Qual √© o dano em chamar negros de “macacos”?

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Seguindo um dos meus ultimos posts, muitas pessoas me apontaram o texto do Negro Belchior como uma outra perspectiva sobre a controvérsia da campanha #somostodosmacacos. Ironicamente, ler esse texto foi o que me incentivou a escrever o meu. Não é porque eu discorde do texto do Belchior, pelo contrário. Acho que ele dá bons motivos pelos quais é contrário à campanha. Porém, em momento algum ele parece realmente ser contrário as evidências biológicas de que somos, de fato, macacos, mas critica a tentativa de usar o termo positivamente. E foi para oferecer uma justificativa biológica ao uso do termo que resolvi escrever meu post, e de quebra ensinar algo sobre a lógica da evolução.

Mas como isso √© mais uma quest√£o √©tica do que cient√≠fica, resta a pergunta: Qual √© o real dano de chamar negros de “macacos”?

Respostas comuns

Uma das respostas mais comuns que vi por ai √© que isso ofende as pessoas. Eu obviamente n√£o nego que as pessoas se sintam ofendidas com isso, mas pode-se argumentar que elas est√£o sendo irracionais ao se sentirem ofendidas. Por exemplo, a defesa da evolu√ß√£o como a √ļnica teoria que explica a diversidade na Terra ofende criacionistas, homof√≥bicos se sentem honestamente ofendidos por gays, homens se ofendem com cr√≠ticas feministas, etc. O ponto √©: que algu√©m se ofende com algo n√£o √© argumento contra o que foi dito, ou mesmo argumento para n√£o dizer aquilo. E c√©ticos e ateus basicamente est√£o no trabalho de contestar opini√Ķes fortemente arraigadas. Ofensa n√£o me impressiona nem me motiva.

Outro argumento comum √© que isso refor√ßa o racismo. Isso pode ser verdade, mas me parece que o que importa mais √© o padr√£o de uso de um termo do que o pr√≥prio uso. Afinal, foi isso que o movimento GLBT fez com o termo “gay” e, em menor medida o que as mulheres fizeram com “vadia”. Ostenta√ß√£o com orgulho de certos termos pejorativos j√° foi usado contra preconceito. Ou seja, mudar o padr√£o de uso n√£o √© imposs√≠vel e o refor√ßo parece ocorrer em um contexto social especifico, que pode mudar.

O problema comum dessas respostas (e de outras tamb√©m) √© que elas partem de uma premissa um tanto discut√≠vel: que todos os seres humanos s√£o capazes de ter empatia com outros membros da sociedade de forma irrestrita. Eu, por exemplo, tenho grandes dificuldades de estabelecer rela√ß√£o emp√°tica com os problemas que negros enfrentam, apesar de achar que consigo fazer isso em maior escala com o que gays e mulheres sofrem. Para pessoas como eu, uma medida clara e objetiva dos danos e benef√≠cios de uma pr√°tica ou pol√≠tica social tem um enorme valor quando estamos tomando decis√Ķes morais. E, na minha opini√£o, ci√™ncia √© a melhor ferramenta para descobrir que tipos de consequ√™ncias certas a√ß√Ķes podem ter.

Então, o que a ciência tem a dizer sobre esse caso específico?

Uma medida objetiva do dano

Esse é o professor Phillip Atiba Goff, da UCLA. Ele é um psicólogo social interessado na relação entre fatores ambientais/sociais na geração de respostas comportamentais discriminatórias raciais. Ou seja, ele quer saber o que causa comportamentos discriminatórios, ou qual é a consequência de certos comportamentos tidos como discriminatórios. Eu cruzei com a página dele, quando procurava artigos que validassem o histórico que o Negro Belchior deu em seu site sobre a associação de negros e macacos. Meu principal incomodo nisso foi a associação indireta entre evolução e nazismo, um ponto que está errado, mas isso é assunto para outra análise.

No meio do curr√≠culo do Dr. Goff eu achei uma publica√ß√£o bastante interessante, que pode ser traduzida como “N√£o t√£o humano: Conhecimento Impl√≠cito, desumaniza√ß√£o hist√≥rica e consequ√™ncias contempor√Ęneas”. Confesso que a leitura desse paper¬†foi como um conto de terror: a cada p√°gina uma surpresa desagrad√°vel.

