O lado negro de compartilhar videos de animais fofos na internet

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[AVISO: esse post contem imagens fortes]

Quem n√£o gosta de compartilhar animais fofos na internet? Os gatos s√£o inegavelmente os reis da rede, mas outras esp√©cies menos comuns recentemente ganharam popularidade. Filhotes de lontra abandonadas? Quase 8 milh√Ķes de visualiza√ß√Ķes. Quatis sonolentos sendo acariaciados? Quase 6 milh√Ķes.

Talvez o grande apelo desses videos seja o fato de que as pessoas s√£o expostas a animais que antes eram desconhecidos, e ficam surpresos em como esses animais podem ser belos, inteligentes e, sem sombra de duvida, fofos. E que mal h√° em dividir um pouco de fofisse animal na rede?

Segundo o artigo de Nekaris e colaboradores publicado na PLOS em 2013, talvez a atividade n√£o seja t√£o inocente assim.

Os autores analisaram um video de um Loris recebendo c√≥cegas e aparentemente gostando da experi√™ncia. Um loris, para quem n√£o sabe (ver foto acima), √© um tipo de primata associado √† l√™mures. Recebem muitas vezes a alcunha “lentos” por se movimentarem de forma pausada por entre as √°rvores. Assim como grandes primatas (como chimpanz√©s, gorilas e humanos) n√£o possuem rabos, mas isso √© uma converg√™ncia evolutiva, ou seja, n√£o √© explicado por ancestralidade comum. Diferente da maioria dos mam√≠feros, os loris apresentam um arma muito estranha: uma gl√Ęndula de veneno no sovaco. A secre√ß√£o dessa gl√Ęndula, quando misturada com saliva, confere aos loris uma mordida venenosa, usada para ca√ßar pequenas presas e para defesa de predadores e competidores.

 

De qualquer forma, por motivos que me fogem completamente, esse video foi visualizado um numero gigantesco de vezes, ultrapassando a marca de 12 milh√Ķes de visualiza√ß√Ķes, se somarmos todas as vers√Ķes do video.

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Tabela 1 de Nekaris e colaboradores (2013) mostrando o total de visualiza√ß√Ķes do video do Loris em diversos canais do YouTube e Vimeo.

Ok, e qual é o problema? Os autores apontam que nesses videos, os principais tipos de comentários se referiam sobre o como os animais eram bonitinhos, sobre o que ele estava fazendo e sobre como o comentador queria um daqueles animais como bicho de estimação. E é nesse ultimo que mora o perigo.

Todas as esp√©cies de Loris se encontram amea√ßadas de extin√ß√£o por devasta√ß√£o de √°reas naturais, ca√ßa e, obviamente, por tr√°fico de animais para servirem de bichos de estima√ß√£o e ornamentais. Visto que a venda dessas esp√©cies √© considerada ilegal em grande parte das na√ß√Ķes desenvolvidas, √© muito prov√°vel que a presen√ßa desses animais nas m√£os de particulares implica na extra√ß√£o de animais da natureza para satisfazer nossa necessidade por fofura. Mas n√£o tem nada de fofo no que os animais passam para virarem “pets”.

O artigo de Nekaris e colaboradores citam alguns exemplos horr√≠veis: Em Taiwan, em 1993, uma remessa de losises pigmeus confiscadas teve uma taxa de mortalidade de 80%. Em Praga, entre 1990 e 2000, todos os lorises pigmeus confiscados entrando no aeroporto morreram durante a quarentena.

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Na esquerda, uma remessa confiscada na Thailandia de lorises pigmeus (exóticos à região). Na direita, uma remessa de animais (todos mortos) confiscada pelas autoridades da Indonésia de Lorises da Sumatra, a espécie mais ameaçada. Foto originalmente publicadas em Nekaris e colaboradores (2013).

E, como se não bastasse, animais que eventualmente sobrevivem a experiência tem que passar por mais um ritual bárbaro: a remoção de seus dentes incisivos, para impedir o envenenamento de seus futuros donos.

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Sim, isso é um cortador de unhas

A remoção dos dentes, além de ser potencialmente letal (até 34% de mortalidade em um dos casos relatados pelos autores), impede que os sobreviventes sejam reintroduzidos na natureza.

Mas o que isso tudo tem a ver com videos na internet? √Č bem simples: se esses animais s√£o o produto do trafego trafico de animais, esses videos s√£o a propaganda que exp√Ķem esses animais a novos mercados consumidores, em escala mundial. E o anuncio por parte de cerca de de 10% dos comentadores de que gostariam de ter esse animais pode ser um incentivo a mais para traficantes de animais intensificarem a explora√ß√£o de popula√ß√Ķes nativas.

Obviamente isso n√£o significa que tais videos devam ser removidos da rede. Isso √© quase que efetivamente imposs√≠vel. Mas os autores do artigo argumentam que campanhas de conscientiza√ß√£o podem reverter a opini√£o p√ļblica, e transformar uma “propaganda gratis” para traficantes de animais, em campanha de conscientiza√ß√£o contra a a explora√ß√£o desses animais.

