O fim da Copa do Mundo também marca o fim de debates que costumam ganhar força apenas em grandes competições. A dopagem ou doping é um deles. No entanto, enquanto o tema deixa os noticiários, os laboratórios especializados seguem trabalhando diariamente na detecção de substâncias proibidas e no controle antidoping.
Na matéria de hoje, vamos conhecer um pouco mais sobre como se dão essas pesquisas em dopagem no Brasil e quais metodologias estão relacionadas a ela com o professor Francisco Radler, membro do INCTBio-LK.
O laboratório
Em 1984 é criado o Laboratório de Apoio Desenvolvimento Tecnológico (LADETEC) a fim de desenvolver mais pesquisas em Cromatografia Gasosa e Alta Resolução (CGAR) e Espectrometria de Massas. Em 1989, apoiado pelo LADETEC, o Laboratório de Controle de Dopagem (LABDOP) surge para fazer a análise de amostras da Copa América de Futebol, sediada pelo Brasil. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF), então, continua apoiando as pesquisas do laboratório por anos.
Em 2002, a Agência Nacional Anti-Dopagem (WADA) acredita o laboratório para realizar o controle de dopagem regularmente. Hoje, mais de 20 anos depois, o LABDOP continua sendo o único laboratório da América do Sul com tal acreditação. Com o investimento maciço do Ministério do Esporte (ME) na capacitação, construção e aparelhamento do LABDOP para a realização do controle de dopagem dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio2016, o ME renomeou o laboratório para LBCD – Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem.
E, mesmo em períodos fora de competições esportivas, o laboratório conta com um cotidiano agitado, conta o professor Radler:
“A rotina em si é sempre pesadíssima, porque há uma dezena de procedimentos em paralelo que você tem que fazer, dada a diversidade das moléculas, o que impede que você tenha um método analítico […] que veja tudo. Você tem que dividir em grupos de substâncias por certas afinidades químicas e, com isso, facilitar a vida do [pesquisador] químico analítico, do ponto de vista de fazer a análise.”
Há ainda uma grande diferença entre a rotina em época de copa do mundo e em época de olimpíadas. Nas olimpíadas, a quantidade de competições é muito maior, dadas as que acontecem simultaneamente. Além da quantidade de amostras, portanto, ser muito grande, o prazo para os resultados preliminares não deve passar de 24 horas.
Com os jogos da copa do mundo, com a menor quantidade de jogos e, principalmente, com maior espaçamento entre jogos de um mesmo time, o tempo para o resultado de uma amostra é maior, além de as amostras serem em menor quantidade. A urgência maior se dá apenas para que seja antes do próximo jogo de determinada equipe.
Os métodos
“Por exemplo, você tem um método que vai analisar estimulantes, vai analisar narcóticos e analgésicos, vai analisar diuréticos, que são todas substâncias mais ou menos parecidas. Normalmente você tem um método que vai atrás dos anabolizantes, principalmente […]. Então esses são normalmente aqueles que são analisados ou por cromatografia gasosa ou cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas [LC-MS]. E um equipamento que ganhou o protagonismo nos Jogos Olímpicos lá em 2016, foi o acoplamento da cromatografia líquida ao espectrômetro de massas com o analisador do tipo orbitrap. Ele havia sido lançado um pouco antes dos nossos Jogos Olímpicos e ele tem possibilidades de executar certos procedimentos no espectrômetro de massas que dão a ele um potencial de diagnóstico muito maior. […] Acho que o método hoje do orbitrap deve estar fazendo uma triagem de mais ou menos umas 800 substâncias diferentes. Embora, como eu disse, a gente tem que ter um monte de procedimentos para muitas substâncias, essa capacidade dele faz com que pelo menos um conjunto grande de substâncias seja analisado de uma vez só. E depois você tem outros métodos mais dirigidos.”
O orbitrap contém, na palavra, trap, que significa armadilha em inglês. O orbitrap, portanto, funciona de tal modo a capturar os íons em órbitas em torno do núcleo central da armadilha. Por íon, entendemos átomos (de hidrogênio, carbono, ou outro qualquer da tabela periódica) que apresentam algum tipo de carga positiva ou negativa. Cada íon, então, terá uma órbita distinta em função de sua razão da massa sobre a carga (m/z). Ao determinar esta razão com 5 casas decimais de exatidão, obtém-se a fórmula molecular de cada íon, um passo importante para a determinação de sua estrutura.
Um outro método a ser destacado é a espectrometria de massas por razão isotópica. Para determinar se algum atleta faz uso de testosterona, por exemplo, mesmo com níveis altos, não seria possível provar efetivamente que a testosterona foi ingerida de alguma forma, pois do ponto de vista da fórmula molecular e da estrutura, o hormônio produzido e o ingerido seriam idênticos.