O trabalho consiste em 6 estudos distintos baseados em uma metodologia muito simples: apresentar diversas imagens à um conjunto de voluntários e medir a resposta deles em diferentes tarefas simples. Cada um dos estudos é importante em si só, então abaixo tentarei fazer um resumo breve, apresentando o resultado principal de cada um. Mas para quem quiser ir direto ao assunto, sugiro olhar o estudo 5 e a conclusão.

 

Estudo 1

Esse estudo tem objetivo de averiguar se os voluntários apresentam um viés implícito em associar macacos à negros. Na primeira parte do experimento os voluntários eram apresentados à uma imagem aleatória de um rosto humano de diferentes etnias. Em seguida era apresentado ao indivíduo uma figura de um animal, e se media o tempo necessário para que ele reconhecesse o animal.

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Os resultados indicam que indivíduos que foram apresentados faces negras ou brancas eram igualmente rápidos para identificar imagens de outros animais. Porém quando se tratava de macacos, aqueles que foram previamente apresentados com uma face negra eram significativamente mais rápidos do que aqueles que não haviam visto face alguma (controle) e daqueles que haviam visto faces brancas.

 

Estudo 2

Esse estudo averiguou se os voluntários que visualizavam inicialmente uma face de um macaco desviam sua atenção mais rapidamente para face de negros em seguida. Isso foi medido apresentando a imagem de um macaco e logo em seguida apresentando faces de duas pessoas na tela. Em seguida as faces desapareciam e um ponto aparecia na posição de uma das faces. O voluntário tinha que identificar em que lado esse ponto estava. O tempo tomado para achar o ponto é uma medida do desvio de atenção do indivíduo. Os voluntários nesse estudo eram todos estudantes brancos/caucasianos.

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O resultado mostra que aqueles que visualizavam um macaco antes tinham a aten√ß√£o fortemente voltada para a face negra, identificando o ponto como estando na posi√ß√£o desse tipo de face mais rapidamente do que¬†o tempo tomado para identificar o ponto na posi√ß√£o da¬†face caucasiana. √Č valido notar que, na aus√™ncia da foto de macaco, a aten√ß√£o dos volunt√°rios se desviava para a face caucasiana, provavelmente por conta da identifica√ß√£o de grupo.

Estudo 3

Esse estudo foi similar ao anterior, substituindo a imagem da face caucasiana por uma asiática. Isso foi feito para remover qualquer viés para identificação de grupo. Adicionalmente, foram removidas as cores das imagens originais, deixando apenas traços faciais, controlando também para a influencia da cor da pele na análise.

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Os resultados corroboram o estudo anterior, mostrando que indivíduos que foram visualizaram a imagem de macaco foram tiveram sua atenção significativamente desviada para as faces negras, mesmo com a cor estando ausente na análise. Nos casos que não foram apresentadas imagens de macacos, os voluntários tiveram a tenção igualmente distribuída entre as faces de diferentes grupos.

Estudo 4

Esse foi um estudo do tipo “Teste de Associa√ß√£o Impl√≠cita”.¬†O objetivo desse tipo de teste √© tentar extrair algum tipo de associa√ß√£o entre palavras e sentimentos/sensa√ß√Ķes/julgamentos por parte dos volunt√°rios.¬†Foram realizados dois tipos de testes. O primeiro tentava ver¬†a associa√ß√£o de nomes classificados como esteriotipicamente “brancos” ou “negros” como sendo relacionado √† sentimentos bons ou ruins. Isso era feito pedindo ao volunt√°rio que classificasse os nomes como branco ou negro e depois era requisitado que ele classificasse palavras neutras, culturalmente valorizadas (como “aniversario” e “flores”) ou desvalorizadas (como “v√≥mito” ou “lixo”) como boas ou ruins. Isso era feito usando os mesmos bot√Ķes usados para classificar os nomes como¬†“brancos” ou “negros”, permitindo assim a associa√ß√£o indireta entre as identifica√ß√Ķes de ra√ßas com julgamentos de valores.

O segundo teste foi feito seguindo o mesmo protocolo, por√©m usando usando animais que caiam em duas categorias- grandes primatas (macacos) ou grandes gatos- ao inv√©s de palavras. Isso foi feito para investigar se a associa√ß√£o entre negros e macacos era indiretamente influenciada pela associa√ß√£o de macacos com “viol√™ncia” ou com “Africa”, visto que grandes gatos tamb√©m s√£o animais tidos como violentos e africanos.

