O que acontece com a água que sai da nossa casa? Ou melhor, o que acontece com a água que sai de indústrias, de plantações? Será que ela volta a ser o que um dia foi?

São perguntas como essas que Bianca Ferreira da Silva tenta nos responder com seu doutorado.

Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio… pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tão pouco o homem! – Heráclito de Éfeso.

Sobre a autora

Bianca realizou seu doutorado em química de 2019 a 2025, resultando na tese de título “Análises direcionada e de triagem de contaminantes emergentes em águas empregando a Cromatografia Líquida acoplada à Espectrometria de Massas”.

Ela fez parte do grupo de pesquisa Nova Crom – Liquid Chromatography Laboratory, coordenado pela professora Carla Bottoli, membro da área de Separações do INCTBio-LK.

O foco da pesquisa de Bianca foi analisar a contaminação em rios do estado de São Paulo, olhando para concentrações de agrotóxicos, fármacos, hormônios e aditivos industriais. Ao todo, foram 29 compostos analisados em quatro rios: rio Mogi-Guaçu, Jundiaí, Ribeirão Piraí e Ribeirão Buru. A motivação dessa pesquisa vem de empregar técnicas analíticas mais sofisticadas para detectar compostos presentes nas águas em baixas concentrações..

Um ponto notável no trabalho foram as parcerias firmadas ao longo do doutorado. Bianca foi coorientada pela Dra. Sonia Claudia do Nascimento de Queiroz, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Meio Ambiente e contou com a colaboração do Dr. Robson R. Monticelli Barizon, também pesquisador da Embrapa, com quem definiu os pontos em rios para fazer a captação de amostras do rio Mogi-Guaçu. Além disso, colaborou com o professor Dr. Ricardo de Lima Isaac da Faculdade de Engenharia Civil da UNICAMP para a coleta de dados dos rios Jundiaí, Ribeirão Piraí e Ribeirão Buru. Além das parcerias nacionais, ela também pôde passar um breve período na Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, a partir do contato com o professor Dr. Jon Chorover e o pesquisador Dr. Leif Abrell.

Esse contato foi importante para o estudo da detecção de outra classe de compostos, que será descrita mais adiante.

A pesquisa

“A gente tem contaminações, hoje em dia, no meio ambiente, que atingem os corpos de água. Então, seja esgoto, atividade agrícola, atividades industriais. E o que acontece é que o sistema de tratamento de água, ele não é capaz… Tanto de tratamento de esgoto, quanto de água, ele não remove certos compostos. Então, a gente já tem uma legislação vigente no Brasil, no mundo. Só que ela ainda fica muito atrás do que a gente já tem conhecimento.”

A pesquisa conta com 14 pontos de coleta no total, sendo 11 apenas do rio Mogi-Guaçu e uma para cada um dos outros rios. Isso foi pensado para avaliar as diferenças entre cada ponto do rio, com relação ao tipo de atividade que era realizada ali. Por exemplo, se em uma região era encontrada uma maior quantidade de antibiótico de uso animal, provavelmente era uma região de área agropecuária. Se em outra fosse encontrada uma maior quantidade de aditivos industriais, provavelmente haveria indústrias por perto do ponto.

A metodologia utilizada foi a Cromatografia Líquida acoplada à Espectrometria de Massas (LC-MS), uma técnica que já foi trazida em outra matéria. Nessa metodologia, uma amostra, comumente uma mistura, é injetada em uma coluna preenchida com algum componente. Os componentes são separados a partir da afinidade com a coluna (ou a falta dela). Os componentes separados por diferenças de afinidade com a coluna passam para o detector para serem identificados por meio da espectrometria de massas.

Cromatógrafo (à esquerda) e espectrômetro (à direita). Acervo pessoal.

Porém, para algumas amostras, foi necessária uma etapa anterior, a extração por fase sólida. Essa etapa consiste em uma extração do composto de interesse de dentro de uma solução para transferi-lo para um menor volume de outro solvente, eliminando as impurezas e aumentando a concentração.

“O que essa técnica faz? É como se a gente juntasse toda aquela massa de composto coletada nas amostras, então colocamos isso num material adsorvente* para que ele vá retendo este material. Então, por exemplo, se partimos de 100 ml de amostra coletada, no final eluimos** toda a massa retida no adsorvente com solvente*** (etapa chamada de extração), evaporamos o solvente e em seguida dissolvemos em, por exemplo 1 mL, para que haja a etapa de concentração [para a elevação da concentração] e em seguida injetamos este conteúdo no equipamento de cromatografia.”

*Com material adsorvente, entendemos um sólido que faz com que determinadas partículas grudem em sua superfície. É diferente de absorção, em que as partículas ficariam no interior de um sólido.

**Por eluição, entendemos uma lavagem do material separado ou retido para a retirada de impurezas.

***Solvente significa algum líquido que pode ser usado para dissolver materiais, mas frequentemente usado em lavagens. Um dos mais comuns é a água, mas outros também podem ser usados a depender da finalidade do procedimento.

