Em nova fase, instituto passa a levar o nome do professor Lauro Kubota, idealizador do centro

Desde sua criação, em 2008, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Bioanalítica (INCTBio) da Unicamp atua na vanguarda das pesquisas em química bioanalítica, contribuindo para a consolidação da área entre as diversas frentes de estudos químicos. Após 18 anos, o instituto entra em uma nova etapa de pesquisas e de desenvolvimento tecnológico após ser contemplado, em 2025, num edital do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações para a criação de novos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia.

Entre as novidades, estão a ampliação no seu escopo de atuação, reunindo mais pesquisadores, aumentando o potencial interdisciplinar das pesquisas e incorporando a divulgação científica entre as frentes de trabalho. Esta nova etapa marca também uma homenagem a Lauro Kubota, professor da Unicamp e idealizador do INCTBio, que morreu em 2024, aos 60 anos. “Ele tinha uma capacidade impressionante de agregar pessoas e de executar projetos. Era um pesquisador de primeiro quilate, além de um ser humano fantástico”, descreve Marco Aurélio Zezzi Arruda, coordenador-geral do instituto, que agora passou a se chamar INCTBio-LK, em referência a Lauro Kubota.

Pessoa de cabelos brancos e óculos, vestindo camisa de manga comprida com listras azuis e brancas, gesticula com ambas as mãos enquanto fala em ambiente de laboratório ou sala técnica, com equipamentos eletrônicos empilhados em prateleira ao fundo à direita e superfícies brancas ao fundo à esquerda.
Marco Aurélio Zezzi Arruda, coordenador-geral do instituto: um dos desafios é colocar o INCT em um cenário internacional mais amplo

Separar e analisar

A bioanalítica é um ramo da química que se dedica a identificar e mensurar substâncias – foco da química analítica – presentes em amostras de origem biológica, como sangue, urina, saliva ou tecidos orgânicos. Análises bioanalíticas utilizam técnicas e recursos de identificação de substâncias, como a espectrometria e os biossensores, para procedimentos como a medição da glicose no sangue, identificação de hormônios e presença de medicamentos ou drogas em organismos, entre outros. Fazem parte dos estudos em bioanalítica tanto as técnicas de separação de componentes de uma amostra quanto as de identificação e quantificação de uma substância desejada.

Apesar de serem aplicações muito comuns no cotidiano, a caracterização desses estudos enquanto área do conhecimento é algo recente entre os pesquisadores. “De certa forma, vários cientistas já trabalhavam com a bioanalítica, mas não estavam muito certos do que realizavam. As definições relacionadas à bioanalítica se consolidaram há cerca de uma década”, explica Zezzi. Segundo os coordenadores do instituto, a ausência de grupos de pesquisa organizados em torno da área foi uma das motivações para sua criação. “No fim das contas, o INCT acaba melhorando a inserção da química analítica no âmbito de outras áreas correlatas. Hoje temos mais proximidade, por exemplo, com pesquisadores da saúde”, detalha José Alberto Fracassi da Silva, coordenador de pesquisas em separações e professor da Unicamp.

Pessoa usando óculos de armação preta e camisa polo azul-marinho segura um objeto preto nas mãos enquanto está em pé em um ambiente interno com parede branca, whiteboard ao fundo e equipamento de informática visível à direita.
José Alberto Fracassi da Silva, coordenador da área de pesquisas em separações: inserção da química analítica em áreas correlatas

Atualmente, o INCTBio-LK reúne 56 pesquisadores de 15 estados brasileiros, além de consultores dos Estados Unidos, França, Reino Unido, Irlanda e Portugal. Os trabalhos são organizados em quatro áreas principais: sensores e dispositivos, coordenada pelo professor Wendel Andrade Alves, da Universidade Federal do ABC (UFABC), que se dedica ao desenvolvimento de recursos capazes de detectar substâncias por meio de biomoléculas; espectrometria e ômicas, que aprofunda os conhecimentos em técnicas que se utilizam da interação entre os materiais e a radiação eletromagnética, sob a coordenação de Marcelo Martins Sena, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); separações, que aplica técnicas de fracionamento de amostras para análises posteriores, liderada por Fracassi; e uma nova área de divulgação científica, comandada por professor Gildo Girotto Júnior, professor do Instituto de Química (IQ) da Unicamp. “A ideia é tornarmos o INCT mais conhecido e também popularizar a bioanalítica como ciência”, pontua. “Isso atinge uma questão social, que é mostrar o que fazemos e como a sociedade pode ser, de fato, contemplada por nosso trabalho.”

Mesmo com as divisões temáticas, os trabalhos desenvolvidos pelas áreas são, essencialmente, complementares entre si, o que estimula o diálogo e o intercâmbio de conhecimentos entre os cientistas envolvidos diretamente com o INCT e pesquisadores de áreas como a biologia e a medicina. “Muitas vezes, o conhecimento dessas pessoas da área da saúde acaba nos orientando na melhoria e na validação de novos dispositivos, que é uma das maiores dificuldades para colocarmos esses produtos no mercado”, exemplifica Alves. Entre as principais realizações ao longo do período de vigência do INCT, destacam-se as parcerias com empresas e órgãos governamentais, como a Polícia Federal (PF) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para os quais houve a transferência de nove tecnologias, que contribuem com trabalhos de fiscalização da procedência de madeiras e da adulteração de leite, por exemplo. Houve, ainda, a solicitação do registro de 67 patentes e o apoio ao surgimento de startups. “Agora, nosso desafio é colocar o INCT em um cenário internacional mais amplo e aumentar nossa cooperação com outros INCTs”, projeta Zezzi.

Pessoa usando óculos de armação clara e camiseta preta está sentada em cadeira de escritório preta, com o braço esquerdo apoiado sobre uma mesa de madeira clara, em ambiente de escritório com janelas ao fundo, computador de mesa visível à direita e prateleiras brancas ao fundo.
O professor Gildo Girotto Júnior, da Unicamp: objetivo é tornar o instituto mais conhecido e popularizar a bioanalítica como ciência

Compromisso

Os INCTs são um programa de apoio a grandes projetos de pesquisa de longo prazo, voltado à estruturação de redes nacionais e internacionais de pesquisa. Ele surgiu em 2008 e é liderado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em parceria com outros órgãos de fomento à pesquisa. Na última chamada para a criação de novos institutos, o INCTBio-LK foi o 15º colocado entre as 143 iniciativas aprovadas no país. Na ocasião, outros três novos INCTs com sede na Unicamp foram aprovados.

Além dos desafios inerentes à pesquisa científica, a nova fase do instituto conta com um compromisso assumido pelos pesquisadores: dar continuidade ao legado do professor Lauro Kubota. Em março de 2026, o Conselho Universitário da Unicamp aprovou a concessão do título póstumo de professor emérito ao idealizador do INCT, que coordenou os trabalhos do grupo até sua morte, em 2024. “Além de seus méritos como pesquisador, Lauro sempre teve uma preocupação de incluir jovens pesquisadores em suas equipes”, recorda Zezzi, destacando a missão do instituto na formação de novos cientistas. “Estamos dando uma cara nova ao INCT, mas com várias características que se tornaram nossa marca ao longo destes anos.”

Matéria originalmente realizada pelo Jornal da Unicamp

Autoria Felipe Mateus – Edição de Imagem Alex Calixto Paulo Cavalheri Luis Paulo Silva – Fotografia Antonio Scarpinetti


INCTBio-LK

Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Bioanalítica Lauro Kubota

0 comentário

Deixe um comentário

Espaço reservado para avatar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *