£o William Lane Craig sobre a exist√™ncia da figura hist√≥rica de Jesus Cristo:

Historiadores cr√≠ticos n√£o est√£o engajando em epistemologia metaf√≠sica como se eles pudessem saltar em uma m√°quina do tempo e pontificar “‘A’ n√£o aconteceu, ‘B’ sim!”. De novo, Craig e seus irm√£os est√£o apenas projetando. S√£o eles, e n√£o os historiadores cr√≠ticos que querem poder apontar para resultados absolutos. Imagine um credo “Se tu confessar da tua pr√≥pria boca ao Senhor Jesus e acreditar em seu cora√ß√£o que Deus provavelmente ressuscitou-o dos mortos, tu provavelmente ser√°s salvo”. Na cara de quem est√° a piada aqui?

No caso do Big Bang e do argumento cosmol√≥gico, a piada √© mais √≥bvia ainda. Quando em 1951 o papa Pio XVII quis alardear que o Big Bang era comprova√ß√£o de que o catolicismo era verdade (justamente pelo Argumento Cosmol√≥gico), Georges Lema√ģtre, o primeiro proponente desse modelo cosmologico e padre o impediu, afirmando que sua teoria era neutra a respeito da exist√™ncia de Deus. E ele obviamente deveria ter que fazer isso. Caso o contr√°rio, se Deus fosse uma conclus√£o com base em um modelo cient√≠fico, se tal modelo cai, Deus cai tamb√©m. E visto que Lema√ģtre (assim como qualquer outro cat√≥lico e crist√£o no mundo) provavelmente n√£o estava preparado para abandonar a cren√ßa em um Deus apenas pela refuta√ß√£o de uma teoria cient√≠fica, ele argumentou contra a associa√ß√£o de ambos. Defensores do Design Inteligente e criacionistas n√£o tem essa clareza: uma vez que suas hip√≥teses foram refutadas (e todas elas foram), tudo o que lhes resta √© negar a ci√™ncia. √Č o cientificismo levando ao anti-intelectualismo.

Mas caso nada disso tenha ficado claro, aqui vai um exemplo mais simples: sabe aquela história de que em uma semana os médicos e pesquisadores afirmam que ovo faz mal, e em outra eles afirmam que ele faz bem, nunca chegando a um consenso, se contradizendo e refutando um ao outro recorrentemente?

Imagina que Deus é o ovo.

O lado negro de compartilhar videos de animais fofos na internet

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[AVISO: esse post contem imagens fortes]

Quem n√£o gosta de compartilhar animais fofos na internet? Os gatos s√£o inegavelmente os reis da rede, mas outras esp√©cies menos comuns recentemente ganharam popularidade. Filhotes de lontra abandonadas? Quase 8 milh√Ķes de visualiza√ß√Ķes. Quatis sonolentos sendo acariaciados? Quase 6 milh√Ķes.

Talvez o grande apelo desses videos seja o fato de que as pessoas s√£o expostas a animais que antes eram desconhecidos, e ficam surpresos em como esses animais podem ser belos, inteligentes e, sem sombra de duvida, fofos. E que mal h√° em dividir um pouco de fofisse animal na rede?

Segundo o artigo de Nekaris e colaboradores publicado na PLOS em 2013, talvez a atividade n√£o seja t√£o inocente assim.

Os autores analisaram um video de um Loris recebendo c√≥cegas e aparentemente gostando da experi√™ncia. Um loris, para quem n√£o sabe (ver foto acima), √© um tipo de primata associado √† l√™mures. Recebem muitas vezes a alcunha “lentos” por se movimentarem de forma pausada por entre as √°rvores. Assim como grandes primatas (como chimpanz√©s, gorilas e humanos) n√£o possuem rabos, mas isso √© uma converg√™ncia evolutiva, ou seja, n√£o √© explicado por ancestralidade comum. Diferente da maioria dos mam√≠feros, os loris apresentam um arma muito estranha: uma gl√Ęndula de veneno no sovaco. A secre√ß√£o dessa gl√Ęndula, quando misturada com saliva, confere aos loris uma mordida venenosa, usada para ca√ßar pequenas presas e para defesa de predadores e competidores.

