Atenção e matemática: a dança dos neurônios quando a gente dança

Crédito da imagem de capa: AFONSO, Lucas. "O que é dança?"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/artes/danca.htm. Acesso em 19 de março de 2026.

Há algo curioso na maneira como costumamos dividir o mundo do conhecimento. De um lado, colocamos o corpo, a arte, o gesto, o movimento. De outro, a razão, os números, a abstração. A dança ficaria no primeiro campo; a matemática, no segundo.

Mas será que essa separação faz mesmo sentido?

Nos últimos anos, diferentes áreas da ciência têm voltado sua atenção para perguntas como: o que acontece com a mente quando o corpo dança? Mais especificamente: como a prática da dança pode influenciar processos cognitivos fundamentais para aprender e pensar?

Entre esses processos, um tem despertado interesse especial dos pesquisadores: a atenção.

 

A atenção como ponto de partida

Antes de resolver um problema matemático, escrever um texto ou aprender uma sequência coreográfica, algo precisa acontecer: precisamos prestar atenção.

A atenção é resultado de um conjunto complexo de processos cognitivos que permitem selecionar estímulos relevantes, sustentar o foco por determinado tempo e alternar entre diferentes informações. Em termos simples, ela funciona como uma espécie de porta de entrada para outras capacidades mentais, como memória, planejamento e raciocínio. Sem atenção, o aprendizado fica comprometido.

Não é por acaso que educadores e pesquisadores buscam estratégias capazes de fortalecer esse processo. Entre exercícios cognitivos, práticas esportivas e intervenções pedagógicas, a dança começa a aparecer como um campo fértil de investigação.

ND MAIS. Aulas de dança grátis em Florianópolis. ND Mais, [s.d.]. Disponível em: https://ndmais.com.br/danca/aulas-de-danca-gratis-em-florianopolis/Acesso em: 19 mar. 2026.

O que dizem as pesquisas

Um estudo recente procurou conhecer essa relação em uma revisão sistemática da literatura científica. No levantamento realizado, foram examinados artigos científicos publicados entre 2014 e 2024 em bases internacionais de pesquisa. Inicialmente, 242 estudos foram encontrados, mas apenas 18 atenderam a todos os critérios metodológicos necessários para análise detalhada.

Esses trabalhos investigavam intervenções com dança em diferentes contextos e com diferentes grupos: crianças em ambiente escolar, adolescentes, adultos, idosos e também pessoas com determinadas condições de saúde.

Apesar da diversidade de participantes, havia algumas características em comum entre os programas analisados. Em muitos casos, as atividades consistiam em duas sessões semanais de dança, com duração aproximada de uma hora, realizadas ao longo de algumas semanas ou meses. O objetivo era observar se a prática regular da dança poderia produzir mudanças mensuráveis em processos cognitivos, especialmente na atenção.

 

O que muda quando o corpo dança

Os resultados são, no mínimo, sugestivos. Entre os estudos analisados, cerca de dois terços encontraram evidências positivas de melhora em diferentes aspectos da atenção após intervenções baseadas em dança.

Essas melhorias apareceram em dimensões como:

  • atenção sustentada – a capacidade de manter o foco por períodos mais longos;
  • atenção seletiva – a habilidade de priorizar estímulos relevantes;
  • atenção alternada – o processo de mudar o foco entre diferentes tarefas ou informações.

Em algumas pesquisas realizadas com crianças em idade escolar, por exemplo, programas de dança incorporados às aulas de educação física levaram a aumentos significativos na velocidade de processamento e na concentração em testes cognitivos.

Outros estudos indicam ainda algo mais profundo: a dança pode promover alterações no funcionamento do cérebro associadas à neuroplasticidade, isto é, à capacidade que o sistema nervoso tem de reorganizar suas conexões e aprender.

 

Por que a dança mobiliza a mente?

Uma possível explicação está na própria natureza da dança.

Dançar não é simplesmente mover o corpo, mas é coordenar múltiplos sistemas simultaneamente.

Durante uma prática de dança, o indivíduo precisa:

  • perceber o ritmo e a música;
  • sincronizar movimentos no tempo;
  • coordenar diferentes partes do corpo;
  • memorizar sequências coreográficas;
  • reagir a estímulos visuais e sonoros;
  • ajustar-se à presença de outras pessoas no espaço.

