{"id":11201,"date":"2020-09-22T22:05:22","date_gmt":"2020-09-23T01:05:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogs.unicamp.br\/hypercubic\/?p=11201"},"modified":"2020-09-22T22:05:24","modified_gmt":"2020-09-23T01:05:24","slug":"ignobel-2020-as-pesquisas-mais-improvaveis-do-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/hypercubic\/2020\/09\/ignobel-2020-as-pesquisas-mais-improvaveis-do-ano\/","title":{"rendered":"IgNobel 2020: as pesquisas mais improv\u00e1veis do ano"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/1721181113.rsc.cdn77.org\/data\/images\/full\/29586\/ig-nobel-awards-celebrates-30-years-of-the-lighter-side-of-science.jpg?w=600?w=650\" alt=\"Ig Nobel Awards Celebrates 30 Years of the Lighter Side of Science\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">De facas enfezadas \u00e0 terceiriza\u00e7\u00e3o de assassinatos e sobrancelhas narc\u00edsicas, o IgNobel deste ano manteve a tradi\u00e7\u00e3o de congratular os pesquisadores mais esquisitos do mundo<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">TRADI\u00c7\u00c3O \u00c9 UMA FACA DE <em>DOIS LEGUMES<\/em>: por um lado, \u00e9 legal levar adiante os h\u00e1bitos e costumes das gera\u00e7\u00f5es anteriores; por outro, uma tradi\u00e7\u00e3o pode facilmente se tornar uma amarra, uma for\u00e7a paralisante, pronta a nos prender num passado que j\u00e1 n\u00e3o existe ou sequer existiu. Pessoas criativas, como cientistas e artistas, costumam ter pouca rever\u00eancia diante das tradi\u00e7\u00f5es estabelecidas. Isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o existam tradi\u00e7\u00f5es nessas \u00e1reas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma tradi\u00e7\u00e3o irreverente da comunidade cient\u00edfica, por exemplo, \u00e9 o Pr\u00eamio IgNobel. Dedicado a divulgar as pesquisas que primeiro fazem rir, depois pensar, o IgNobel \u00e9 tradicionalmente realizado em meados de Setembro desde 1990. A 30<sup>a.<\/sup> primeira edi\u00e7\u00e3o, portanto, seria um bom motivo para lotar o palco, o audit\u00f3rio e as galerias do Sanders Theater, em Harvard, na \u00faltima quinta-feira (17\/09). Entretanto, pela primeira vez, essa tradicional loca\u00e7\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de ser o cen\u00e1rio da cerim\u00f4nia mais sem-cerim\u00f4nia da comunidade cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O comit\u00ea do IgNobel pode ser engra\u00e7adinho, mas n\u00e3o \u00e9 burro. Dadas as condi\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias de um ano t\u00e3o bugado quanto 2020, seria imposs\u00edvel reunir cerca de mil f\u00e3s e cientistas num ambiente fechado e sem distanciamento social como um teatro. Assim, o IgNobel deixou de lado uma tradi\u00e7\u00e3o e recorreu a outra: a transmiss\u00e3o ao vivo, realizada via YouTube h\u00e1 v\u00e1rios anos \u2014 antes das <em>lives<\/em> virarem modinha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como sempre, <strong>1)<\/strong> o evento foi apresentado por Marc Abrahams, editor da <em>Improbable Research<\/em>, revista respons\u00e1vel pela escolha dos agraciados; <strong>2)<\/strong> a cerim\u00f4nia foi unificada por um tema e o deste ano foi <em>bugs<\/em>, em seus v\u00e1rios sentidos, do etimol\u00f3gico ao tecnol\u00f3gico; <strong>3)<\/strong> os dil\u00favios de avi\u00f5ezinhos de papel foram realizados tr\u00eas vezes, mesmo que remotamente e <strong>D)<\/strong> a mini-\u00f3pera, montada em quatro atos, teve uma narrativa contra-kafkiana, de