Em algum momento nos últimos anos, você deve ter se deparado com a palavra “microplásticos”. Você pode imaginar que eles vêm de objetos de plásticos (o que não é totalmente falso), mas e depois? O que acontece com eles?
É nesse contexto que surge o trabalho de mestrado de Anne, aluna da Universidade de Brasília (UnB).
Sobre a autoria
Anne Santos de Almeida realizou seu mestrado de 2024 a 2026 no Programa de Pós-Graduação em Química da UnB, tendo defendido a dissertação de título “Identificação e Classificação de Microplásticos no Lago Paranoá via Caracterização Química e Análise Multivariada”. Ela fazia parte do grupo de pesquisa AQQUA: Grupo de Automação, Quimiometria e Química Ambiental, orientada pelo professor Jez Willian Batista Braga – membro do INCT – e coorientada pelo professor Fernando Fabriz Sodré.
Seu interesse no projeto surge a partir da vontade de unir a metodologia e conceitos de quimiometria com a curiosidade no estudo de química ambiental. Anne destaca que via necessidade em se trabalhar com técnicas analíticas minuciosas e detalhistas, uma vez que havia o interesse em, além de identificar, classificar os diferentes microplásticos encontrados.
A pesquisa
A pesquisa se inicia no Lago Paranoá, localizado em Brasília e formado pelo rio de mesmo nome. Ele é um dos reservatórios mais relevantes para abastecimento público da capital e, infelizmente, foi alvo de contaminação devido aos microplásticos.
Os microplásticos encontrados eram bem diversos; por isso a necessidade de identificar e classificá-los. Em termos gerais, entendemos um microplástico como uma partícula de plástico com menos de 5 mm de diâmetro e eles geralmente se originam porque são produzidos para serem desse tamanho (chamados de primários, como o glitter, por exemplo), ou por fragmentação de plásticos maiores (chamados de secundários).
Apesar do tamanho pequeno, algumas técnicas de química analítica foram capazes de identificar as partículas existentes. Mas, nem sempre o percurso científico é perfeito (na verdade, na grande maioria das vezes não é); Anne nos conta como foi encontrar o método adequado para sua pesquisa.
“Aqui [na UnB] tem muita parceria com as polícias, seja polícia civil, polícia federal, porque eles também têm muito equipamento. E eu cheguei a ir na Polícia Federal testar um micro-Raman que eles têm.”
Aqui, ela se refere à espectroscopia micro-Raman, que consiste na junção de um microscópio óptico com um espectrômetro Raman. O microscópio amplia a imagem a ser visualizada e o espectrômetro dispara uma luz laser sobre a amostra. A partir da maneira como a luz se comporta e dos desvios que apresenta, o aparelho é capaz de determinar a composição química do que é analisado.
Entretanto, esse primeiro aparelho quebrou uma semana após as primeiras medidas, então, Anne teve que mudar a maneira como iria trabalhar.
“O principal [equipamento] que se usa para microplástico é o micro-FTIR, porque o infravermelho pega melhor a parte de polímeros de compostos orgânicos. E aí tinha um desses disponível na Polícia Civil [do Distrito Federal] e uma outra aluna de mestrado do Jez, meu orientador, já trabalhava com ele. Falei: “então vamos testar justamente ele”.
Então, a gente ajustou alguns parâmetros, teve um tempo ali de tentar achar qual que era o melhor modo de aquisição, qual era o melhor formato, se [iria fazer] análise pontual, se fazer varredura, tempo, gasto de consumível e tudo mais. Então, teve um tempo para tentar adaptar isso.
E aí depois começaram os testes assim, né, tentativa e erro de qual [amostra] que a gente pega primeiro e era um modelo que a gente cria o foco, porque assim, têm equipamentos hoje em dia que fazem isso de forma automática, mas não era o nosso equipamento que fazia. Então eu tinha que criar primeiro um banco de referência, eu precisava ter padrões de plástico de vários tipos para criar o meu modelo e aí depois fazer na minha amostra e tentar classificar o que tinha na minha amostra com base nos meus padrões de referência.”
A grande diferença entre o micro-Raman e o micro-FTIR é a luz utilizada; enquanto o primeiro utiliza a luz laser, o segundo utiliza espectro de infravermelho. Além disso, o laser é utilizado de maneira a verificar o espalhamento da luz, enquanto o infravermelho é utilizado para ser absorvido pela amostra. Uma vez absorvido, a molécula libera um espectro infravermelho que revela características da amostra, que atuam de maneira que é comparada a uma “impressão digital da amostra”. É uma técnica amplamente utilizada na química forense.
O infravermelho é uma onda fora do espectro da luz visível, como o ultravioleta, por exemplo. Ele está presente no nosso cotidiano em controles remotos, ar condicionados, leitores de código de barra e mais diversos outros aparelhos eletrônicos.
E os resultados?

Infelizmente, foram encontrados alguns tipos de plástico no lago. Os principais foram: polipropileno, polietileno, poliamida e PET. O polipropileno é um plástico utilizado em potes para alimentos, baldes, bacias, cadeiras de plástico, mas também tem seu uso destacado em seringas descartáveis – essa informação se destaca porque o lago fica próximo a um centro de saúde na cidade, que suspeita-se que pode ser uma fonte de contaminação, mas não a única. O polietileno é muito utilizado em sacolas plásticas, embalagens, garrafas e até embalagens industriais.
A poliamida é usada, principalmente, na indústria têxtil, para roupas de secagem rápida ou roupas íntimas e de banho. E, por fim, o PET, é conhecido por compor as garrafas plásticas.
