{"id":9201,"date":"2017-04-12T19:00:35","date_gmt":"2017-04-12T22:00:35","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/hypercubic\/?p=9201"},"modified":"2017-04-12T19:00:35","modified_gmt":"2017-04-12T22:00:35","slug":"os-assassinatos-da-fada-verde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/hypercubic\/2017\/04\/os-assassinatos-da-fada-verde\/","title":{"rendered":"Os assassinatos da fada verde"},"content":{"rendered":"<figure style=\"width: 418px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-large\" src=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/e\/e2\/Absinthe-glass.jpg\" alt=\"Uma dose de absinto, tamb\u00e9m conhecido como \" width=\"418\" height=\"600\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Uma dose de absinto, tamb\u00e9m conhecido como &#8220;fada verde&#8221;. A estranha colher \u00e9 usada para adicionar a\u00e7\u00facar \u00e0 bebida.<\/figcaption><\/figure>\n<h4 style=\"text-align: center\" align=\"justify\">Ningu\u00e9m esperava um crime como aquele na pacata Su\u00ed\u00e7a.<\/h4>\n<p style=\"text-align: center\" align=\"justify\">\n<p style=\"text-align: center\" align=\"justify\"><strong>Por Romeo Vitelli em <em><a href=\"http:\/\/drvitelli.typepad.com\/providentia\/2017\/01\/the\u00adlanfray\u00adcase.html\">Providentia<\/a><\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Renato Pincelli.<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Jean Lanfray era um lavrador de 31 anos que vivia com sua esposa, gr\u00e1vida, e duas crian\u00e7as no andar de cima da casa de uma fazenda em Commugny, na Su\u00ed\u00e7a. No andar de baixo, moravam seus pais e um irm\u00e3o. Ex-soldado (com tr\u00eas anos de servi\u00e7o no Ex\u00e9rcito da Fran\u00e7a), Lanfray seria descrito mais tarde como um devotado homem que trabalhava duro para sustentar uma fam\u00edlia em crescimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c0s quatro e meia da manh\u00e3 de 28 de agosto de 1905, Lanfrey levantou-se como de h\u00e1bito. Ele come\u00e7ou seu dia com uma dose regular de absinto misturado com tr\u00eas partes de \u00e1gua. Ele e sua esposa discutiram brevemente enquanto ele insistia que ela deveria encerar suas botas. As discuss\u00f5es entre os dois eram frequentes ao longo daquele ano, principalmente quando ele bebia. Jean desceu, ent\u00e3o, para encontrar seu pai e seus irm\u00e3os nas vinhas onde trabalhavam. Apesar do trabalho pesado, ele ainda encontrou tempo para parar numa taverna e beber mais \u00e1lcool \u2014 mais tarde, a pol\u00edcia teria a meticulosidade de documentar todo o \u00e1lcool que ele consumiria naquele dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ap\u00f3s mais duas pausas para um vinho, ele encerrou os trabalhos \u00e0s 16h30. Em seguida, Lanfray e seus irm\u00e3os passaram em um caf\u00e9 onde pediram caf\u00e9 forte misturado com <em>brandy<\/em>. Ap\u00f3s finalmente chegar em casa, ele encontrou a esposa extremamente mal-humorada. A briga come\u00e7ou quando Lanfray se recusou a ordenhar as vacas, mandando a esposa fazer essa tarefa. Embora seu pai tenha tentado mediar o conflito, Jean Lanfray teve uma explos\u00e3o de ira. Apesar dos protestos desesperados do pai, ele tomou seu rifle e alvejou sua esposa na cabe\u00e7a. Ela morreu quase instantaneamente, enquanto o pai de Jean saia correndo em busca de socorro.<\/p>\n<p align=\"justify\">Quando a menina Rose, de quatro anos, entrou no c\u00f4modo gritou ao deparar com a m\u00e3e morta. O pai atirou no peito da menina e correu para o ber\u00e7o onde estava dormindo Blanche, de apenas um ano de idade. Ap\u00f3s matar o beb\u00ea, Jean Lanfray tentou atirar na pr\u00f3pria cabe\u00e7a. Ele fez v\u00e1rias tentativas improvisadas. Devido ao comprimento do cano, teve que usar um barbante para puxar o gatilho. Quando conseguiu atirar, a bala errou o cr\u00e2nio e alojou-se em seu maxilar. Com o cad\u00e1ver de Blanche sob um bra\u00e7o, ele foi at\u00e9 o celeiro e se jogou no ch\u00e3o, provavelmente com a inten\u00e7\u00e3o de sangrar at\u00e9 a morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">A pol\u00edcia encontrou Jean Lanfray a tempo e mandou-o para um hospital nas proximidades, onde a bala foi removida. Descrito pela pol\u00edcia como \u201cconfuso e incoerente\u201d, ele adormeceu logo ap\u00f3s a cirurgia. Ao recobrar consci\u00eancia, negou qualquer conhecimento dos assassinatos realizados. Ao ser levado a reconhecer os corpos da mulher e das filhas, ele ficou inconsol\u00e1vel. Uma enfermeira relatou que ele gemia sem parar: \u201cN\u00e3o fui eu quem fiz isso. \u00d3 Deus, diga-me que eu n\u00e3o fiz isso. Eu amava tanto minha esposa e minhas crian\u00e7as.