Então, da próxima vez que você ver uma foto ou video de um animal silvestre fofo, lembre dos loris:

Traffic - In cage

e se pergunte: De onde esse animal vem? Ele √© amea√ßado de extin√ß√£o? Ele √© traficado ilegalmente?

E se alguma das ultimas perguntas for sim, talvez, por mais fofo que esses animais sejam, o lugar deles é na natureza ou, na pior das hipóteses, no zoológico*.

 

*Ver aqui e aqui para posts pr√©vios discutindo sobre o assunto.

Lugar de tigre é no zoológico

Recentemente tivemos uma fatalidade. Um garoto, aparentemente estimulado por seu pai, ultrapassou a grade de seguran√ßa de um zool√≥gico no munic√≠pio de Cascavel, no Paran√°, e foi atacado por um tigre. A les√£o resultou na amputa√ß√£o do bra√ßo direito do menino e, atualmente, o pai pode responder por les√£o grave.¬†Isso foi documentado por videos e fotos. Se voc√™ tiver est√īmago, acredito que consiga achar as imagens e v√≠deos por si s√≥.

Como de costume, esse evento foi o suficiente para despertar os trolls da internet, que formaram dois grupos de opini√Ķes: os primeiros eram favor√°veis √† eutan√°sia do animal, que obviamente seria¬†perigoso para o contato humano; o segundo grupo clamava pela cabe√ßa do pai, ao mesmo tempo que condenava o zool√≥gico por manter um animal selvagem em cativeiro.

Não vou criticar longamente a primeira posição. Afinal, essas pessoas parecem acreditar que, assim como cachorros, um tigre seria um animal domesticado que deveria estar capacitado à andar entre pessoas, sendo assim a eutanásia justificada. A estupidez dessa posição me é evidente. Vamos a segunda posição.

Tigre: uma espécie ameaçada

H√° cerca de um s√©culo, t√≠nhamos aproximadamente 100.000 tigres selvagens no mundo. Hoje esse numero n√£o passa de 3.200 esp√©cimes, uma redu√ß√£o de mais de 97% da sua popula√ß√£o nativa. As principais press√Ķes em popula√ß√Ķes naturais s√£o ca√ßa por pele, perda de habitat e ¬†morte por vingan√ßa:¬†devido a redu√ß√£o de seu habitat natural, tigres enfrentam escassez de alimentos, o que muitas vezes os for√ßa a atacar gado e outros animais dom√©sticos. Isso, por sua vez for√ßa moradores locais a¬†matar o predador¬†para preservar seu rebanho, algo muito similar ao que ocorre com on√ßas no brasil.

Parece horr√≠vel, e √©. Mas o ponto √© que tudo isso ocorre na natureza. Uma das grandes ilumina√ß√Ķes que¬†qualquer movimento conservacionista deve ter √© que tais press√Ķes em popula√ß√Ķes naturais ocorrem, principalmente,¬†por um motivo simples¬†s√£o tamb√©m fortemente influenciadas por dois motivos simples: crescente popula√ß√£o humana e desigualdade de renda. N√£o s√£o apenas popula√ß√Ķes ricas que vivem em enclaves de matas, cortando ilegalmente madeira para plantar beterrabas e criar carneiros. Pois √©… o Capit√£o Planeta estava errado.*

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РVamos, crianças, vamos descer o cacete naqueles pobres. Pela natureza!

 

O meu ponto √©: enquanto tivermos uma popula√ß√£o crescente e desigualdade de renda brutal, teremos problemas ambientais, especificamente os do tipo que causam o decl√≠nio de popula√ß√Ķes de mam√≠feros de grande porte, como o tigre.

Agora, vamos ser honestos: quais as chances disso acontecer em um tempo vi√°vel para salvar popula√ß√Ķes naturais que √†s vezes tem menos de 200 animais na natureza? Pois √©… foi o que eu pensei.

Conservação ex situ

Conserva√ß√£o ex situ √©, resumidamente, a conserva√ß√£o de esp√©cies biol√≥gicas fora de seu habitat natural (ex: fora, situ: sitio, local). Isso normalmente significa a conserva√ß√£o de animais em zool√≥gicos, aqu√°rios e santu√°rios e de plantas em jardins bot√Ęnicos. Muitas vezes essas institui√ß√Ķes tem programas espec√≠ficos de manuten√ß√£o de varia√ß√£o gen√©tica, por cruzamentos preferenciais, de forma a manter a viabilidade das esp√©cies, mesmo em cativeiro. Isso √© feito atrav√©s da manuten√ß√£o de registros minuciosos das rela√ß√Ķes de parentesco de animais em cativeiros ao n√≠vel global, que permite a realiza√ß√£o de trocas e cruzamentos em cativeiro de maneira informada.¬†Isso √© necess√°rio, pois na eventualidade de extin√ß√Ķes locais, tais popula√ß√Ķes podem ser reestabelecidas a partir de estoques em cativeiro. N√£o √© a melhor op√ß√£o, n√£o √© a mais usada, mas √© uma possibilidade.