um inseto que acorda em corpo humano e de humanos que se consideram insetos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem mais delongas e listas inconsistentes, vamos \u00e0s premia\u00e7\u00f5es deste ano t\u00e3o absurdo:<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">1) Ac\u00fastica<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma brincadeira tradicional nos laborat\u00f3rios de qu\u00edmica em todo mundo: crian\u00e7as de todas as idades engolem um pouco de g\u00e1s h\u00e9lio e se divertem com a voz esgani\u00e7ada resultante desse gole. Jacar\u00e9 no h\u00e9lio desafina? Digna da curiosidade infantil, essa pergunta levou a uma pesquisa conduzida por Stephan Reber, Takeshi Nishimura, Judith Janisch, Mark Robertson e Tecumseh Fitch. Ao confinar um alig\u00e1tor chin\u00eas num ambiente rico em h\u00e9lio, os cientistas da \u00c1ustria, Su\u00e9cia, Jap\u00e3o, EUA e Su\u00ed\u00e7a descobriram que sim, um jacar\u00e9 desafina quando inala o g\u00e1s que nos deixa com voz engra\u00e7adinha. Todos os autores da pesquisa compareceram \u2014 por videoconfer\u00eancia, claro.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">2) Psicologia<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobrancelha, aquela pilosidade acumulada sobre os olhos, pode ser um neg\u00f3cio muito expressivo. Por ela podemos reconhecer um olhar surpreso, irritado ou apaixonado. Miranda Giacomin e Nicholas Rule foram al\u00e9m dessa tradi\u00e7\u00e3o e buscaram nessa \u00e1rea peluda da cara um meio de identificar narcisismo. Pela descoberta de que as sobrancelhas tamb\u00e9m podem transmitir a mania de grandeza de um narcisista, os pesquisadores do Canad\u00e1 e dos EUA foram recompensados com o IgNobel de Psicologia \u2014 que Rule recebeu, virtualmente, escondendo bem as pr\u00f3prias sobrancelhas. Ser\u00e1 que ele \u00e9 (narcisista)?<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">III) Paz<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde que se separaram e ficaram de mal logo ap\u00f3s a independ\u00eancia, em 1947, \u00cdndia e Paquist\u00e3o mant\u00e9m viva a tradi\u00e7\u00e3o de trocar insultos e amea\u00e7as\u2014- inclusive nucleares. Recentemente, a escaramu\u00e7a diplom\u00e1tica entre os dois pa\u00edses sul-asi\u00e1ticos escalou at\u00e9 chegar ao n\u00edvel da criancice. Diplomatas dos dois indianos e paquistaneses foram \u00e0 resid\u00eancia um do outro \u2014 apenas para tocar a campainha e sair correndo antes que algu\u00e9m atendesse. Como uma molecagem dessa \u00e9 prefer\u00edvel a uma troca de bombas at\u00f4micas, a diplomacia indo-paquistanesa levou o IgNobel da Paz deste ano. Curiosamente, apesar da brincadeira, os embaixadores se levam t\u00e3o a s\u00e9rio que n\u00e3o compareceram \u00e0 entrega do pr\u00eamio.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">\u0394) F\u00edsica<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 nem uma tradi\u00e7\u00e3o e sim um instinto: minhocas vivas vibram e debatem-se quando est\u00e3o na nossa m\u00e3o. Uma minhoquinha poderia vibrar mais ainda, em alta frequ\u00eancia? Ivan Maksymov e Andriy Pototsky submeteram as criaturas aneladas a impulsos de alta frequ\u00eancia e notaram que, nesse caso, a vibra\u00e7\u00e3o das minhocas tem um padr\u00e3o muito semelhante \u00e0 da superf\u00edcie da \u00e1gua nas mesmas condi\u00e7\u00f5es. Ligados a institui\u00e7\u00f5es da Austr\u00e1lia, Fran\u00e7a, Ucr\u00e2nia, It\u00e1lia, Alemanha, Reino Unido e \u00c1frica do Sul, Maksymov e Pototsky deram uma pequena demonstra\u00e7\u00e3o em v\u00eddeo de seus experimentos.