E a pergunta que não quer calar é: e qual é o problema com estes microplásticos?
“Às vezes a questão não é nem só o polímero em si, mas porque o plástico é muito carregado de aditivo, retardante de chama, plastificante, corante. Tem vários aditivos na fabricação, né? Uns para deixar mais mole e uns para deixar mais durável, de modo geral. E aí tem muitos estudos na parte de o que isso pode ou não interferir, né? Seja no meio ambiente, seja no ecossistema de modo geral, seja no nosso corpo, se pode ou não interferir, o que isso pode ou não transportar, o que que isso pode ou não liberar.
Porque assim, uma das coisas que eu falo é que enquanto a gente procurar microplástico, a gente vai achar. Onde quer que a gente procure, a gente vai achar. Teve um estudo da USP recentemente que ganhou muita fama que eles acharam no cérebro humano. Tem uns que eu não lembro se era de fora ou brasileiro, que acharam na placenta. Então já se estuda o transporte via vertical, né, mãe e bebê. Tem alguns estudos, por exemplo, que falam que do jeito que você consome [indiretamente], você excreta ele e pode ser que ele não cause interferência, ou pode ser que ele só cause em um aspecto físico.
Por exemplo, na gente, ser humano pode não causar tanto impacto, mas num microorganismo muito pequeno tem um entupimento físico do próprio sistema. Mas tem outros [estudos] que falam: “Tudo bem, o problema em si talvez não seja o polímero, mas os aditivos e aí quando ele encontra determinada condição, seja de pH, de ambiente, pode ser que ele comece a liberar os aditivos. E aí quando a gente tem uma partícula muito pequena, o grande problema é que ela fica ainda mais fácil de ser contaminada, porque ela tem uma fácil dispersão no ambiente.”
O maior problema, então, segundo a pesquisadora, são os demais reagentes adicionados aos plásticos. Porém, as pesquisas ainda são iniciais; segundo o levantamento feito por Anne, as pesquisas sobre microplásticos teve um grande aumento de 2019 para cá. A boa notícia é que ainda não têm riscos confirmados sobre essa ingestão; a má notícia é que não temos informações sobre os riscos ainda.
Antes que você se pergunte se a melhor alternativa, então, seria acabarmos com todo (ou pelo menos a maior parte) o consumo de plástico, Anne traz uma resposta.
“Tem um professor que eu gosto muito, da UFSCar, o professor Walter [Ruggeri Waldman], que ele fala muito sobre isso [a não utilização de plástico]. E ano passado eu fui na [RA]SBQ [Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química], ele deu um workshop sobre porque a gente não consegue mais como humanidade. É muito impressionante porque a gente se adaptou muito rápido ao plástico, né? Ele é ali do início do século XX. Então tem pouco mais de 100 anos que a gente tá acostumado com plástico. Só que a gente se acostumou muito rápido com ele. E existe uma certa segurança também que o plástico trouxe, sabe? Segurança sanitária. Tipo assim, as seringas hoje são de plástico, são descartáveis, o que é muito bom, porque imagina você vai no hospital tirar sangue e fazer um exame e a seringa é reutilizada, sabe?
Então, trouxe comodidade, claro, mas também trouxe muita segurança e muito ganho em outros aspectos. Materiais que eram de madeira, agora são de plástico, você ganha em peso, em capacidade de transporte, então economicamente também faz muito sentido. Então hoje, a gente como humanidade não consegue viver sem o plástico. Não existe esse mundo de “vamos parar de produzir, parar de consumir o plástico hoje, porque a gente poluiu já demais o mundo”, então não existe mais esse cenário, a gente tem que se adaptar ao uso dele. E não só de reciclagem que a gente fala hoje, mas o termo que tá muito se usando é o termo de circularidade, que é basicamente: mesmo que você consuma o plástico, não deixar aquilo ali necessariamente sair da cadeia produtiva pra sempre virar resíduo, sempre ser descartado.
Então, por mais que ele tenha sido usado, ele seria reutilizado desde o processo de fabricação, fazendo uma economia circular para outra finalidade. A grande questão em relação a isso também é econômica, às vezes é mais caro você reciclar o plástico do que você fazer um novo. Então tem empresas que não vão olhar como uma um ganho, porque não existe o ganho financeiro. Mas no quesito de se adaptar ao uso dele, a circularidade hoje, economia circular é o que mais tem ganhado força.”
E agora, Anne?
Anne agora sai das águas de Brasília para se aventurar nas águas do estado de São Paulo. Seu interesse por microplásticos continua, mas, no doutorado, com a adição da análise de agrotóxicos e outros contaminantes emergentes em sua pesquisa. Seu doutorado será realizado no Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
Anne acredita que pesquisas sobre microplásticos podem auxiliar na compreensão desse tipo de poluição e para o desenvolvimento de políticas públicas. Com isso, almejaríamos melhorar o tratamento de água, incentivar a prática da economia circular e fomentar mais práticas de pesquisa dessa natureza
Referências
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Ragusa A, Svelato A, Santacroce C, Catalano P, Notarstefano V, Carnevali O, Papa F, Rongioletti MCA, Baiocco F, Draghi S, D’Amore E, Rinaldo D, Matta M, Giorgini E. Plasticenta: First evidence of microplastics in human placenta. Environ Int. 2021 Jan;146:106274. doi: 10.1016/j.envint.2020.106274.
Do ATN, Ha Y, Kwon JH. Leaching of microplastic-associated additives in aquatic environments: A critical review. Environ Pollut. 2022 Jul 15;305:119258. doi: 10.1016/j.envpol.2022.119258.
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