Uma avalia√ß√£o desses registros tamb√©m demonstra um detalhe: a grande maioria dos animais em cativeiros nessas institui√ß√Ķes n√£o adv√©m da natureza, mas sim de programas de cruzamentos que j√° est√£o em vigor ha d√©cadas. Ou seja, com exce√ß√£o de animais que est√£o inviabilizados de serem reintroduzidos por diversos motivos como doen√ßas, inj√ļrias ou pelo simples fato de n√£o sabermos de onde eles vieram,¬†de modelo geral,¬†animais em cativeiro n√£o poderia ser liberados sem um programa muito especifico e custoso de reintrodu√ß√£o. Eles n√£o podem¬†e nem devem¬†ser liberados na natureza: al√©m de despreparados para cuidar da pr√≥pria subsist√™ncia, por estarem mais habituados √† presen√ßa de humanos, eles podem se tornar um perigo real para popula√ß√Ķes locais, como j√° acontece nos Estados Unidos com ursos. Esses animais precisam ser abatidos, e tigres liberados na natureza de forma displicente tamb√©m teriam que ser.

Defensores dos animais X prudência

Uma das coisas que mais me incomoda em alguns dos autoproclamados “defensores dos animais” √© sua aus√™ncia completa de pragmatismo: testes em animais √© errado, mas nenhuma alternativa racional √© proposta (com √™nfase no “racional”); zool√≥gicos s√£o antros de explora√ß√£o animal e deveriam ser fechados, mesmo que os ambientes naturais estejam degradados, e que popula√ß√Ķes naturais quase com certeza estejam fadadas √† extin√ß√£o. Acho que o melhor exemplo disso foi o recente post de nossa “defensora dos animais” favorita, Luisa Mell:

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Eu n√£o duvido por um momento que pessoas como a Luisa Mell agem por causa de sua empatia para com animais n√£o-humanos, algo que considero louv√°vel. Agora o que n√£o √© louv√°vel √© a utiliza√ß√£o de desinforma√ß√£o para manipular os sentimentos das pessoas para fortalecer o seu pr√≥prio ponto de vista, no caso, anti-capitalista.¬†De boas inten√ß√Ķes, o inferno est√° cheio. E o que sobra em qualquer movimento social, incluindo no movimento de defesa dos animais, s√£o boas inten√ß√Ķes.

Não, Luisa, esses animais não foram retirado de seu meio-ambiente. Eles nasceram em cativeiro e sua presença em zoológicos e outros centros de conservação ex situ se torna cada vez mais necessário em um mundo de crescente degradação ambiental e desigualdade social. Zoológicos precisam de mais recursos para tratar bem de seus animais e a cobrança de ingressos é um jeito de faze-lo. Abusos e maus-tratos devem ser denunciados, mas isso não advoga contra zoológicos, mas em favor de uma administração correta e bem fiscalizada.

O mundo não é perfeito para humanos, para ursos polares ou para tigres. Lide com isso.

* Devido a criticas, modifiquei essa passagem, apesar de achar que n√£o muda a mensagem central do texto. Para maiores informa√ß√Ķes e referencias, checar o coment√°rio do Luiz Pires no facebook sobre o assunto.

What does the [red panda] says?

Com a viraliza√ß√£o da musica da dupla Ylvis “What does the fox say?”, o debate acad√™mico de alto n√≠vel sobre qual √© o barulho que certos animais fazem era inevit√°vel.

Como foi apontado no hypercubic, a raposa regougara, um verbo inesperadamente espec√≠fico, mas e outros animais? Le√Ķes e ursos rugem e grunhem, lobos e coiotes uivam… e o panda-vermelho?

Confesso que eu nem sabia que esse bicho fazia qualquer barulho, mas quando escutei, fiquei realmente impressionado:

At√© achei que o arquivo estava errado, mas existem filmagens feitas e realmente pandas parecem… piar. Na verdade, o termo correto em ingl√™s √© “twittering” (sim, como em “twitter”) que pode ser traduzido para “chilrear” ou “gorjear”, ambos termos relacionados com p√°ssaros.

Quando escutei isso lembrei de quando estudava no Museu de Zoologia da USP, no Ipiranga. Atrás do museu tem um pequeno parque que abriga (ou abrigava) um pequeno grupo de saguis, que eventualmente visitava minha janela nos fins de tarde. O curioso é que saguis (e outros macacos) fazem sons indistinguíveis dos sons de pássaros, o que me faz perguntar: visto que pandas-vermelhos, saguis e pássaros estão sob a influencia de ambientes similares (as copas de árvores; lembrando que pandas-vermelhos passam muito tempo em árvores), não seria a aparente similaridade consequência de algum tipo de adaptação para superar um obstáculo presente neste ambiente, como por exemplo, a dificuldade de visualizar outros membros da sua espécie?

Uma busca rápida no google.scholar mostra que o assunto já foi abordado, principalmente na questão de convergência entre aves e primatas, mas nada evidente sobre pandas-vermelhos.

Será que alguém anima e explorar a idéia? Pode ficar. Eu não cobro royalties.

Momento “cuteness” + conserva√ß√£o

Recentemente o Zoológico de Toronto liberou imagens dos primeiros passos de um filhote de urso polar que nasceu em 9 de Novembro do ano passado:

[youtube_sc url=”http://www.youtube.com/watch?v=OkfEChXa2V0″]

Segundo um dos leitores do Why Evolution is True, o filhote “√©¬†o √ļnico sobrevivente de uma ninhada de tr√™s. Ele foi tirado de sua m√£e Aurora, visto que ela tem um hist√≥rico de rejei√ß√£o de seus filhotes”.