 

De qualquer forma, por motivos que me fogem completamente, esse video foi visualizado um numero gigantesco de vezes, ultrapassando a marca de 12 milh√Ķes de visualiza√ß√Ķes, se somarmos todas as vers√Ķes do video.

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Tabela 1 de Nekaris e colaboradores (2013) mostrando o total de visualiza√ß√Ķes do video do Loris em diversos canais do YouTube e Vimeo.

Ok, e qual é o problema? Os autores apontam que nesses videos, os principais tipos de comentários se referiam sobre o como os animais eram bonitinhos, sobre o que ele estava fazendo e sobre como o comentador queria um daqueles animais como bicho de estimação. E é nesse ultimo que mora o perigo.

Todas as esp√©cies de Loris se encontram amea√ßadas de extin√ß√£o por devasta√ß√£o de √°reas naturais, ca√ßa e, obviamente, por tr√°fico de animais para servirem de bichos de estima√ß√£o e ornamentais. Visto que a venda dessas esp√©cies √© considerada ilegal em grande parte das na√ß√Ķes desenvolvidas, √© muito prov√°vel que a presen√ßa desses animais nas m√£os de particulares implica na extra√ß√£o de animais da natureza para satisfazer nossa necessidade por fofura. Mas n√£o tem nada de fofo no que os animais passam para virarem “pets”.

O artigo de Nekaris e colaboradores citam alguns exemplos horr√≠veis: Em Taiwan, em 1993, uma remessa de losises pigmeus confiscadas teve uma taxa de mortalidade de 80%. Em Praga, entre 1990 e 2000, todos os lorises pigmeus confiscados entrando no aeroporto morreram durante a quarentena.

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Na esquerda, uma remessa confiscada na Thailandia de lorises pigmeus (exóticos à região). Na direita, uma remessa de animais (todos mortos) confiscada pelas autoridades da Indonésia de Lorises da Sumatra, a espécie mais ameaçada. Foto originalmente publicadas em Nekaris e colaboradores (2013).

E, como se não bastasse, animais que eventualmente sobrevivem a experiência tem que passar por mais um ritual bárbaro: a remoção de seus dentes incisivos, para impedir o envenenamento de seus futuros donos.

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Sim, isso é um cortador de unhas

A remoção dos dentes, além de ser potencialmente letal (até 34% de mortalidade em um dos casos relatados pelos autores), impede que os sobreviventes sejam reintroduzidos na natureza.

Mas o que isso tudo tem a ver com videos na internet? √Č bem simples: se esses animais s√£o o produto do trafego trafico de animais, esses videos s√£o a propaganda que exp√Ķem esses animais a novos mercados consumidores, em escala mundial. E o anuncio por parte de cerca de de 10% dos comentadores de que gostariam de ter esse animais pode ser um incentivo a mais para traficantes de animais intensificarem a explora√ß√£o de popula√ß√Ķes nativas.

Obviamente isso n√£o significa que tais videos devam ser removidos da rede. Isso √© quase que efetivamente imposs√≠vel. Mas os autores do artigo argumentam que campanhas de conscientiza√ß√£o podem reverter a opini√£o p√ļblica, e transformar uma “propaganda gratis” para traficantes de animais, em campanha de conscientiza√ß√£o contra a a explora√ß√£o desses animais.

Então, da próxima vez que você ver uma foto ou video de um animal silvestre fofo, lembre dos loris:

Traffic - In cage

e se pergunte: De onde esse animal vem? Ele √© amea√ßado de extin√ß√£o? Ele √© traficado ilegalmente?

E se alguma das ultimas perguntas for sim, talvez, por mais fofo que esses animais sejam, o lugar deles é na natureza ou, na pior das hipóteses, no zoológico*.

 

*Ver aqui e aqui para posts pr√©vios discutindo sobre o assunto.