Com a razão isotópica, é possível analisar a relação entre as quantidades de carbono de massa 12 e carbono de massa 13, uma vez que o carbono é um elemento preponderante na fórmula das substâncias orgânicas, como a testosterona. A testosterona produzida naturalmente possui mais carbonos 13 do que 12, enquanto que a versão produzida em laboratório, é o oposto. Essa diferenciação é o que torna possível concluir casos de dopagem.
Apesar de essa diferenciação ser possível, os níveis de testosterona naturais de algumas mulheres já foram questionados em competições olímpicas. Em 2021, nas Olimpíadas de Tóquio, Christine Mboma e Beatrice Masilingi, atletas namibianas de metros rasos, foram banidas de competir por conta dos níveis de testosterona naturalmente elevados.
O caso foi criticado por diversas pessoas, mas não foi a primeira vez que acontece; em 2016, Caster Semenya (África do Sul), Francine Niyonsaba (Burundi) e Margaret Wambui (Quênia) se recusaram a tomar fármacos para diminuir os níveis de testosterona – produzidos naturalmente.
Essa prática reflete em uma ideia binarista e limitada de gênero que, além de gerar debates polêmicos sobre a presença de pessoas transgênero no esporte, estigmatiza a presença de pessoas intersexo, que nascem com cromossomos diferentes da combinação XX ou XY, portanto, fugindo da lógica binarista.
Essas restrições terem acontecido com mulheres negras vindas do continente africano, apesar de parecer uma coincidência, nunca foi colocada a Michael Phelps, por exemplo, que apresenta uma fisionomia vantajosa e uma produção de ácido láctico menor do que de seus adversários – o que diminui sua fadiga muscular e aumenta a velocidade de recuperação física entre as provas.
Outro caso importante a ser citado ocorreu quando Pelé foi jogar nos Estados Unidos. Antes de sua estreia, ele passou por uma bateria de exames físicos e médicos. Em reportagem publicada em 12 de junho de 1975, o The New York Times destacou que sua visão periférica era 30% superior à média dos demais atletas, evidenciando uma das características que contribuíam para sua extraordinária capacidade de antecipação e leitura de jogo.
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“No fundo, isso é o que faz a diferença entre os atletas. Quer dizer, se eu tenho um organismo que produz naturalmente mais testosterona, isso me dá mais habilidades e força sobre os meus competidores. Então isso é uma característica minha.” disse o professor Francisco.
Usando 100% da capacidade humana
Em Las Vegas, nos Estados Unidos, iniciou-se uma competição denominada “Enhanced Games” (jogos turbinados, em tradução livre), em que a ideia consiste em uma série de competições esportivas nas quais os atletas são incentivados a se doparem. A justificativa por trás dessa iniciativa é de que o evento exploraria o potencial humano e até mesmo celebraria a inovação científica por trás do desenvolvimento dessas drogas.
Essas competições vão na direção contrária da pesquisa e luta antidopagem. Há décadas, tem-se observado a morte de jovens fisiculturistas na faixa dos 20 anos que morreram por complicações cardíacas. Essas complicações, em muitos dos casos, se relacionam diretamente com o uso de anabolizantes. “A gente nunca acha que vai acontecer com a gente”, comenta o professor.

Competições jurídicas
“O sistema tem o que a gente chama de contraprova, que é a outra metade da sua amostra que fica custodiada e lacrada no laboratório. Mas, isso é um direito do atleta, se ele quiser pedir a análise da contraprova. […] Aí ele vem ao laboratório e o laboratório, então, na presença dele, do advogado dele e especialistas nas análises por ele contratados, faz a análise daquela amostra. Se não der igual, a própria justiça esportiva pode reverter o resultado. Diz: ‘olha só, se você não conseguiu comprovar o primeiro resultado, então vamos negativar isso.’”
Então, se um atleta for acusado de utilizar dopagem em alguma competição, sempre há o direito de refazer o teste, utilizando a mesma amostra, no mesmo laboratório. Por outro lado, os procedimentos são tão robustos que atualmente é raríssima a reversão do resultado da análise.
Alerta
A pesquisa em dopagem gera muitas discussões e desdobramentos, como pudemos observar. Não à toa, o dia a dia é estressante no laboratório em questão. A importância dessas pesquisas, para além do esporte, passa por questões de saúde pública e de responsabilidade social, no sentido de informar sobre perigos e riscos em se utilizar determinadas substâncias. Por isso é bom lembrar que o Brasil possui, desde o dia 1º de janeiro de 2026, a Lista de Substâncias e Métodos Proibidos 2026, publicada pela Agência Mundial Antidoping (AMA/WADA) e acessível – em português – aqui.
A Lista é um dos Padrões Internacionais obrigatórios do Código Mundial Antidoping e define quais substâncias e métodos são proibidos dentro e fora de competição, além daqueles proibidos em modalidades específicas.

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