Essa hist√≥ria de me lembrou do Knut, um filhote de urso polar rejeitado pela m√£e no zool√≥gico de Berlin. Knut alcan√ßou o status de fen√īmeno, ap√≥s ser abandonado pela m√£e, em 2006, se tornando o primeiro filhote da esp√©cie a atingir a fase adulta no zool√≥gico em 30 anos.

Knut e seu tratador

Sua carreira chegou a um fim trágico, entretanto, quando em 2011 Knut sofreu um colapso em decorrência de uma encefalite e acabou morrendo afogado em seu recinto.

A vida de Knut n√£o foi livre de controv√©rsias. Em 2007, o ativista de direitos animais¬†Frank Albrecht disse que criar Knut violava os direitos animais, pois a cria√ß√£o por humanos levaria a dist√ļrbios compartimentais e sofrimento ao animal. Eu honestamente nunca vi evidencias de que animais criados em cativeiro, se bem criados, sofrem, muito menos que sofrer o suficiente para justificar… bem, n√£o cria-los (o que supostamente deixaria s√≥ uma outra alternativa). Mas √© verdade que a cria√ß√£o por humanos pode impactar negativamente comportamentos essenciais para a esp√©cie, o que pode dificultar, e at√© inviabilizar, a re-introdu√ß√£o do animal na natureza ou a sua cria√ß√£o em cativeiro.

Ent√£o… criar animais em cativeiro √© necessariamente ruim? Eu acho que n√£o.

Recentemente eu vi um lindo exemplo no Aquário de Monterey, na Califórnia. Lá eles mantinham diversos animais em cativeiro, inclusive uma albatroz fêmea chamada Makana que, após várias tentativas de recuperação, se mostrou incapaz de ser re-introduzida no meio ambiente (ela possui uma asa fraturada) e hoje é usada para educar os visitantes sobre os perigos da poluição para esses animais.

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Makana se exibindo. Veja ela em ação aqui

Agora o que mais me impressionou foram as lontras-marinhas. Não é apenas pelo fato delas serem incrivelmente fofas:

Nhonhonhonhonho.
Clique aqui para ver uma camera ao vivo.

O mais impressionante, para mim, foi aprender que os animais em exposi√ß√£o eram usadas como bab√°s para lontras orf√£s que eram resgatadas pelo aqu√°rio. A id√©ia √© simples: lontras √≥rf√£s, se criadas por humanos, n√£o poderiam ser re-introduzidas no meio ambiente. Esse era na verdade o caso das lontras expostas. Por√©m, se um filhote √© criado por uma bab√°, mesmo uma criada por humanos, existe uma chance maior dele ser re-introduzido no ambiente com sucesso. E, de fato, muitas dessas lontras ajudaram a criar diversos animais que foram mais tarde re-introduzidos na natureza. Ou seja, a cria√ß√£o de alguns poucos animais em cativeiro ajudou as popula√ß√Ķes naturais desses animais. Fant√°stico!

Claro, isso n√£o significa que todos os zool√≥gicos e aqu√°rios s√£o para√≠sos de conserva√ß√£o ex-situ. Ali√°s, acho que muitos zool√≥gicos tem uma rela√ß√£o at√°vica com seu passado, como um local de cole√ß√Ķes e curiosidades do mundo animal. Mas talvez, com um pouco de esfor√ßo, podemos chegar l√°.

Curiosidade: lontras-marinhas adoram mastigar camar√Ķes congelados e, depois de uma bela refei√ß√£o, tirar uma soneca boiando em alto-mar.

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√Č… eu sei. Insuport√°vel n√£o?

Castrar um hipopótamo não é tão fácil quanto parece (e não parece nem um pouco fácil)

O problema é simples: temos um dos animais mais agressivos e mortais da terra e queremos mantê-los em zoológicos, sem risco para a vida de tratadores. Solução? Oras, castração! Afinal, se funciona com animais domésticos, deve funcionar com outros animais.

Porém as coisas não são tão fáceis. Como se castrar um animal de mais de 3 toneladas não fosse um problema, os testículos dos hipopótamos são móveis, e tem-se mostrado um grande desafio para os cientistas da castração animal (aparentemente ¬¬).

Isso levou a um desenvolvimento de um procedimento original por um time de cientistas liderados por Christian Walzer, da universidade de Vienna. Esse novo procedimento, adaptado do utilizado em cavalos, permite a localização e remoção dos testículos dos animais. Yei, Science!

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O pior dia da vida de um jovem hipopótamo

Viu, fácil. Agora você só precisa de um guindaste, quantidades obscenas de tranquilizante e uma tesoura.

√Č, eu sei. De nada.

O porque dos testículos desses animais se movem, como que fugissem de dedos gelados de um urologista, é um mistério. Mas o Walzer tem uma teoria:

Hipopótamos machos realmente brigam- não é apenas uma bravata quando eles bocejam e abrem suas bocas- eles podem atacar o testículo dos rivais com seus dentes.

