Entre os dias 5 e 7 de setembro, divulgadores de ciência de diferentes regiões do país se reuniram para trocar experiências, discutir desafios e pensar em novas estratégias de comunicação científica. Esse foi o cenário do 4º Encontro Brasileiro de Divulgadores de Ciência (EBDC), evento bienal que busca fortalecer a comunidade de divulgação científica no Brasil.

Organizado pelo grupo de pesquisa CEDiCiências, formado por divulgadores dos Blogs de Ciências da UNICAMP, em parceria com o Instituto Princípia, sediado em São Paulo, o encontro reúne profissionais e pesquisadores interessados em ampliar o diálogo entre ciência e sociedade.

Neste ano, o INCTBio-LK também marcou presença no evento, com a apresentação de pôsteres — tema que será abordado em outro texto. Aqui, o foco está em uma questão que atravessou as discussões do encontro: os caminhos e desafios da divulgação científica e sua relação com o trabalho desenvolvido pelo INCTBio-LK.

O tema

“O Sul como Centro” foi o tema que estava presente em cada detalhe do evento durante seus três dias. Ele surge como um exercício de reflexão para que nosso olhar seja direcionado para a produção de conhecimento na América Latina e no continente Africano.

“A idéia do sul como centro veio muito dessa equipe que valoriza de maneira muito empenhada o conhecimento do sul global e tem tentado cada vez mais aprender entre nós e conosco. E quando eu falo conosco é a partir dessa regionalidade e dessa identidade que é latino americana, que é afro-diaspórica, que é de populações originárias, e tentar trazer isso para a discussão, como centralidade, não como objeto de pesquisa.”

Ana de Medeiros Arnt. Fonte: EBDC (Juca Vieira).

Foi com essa fala que a professora do Instituto de Biologia da UNICAMP, Ana de Medeiros Arnt, também coordenadora do evento, deu início ao Encontro.

Ainda sobre essa mesa, a paleontóloga Aline Marcele Ghilardi também comenta sobre o viés da ciência e como ele pode nos afetar:

“Quando a gente usa uma lente pra enxergar o mundo é isso que acontece; a gente tem um viés. A gente [Aline e um grupo de colegas] percebeu que quando eram produzidos dados sobre o sul global, a maior parte desses dados eram produzidos por pesquisadores do norte global. Então, eles [os dados] eram interpretados à lente deles [pesquisadores do norte global]. E muitas vezes, pessoas que não vivem aqui coletam os fósseis e levam embora, fazem aquela famosa “ciência helicóptero” (pega o fóssil e leva embora), e estudam lá. Não sabem o contexto, não sabem as relações que aqueles fósseis têm com a comunidade.”

Aline Marcele Ghilardi. Fonte: EBDC (Juca Vieira).

No início do evento, também foi destacada a identidade visual do Encontro, que faz referência à América Invertida, desenhada por Joaquín Torres García.

América Invertida. Fonte: Wikipédia.

Durante a Mesa Redonda “Saberes locais e tradicionais e a dificuldade de validação científica”, a professora e pesquisadora ativista Pâmela Carvalho fala sobre a questão da imagem que representa esse sul global. Não entrando diretamente na identidade visual do evento, mas sobre como a representação desse sul em mapas carrega, também, um viés.

“Justamente agora, a ONU tá discutindo esse processo de refação do que a gente considera mapa mundi. Porque o que a gente estuda nas escolas, o mapa que a gente acessa, que a gente tem nos livros didáticos é uma farsa. Porque se a gente tá dizendo que linguagem é poder, imagem também é poder, semiótica é poder. Então, a gente ao longo das nossas vidas escolares, trabalhar com mapas que distorcem o tamanho dos continentes, a proximidade dos continentes, reduzindo continentes como África e América do Sul, tem uma perspectiva política de nos inferiorizar e exaltar o que seria justamente o norte global.”

Pâmela Carvalho. Acervo pessoal.

Essa temática, então, surge para tornar o sul global o protagonista de suas próprias histórias. No último webinário, o professor Alexandre diz que, ao invés de dar experiências internacionais ao seu grupo de pesquisa, eles possuem experiência de “Brasil real”. Ao considerar a temática das doenças tropicais, não faria sentido uma experiência em países do norte global, se o interesse é em doenças que assolam o sul.

E por falar em doenças…

“A Organização Mundial da Saúde [OMS] completou 75 anos, e nós, Organização Panamericana da Saúde [OPAS], 124 anos […]. A Organização Panamericana da Saúde, foi fundada em uma situação muito importante, […] uma epidemia de febre amarela.”

Lely Stella Guzman Barrera. Acervo pessoal.

Lely Stella Guzman Barrera, Assessora de Imunização na Representação da OPAS Brasil, chama a atenção para a presença da OPAS 50 anos antes da OMS. Na Mesa Redonda “Doenças tropicais negligenciadas: Vivências de Saúde e comunicação no Sul Global”, coincidentemente um tópico muito trabalhado nos últimos webinários do INCTBio-LK.

Uma outra fala da mesa chama a atenção, dessa vez, pela pesquisadora Alicia Patrine Cacau Dos Santos, do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisas Sociais e Qualitativas (LIPeSQ) da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD).

“Cada vez mais os pesquisadores vêm fazendo a discussão de que o acesso à informação é um determinante social de saúde, porque a qualidade da informação que a pessoa recebe vai determinar se ela vai adoecer ou não.”

Alicia Patrine Cacau Dos Santos. Fonte: EBDC (Juca Vieira).

Nos últimos webinários, quando falamos dessas doenças, um ponto comum nas falas da professora Gisele e do professor Alexandre foi o desejo de melhorar a saúde das pessoas no Brasil, cada um à sua maneira e com seus focos específicos.

Novamente, a fala do professor Alexandre sobre a experiência de “Brasil real” mostra sua importância; ao mesmo tempo que mostra que, em um país de proporções continentais como este, há uma diversidade de vivências e desigualdades, mostra o que pode não ser tão evidente para aqueles que veem o país de fora – ou uma parte dele.

A divulgação dessas ciências

Apesar de não termos mencionado diretamente, a questão de como divulgar esses saberes foi discutida em determinados momentos do evento. Especialmente para quem divulgar – em especial, na mesa sobre as doenças tropicais negligenciadas. Novamente, algo que se fez presente nos últimos webinários, talvez de maneira não tão direta.

Para aqueles que tiverem interesse, todas as mesas redondas podem ser conferidas na íntegra aqui.

Fonte: EBDC (Juca Vieira).


Letícia Sayuri Kurihara

Professora de química pela UNICAMP e mestranda no Laboratório de Jornalismo Científico - Labjor na UNICAMP. É bolsista mídia ciência do INCT, atuando como jornalista científica. Tem experiência em projetos de extensão de divulgação científica e já realizou pesquisa na área durante os anos de 2022 - 2024.

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