Em tempos de FlaXFlu eleitoral…

Slide1

Essa discuss√£o entre direita e esquerda sempre me foi √°rida por um motivo simples: ambas as posi√ß√Ķes nunca me foram definidas de forma satisfat√≥ria pra mim.

Lembro que j√° escutei que, por defini√ß√£o, direita √© situa√ß√£o e esquerda √© oposi√ß√£o, o que faria com que a ditadura comunista stalinista fosse de direita e seus opositores capitalistas, como o pai da Ayn Rand, fossem de esquerda. Isso pode at√© ser verdade, mas n√£o indica nada do que a direita ou esquerda “acreditam”. √Č s√≥ um sin√īnimo para uma outra coisa.

Uma definição muito utilizada hoje em dia me parece a centrada no tamanho do estado: gente que defende estado mínimo seria de direita e gente que defende estado grande seria de esquerda. Isso colocaria todas as ditaduras na ala da esquerda, visto que seria necessário um estado forte para controlar todas as facetas de uma sociedade. Mas essa definição também parece ter problemas: no caso dos Estados Unidos, os Republicanos, normalmente associados à direita, defende um estado mínimo na economia, mas interferência estatal, na forma de leis, na vida privada. Isso mostra que existem formas diferentes de se defender o estado mínimo. Essa tensão levou a proposição de uma nova dimensão no espectro político que diz respeito ao tamanho do estado: de um lado temos totalitários (ditaduras) e do outro libertários, que defendem estado mínimo em todas as esferas políticas, inclusive a social.

diagrama de nolan
Diagrama de Nolan mostrando os espectros políticos: Esquerda-Direita e Totalistarismo-Anarquia.

Mas essa proposta n√£o parece muito satisfat√≥ria: inevitavelmente nossos partidos e pol√≠ticos parece adotar duas posturas distintas (esquerda X direita). Libert√°rios e totalitaristas costumam ser posi√ß√Ķes um tanto minorit√°rias (a ultima mais do que a primeira) que acabam se aliando a um lado ou a outro.

Mas ent√£o fica a pergunta: o que diabos seriam a esquerda e a direita?

As melhores defini√ß√Ķes que j√° vi s√£o as seguintes:

  • Direita: vis√£o ou posi√ß√£o pol√≠tica que aceita a hierarquia social ou desigualdade social como inevit√°vel, natural, normal, ou desej√°vel
  • Esquerda: vis√£o ou posi√ß√£o pol√≠tica que aceita ou suporta igualdade social

Nada inovador até aqui. Tirei da wikipédia. Mas me parece interessante mostrar que essa definição é objetiva e elegante. Segundo essa definição, o Nazismo era de direita, pois defendia as desigualdades inerentes às raças e o Stalinismo era de esquerda pois defendia a igualdade dentre as pessoas e o comunismo como meta.

Mas essas defini√ß√Ķes ainda n√£o parecem inteiramente satisfat√≥rias tamb√©m. Por exemplo, algu√©m pode ser de direita por defender que existem diferentes castas sociais indicadas por Deus, ou por acreditar que as desigualdades sociais s√£o geradas por um sistema natural social que vai privilegiar uns indiv√≠duos em detrimento de outros. S√£o duas posi√ß√Ķes que diferem porque tem motivos diferentes pelo qual aceitam as desiguales sociais. Serem ambas “de direita” n√£o indicam muito al√©m disso.

Nesse ponto vejo muita gente fazendo generaliza√ß√Ķes apressadas sobre as cren√ßas das pessoas baseadas na simples percep√ß√£o de onde tal pessoa cai nesse espectro pol√≠tico, e isso √© uma fal√°cia. Alguem pode ser um comunista porque defende o bolsa fam√≠lia, mas n√£o necessariamente. O que temos que fazer √© perguntar qual √© o motivo pelos quais as pessoas tem a sua vis√£o pol√≠tica e n√£o outras, e temos que estar prontos para dar os nossos motivos.