Agora, nunca vi evid√™ncia de que hipop√≥tamos atacam os test√≠culos uns dos outros, mas tanto faz, parece uma √≥tima ideia! Pr√≥ximo passo: identificar genes envolvidos para aplica√ß√£o “biom√©dica” em humanos.

J√°!

Aranhas, Beagles e as Mentiras que os Cientistas contam.

Meu primeiro est√°gio em pesquisa cient√≠fica foi no Instituto Butantan, pesquisando o comportamento de ca√ßa de um g√™nero muito curioso de aranhas, as Scytodes. Esse g√™nero √© diferente de todas as outras aranhas por uma modifica√ß√£o anat√īmica muito curiosa: diferente das outras aranhas que apresentam gl√Ęndulas de veneno, os animais desse g√™nero apresentam enormes gl√Ęndulas cef√°licas que produzem uma subst√Ęncia pegajosa, que a aranha √© capaz de ejetar sobre sua preza, capturando-a a dist√Ęncia:

[youtube_sc url=”http://youtu.be/9PJlfzc4SiE?t=2m20s”]

*A ejeção de cola é rápida demais para ser vista em vídeos normais. Clique aqui e aqui  para ver algumas imagens em close das queliceras.

Esse tipo de habilidade n√£o vem sem um custo: as quel√≠ceras, provavelmente por serem muito modificadas para “cuspir”, n√£o s√£o muito poderosas. Isso faz com que esses animais tenham que ca√ßar animais de exoesqueleto fr√°gil, principalmente aranhas. O fato das Scytodes poderem capturar animais √† dist√Ęncia faz com que elas se deem bem contra outros predadores perigosiss√≠mos, como a aranha marrom, e at√© mesmo as espertas e Salticidae.

 

“Glup… ela j√° foi embola?”

Para desenvolver essa pesquisa eu pedi uma bolsa de inicia√ß√£o cient√≠fica para a FAPESP. Para quem nunca teve a experi√™ncia, uma das requisi√ß√Ķes dessa ag√™ncia para a concess√£o da bolsa √© que precisa estar devidamente justificado o m√©rito do projeto. Na √©poca isso n√£o ficou muito claro para mim‚Ķ que tipo de m√©rito eles queriam? Porque valia a pena pesquisar essas aranhas? “Oras, porque elas s√£o fascinantes!” n√£o me parecia uma resposta muito profissional. Na √©poca o meu orientador me instruiu a descrever os potenciais benef√≠cios para n√≥s, seres humanos, desse estudo.

Meu racioc√≠nio foi simples: aranhas marrons podem ser um problema, eu ia estudar um bicho que come aranhas marrons e SHAZAM‚Ķ por motivos n√£o explicitados isso soava como uma √≥tima aplica√ß√£o pr√°tica desse tipo de estudo. “Potenciais aplica√ß√Ķes pr√°ticas para controle de aranhas marrons” ou coisa que o valha.

Bem, na √©poca eu ganhei a bolsa, realizei o projeto e, eventualmente publiquei um artigo sobre o assunto. “Codificando caracteres comportamentais para analises cladisticas: usando homologia din√Ęmica sem parcim√īnia.” Se voc√™ acha que soa herm√©tico e totalmente alienado de qualquer aplica√ß√£o pr√°tica, ent√£o voc√™ pegou a ideia certa.

Na √©poca um colega me perguntou “como voc√™ justifica o uso de dinheiro p√ļblico para estudar comportamento de aranhas?”.

“Eu n√£o sei. S√≥ espero que nunca descubram”.

Eu n√£o acho que essa minha in√©pcia nesse ponto seja particularmente fora do padr√£o. A grande maioria dos pesquisadores que conhe√ßo sequer pensa sobre como justificar sua pesquisa frente a sociedade. Talvez a maior evid√™ncia disso seja o Projeto Genoma Humano, que gastou 3 bilh√Ķes de d√≥lares com a desculpa que ajudaria a curar doen√ßas gen√©ticas, cancer ou alguma porcaria assim, quando na verdade poucos avan√ßos terap√™uticos reais vieram dai. N√£o me entendam mal‚Ķ o projeto gen√īma humano foi um grande avan√ßo para a ci√™ncia. Assim como o projeto do gen√īma do Ornitorrinco, mas ningu√©m nem tentou justificar esse com base nos benef√≠cios terap√™uticos para o bichinho.

O ponto √©: acad√™micos e cientistas de maneira geral n√£o est√£o treinados para responder esse tipo de questionamento. Me recordo quando, em uma mesa redonda sobre Direitos Animais, o neurocientista Sidarta Ribeiro ficou simplesmente sem a√ß√£o quando veganos na plateia lhe perguntaram se ele era a favor do uso de animais em pesquisa. “Sim”, ele disse, e isso foi o suficiente para levar a plateia aos gritos.

O que me tr√°s aos beagles‚Ķ A n√£o ser que voc√™ tenha estado debaixo de uma pedra nos √ļltimos dias, voc√™ sabe que houve uma invas√£o ao Instituto Royal, e cerca de 150 beagles que estavam sendo usados para testes farmac√™uticos foram libertados. Rapidamente, muitos cientistas vieram repudiar a a√ß√£o, algo que foi bem exemplificado pelo pronunciamento da ABC e da SBPC sobre o assunto. Muitos de meus colegas no meio acad√™mico ficaram boquiabertos. Afinal, uso de animais em pesquisas cient√≠ficas √© algo justificadamente importante, e seria inconceb√≠vel imaginar como algu√©m racional e instru√≠do poderia ser contra o uso (consciente e dentro das normas, que fique bem claro) de animais em laborat√≥rios, certo? Certo???