Os resultados mostraram que os volunt√°rios eram mais r√°pidos em classificar palavras como sendo “negro-ruim” do que como “negro-bom”, assim como eram mais r√°pidos em associar animais como “negro-macaco” do que como “negro-grandes gatos”, mostrando que a associa√ß√£o negativa n√£o parece ser influenciada¬†indiretamente pela associa√ß√£o com Africa ou com viol√™ncia.

Estudo 5

Esse estudo teve como objetivo averiguar quais são as consequências materiais da associação entre negros e macacos. Para isso, foram apresentadas palavras associadas tanto a grandes primatas, quanto a grandes gatos aos voluntários. Em seguida foram apresentada uma filmagem de um suspeito sendo agredido por policiais e era sugerido ao voluntário indiretamente que o indivíduo era negro ou branco. Em seguida era dado ao voluntário um questionário com o objetivo de medir o quão justificado ele achava a agressão policial.

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Os resultados mostraram que os voluntários que visualizaram palavras associados à macacos eram mais inclinados a considerar a agressão policial justificada quando o suspeito era negro. Não apenas isso, os indivíduos que eram apresentados com palavras associadas à grandes gatos não apresentavam viés significativo na sua justificativa da agressão, independente da cor da pele do suspeito.

Estudo 6

Esse ultimo estudo foi um estudo não controlado que buscava investigar associação entre a representação de suspeitos na mídia e a probabilidade deles serem condenados à morte por seus crimes. O resultado foi bastante simples: quanto mais o indivíduo era associado à macacos na mídia, era mais provável que ele fosse condenado à morte, se ele fosse negro.

Conclus√£o

Os estudos compilados no artigo de Goff e colaboradores são, ao meu ver, bastante diretos: Há uma associação implícita entre negros e macacos (Estudos 1, 2 e 3), que quando evidenciada leva a uma associação de valores negativos à negros (Estudo 4), podendo justificar culturalmente a violência policial contra esse grupo (Estudo 5), possivelmente facilitando a execução legal de prisioneiros negros (Estudo 6).

E se essas não são consequências horrendas que justificam parar de reforçar ou evidenciar tal associação, eu não sei o que são.

Porque existem t√£o poucos evolucionistas negros?

Recentemente me deparei com o canal do youtube “Evolution: This View of Life” (A.K.A. EvolutionTVOL) comandado pelo¬†David Sloan Wilson¬†(que tamb√©m tem um blog no ScienceBlogs). Aparentemente o canal consiste de entrevistas com pesquisadores da √°rea de biologia evolutiva e exibe um formato muito interessante. A entrevista que mais chamou aten√ß√£o foi a intitulada “O mito da Ra√ßa, diferen√ßas raciais em sa√ļde e porque temos t√£o poucos evolucionistas negros“, com o bi√≥logo evolutivo Joseph L. Graves.

Greves trabalha em uma √°rea da biologia evolutiva muito interessante, tentando responder porque organismos envelhecem. Fora isso, ele tamb√©m apresenta um interesse muito grande na interface de quest√Ķes raciais e biologia evolutiva. Durante a entrevista Graves esclarece o porque ele acredita que ra√ßas humanas s√£o um mito (basicamente porque temos pouqu√≠ssima diverg√™ncia gen√©tica entre grupos) e explica brevemente sobre as causas evolutivas de problemas de sa√ļde ligadas a adapta√ß√Ķes alimentares de nossos antepassados (basicamente que quanto mais pr√≥xima √© sua alimenta√ß√£o da dos seus antepassados, melhor para voc√™).

Joseph L. Graves, primeiro PhD em biologia evolutiva
Negro dos Estados Unidos

Mas o que me chamou muita aten√ß√£o foi a √ļltima quest√£o, brevemente respondida no fim da entrevista, que √©: Porque existem t√£o poucos bi√≥logos evolutivos negros? De fato, em toda minha vida acad√™mica s√≥ me recordo de ter conhecido um bi√≥logo evolutivo negro (um pesquisador de Harvard, que n√£o me recordo o nome). Graves, que foi o primeiro norte-americano negro a receber o PhD na √°rea, estima que n√£o existam mais do que 10 bi√≥logos evolutivos negros nos EUA, e que biologia evolutiva √©, de fato, a √°rea acad√™mica na qual os negros s√£o menos representados.