E apesar do grande envolvimento das pessoas nas m√≠dias sociais nessa ultima campanha eleitoral, eu vi pouqu√≠ssimas pessoas prontas para defender racionalmente suas posi√ß√Ķes pol√≠ticas, e isso tem que mudar.

Chega de Fla X Flu ideológico.

P.S: esse post foi escrito sem nenhum tipo de pesquisa prévia e sob a influencia de fortes anti-gripais.

Lugar de tigre é no zoológico

Recentemente tivemos uma fatalidade. Um garoto, aparentemente estimulado por seu pai, ultrapassou a grade de seguran√ßa de um zool√≥gico no munic√≠pio de Cascavel, no Paran√°, e foi atacado por um tigre. A les√£o resultou na amputa√ß√£o do bra√ßo direito do menino e, atualmente, o pai pode responder por les√£o grave.¬†Isso foi documentado por videos e fotos. Se voc√™ tiver est√īmago, acredito que consiga achar as imagens e v√≠deos por si s√≥.

Como de costume, esse evento foi o suficiente para despertar os trolls da internet, que formaram dois grupos de opini√Ķes: os primeiros eram favor√°veis √† eutan√°sia do animal, que obviamente seria¬†perigoso para o contato humano; o segundo grupo clamava pela cabe√ßa do pai, ao mesmo tempo que condenava o zool√≥gico por manter um animal selvagem em cativeiro.

Não vou criticar longamente a primeira posição. Afinal, essas pessoas parecem acreditar que, assim como cachorros, um tigre seria um animal domesticado que deveria estar capacitado à andar entre pessoas, sendo assim a eutanásia justificada. A estupidez dessa posição me é evidente. Vamos a segunda posição.

Tigre: uma espécie ameaçada

H√° cerca de um s√©culo, t√≠nhamos aproximadamente 100.000 tigres selvagens no mundo. Hoje esse numero n√£o passa de 3.200 esp√©cimes, uma redu√ß√£o de mais de 97% da sua popula√ß√£o nativa. As principais press√Ķes em popula√ß√Ķes naturais s√£o ca√ßa por pele, perda de habitat e ¬†morte por vingan√ßa:¬†devido a redu√ß√£o de seu habitat natural, tigres enfrentam escassez de alimentos, o que muitas vezes os for√ßa a atacar gado e outros animais dom√©sticos. Isso, por sua vez for√ßa moradores locais a¬†matar o predador¬†para preservar seu rebanho, algo muito similar ao que ocorre com on√ßas no brasil.

Parece horr√≠vel, e √©. Mas o ponto √© que tudo isso ocorre na natureza. Uma das grandes ilumina√ß√Ķes que¬†qualquer movimento conservacionista deve ter √© que tais press√Ķes em popula√ß√Ķes naturais ocorrem, principalmente,¬†por um motivo simples¬†s√£o tamb√©m fortemente influenciadas por dois motivos simples: crescente popula√ß√£o humana e desigualdade de renda. N√£o s√£o apenas popula√ß√Ķes ricas que vivem em enclaves de matas, cortando ilegalmente madeira para plantar beterrabas e criar carneiros. Pois √©… o Capit√£o Planeta estava errado.*

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РVamos, crianças, vamos descer o cacete naqueles pobres. Pela natureza!

 

O meu ponto √©: enquanto tivermos uma popula√ß√£o crescente e desigualdade de renda brutal, teremos problemas ambientais, especificamente os do tipo que causam o decl√≠nio de popula√ß√Ķes de mam√≠feros de grande porte, como o tigre.

Agora, vamos ser honestos: quais as chances disso acontecer em um tempo vi√°vel para salvar popula√ß√Ķes naturais que √†s vezes tem menos de 200 animais na natureza? Pois √©… foi o que eu pensei.