Bem, eu n√£o acho que seja bem por ai. Acho sim que a quest√£o de uso de animais em pesquisas e testes √© algo que sim deve ser colocada em discuss√£o, e que est√° longe de ser evidente. Mas n√£o quero¬†argumentar contra ou a favor da a√ß√£o dos ativistas, nem defender ou atacar o uso de animais em pesquisas, muito menos mais testes laboratoriais. Quero apenas fazer uma pergunta para meus amigos da academia: podemos dizer com cara limpa que n√≥s fizemos direito o trabalho de expor e justificar nossa pesquisa frente a sociedade ao ponto que toda a opini√£o contr√°ria ao uso de animais em experimenta√ß√£o cient√≠fica seja associado ou a fundamentalismo fan√°tico ou ignor√Ęncia?

Ser√°?

Vari√°veis, ou porque precisamos de ratinhos

A um certo tempo atrás, meu colega Pirula fez um video falando sobre testes em animais no qual ele menciona sobre a necessidade de controlar variáveis durante a realização de um estudo com o objetivo de identificar efeitos de tratamentos médicos.

Apesar da quest√£o √©tica ser de grande interesse meu, n√£o √© exatamente esse o meu foco aqui. Durante o v√≠deo, Pirula d√° alguns exemplos do que seriam “vari√°veis” e passa a bola para o Bernardo (do canal NerdCetico) explicar em mais detalhes. Eu assisti o v√≠deo do Bernardo e n√£o acho que ele fez um bom trabalho. Meu objetivo aqui n√£o √© mostrar que o Bernardo est√° errado, pois n√£o sei disso: ele tem forma√ß√£o matem√°tica e eu n√£o. Ou seja, a diferen√ßa de nossas explica√ß√Ķes podem ser meramente um reflexo do jarg√£o das diferentes √°reas. Por√©m posso dizer que estou relativamente familiarizado o jarg√£o experimental de alguns ramos do conhecimento, especificamente em biologia. Visto que o tema original era sobre experimenta√ß√£o em animais, imagino que minha exposi√ß√£o chegue mais pr√≥xima do que o Pirula tinha originalmente em mente, e complemente a explica√ß√£o sobre o porque precisamos controlar vari√°veis de um ponto de vista estat√≠stico pr√°tico (se √© que podemos conceber algo assim).

Sendo assim, vamos aos termos:

O que s√£o vari√°veis?
Vari√°veis s√£o quaisquer aspectos de um sistema sob investiga√ß√£o que podem variar entre as diferentes observa√ß√Ķes. Em outras palavras, √© o que pode variar entre diversos objetos ou fen√īmenos que caem dentro da mesma categoria. Por exemplo, se eu estou investigando cadeiras,¬† vari√°veis poss√≠veis s√£o desde o peso, o material do qual ela √© feita e at√© mesmo se o seu design se enquadra no movimento bahaus ou n√£o. Ou seja, n√£o existe uma regra que determina que uma vari√°vel necessariamente √© expressa em valores num√©ricos, como normalmente se pensa.

Em sistemas biol√≥gicos temos uma multitude de caracter√≠sticas que variam entre os diversos organismos: cor, tamanho, forma, n√ļmero de c√©lulas, capacidade de manuten√ß√£o de temperatura, grau de atividade, idade, etc. Dentro dessa pluralidade de vari√°veis podemos reconhecer alguns tipos gerais:
-Vari√°veis Qualitativas, Categ√≥ricas ou Discretas:¬† s√£o todas aquelas que podem ser expressas em categorias que agrupam todos os objetos que possuem aquela caracter√≠stica espec√≠fica. Por exemplo, quando tentamos identificar a esp√©cie em roedores silvestres, a pelagem √© uma caracter√≠stica bastante importante, podendo variar em cor e em tonalidade. Normalmente tais vari√°veis n√£o apresentam o que chamamos de “ordena√ß√£o”, ou seja, n√£o existem valores intermedi√°rios entre as categorias: um organismo pode ser autotrofo ou heter√≥trofo, sendo que n√£o existem intermedi√°rios entre essas categorias.
Variáveis Quantitativas ou Contínuas: são todas aquelas que variam ao longo de um escala contínua. A grande maioria das grandezas físicas varia dessa forma: peso, massa, aceleração, etc. Muitas variáveis biológicas também se comportam desta forma, como taxas metabólicas, comprimentos de estruturas biológicas, período de atividade, força de mordida, porcentagem de matéria vegetal na dieta, etc.

Vari√°veis Ordinais (ou semi-quantitativas): assim como as vari√°veis categ√≥ricas, s√£o compostas por classes mutuamente exclusivas. Assim como as vari√°veis cont√≠nuas, essas categorias est√£o ordenadas de alguma forma, ou seja, existem valores mais baixos, intermedi√°rios e maiores. Exemplos desse tipo de vari√°veis s√£o contagens de eventos, ou qualquer outro tipo de vari√°vel expressa por n√ļmeros inteiros (e.x: 1, 2, 3, 4‚Ķ).