Mas então, qual é a resposta para a questão? Bem, religião. Segundo Graves (que é religioso, por sinal), a comunidade negra norte-americana adotou o cristianismo de uma forma muito mais intensa e fervorosa do que os brancos. Especificamente, que eles adotaram uma perspectiva literalista e fundamentalista da bíblia, o que claramente contradiz os achados da biologia evolutiva.

Graves n√£o deixa muito claro se essa √© sua opini√£o ou se ele tem algum tipo de evidencia para corroborar esse cen√°rio. Ele cita sua experi√™ncia pessoal lecionando para alunos negros, e o reconhecimento que eles rejeitam diversos achados da ci√™ncia por estes confrontarem com sua f√©. Isso √© de fato consistente com algumas evidencias sobre a influencia da religi√£o no conhecimento cient√≠fico (aqui¬†e aqui), ent√£o me parece um cen√°rio razo√°vel. Graves ainda coloca que enquanto n√£o reconhecermos essa fonte de conflito n√£o poderemos resolver essa e outras quest√Ķes relacionadas de forma satisfat√≥ria.

Eu confesso que essa talvez seja a minha maior bronca com os que afirmam que ciência e religião são compatíveis: na sua vontade de provar o seu ponto, eles convenientemente ignoram os casos onde o conflito é evidente. Ao argumentar sobre o que é possível, eles deixam de lado o que de fato é realidade. Afinal, sabemos que teológos são muito bons em inventar cenários que tornam a Biblia compatíveis com qualquer coisa, até com física quantica! Mas para cada tese teológica maluca existem centenas de milhares de crentes que acreditam na literalidade do Gênesis.

Então, onde deveríamos estar focalizando nossa atenção?

Cotas e Discriminação Estatística

Como havia comentado anteriormente, aqui vai um dos minhas muitas opini√Ķes sobre o assunto de cotas raciais e sociais. Minha opini√£o sobre o assunto j√° havia mencionada brevemente no guest post do Rony, mas ela n√£o tem muito a ver sobre o assunto que vou expor abaixo.

No post a seguir, meu objetivo é delimitar a metodologia ética baseada em discriminação estatística de Maitzen (1991) e analizar se cotas raciais ou sociais são ou não são éticas. Para frustração de alguns, não entrarei no mérito de se o princípio por trás das cotas é válido (eu acredito que sim, e posso retornar nesse assunto no futuro se achar necessário).

Discriminação estatística

Discrimina√ß√£o estat√≠stica refere-se √† pr√°tica de se valer de caracter√≠sticas observ√°veis para extrapolar caracter√≠sticas n√£o-observ√°veis que s√£o de interesse para uma dada tomada de decis√Ķes.

Por exemplo, quando vamos √† feira e apertamos as frutas, n√£o estamos realmente interessados na consist√™ncia da fruta (pelo menos n√£o na maioria dos casos). O que estamos normalmente fazendo √© nos valendo de uma informa√ß√£o que est√° dispon√≠vel (a consist√™ncia da fruta), para estimar alguma vari√°vel oculta, no caso, se a fruta est√° madura, verde ou podre. Nesse exemplo, estamos baseando nossa tomada de decis√£o (comprar ou n√£o a fruta) em uma correla√ß√£o imperfeita (nem toda fruta dura est√° verde, assim como frutas podres podem ter uma consist√™ncia “boa”), por√©m que temos como boa o suficiente para a maior parte dos casos. A pr√°tica √© chamada de “discrimina√ß√£o” pois est√° relacionado ao ato de diferenciar coisas, e √© “estat√≠stica” por ser baseada em infer√™ncias estat√≠sticas (correla√ß√Ķes) sobre tais vari√°veis de interesse.

Em economia, discrimina√ß√£o estat√≠stica normalmente se refere a teorias sobre desigualdade entre g√™neros ou etnias decorrente de incompet√™ncia dos empregadores em estimar corretamente a capacidade dos empregados, normalmente se valendo de algum tipo de estere√≥tipo. Se todos acreditam que √≠ndios s√£o de fato mais pregui√ßosos, √© bem prov√°vel que seus empregadores paguem menos a eles. Igualmente, se “mulheres n√£o s√£o boas com n√ļmeros”, elas v√£o ser consideradas menos capazes e, consequentemente, ser√£o pior remuneradas para realizar trabalhos que envolvem contabilidade, ou engenharia.