Conservação ex situ

Conserva√ß√£o ex situ √©, resumidamente, a conserva√ß√£o de esp√©cies biol√≥gicas fora de seu habitat natural (ex: fora, situ: sitio, local). Isso normalmente significa a conserva√ß√£o de animais em zool√≥gicos, aqu√°rios e santu√°rios e de plantas em jardins bot√Ęnicos. Muitas vezes essas institui√ß√Ķes tem programas espec√≠ficos de manuten√ß√£o de varia√ß√£o gen√©tica, por cruzamentos preferenciais, de forma a manter a viabilidade das esp√©cies, mesmo em cativeiro. Isso √© feito atrav√©s da manuten√ß√£o de registros minuciosos das rela√ß√Ķes de parentesco de animais em cativeiros ao n√≠vel global, que permite a realiza√ß√£o de trocas e cruzamentos em cativeiro de maneira informada.¬†Isso √© necess√°rio, pois na eventualidade de extin√ß√Ķes locais, tais popula√ß√Ķes podem ser reestabelecidas a partir de estoques em cativeiro. N√£o √© a melhor op√ß√£o, n√£o √© a mais usada, mas √© uma possibilidade.

Uma avalia√ß√£o desses registros tamb√©m demonstra um detalhe: a grande maioria dos animais em cativeiros nessas institui√ß√Ķes n√£o adv√©m da natureza, mas sim de programas de cruzamentos que j√° est√£o em vigor ha d√©cadas. Ou seja, com exce√ß√£o de animais que est√£o inviabilizados de serem reintroduzidos por diversos motivos como doen√ßas, inj√ļrias ou pelo simples fato de n√£o sabermos de onde eles vieram,¬†de modelo geral,¬†animais em cativeiro n√£o poderia ser liberados sem um programa muito especifico e custoso de reintrodu√ß√£o. Eles n√£o podem¬†e nem devem¬†ser liberados na natureza: al√©m de despreparados para cuidar da pr√≥pria subsist√™ncia, por estarem mais habituados √† presen√ßa de humanos, eles podem se tornar um perigo real para popula√ß√Ķes locais, como j√° acontece nos Estados Unidos com ursos. Esses animais precisam ser abatidos, e tigres liberados na natureza de forma displicente tamb√©m teriam que ser.

Defensores dos animais X prudência

Uma das coisas que mais me incomoda em alguns dos autoproclamados “defensores dos animais” √© sua aus√™ncia completa de pragmatismo: testes em animais √© errado, mas nenhuma alternativa racional √© proposta (com √™nfase no “racional”); zool√≥gicos s√£o antros de explora√ß√£o animal e deveriam ser fechados, mesmo que os ambientes naturais estejam degradados, e que popula√ß√Ķes naturais quase com certeza estejam fadadas √† extin√ß√£o. Acho que o melhor exemplo disso foi o recente post de nossa “defensora dos animais” favorita, Luisa Mell:

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Eu n√£o duvido por um momento que pessoas como a Luisa Mell agem por causa de sua empatia para com animais n√£o-humanos, algo que considero louv√°vel. Agora o que n√£o √© louv√°vel √© a utiliza√ß√£o de desinforma√ß√£o para manipular os sentimentos das pessoas para fortalecer o seu pr√≥prio ponto de vista, no caso, anti-capitalista.¬†De boas inten√ß√Ķes, o inferno est√° cheio. E o que sobra em qualquer movimento social, incluindo no movimento de defesa dos animais, s√£o boas inten√ß√Ķes.

Não, Luisa, esses animais não foram retirado de seu meio-ambiente. Eles nasceram em cativeiro e sua presença em zoológicos e outros centros de conservação ex situ se torna cada vez mais necessário em um mundo de crescente degradação ambiental e desigualdade social. Zoológicos precisam de mais recursos para tratar bem de seus animais e a cobrança de ingressos é um jeito de faze-lo. Abusos e maus-tratos devem ser denunciados, mas isso não advoga contra zoológicos, mas em favor de uma administração correta e bem fiscalizada.

O mundo não é perfeito para humanos, para ursos polares ou para tigres. Lide com isso.

* Devido a criticas, modifiquei essa passagem, apesar de achar que n√£o muda a mensagem central do texto. Para maiores informa√ß√Ķes e referencias, checar o coment√°rio do Luiz Pires no facebook sobre o assunto.