Nem sempre um tipo de fen√īmeno precisa ser avaliado necessariamente como um tipo √ļnico de vari√°vel. Por exemplo, podemos avaliar a altura dos indiv√≠duos de uma popula√ß√£o de como uma vari√°vel quantitativa (medida em cent√≠metros) ou de forma qualitativa (indiv√≠duos “altos” e “baixos”) ou ordinal (indiv√≠duos “pequenos”, “m√©dios” e “grandes”). Tudo depende do tipo de investiga√ß√£o que est√° sendo feito, nossa capacidade de medir os fen√īmenos, etc.

Rela√ß√Ķes entre vari√°veis

Uma metodologia comum em investiga√ß√Ķes cient√≠ficas √© o estudo das rela√ß√£o entre diferentes vari√°veis, com o objetivo de testar previs√Ķes te√≥ricas (ex: tal rem√©dio √© seguro para o uso). Nesse contexto, costumamos interpretar o valor de uma vari√°vel como uma fun√ß√£o dos valores de outra vari√°vel. Por exemplo, no exemplo abaixo, y √© uma fun√ß√£o dos valores de x:

Neste exemplo, a relação entre as variáveis é linear, ou seja podemos entender que a relação entre elas é dada por uma reta (ou por uma equação de primeiro grau), na qual cada valor de x tem um valor associado de y. O que é interessante notar é que nessa caso temos uma variável y que depende do valor de x de forma linear (ou seja, segundo uma equação de primeiro grau do tipo). Por esse motivo chamamos y comumente de variável dependente e o x de variável independente. 

Quando analisamos estatisticamente duas vari√°veis, digamos, dosagem de uma droga experimental e taxa de recupera√ß√£o, o que fazemos √© tentar achar as rela√ß√Ķes de depend√™ncias entre elas. Ou seja, no exemplo, precisamos achar como a taxa de recupera√ß√£o (Tr) depende da dosagem (d) da droga experimental. Estatisticamente a rela√ß√£o entre essas duas vari√°veis √© dada pela fun√ß√£o

onde a0 e a1 s√£o coeficientes da fun√ß√£o linear e epslon (simbolo que parece um “e” no fim da equa√ß√£o) √© o que chamamos de “erro“, que contem tudo aquilo que n√£o estamos interessados no momento, como peso do indiv√≠duo, idade, dieta, etc. Dessa forma, os m√©todos estat√≠sticos nos permitem avaliar o que √© o real sinal nos nossos dados (ou seja, qual √© o efeito da droga na recupera√ß√£o) do que n√£o nos interessa naquele momento.

Porque controlar o erro?
Visto que o erro em uma analise pode ser controlado estatisticamente, então porque devemos controlar esse erro, ou melhor, no contexto da discussão inicial, porque devemos usar animais de laboratório, que são todos homogeneizados para minimizar tais erro?

O motivo é basicamente estatístico. Quando nosso erro não está controlado, ele pode apresentar uma magnitude grande demais, o que dificulta a identificação da real relação entre as variáveis. No exemplo abaixo, a relação entre as variáveis é a mesma (y=0.5+0.03*x), mas o erro na segunda analise é muito maior do que na primeira. Note também que as retas são bastante diferentes, indicando que a reta obtida com maior erro é muito diferente da real.

Outro ponto é que para o erro (pequeno ou grande) ser considerado como tal em analises estatísticas, ele tem que ser aleatório, ou seja, não pode mostrar forte associação ou padronização com qualquer outra variável que possa ser relevante para o nosso estudo. Quando isso ocorre, tais variávies precisam ser incorporadas  explicitamente na analise, onde cada variável que existe na população deve ser avaliada:

Onde todas as variáveis são expressas por x e seus coeficientes lineares por a. Nesse exemplo, a taxa de recuperação é uma função não apenas da dosagem do remédio, mas da idade, peso, dieta, tipo sanguíneo, sexo, etc.

Entretanto, a solu√ß√£o n√£o √© simplesmente coletar mais informa√ß√Ķes sobre os indiv√≠duos que est√£o na an√°lise. Existe um numero m√≠nimo de indiv√≠duos que precisam ser utilizados que aumenta a medida que avaliamos mais e mais vari√°veis.¬†Esse n√ļmero m√≠nimo √© uma fun√ß√£o de diversos fatores, e existe toda uma √°rea dedicada ao estudo desse tipo de coisa, por√©m uma coisa pode ser colocada categoricamente: o n√ļmero de indiv√≠duos na sua an√°lise nunca pode ser inferior ao n√ļmero de vari√°veis abordadas explicitamente.¬†Ou seja, se formos em uma popula√ß√£o humana natural, quantas vari√°veis devem variar de forma significativa? Cinq√ľenta? Trezentas? Acho que d√° para pegar a id√©ia.¬†Adicionalmente, quando avaliamos um n√ļmero muito grande de correla√ß√Ķes, existem sempre a possibilidade de identificar correla√ß√Ķes onde na verdade n√£o existem nenhuma, por puro acaso (√© o que os estat√≠sticos chamam de erro do tipo I).