Essa etapa, para algumas amostras, foi essencial para o sucesso da análise. Em baixas concentrações, os compostos não são detectados com precisão nos aparelhos, impossibilitando a quantificação.

Panela velha faz o quê?

Durante o período que Bianca passou nos Estados Unidos, a pesquisa teve um foco maior nos compostos per-polifluoralquil (PFAS). Essa classe de compostos sintéticos tem sido um grande problema por lá e são considerados “químicos eternos” por sua baixa degradação.

“Está bem em alta agora os compostos PFAS. Até o ano passado, o Ministério do Meio Ambiente lançou um primeiro projeto de abrangência nacional aqui no Brasil, mas lá [nos Estados Unidos] já é uma preocupação que vem há muitos anos devido à contaminação de comunidades pela exposição a estes compostos. Então como lá já tem esta preocupação, as pesquisas estão mais avançadas.”

Na região em que Bianca esteve, nos Estados Unidos, os PFAS eram quantificados em águas subterrâneas, por ser uma área desértica. A contaminação, segundo ela, era grande nessas regiões por ser uma área militar, em que ocorriam treinamentos de corpos de bombeiros, para apagar incêndios de aviões utilizando a espuma corta-fogo. Espuma essa que, por sinal, contém PFAS na composição.

Além das espumas, os PFAS são encontrados em diversas superfícies anti-chama ou antiaderentes, até mesmo em roupas. Outra superfície antiaderente em que os PFAS estão presentes: panelas de teflon.

Mas, calma! Não jogue sua panela fora! Mais estudos precisam ser realizados para definir os perigos do teflon para nós e se há a liberação de PFAS nas comidas – e, se tiver, quais são os limites a que podemos nos expor (muito provavelmente a exposição vai ser menor do que se tivermos contato com toneladas de espuma corta-fogo).

Olha a água!

(Antes de você ler os resultados, preciso te informar que nem todas essas águas são de abastecimento público. Algumas são águas residuais de esgoto, que ainda assim, merecem o tratamento adequado para não prejudicar a fauna e flora do ecossistema.)

Em todas as amostras, independente do período amostral, ao menos um contaminante foi encontrado. A pesquisa destaca os agrotóxicos como os mais comuns e em maior quantidade quando aparecem, que é uma questão que vem sendo trazida no país há tempos. Havia uma preocupação no início do trabalho com relação às quantidades de hormônios que poderiam ser detectados devido ao uso de anticoncepcionais, porém, eles não se destacaram tanto quanto o esperado, e encontrados em outros trabalhos descritos na literatura. Alguns agrotóxicos, como a atrazina, muito encontrada nas amostras, inclusive, já têm valores legislados sobre sua quantidade em água potável. Porém, em regiões muito agrícolas, como é o caso da pesquisa, esse nível é mais elevado.

E agora, Bianca?

Bianca agora realiza um trabalho de avaliar efeitos e a toxicidade dos compostos encontrados, em paralelo com seu pós-doutorado, agora em uma outra temática. Porém, ela e a professora Carla enfatizam a importância de se manterem pesquisas como essa ativas.

O ideal seria agora que a gente tem o método pronto, sair coletando amostra para tudo que é lugar (…). E então seria interessante essa continuidade, né?”

O desenvolvimento de um método analítico, nesse sentido, se mostra essencial para a continuidade das pesquisas na mesma área. Além disso, havia o desafio em se analisar diversos compostos químicos diferentes, algo que foi pensado e desenvolvido para a pesquisa.

A divulgação de pesquisas como essa, segundo Bianca e a professora, pode ser de grande ajuda na criação de políticas públicas:

“Porque quanto mais isso é divulgado, quanto mais dados a gente tiver, isso pode refletir em políticas  de proteção de recursos hídricos.  A  água é um bem precioso, né? A pesquisa reforça o papel da química analítica nesse tipo de situação.”

Segundo Bianca, as universidades preenchem lacunas que encontramos na sociedade. No caso desta pesquisa, trazer mais dados sobre a qualidade dos recursos hídricos para avaliar a regulamentação desses recursos.

Outra lição que podemos aprender é que a ciência se enriquece quando o trabalho é realizado em equipe.

Para conhecer a tese de Bianca:

SILVA, Bianca Ferreira da. Análises direcionada e de triagem de contaminantes emergentes em águas empregando a cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas. 2025. 1 recurso online (187 p.) Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Instituto de Química, Campinas, SP. Disponível em: https://hdl.handle.net/20.500.12733/41840. Acesso em: 21 jul. 2026.


Letícia Sayuri Kurihara

Professora de química pela UNICAMP e mestranda no Laboratório de Jornalismo Científico - Labjor na UNICAMP. É bolsista mídia ciência do INCT, atuando como jornalista científica. Tem experiência em projetos de extensão de divulgação científica e já realizou pesquisa na área durante os anos de 2022 - 2024.

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