Nem todo caso de discriminação estatística é necessariamente danosa: o Estatuto da Criança e do Adolescente assume implicitamente que crianças são indivíduos em formação mental, física e moral, e institucionalizam normas que asseguram que tal desenvolvimento não será prejudicado. Obviamente, isso não é verdade para muitas crianças e adolescentes, mas de modo geral não vemos a aplicação universal do estatuto como injusto.

√Č importante reconhecer que existem dois aspectos essenciais durante qualquer discrimina√ß√£o estat√≠stica. A primeira √© o benef√≠cio (ou utilidade) que vai se obter com a identifica√ß√£o correta do que √© o melhor naquele caso, seja “o melhor” comprar uma fruta madura ou recompensar justamente um profissional (para o manter na empresa, por exemplo). O segundo aspecto √© referente ao custo da obten√ß√£o de informa√ß√£o a respeito do que de fato queremos medir. Se o empregador √© capaz de avaliar quantas vendas foram feitas por cada empregado, e quanto lucro cada um gerou, o seu sexo ou cor de pele √© irrelevante para a tomada de decis√£o (assumindo que o empregador √© racional). Por√©m, se a medida de compet√™ncia √© dif√≠cil de se obter, ela pode gerar um custo, o que for√ßa o tomador de decis√Ķes a pagar esse custo para obter a melhor informa√ß√£o poss√≠vel para sua decis√£o, ou se basear em informa√ß√Ķes (e correla√ß√Ķes) imperfeitas, correndo o risco de falsamente recompensar um empregado incompetente ou n√£o reconhecer um empregado valioso.

De forma geral parece sempre pouco razo√°vel assumirmos que temos, no presente momento, informa√ß√£o perfeita sobre qualquer situa√ß√£o que precisamos tomar uma decis√£o. Sendo assim, quase todas nossas decis√Ķes se baseiam em informa√ß√Ķes (e correla√ß√Ķes) imperfeitas. Isso, por√©m, n√£o significa que seria imposs√≠vel elevar esse n√≠vel de informa√ß√£o mediante a um custo: poder√≠amos, por exemplo, realizar uma inspe√ß√£o psicol√≥gica e m√©dica em toda crian√ßa para investigar qual √© o seu grau de desenvolvimento f√≠sico, mental e moral, para avaliar se elas ainda podem ser protegidas sob o Estatuto da Crian√ßa e do Adolescente. A quest√£o ent√£o √©: vale a pena pagar o custo pelos benef√≠cios que ser√£o recebidos?

Essa relação entre custo e benefício pode ser entendida como uma função simples:

Figura 1a de Maitzen (1991) modificada.



Onde x é o custo do aumento da informação, e y é o ganho (ou utilidade) que tal informação extra irá nos dar, e r é o valor máximo de ganho que podemos obter, que teoricamente pode nunca ser alcançado (em outras palavras, r é o valor assintótico da função). Visto que sempre é possível aumentar x, precisamos avaliar qual é o valor que nos dá o melhor ganho relativo, e a partir de qual ponto teremos prejuízo se continuarmos investindo (aumentando x). Tal valor é dado pelo ponto E, que é quando a vantagem ganha pelo aumento de informação é igual ao custo pelo aumento de informação (ou seja, onde a tangente da reta é igual a 1). A partir daquele ponto, estaremos investindo muito mais e ganhando proporcionalmente pouco. Analogamente, antes desse ponto, qualquer investimento resulta em ganhos maiores do que o investimento, ou seja, lucro. Assim, apenas vale a pena se valer de discriminação estatística se o aumento do custo do refinamento da informação causa lucro, e não prejuizo.