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00e3o demorou para que as pessoas come\u00e7assem a buscar uma explica\u00e7\u00e3o para um crime t\u00e3o inconceb\u00edvel naquela comunidade. Quando os resultados da aut\u00f3psia mostraram que a Sra. Lanfray estava gr\u00e1vidada de quatro meses, de um menino, a popula\u00e7\u00e3o tornou-se ainda mais indignada. Num com\u00edcio marcado para 5 de setembro daquele ano, o povo de Commugny ouviu orador ap\u00f3s orador reclamando do \u00fanico culpado pela viol\u00eancia de Lanfray: o absinto.<\/p>\n<p align=\"justify\">Destilado das flores e folhas da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Absinto_(planta)\"><em>Artemisia absinthium<\/em><\/a>, o absinto \u00e9 uma bebida alco\u00f3lica licorosa e verde que era a base de uma ind\u00fastria de 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares na \u00e9poca do caso Lanfray. Longamente associado \u00e0 cultura de \u201cboemia\u201d de artistas e intelectuais o licor (tamb\u00e9m conhecido como \u201cfada verde\u201d) sempre foi visto com suspeita pelos conservadores. Apesar dos esfor\u00e7os para banir seu uso, o consumo de absinto na Fran\u00e7a cresceu 15 vezes entre 1875 e 1913. Os resultados eram geralmente imprevis\u00edveis pois os fabricantes de absinto tamb\u00e9m usavam aditivos incomuns (e \u00e0s vezes t\u00f3xicos) para dar um \u201cg\u00e1s\u201d extra ao produto.<\/p>\n<p align=\"justify\">O absinto tornou-se um alvo f\u00e1cil para os movimentos de temperan\u00e7a, especialmente pelas suas propriedades psicoativas e pelos problemas de adic\u00e7\u00e3o que causaria. Pesquisadores m\u00e9dicos produziam estudos mostrando os efeitos potencialmente devastadores do absinto e at\u00e9 criaram um novo termo \u2014 <em>absintismo<\/em> \u2014 para denominar o uso prolongado da bebida. Entre os sintomas e efeitos de absintismo estavam ataques epil\u00e9pticos, alucina\u00e7\u00f5es, disfun\u00e7\u00f5es da fala e at\u00e9 morte. Embora n\u00e3o tivessem muita validade cient\u00edfica, esses primeiros estudos foram o bastante para fortalecer o movimento anti-absinto em sua cruzada proibicionista.<\/p>\n<p align=\"justify\">A raiz da notoriedade do absinto est\u00e1 em uma de suas subst\u00e2ncias qu\u00edmicas. Antagonista do receptor de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/GABA\">GABA<\/a>, a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Tujona\">tujona<\/a> \u00e9 uma cetona encontrada na <em>Artemisia absinthium<\/em> que seria capaz de causar efeitos psicod\u00e9licos naqueles que a consomem. Embora o absinto contenha apenas pequenas quantidades de tujona, os primeiros pesquisadores foram r\u00e1pidos em ligar a subst\u00e2ncia aos v\u00e1rios sintomas psiqui\u00e1tricos associados ao absintismo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O fato de que Jean Lanfray havia consumido absinto no dia do crime (junto com v\u00e1rias outras doses de bebidas alco\u00f3licas) era o bastante para justificar seu papel na trag\u00e9dia. Durante o julgamento de Lanfray, em 1906, seus advogados tentaram culpar o absinto o m\u00e1ximo poss\u00edvel. Um psiquiatra su\u00ed\u00e7o chamado Albert Mahaim foi convidado a testemunhar sobre o absintismo de Lanfray, mas o juiz e o promotor continuaram c\u00e9ticos. Jean Lanfray foi considerado culpado pelos tr\u00eas assassinatos e condenado a trinta anos de pris\u00e3o. Poucos dias ap\u00f3s o veredito, ele foi encontrado enforcado em sua pr\u00f3pria cela. Mas isso n\u00e3o foi o bastante para impedir o alastramento de uma histeria anti-absinto.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em 1906, ap\u00f3s uma peti\u00e7\u00e3o com 82 mil assinaturas, o governo su\u00ed\u00e7o baniu a venda e o consumo de absinto. Quando os fabricantes de absinto tentaram reverter a decis\u00e3o, a Constitui\u00e7\u00e3o Su\u00ed\u00e7a foi emendada em 1910, tornando o absinto definitivamente ilegal. A repercuss\u00e3o do caso Lanfray e os esfor\u00e7os dos movimentos proibicionistas levaram a interdi\u00e7\u00f5es similares na Europa e nos EUA. S\u00f3 ficaram de fora da onda o Reino Unido, a Dinamarca, a Su\u00e9cia, a \u00c1ustria e a Espanha. Ironicamente, a proibi\u00e7\u00e3o do absinto se deu num momento em que a coca\u00edna e a hero\u00edna ainda eram legalizadas (mas isso n\u00e3o durou muito, \u00e9 claro).<\/p>\n<p align=\"justify\">Traficantes continuaram a vender absinto, que, ao longo das d\u00e9cadas, ganhou a reputa\u00e7\u00e3o de ser uma subst\u00e2ncia perigosamente viciante. Por volta dos anos 1990, quando ficou claro que os riscos do absinto foram grandemente exagerados, come\u00e7ou a tend\u00eancia de sua legaliza\u00e7\u00e3o. Desde 2000, a Su\u00ed\u00e7a e outros pa\u00edses reverteram o banimento e os Estados Unidos voltaram a permitir a importa\u00e7\u00e3o e fabrica\u00e7\u00e3o de absinto em 2007. Embora continue ilegal em alguns pa\u00edses, a fada verde parece estar de volta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m esperava um crime como aquele na pacata Su\u00ed\u00e7a. Por Romeo Vitelli em Providentia. Tradu\u00e7\u00e3o de Renato Pincelli. 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