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">$) Economia<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O brasileiro beija bastante mas n\u00e3o tem boa distribui\u00e7\u00e3o de renda. O escandinavo \u00e9 o oposto, beijando pouco mas com uma riqueza distruibu\u00edda mais igualmente. Pode parecer um clich\u00ea bem tradicional, mas foi cientificamente provado por uma equipe multidisciplinar do Reino Unido, Pol\u00f4nia, Fran\u00e7a, Brasil, Chile, Col\u00f4mbia, Austr\u00e1lia, Noruega e It\u00e1lia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em artigo publicado na <em>Scientific Reports<\/em>, Christopher Watkins, Juan David Leong\u00f3mez, Jeanne Bovet, Agnieszka \u017bela\u017aniewicz, Max Korbmacher, Marco Ant\u00f4nio Corr\u00eaa Varella, Ana Maria Fernandez, Danielle Wagstaff e Samuela Bolgan estudaram a rela\u00e7\u00e3o quantitativa entre a desigualdade de renda e m\u00e9dia de beijo-na-boca de diferentes pa\u00edses. O grupo foi representado apenas por Christopher Watkins  \u2014 o que \u00e9 uma pena, pois assim n\u00e3o houve nenhuma demonstra\u00e7\u00e3o de beijo. Nem um pobre selinho sequer!<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">\u00bd) Administra\u00e7\u00e3o<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Administra\u00e7\u00e3o nada mais \u00e9 do que a aplica\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios econ\u00f4micos na pr\u00e1tica. A terceiriza\u00e7\u00e3o de atividades, por exemplo, vem sendo pregada por economistas como uma maneira de melhorar a gera\u00e7\u00e3o de emprego. Os chineses \u595a\u5e7f\u5b89 (Xi Guang-An), \u83ab\u5929\u7965 (Mo Tian-Xiang), \u6768\u5eb7\u751f (Yang Kang-Sheng), \u6768\u5e7f\u751f (Yang Guang-Sheng) e \u51cc\u663e\u56db (Ling Xian Si) demonstraram empiricamente que a terceira\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem potencial de facilitar a seguran\u00e7a p\u00fablica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao receber uma encomenda de assassinato, Xi Guang-An repassou o trabalho para Mo Tiang Xiang, que subcontratou Yang Kang-Sheng, que transferiu o servi\u00e7o para outro Yang, o Guang Sheng; este, por sua vez, recorreu a outro matador de aluguel, Ling Xian Si. Cada assassino recebeu uma fra\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o inicialmente combinado e o assassinato nem chegou a ser cometido. Capturado enquanto convencia a v\u00edtima a forjar a pr\u00f3pria morte, Xian Si acabou denunciando o esquema de terceirza\u00e7\u00e3o criminal. Preso, o quinteto de empreendedores n\u00e3o p\u00f4de receber o IgNobel nem \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">\u221a49) Entomologia<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aranhas s\u00e3o, segundo a tradi\u00e7\u00e3o popular, insetos (ou <em>inseptos<\/em>, segundo a Chiquinha). Talvez seja uma classifica\u00e7\u00e3o instintiva: ambos os bichos costumam ser perigosos e t\u00eam apar\u00eancia asquerosa para a maioria. Acontece que as aranhas n\u00e3o t\u00eam parentescos com insetos e os entomologistas e aracnologistas poderiam listar v\u00e1rias raz\u00f5es para isso. Mas bastam exatamente duas: as duas pernas extras que os aracn\u00eddeos t\u00eam em rela\u00e7\u00e3o ao insetos. Para o leigo, essa pequena diferen\u00e7a \u00e9 indiferente e o medo \u00e9 o mesmo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entom\u00f3logos, claro, n\u00e3o