Isso talvez ajude a entender porque muitas das an√°lises sobre benef√≠cios de algum tipo de alimenta√ß√£o variam tanto. Via de regra, tais estudos tem que ser realizados na popula√ß√£o humana, incluindo todos os problemas metodol√≥gicos colocados. Ou seja, o resultado pode variar tanto n√£o porque os “cientistas n√£o se decidem se ovo √© bom”, mas porque os indiv√≠duos amostrais para esse tipo de investiga√ß√£o (e.g. seres humanos sem controle algum) s√£o particularmente ruins para an√°lises estat√≠sticas.

Em outras palavras, testar um produto em uma população não controlada não é apenas perigoso (afinal, estamos falando de medicamentos, e não shampos para cabelos secos), mas é ciência ruim.

Porque devemos comer carne

Original: John S. Wilkins, evolvingthoughts.net

Humanos, assim como outros primatas, comem principalmente raízes, vegetais e nozes, mas irão comer carne quando disponível. Carne é uma valiosa fonte de proteínas e outros recursos nutricionais, e não pode ser desperdiçada. Mas, apesar dessa ser uma afirmação de fato, ela não é uma afirmação de obrigação ou permissão moral. Eu irei argumentar que nossa história evolutiva torna a ingestão de carne não apenas inevitável, mas algo que vale a pena, apesar de que eu não advogaria em favor da quantidade de carne que ingerimos hoje no mundo ocidental.

Existem muitas teorias de √©tica, mas uma das mais antigas e influenciais √© a vis√£o que pode ser tra√ßada at√© Aristoteles: a Boa Vida √© aquela que leva ao florescimento da vida humana. Isso √© chamado de “eudaimonia” em Aristoteles. Agora, dessa perspectiva, o que devemos fazer √© o que contribui para a eudaimoni, e por acaso todos concordam que humanos evolu√≠ram para, e se desenvolvem melhor quando, comem uma dieta primariamente constitu√≠da de mat√©ria vegetal, com uma pequena quantidade de carne, a famosa “pir√Ęmide alimentar” da escola prim√°ria. Existem nutrientes que humanos requerem que a carne prov√™em e s√£o imposs√≠veis ou muito dif√≠ceis de serem obtidos de outra forma.

Eudaimonismo √© uma √©tica “esp√©cie-relativa”. Diferentemente da √©tica universal do vegetarianismo, direitos e deveres morais n√£o s√£o necessariamente estendidos para outras esp√©cies, mas eles se aplicam √† todos os humanos. Em “Expanding the Circle” (Expandindo o Circulo), Peter Singer argumenta que direitos morais s√£o universais a todos os seres sencientes; uma vis√£o eudaimoniana n√£o presume isso. Esse √© o universalismo de Kant, n√£o de Bentham. N√≥s sabemos que todos humanos t√™m direitos e posturas morais; n√≥s precisamos saber com que base n√≥s devemos conferir direitos a animais. N√≥s presumimos que membros da especie humana t√™m uma natureza moral.

Sociedades escolhem conferir direitos baseados nas propriedades morais das pessoas. Pode ser objetado que essa vis√£o faria crueldade contra animais permiss√≠vel. Isso n√£o procede. Como Kant notou, crueldade contra animais afeta seres humanos, degradando sua natureza moral, e apenas com base nisso ela deveria ser proibida. Mas n√≥s podemos tamb√©m conferir direitos para n√£o-humanos com base no fato de deter√™m algumas ou todas as propriedades morais dos humanos. Por exemplo, adultos de grandes primatas tem as capacidades cognitivas aproximadas de uma crian√ßa de tr√™s √† cinco anos; e ent√£o eles deveriam ter os direitos e prote√ß√Ķes conferidas a aqueles humanos.

Portanto n√£o devemos comer, ou permitir que comam, grandes primatas ou outras esp√©cies com capacidades cognitivas compar√°veis. Mas os animais de abate n√£o est√£o nessa classe (e aqueles que est√£o, em algumas culturas, como cachorros, deveriam ser excluidos da categoria de “animais de abate”). N√≥s dever√≠amos demandar que animais sejam abatidos (e criados) de forma humana (ou seja, sem crueldade ou dor), mas isso n√£o √© o suficiente para que seja proibido consumi-los.

Uma implicação disso entretanto é que nós devemos fazer todas as coisas que contribuem para o florescimento humano, e que isso irá incluir a redução da quantidade de carne ingerida, por vários motivos: muita carne leva a várias doenças, desde gota até problemas cardíacos; carne é um recurso caro e ultimamente insustentável nos níveis atuais; e animais de abate são rotineiramente invasores e ecologicamente nocivos.

Em todas as coisas, proporcionalidade é a chave para o florescimento. Muito de qualquer bem pode se tornar um mal. Um pouco de carne é bom; muito dela é um mal. Isso também é uma visão antiga dos gregos. Epicurianos diziam que o prazer é bom, mas muito dele não é. Em contraste com os extremismos do vegetarianismo, todas as coisas, em moderação, para o florescimento da humanidade, este é o caminho.