A tese do ateísmo universitário

Calouros...
Calouros… ¬¨¬¨

Nunca fui grande f√£ do termo ‚Äúneo-ate√≠smo‚ÄĚ. Inicialmente usado para se referir aos ateus que resolviam emitir suas opini√Ķes sobre religi√Ķes e dogmas, em distin√ß√£o aos ‚Äúantigos‚ÄĚ ateus, calmos, pacatos e respeitosos (um mito, na minha opini√£o), esse termo sempre me pareceu carecer de conte√ļdo informativo sobre o que aqueles que eram assim classificados de fato acreditam. Sempre me pareceu ser muito mais uma designa√ß√£o sobre forma do que sobre conte√ļdo, visto que o que contava para ser classificado como ‚Äúneo-ateu‚ÄĚ era simplesmente o qu√£o vocal, estridente ou agressivo algu√©m era ao colocar suas opini√Ķes. N√£o ajudava em nada o fato de muitos cr√≠ticos dos ‚Äúneo-ateus‚ÄĚ ora usarem o termo de forma pejorativa contra aqueles que feriam sentimentos religiosos, ora criticarem a total aus√™ncia de diferen√ßa em rela√ß√£o a todos os outros ateus ao longo da hist√≥ria da humanidade, como quem diz que os ateus atuais se julgam inovadores, enquanto na verdade n√£o s√£o. Por esses e outros motivos, eu sempre fico de olho quando algu√©m parece dar algum tipo de defini√ß√£o sobre os ‚Äúneo-ateus‚ÄĚ. O filosofo David V. Johnson¬†resolveu propor uma tese que ele considerou ser o conceito¬†unificador por tr√°s das ideias de escritores tidos como os lideres do movimento ‚Äúneo-ate√≠sta‚ÄĚ, especificamente Christopher Hitchens, Sam Harris e Richard Dawkins. A tese √© deveras simples e pode ser resumida sucintamente da seguinte forma:

‚ÄúO mundo seria melhor sem religi√£o‚ÄĚ

O que me parece uma descri√ß√£o realmente precisa. Todos os autores acima citados, assim como muitos ateus que conhe√ßo, de fato parecem subscrever √† ideia de que a cren√ßa te√≠sta n√£o apenas √© falsa, mas tamb√©m danosa. N√£o √© de admirar que o estopim de tal movimento foram os atentados de 11 de setembro de 2001, uma das express√Ķes mais diretas dos potenciais riscos do fundamentalismo religioso. Desde ent√£o, o movimento neo-ateu parece ter se focado n√£o apenas na falsidade das id√©ias e dogmas religiosos, mas tamb√©m na avalia√ß√£o moral e √©tica de cren√ßas religiosas. Por exemplo: Dawkins diz que associar ideologias religiosas a crian√ßas √© abuso, Harris critica religiosos moderados por acobertar fundamentalistas e Hitchens critica a moralidade do deus do antigo testamento. Um mundo sem tudo isso seria melhor. Johnson, por√©m, n√£o v√™ essa tese como sendo v√°lida. Ele apelida ela, jocosamente, de ‚ÄúA tese do ate√≠smo universit√°rio” (the undergraduate atheist thesis). Segundo ele, para comprovar essa tese, seria necess√°rio

“que n√≥s somemos todas as boas e m√°s consequ√™ncias de os seres humanos serem religiosos do come√ßo ao fim da hist√≥ria da humanidade e todas as boas e m√°s consequ√™ncias de humanos n√£o serem religiosos.”

Ou seja, para que a tese seja em princ√≠pio corroborada, seria necess√°ria a computa√ß√£o de todos os eventuais males e benef√≠cios de ambas vis√Ķes de mundo (com e sem religi√£o) e¬†escolher a que soma o maior bem e/ou o menor mal e voil√†!¬†O ponto de¬†Johnson com esse exerc√≠cio √© mostrar que tal computa√ß√£o¬†seria extremamente complicada de ser realizada e que, ent√£o, a empreitada como um todo √© uma farsa. Se o mundo seria melhor ou n√£o sem religi√£o seria, segundo a proposta de Johnson, um mist√©rio.