t\u00eam medo de insetos. Ser\u00e1 que t\u00eam aracnofobia? Richard Vetter, aracn\u00f3logo que estuda as rela\u00e7\u00f5es entre as criaturas <em>oitop\u00e1ticas<\/em> e os b\u00edpedes sem plumas, entrevistou seus colegas da comunidade entomol\u00f3gica e descobriu que a resposta \u00e9 geralmente positiva: muitos especialistas em insetos temem as aranhas. Por descobrir que os entomologistas s\u00e3o gente como a gente quando se trata de aranhas, o americano levou o IgNobel \u2014 de entomologia, n\u00e3o aracnologia, o que n\u00e3o deixa de ser ir\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">\u221e) Medicina<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O CRONCH da ma\u00e7\u00e3 de incomoda profundamente? A croc\u00e2ncia das fritas do cara na mesa ao lado te tira do s\u00e9rio? Ou ser\u00e1 o barulho de quem sorve com gosto uma sopa tradicional? N\u00e3o estamos aqui para dar um diagn\u00f3stico (nem para discutir seus gostos alimentares), mas \u00e9 poss\u00edvel que o problema seja n\u00e3o o barulho de alimentos em mastiga\u00e7\u00e3o, mas o seu c\u00e9rebro. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez voc\u00ea sofra de um transtorno psiqui\u00e1trico identificado por Nienke Vulink, Damiaan Denys e Arnoud van Loon: <em>misofonia<\/em>. Al\u00e9m de propor os crit\u00e9rios de diagn\u00f3stico, os pesquisadores belgo-neerlandeses tamb\u00e9m notaram que a terapia cognitivo-comportamental funciona como tratamento deste problema. Os tr\u00eas receberam seu IgNobel direto do hospital onde desenvolvem suas pesquisas e agradeceram os pacientes.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">3<sup>3<\/sup>) Educa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta categoria n\u00e3o existiria sem a COVID-19 e conta com uma lista de agraciados desgra\u00e7ados: Jair Bolsonaro (Brasil), Boris Johnson (Reino Unido), Narendra Modi (\u00cdndia), Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador (M\u00e9xico), Alexander Lukashenko (Belarus), Donald Trump (EUA), Recep Tayyip Erdogan (Turquia), Vladimir Putin (R\u00fassia) e Gurbanguly Berdimuhamedow (Turcomenist\u00e3o). Como j\u00e1 deve estar claro pelos nomes listados, esse grupo \u2014 que poder\u00edamos chamar de <em>coronaclube<\/em> \u2014 foi recompensado por ensinar ao mundo que os pol\u00edticos podem ter um efeito mais imediato sobre a vida e a morte da popula\u00e7\u00e3o do que os cientistas e os m\u00e9dicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o l\u00edder bielorrusso, o IgNobel n\u00e3o \u00e9 novidade: junto com a pol\u00edcia de seu pa\u00eds, ele j\u00e1 havia recebido o IgNobel da Paz em 2013 por proibir aplausos em p\u00fablico \u2014 e mandar a pol\u00edcia prender um homem de um bra\u00e7o s\u00f3 por aplaudir. <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/hypercubic\/2017\/01\/trump-o-presidente-ignobel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Donald Trump tamb\u00e9m teria recebido um IgNobel em 2017<\/a>, por um suposto <em>paper<\/em> intitulado &#8220;Prova da Hip\u00f3tese de Riemann utilizando a teoria dos fatos alternativos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tradicionalmente avessos tanto \u00e0s cr\u00edticas quanto \u00e0 comunidade cient\u00edfica e ao bom-humor (e ainda mais \u00e0s cr\u00edticas bem-humoradas da comunidade cient\u00edfica), nenhum dos &#8220;l\u00edderes&#8221; citados compareceu \u00e0 cerim\u00f4nia virtual do IgNobel. Talvez tenha sido melhor assim, por evitar esse tipo de companhia.