Você sabe o que doenças como leishmaniose, dengue, doença de Chagas e raiva têm em comum? Elas estão, dentre tantas outras, na lista de doenças tropicais negligenciadas da Organização Mundial de Saúde.

E como a química ajuda no tratamento dessas doenças? No texto de hoje, a professora Gisele Canuto ajuda a responder isso.

Fonte: Revista Fapesp – Uma agenda para as doenças esquecidas – A OMS apresenta um roteiro de desafios para mudar até 2030 o panorama das moléstias tropicais negligenciadas

Contextualizando

A professora Gisele, docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e membro do INCTBio-LK foi a responsável pelo webinário realizado no dia 11 de agosto. Fundadora do Grupo de Pesquisa em Bioanalítica e Metabolômica Clínica (BioMet) ela segue atuando na área, com pesquisas voltadas às doenças tropicais negligenciadas.

Já falamos um pouco sobre metabolômica em textos anteriores, apresentando os principais focos de estudo dessa área. A metabolômica busca compreender o funcionamento de um organismo a partir da análise das moléculas presentes nele. Por isso, sua aplicação no estudo e na compreensão de doenças é bastante comum, contribuindo para identificar alterações metabólicas e ampliar o conhecimento sobre diferentes condições.

Durante o webinário, a professora Gisele apresentou ainda uma diferenciação entre duas abordagens da metabolômica: a global e a direcionada.

“No geral, os trabalhos que nós desenvolvemos no BioMet envolvem estudos globais, no qual a gente não tá buscando nenhum metabólito, nenhum composto químico específico. A ideia é mapear o máximo possível do metabolismo. E para isso a gente faz uso de diferentes plataformas analíticas. […]

A gente tem trabalhado muito em estudos focados em preparos de amostras, né, na ideia de estudar diferentes solventes, composições de solventes, na busca de respostas cada vez mais abrangentes, e sempre que possível a aquisição dos dados por diferentes plataformas analíticas, já que cada uma das técnicas de separação acaba favorecendo a separação e consequente detecção de classes químicas diferentes.

E aí, quanto mais informação a gente consegue juntar ao final para entender, interpretar essas respostas, essas alterações metabólicas, melhor é a descrição das alterações, maior é a nossa compreensão dos organismos biológicos.”

metabolômica direcionada, por sua vez, concentra-se na análise e identificação de substâncias específicas, permitindo investigar de forma mais detalhada determinados compostos de interesse. Em um texto anterior, já abordamos outra pesquisa que utilizou essa abordagem.

“Doenças esquecidas do povo esquecido”

Uma das doenças estudadas é a leishmaniose, nome dado em referência aos seus agentes causadores, protozoários do gênero Leishmania. Mas o que significa dizer que esses protozoários pertencem a um mesmo gênero? Na classificação biológica, gênero é uma categoria que reúne espécies que possuem um ancestral comum mais próximo.

Isso significa que diferentes espécies podem pertencer ao mesmo gênero sem serem a mesma espécie. Um exemplo é o próprio ser humano: nosso nome científico é Homo sapiens. Já os neandertais pertenciam à espécie Homo neanderthalensis. Apesar das semelhanças com os humanos atuais, eles eram uma espécie diferente, mas pertenciam ao mesmo gênero, Homo.

Outros exemplos são a onça (Panthera onca) e o leão (Panthera leo), que pertencem ao gênero Panthera, e o coiote (Canis latrans) e o lobo (Canis lupus), ambos do gênero Canis. *Note também que todos os nomes científicos são grafados em latim.

Agora, falando nos protozoários, eles são organismos microscópicos, maiores e mais complexos do que bactérias. Assim como elas, nem todos causam doenças, mas existem alguns que são parasitas, como é o caso dos protozoários do gênero Leishmania.

Para nos contaminarmos com a doença, é necessário que sejamos picados por um mosquito-palha que esteja carregando o protozoário consigo. Nem todo mosquito-palha vai necessariamente estar contaminado. Ele se contamina ao picar uma pessoa ou animal doméstico infectado. A partir da contaminação, o paciente pode ter suas mucosas ou seus órgãos afetados, a depender do tipo da leishmaniose, que pode variar de pessoa para pessoa.