Tais custos e benef√≠cios n√£o precisam ser entendidos apenas como financeiros (apesar de ser mais pr√°tico pensar assim), mas tamb√©m como sociais. Assim, ter√≠amos que existem custos sociais (financeiros incluso) de se aumentar a informa√ß√£o e benef√≠cios sociais que seriam ganhos em decorr√™ncia dessa informa√ß√Ķes. De um ponto de vista utilitatista, essa seria uma base √©tica para julgar a validade de pol√≠ticas p√ļblicas baseadas em discrimina√ß√£o estat√≠stica. Uma pol√≠tica publica baseada em correla√ß√Ķes imperfeitas s√≥ seria justa se ela n√£o causa d√©ficit social ou se fosse poss√≠vel ter um grande ganho social com um pequeno investimento social em obten√ß√£o de informa√ß√Ķes.¬†

E o que isso tudo tem a ver com cotas universit√°rias, afinal?

Cotas s√£o ferramentas que suprem diversas¬†expectativas¬†e necessidades ao mesmo tempo. Por exemplo, se cotas s√£o implementadas apenas para aumentar a propor√ß√£o de certas etnias ou grupos sociais dentro da universidade, ent√£o n√£o h√° discrimina√ß√£o estat√≠stica, pois n√£o h√° uma premissa oculta de que tal etnia √© (em m√©dia) mais ou menos capacitada. Tais considera√ß√Ķes s√£o irrelevantes, se a √ļnica preocupa√ß√£o √© elevar a diversidade dentro da universidade, ou a participa√ß√£o social de segmentos exclu√≠dos. Cotas, como meio de engenharia social, n√£o s√£o foco de cr√≠ticas ou an√°lises no sentido de discrimina√ß√£o estat√≠stica.¬†Por√©m, quando falamos de equipara√ß√£o hist√≥rica ou de oferecer oportunidades mais justas (que s√£o os argumentos que escuto mais comumente), estamos necessariamente falando de discrimina√ß√£o estat√≠stica.


O presente projeto de lei PLC180 estipula que 50% das vagas das universidades estatuais ser√£o destinadas √† vestibulandos provenientes de escolas p√ļblicas, sendo que metade dessas vagas ser√£o ofertadas para os que tiverem renda inferior √† 1,5 sal√°rios m√≠nimos, e todas elas ser√£o distribu√≠das de forma equitativa no quesito racial, obedecendo a propor√ß√£o racial observada em uma dada unidade federativa (nota: a PLC180 n√£o √© perfeita, inclusive no quesito equitatividade racial, mas deixo isso para um poss√≠vel futuro post). Tanto o crit√©rio racial, quanto o de renda podem ambos ser encarados como casos de estimulo √† inclus√£o social: no caso da quest√£o racial √© mais obvio, pois o texto especifica explicitamente que o n√ļmero deve obedecer a propor√ß√£o na popula√ß√£o. J√° na quest√£o de renda, apesar de n√£o explicitado, aproximadamente metade da popula√ß√£o pode ser enquadrada nessa categoria, o que significa que esse crit√©rio tamb√©m procuraria equitatividade social.

Quanto a tais características serem bons indicativos de capacidade reduzida de performance acadêmica, acredito que o quesito de baixa renda não seja foco de duvidas. Mas seria a questão racial um bom critério? Ao meu ver sim. Recentes dados do IBGE revelam que existe uma desigualdade social na distribuição de renda em diferentes etnias ou grupos raciais.

Exemplo da distribuição de renda per capta (em salários mínimos) por diferentes etnias no Sudeste do Brasil.


Muito tem-se argumentado sobre a imperfei√ß√£o da auto-identifica√ß√£o para a defini√ß√£o de ra√ßa, e estudos gen√©ticos sobre a hereditariedade de diversas pessoas s√£o levantadas como sendo evid√™ncia de correla√ß√£o imperfeita entre ra√ßa auto-proclamada e a hist√≥ria geneal√≥gica do indiv√≠duo. Por√©m, do ponto de vista que coloquei acima, tal investiga√ß√£o n√£o √© justificada, pois aceitamos a informa√ß√£o imperfeita por consideramos que os custos para a eleva√ß√£o da informa√ß√£o n√£o compensa o ganho social que ser√° obtido. Um motivo para isso √© que n√£o √© a composi√ß√£o gen√©tica do indiv√≠duo que se correlaciona com o fen√īmenos que queremos observar (defasagem acad√™mica), mas a percep√ß√£o social de grupos √©tnicos, algo que auto-percep√ß√£o parece ser muito mais eficiente em avaliar (ou talvez seja a √ļnica forma de se avaliar isso).