Esse conjunto de demandas cria uma espécie de ambiente cognitivo intensivo, no qual percepção, memória, coordenação motora e atenção operam em constante interação. O cérebro, nesse contexto, não apenas acompanha o movimento: ele participa ativamente da construção da experiência corporal.

 

E a matemática entra onde?

Curiosamente, nenhum dos estudos analisados investigava diretamente o aprendizado de matemática. Ainda assim, os resultados sugerem uma possibilidade instigante.

Diversas pesquisas em educação indicam que habilidades como atenção, memória de trabalho e controle cognitivo desempenham papel fundamental no desempenho matemático. Resolver um problema envolve acompanhar etapas, manter informações na memória e alternar estratégias.

Se a dança contribui para fortalecer essas capacidades cognitivas, ela pode indiretamente favorecer processos envolvidos no aprendizado matemático. Não se trata, portanto, de afirmar que dançar ensina equações. A relação é mais sutil: dançar pode fortalecer condições cognitivas que tornam aprender matemática possível.

 

O corpo que pensa

Para quem trabalha com dança, talvez nada disso seja totalmente surpreendente. Há muito tempo artistas e pesquisadores do movimento defendem que o corpo não é apenas um instrumento de expressão, mas também um lugar de conhecimento. O que a pesquisa científica começa a mostrar, com métodos experimentais e dados empíricos, é que essa intuição tem fundamento.

A dança mobiliza sistemas perceptivos, motores e cognitivos de maneira integrada. Ela exige presença, escuta, atenção. E talvez seja justamente essa complexidade que faz da prática artística um território tão potente para investigar relações entre movimento, cérebro e aprendizagem.

GOIÂNIA (GO). Secretaria Municipal de Educação. Arte: dança, pensamento e movimento. Conexão Escola, [s.d.]. Disponível em: https://sme.goiania.go.gov.br/conexaoescola/ensino_fundamental/arte-danca-pensamento-movimento-2/Acesso em: 19 mar. 2026.

Entre arte e ciência

No fim das contas, o encontro entre dança e matemática talvez diga menos sobre números e mais sobre a forma como produzimos conhecimento. Se o pensamento emerge da relação entre corpo, percepção e ação, então dançar pode ser também uma forma de investigar a realidade.

Nesse sentido, cada ensaio, cada improvisação, cada coreografia pode ser entendida como um espaço em que o corpo experimenta, testa possibilidades, organiza padrões, cria relações e aprende.

A proposta desse estudo é que a dança não seja vista apenas como uma atividade estética ou física, mas também como uma poderosa aliada da educação. Nesse ponto em que dança, educação e ciência se encontram, tem-se a possibilidade de compreender o conhecimento não como algo separado do corpo, mas como algo que emerge no próprio movimento de estar no mundo.

Referência

VAZZOLER-MENDONÇA, Adriana; FONSECA, Laerte. Dançar para Aprimorar a Atenção e a Neurocognição Matemática: Revisão Sistemática. Caminhos da Educação Matemática em Revista (Online), v. 15, n. 2, p. 1-23, 2025. Disponível em: https://periodicos.ifs.edu.br/periodicos/caminhos_da_educacao_matematica/article/view/2147. Acesso em 18 mar. 2026.


Adriana Vazzoler-Mendonça
projetokepardo@gmail.com |  + posts

Psicóloga, Arquiteta e Urbanista, Mestra em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem. Pesquisadora do neuroMATH @neuromathbr. Especialista em altas habilidade ou superdotação, atuo em identificação de pessoas superdotadas de todas as idades e mentoria para a vida na Terra, unindo ciência e consciência.

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Laerte Fonseca

Psicólogo, Neuropsicólogo, Neuroterapeuta, Neurodidata, Doutor em Educação Matemática, Doutorando em Psicologia Cognitiva, Professor, Pesquisador e Orientador do Programa em Neurociências e Comportamento da USP, Presidente do Grupo de Pesquisa neuroMATH. Interesse de analisar a aprendizagem matemática do ponto de vista cerebral.

laertefonseca@gmail.com | http://www.instagram.com/neuromathbr

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