Paternidade Científica

No post de hoje discutiremos uma visão distorcida sobre as Ciências muito comum até entre cientistas e professores e professoras de Ciências: a visão de que um cientista ou uma equipe de cientistas são capazes de verificar e confirmar hipóteses e teorias inteiras isoladamente, sem intercâmbio de ideias, sem debates, ignorando o trabalho coletivo dos e das cientistas, atribuindo a “grandes gênios” o papel de pai de uma teoria ou de toda uma Ciência. É comum sabermos os nomes do “pai da genética”, do “pai da medicina”, do “pai da química”, do “pai da psicologia” etc. Mas o que essa visão tem de problemática?

Normalmente eleva-se a imagem de certos cientistas ao status de pai, como o de pai da química, no caso de Lavoisier, por exemplo. Este teria derrubado a teoria do flogisto e inaugurado a química moderna, ignorando-se as contribuições científicas de seus antecessores e de seus contemporâneos, os debates da época, o caráter humano da construção científica, em que não faltam dúvidas e hesitações, o contexto social e econômico da época e o trabalho de mulheres como a própria mulher de Lavoisier – Marie-Anne Pierrette Paulze.

Em 1774 Lavoisier e sua mulher encontravam-se com J. Priestley em Paris para esse lhes dar a comunicação informal de um “ar respirável” obtido a partir do aquecimento da cal de mercúrio, o qual eles identificaram posteriormente como um dos constituintes da acidez – daí o nome oxigênio. Nessa época já se duvidava das concepções fundamentais da matéria (ar, água, fogo e terra – os 4 elementos aristotélicos), da qual Lavoisier ajudara a colocar em xeque repetindo, entre outros, um clássico experimento de Boyle em 1768. O flogístico era constituinte dos corpos. Ao queimar, os metais liberariam flogístico para o ar, deixando a cal. O flogístico então, no ar, seria absorvido pelas plantas que servem de alimento aos animais. Gorduras animais e os vegetais conteriam então grande quantidade desse que, quando unidos a cal, revificariam os metais. Nota-se aqui elementos preciosos à “química moderna” como uma consistência de ideias que explicava satisfatoriamente as transformações da matéria além de permitir várias previsões.

Boyle já havia demonstrado que o ar era necessário a combustão e Scheele e Priestley já haviam identificado o “ar puro” no ar. Restou a Lavoisier o trabalho cuidadoso de repetir cuidadosamente alguns experimentos, medindo-se o peso antes e depois dos processos, atribuindo o ganho de massa dos metais na combustão ao oxigênio e realizando a decomposição e síntese da água em laboratório.

Lavoisier ajudou a destronar então os postos do fogo e da água como elementos fundamentais da natureza, mas ainda em sua tabela de elementos encontravam-se materiais como a luz e o calórico como materiais elementares. Lavoisier então não derrubou, sozinho, nem de uma hora para outra, a teoria do flogisto. Claro que a nova química do oxigênio e sua nova nomenclatura por ela imposta contribuíram para tal, mas é notável mencionar que ainda no século XIX H. Davy viria a contestar a nova nomenclatura e inclusive a defender ideias relacionadas ao flogisto. É preciso lembrar que sempre há um processo de diálogo e debate, no qual vários fatores socioculturais exercem forte influência.

Os perigos de visões individualistas e elitistas como essa da paternidade é que mostra o trabalho científico de um domínio exclusivamente reservado a minorias dotadas de grande influência e genialidade, pessoas não humanas que não erram, que criam teorias e ciências sem grande trabalho e nesse caso, como figuras masculinas, já que temos sempre a figura dos pais das ciências (onde estão as mães?). Uma visão com clara discriminação de gênero e social, sem esforço para tornar a ciência acessível como um processo coletivo e socialmente construído, sem espaço para o papel das mulheres e outras minorias sociais.

Para saber mais:
BELTRAN, M. H. R.; SAITO, F.; TRINDADE, L. S. P. História das Ciências: Tópicos Atuais. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2010.

OLESKO, K. M. That science has been largely a solitary enterprise. In: NUMBERS, R. L.; KAMPOURAKIS, K. (eds.) Newton’s apple and other myths about science. Cambridge: Harvard University Press, 2015. pp.202-209.

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