Um argumento comum contra a auto-identifica√ß√£o √© que pessoas podem mentir durante a realiza√ß√£o de vestibulares e outros concursos, o que √© verdade. Por esse motivo, qualquer implementa√ß√£o de cota racial que parta deste princ√≠pio deve ter agregado um custo da vigil√Ęncia para poss√≠veis mentirosos, e possivelmente a aprova√ß√£o de leis que punam os transgressores. Mentirosos e usurpadores devem ser postos em xeque, e o eventual custo social da vigil√Ęncia e o da puni√ß√£o devem ser adicionados em nossa avalia√ß√£o dos benef√≠cios sociais que ser√£o derivados desse tipo de pol√≠tica. Analogamente, se o crit√©rio n√£o √© auto-identifica√ß√£o, mas caracteriza√ß√£o por terceiros, devem existir leis que permitam recorrer a decis√Ķes mal-feitas, algo que tamb√©m deve ser contabilizado.

Mas e o crit√©rio relacionado a escola de origem? Em um primeiro momento ela pode ser justificada por ser considerada um bom correlato estat√≠stico com baixa renda ou mesmo ra√ßa. Por√©m nenhum desses argumentos se sustenta, moralmente, pois o custo x¬†para a obten√ß√£o da informa√ß√£o necess√°ria √© baix√≠ssimo. De fato, ele √© t√£o baixo que ele j√° √© inclu√≠do no sistema de cotas, de forma que ele apenas funciona como mecanismo de exclus√£o, principalmente no caso de indiv√≠duos de baixa renda que n√£o vieram de escolas p√ļblicas (bolsistas de escolas particulares, ou mesmo indiv√≠duos sem ensino formal) ou membros de etnias discriminadas que estudaram em escolas particulares (e n√£o me parece haver motivo algum para acreditar que eles n√£o sofreram discrimina√ß√£o e n√£o tiveram seu desenvolvimento acad√™mico comprometido em decorr√™ncia disso). Nesse ponto, ou acreditamos que a escola p√ļblica √© um indicativo forte de baixo desempenho acad√™mico por si s√≥, √† exclus√£o dos outros dois crit√©rios √©tnicos e financeiros, ou somos for√ßados a admitir que tal crit√©rio √© imoral. Se cursar escola p√ļblica leva a um baixo desempenho acad√™mico (e provavelmente leva), ent√£o o estabelecimento desse tipo de cota est√° apenas endossando uma falha do pr√≥prio estado, n√£o muito diferente da l√≥gica do Progress√£o Continuada, algo que √© dificilmente uma solu√ß√£o para qualquer coisa.

Em suma,

  • N√£o vejo uma boa justificativa moral para a implementa√ß√£o de cotas “sociais” no sentido de conferir cotas a alunos advindos de escolas p√ļblicas, sendo que √© poss√≠vel elevar o n√≠vel de informa√ß√£o com um custo social proporcionalmente inferior ao ganho social: este esquema de cotas estaria abaixo do ponto E.¬†

  • J√°¬†cotas raciais e as baseadas em renda me parecem plenamente justificadas, desde que explicitamente destinadas a promover a equitatividade, pois agregam a informa√ß√£o necess√°ria para combater o problema social percebido, estando ambas pr√≥ximas ao ponto E. Isso n√£o significa que tais cotas s√£o perfeitas, mas que, dada nossa percep√ß√£o do problema, elas parecem ser uma solu√ß√£o adequada, logo √©tica.

Fonte:
Maitzen, S (1991). The ethics of statistical discrimination. Social Theory and Practice, 17, 23-45 : 10.5840/soctheorpract199117114

Cotas: preparando o terreno

Enquanto termino de preparar meu post um pouco mais estendido sobre cotas universit√°rias, gostaria de dividir esse document√°rio muito interessante sobre a quest√£o de cotas raciais na UnB.

Acho que muitos bons pontos s√£o levantados de ambos lados. Enquanto concordo de forma geral que todas as formas de sectarismo s√£o perversos, n√£o posso deixar de reconhecer que tal sectarismo est√° presente na mentalidade e na nossa cultura, de uma forma ou outra.

Um ponto que me chamam a atenção profundamente nesse documentário é a prevalência de indivíduos brancos combatendo as cotas raciais. Não sei se foi algo intencional dos produtores do documentário, mas é algo que nos faz pensar.