Eu tenho um problema com essa argumenta√ß√£o. Parece que Johnson acredita que a “tese do ate√≠smo universit√°rio”, como ele chama, √© um exerc√≠cio metaf√≠sico, em que¬†criamos mentalmente mundos e avaliamos cen√°rios hipot√©ticos, erradicando religi√£o n√£o apenas¬†do presente, mas tamb√©m do passado. Essa √© uma id√©ia absurda. √Č como argumentar¬†que se algu√©m n√£o gosta do sabor de rabanetes, ele tem que avaliar se toda a sua vida teria sido melhor sem a f√°bula da Rapunzel para concluir que¬†tirar rabanetes de sua vida √© realmente algo desej√°vel. Similarmente, Johnson parece acreditar que o objetivo dos neo-ateus √© construir uma m√°quina do tempo, voltar ao passado e, sei l√°, matar Jesus… ou impedir que ele fosse morto… algo assim.

Se essa forma de pensamento fosse v√°lida, dificilmente ter√≠amos abandonado escravid√£o ou mesmo tentar√≠amos abandonar formas de abuso social e econ√īmico, como evidenciado nesse clip do comediante do Luis CK:

[youtube_sc url=”https://www.youtube.com/watch?v=UVTXFsHYLKA”]

Afinal, se a l√≥gica √© v√°lida, ent√£o a exist√™ncias das pir√Ęmides do Egito, ou at√© mesmo do Juda√≠smo (e por consequ√™ncia, o Cristianismo e Isl√£m) deveriam ser levados em conta quando voc√™ avalia se escravid√£o √© bom ou n√£o. Ou seja, se voc√™ acha que cristianismo faz mais bem do que mal, voc√™ nunca poderia ser contra escravid√£o.

Isso √© um exagero, obviamente, para mostrar o absurdo da tese (reductio ad absurdum). No fim, Johnson est√° errado. A tese neo-ate√≠sta n√£o √© que o mundo seria melhor se religi√£o nunca tivesse existido. Talvez ela seja melhor expressada pela ideia de que o mundo est√° pronto para abandonar as amarras desnecess√°rias que tornam a religi√£o necess√°ria. E se algu√©m disser que n√£o h√° nada de “neo” nesse ate√≠smo, estar√° correto:

A religi√£o √© a teoria geral deste mundo, o seu resumo enciclop√©dico, a sua l√≥gica em forma popular, o seu point d’honneur espiritualista, o seu entusiasmo, a sua san√ß√£o moral, o seu complemento solene, a sua base geral de consola√ß√£o e de justifica√ß√£o. √Č a realiza√ß√£o fant√°stica da ess√™ncia humana, porque a ess√™ncia humana n√£o possui verdadeira realidade. Por conseguinte, a luta contra a religi√£o √©, indiretamente, a luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual √© a religi√£o.

A mis√©ria religiosa constitui ao mesmo tempo a express√£o da mis√©ria real e o protesto contra a mis√©ria real. A religi√£o √© o suspiro da criatura oprimida, o √Ęnimo de um mundo sem cora√ß√£o e a alma de situa√ß√Ķes sem alma. A religi√£o √© o √≥pio do povo.

A aboli√ß√£o da religi√£o enquanto felicidade ilus√≥ria dos homens √© a exig√™ncia da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilus√Ķes a respeito da sua condi√ß√£o √© o apelo para abandonarem uma condi√ß√£o que precisa de ilus√Ķes. A cr√≠tica da religi√£o √©, pois, o germe da cr√≠tica do vale de l√°grimas, do qual a religi√£o √© a aur√©ola.

A cr√≠tica arrancou as flores imagin√°rias dos grilh√Ķes, n√£o para que o homem os suporte sem fantasias ou consolo, mas para que lance fora os grilh√Ķes e a flor viva brote.

 Karl Marx, 1844

E se você me perguntar, taí uma tese e tanto.