O tratamento pode ser feito a partir de antimoniais ou antiparasitários, principalmente a miltefosina, um medicamento quimioterápico – ou seja, uma droga que, a fim de tratar a doença, atua na destruição de células. O problema relacionado a esses medicamentos é o abandono do tratamento, seja pelo preço deles ou por efeitos colaterais. 

Pensando nesse cenário, a professora Gisele e o grupo BioMet estudam possibilidades de novos medicamentos para o tratamento da leishmaniose. Estima-se mais de 1 milhão de casos atuais de leishmaniose, levando em consideração aqueles casos que não são notificados por falta de acesso dos pacientes a centros de saúde.

Fonte: Como enfrentamos as doenças tropicais negligenciadas

Outra doença que é foco de estudo do grupo é a doença de Chagas, também causada por um protozoário de nome Trypanosoma cruzi. Ela é transmitida pelas fezes do inseto “barbeiro”; o inseto (que precisa estar carregando o protozoário) pica a pele, deixa as fezes e, quando a pessoa se coça, o parasita adentra o corpo através da ferida causada pela picada. Apesar de esse ser o método de transmissão tradicional, nos últimos 15 anos, a ingestão de alimentos contaminados (tais como açaí e cana-de-açúcar) tem sido o método predominante de infecção da doença.

Hoje, existem 75 milhões de pessoas em condição de risco de infecção da doença de Chagas, e ela é uma das maiores causas de morte cardíaca da América Latina. A doença tem tratamento em sua fase aguda (até 2 meses após o contágio), mas, uma vez que ela evolui para a fase crônica, não há cura. A partir daí, o paciente pode apresentar insuficiência cardíaca e aumento de órgãos como intestino ou esôfago.

A doença de Chagas carrega o nome em homenagem ao médico e cientista brasileiro Carlos Chagas. Enquanto era encarregado de combater uma epidemia de malária no norte de Minas Gerais, ele percebeu a proliferação do inseto barbeiro nas casas de pau-a-pique. No período, Carlos Chagas chegou a identificar o Trypanosoma cruzi e a reconhecê-lo no corpo de uma criança, que seria considerado o primeiro caso da doença. Além do reconhecimento acadêmico na época, o pesquisador é homenageado no nome da doença.

A professora Gisele destaca o trabalho de conclusão de curso de Hanna de Sá, que se dedicou à pesquisa na doença. Na época, ela estudou metabólitos presentes na manifestação dos sintomas e, atualmente, retorna aos estudos da doença em seu doutorado.

Fonte: Como enfrentamos as doenças tropicais negligenciadas

Outra doença que foi pesquisada no grupo é a zika, causada pelo vírus Zika, uma infecção causada pelo vírus Zika. Ela é transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti infectado, assim como a dengue e a chikungunya. Essa doença se destaca devido ao risco de atingir mulheres grávidas e causar malformações no feto, como a microcefalia.

A doença foi pesquisada pela aluna Estéfane Nunes durante o mestrado orientado pela professora. Em seu trabalho, ela analisou os metabólitos presentes e afetados em bebês com microcefalia.

Uma mão lava a outra

Algo muito presente na fala da professora foi a quantidade de colaborações feitas durante as pesquisas, fosse dela ou das alunas orientadas.

Ao final, a professora Gisele já havia mencionado parcerias com a Universidade do Estado da Bahia, a Fundação Oswaldo Cruz, a Universidade Federal do ABC, a Universidade de São Paulo e a Universidade Federal de Minas Gerais.

Isso sem contar a Universidade Federal da Bahia, onde lecionava antes e suas parcerias internacionais. Ficou claro, durante a apresentação, que a participação de outras pessoas pode ser muito enriquecedor e importante para o processo científico. 

O webinário completo pode ser conferido no canal do INCT aqui.


Letícia Sayuri Kurihara

Professora de química pela UNICAMP e mestranda no Laboratório de Jornalismo Científico - Labjor na UNICAMP. É bolsista mídia ciência do INCT, atuando como jornalista científica. Tem experiência em projetos de extensão de divulgação científica e já realizou pesquisa na área durante os anos de 2022 - 2024.

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