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">10) Ci\u00eancia dos Materiais<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se os nomeados para a categoria anterior parecem uma merda, nessa \u00e9 o objeto de pesquisa que \u00e9 uma bosta. Mas n\u00e3o qualquer bosta, claro. Estamos falando fezes humanas congeladas e moldadas em forma de faca. Algu\u00e9m no ramo arqueol\u00f3gico deve ter tido a brilhante ideia de propor a teoria de que os homens da era do gelo poderiam fabricar ferramentas com seus pr\u00f3prios res\u00edduos solidificados. Pois bem, como qualquer hip\u00f3tese precisa ser provada, uma equipe de pesquisadores americanos e brit\u00e2nicos p\u00f4s a m\u00e3o na massa escatol\u00f3gica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O artigo publicado por Metin Eren, Michelle Bebber, James Norris, Alyssa Perrone, Ashley Rutkoski, Michael Wilson e Mary Ann Raghanti n\u00e3o faz rodeios e responde \u00e0 pergunta da pesquisa j\u00e1 no t\u00edtulo: &#8220;Replica\u00e7\u00e3o experimental demonstra que facas manufaturadas com fezes humanas congeladas n\u00e3o funcionam&#8221;. Como dizem os programadores, <em>garbage in, garbage out<\/em>. Se voc\u00ea n\u00e3o quer que sua teoria acabe ridicularizada, n\u00e3o proponha uma teoria rid\u00edcula. Ao menos Eren <em>et. al.<\/em> tiveram sabedoria o bastante para rir de si mesmos e aceitar o que deve ter sido o IgNobel mais nojento dos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como era de se esperar, algumas tradi\u00e7\u00f5es da cerim\u00f4nia do IgNobel tiveram que ser quebradas. O trof\u00e9u desse ano era um leg\u00edtimo cubo de papel sulfite \u2014 bem mais simples que o habitual, mas com a vantagem de poder ser entregue \u00e0 dist\u00e2ncia e render montagens toscas. A nota de 10 trilh\u00f5es de d\u00f3lares zimbabuanos tamb\u00e9m teve que ser adaptada \u2014 n\u00e3o \u00e9 mais uma c\u00e9dula oficial, o que no fim das contas n\u00e3o faz muita diferen\u00e7a em termos monet\u00e1rios. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, algumas solu\u00e7\u00f5es t\u00eam potencial de virar novas tradi\u00e7\u00f5es do IgNobel. O dil\u00favio de avi\u00f5ezinhos de papel, ainda que pr\u00e9-gravado, teve a participa\u00e7\u00e3o de gente do mundo todo. As anima\u00e7\u00f5es de inspira\u00e7\u00e3o <em>montypythonescas<\/em> entre uma parte e outra do evento n\u00e3o ficariam mal nos tel\u00f5es do palco usado normalmente. Se a pequena Sweetie Poo n\u00e3o p\u00f4de cortar os discursos mais longos ao expressar seu t\u00e9dio, n\u00e3o faltaram momentos fofos com crian\u00e7as (e gatos).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enfim, este texto j\u00e1 est\u00e1 ficando longo demais e eu demorei bem mais do que gostaria para termin\u00e1-lo. Se voc\u00ea veio aqui s\u00f3 pelo v\u00eddeo da premia\u00e7\u00e3o (em ingl\u00eas), ei-lo:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"The 30th First Annual Ig Nobel Prize Ceremony\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Amkyp-dhYX0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As refer\u00eancias diretas para os estudos de cada pesquisa contemplada com o IgNobel podem ser verificadas na <a href=\"https:\/\/www.improbable.com\/2020\/09\/18\/the-2020-ig-nobel-prize-winners\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">p\u00e1gina oficial do evento<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De facas enfezadas 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