{"id":2611,"date":"2021-11-30T19:01:29","date_gmt":"2021-11-30T22:01:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/?p=2611"},"modified":"2021-12-10T11:37:13","modified_gmt":"2021-12-10T14:37:13","slug":"exilia-trocando-segredos-em-relatos-de-criacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/exilia-trocando-segredos-em-relatos-de-criacao\/","title":{"rendered":"EXILIA &#8211; TROCANDO SEGREDOS EM RELATOS DE CRIA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: right\">Juliana Pautilla<\/p>\n\n\n\n<p>Juliana Pautilla \u00e9 artista c\u00eanica e pesquisadora aut\u00f4noma. Mestre em Artes pela UFMG. Especialista Sistema Laban-Bartenieff pela FAV. Graduada em m\u00fasica pela UEMG. Site: <a href=\"http:\/\/www.julianapautilla.com\">www.julianapautilla.com<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>RESUMO: Ex\u00edlia \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o c\u00eanica minha (atua\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o, dramaturgia e textos) com a colabora\u00e7\u00e3o de Ana Lu\u00edsa Santos (textos e provoca\u00e7\u00f5es performativas) e Lucas Morais (cria\u00e7\u00e3o, atua\u00e7\u00e3o e instala\u00e7\u00e3o sonora). Esse artigo ensaia meu olhar sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o, pensando meu corpo como imagina\u00e7\u00e3o.&nbsp; Durante a pesquisa, que teve in\u00edcio em 2016 ainda como um desejo amorfo, venho colecionando materiais criativos e elaborando um caderno de anota\u00e7\u00f5es como dispositivo de observa\u00e7\u00e3o da minha pr\u00e1tica-vida-pesquisa, expondo pensamentos, treinamentos e metodologia na cria\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Palavras-chave:<\/strong> processos de cria\u00e7\u00e3o, feminismos, descoloniza\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>ABSTRACT: Ex\u00edlia is my scenic creation (acting, scenic direction, dramaturgy and texts) with the collaboration of Ana Lu\u00edsa Santos (texts and performative provocations) and Lucas Morais (creation, acting and sound installation). This article rehearses my look at the creation process, thinking the body as imagination. During the research, which began in 2016 as an amorphous desire, I have been collecting creative materials and elaborating a notebook to observation device of my life-practice-research, exposing thoughts, training and methodology in creation.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Key words:<\/strong> creation processes, feminisms, decoloniza\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Antes, durante, agora<\/strong><\/p>\n<p>Vou falar aqui do processo de cria\u00e7\u00e3o de Ex\u00edlia dentro do contexto de minha vida que possibilitou o trabalho existir. Ex\u00edlia foi (est\u00e1 sendo) criado por mim, Juliana Pautilla (atua\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o, dramaturgia e textos), a colaboradores Ana Lu\u00edsa Santos<sup>1<\/sup>&nbsp;(pesquisa e provoca\u00e7\u00f5es performativas) e Lucas Morais<sup>2<\/sup>&nbsp;(cria\u00e7\u00e3o, atua\u00e7\u00e3o e instala\u00e7\u00e3o sonora). Esse texto ensaia uma an\u00e1lise do processo de cria\u00e7\u00e3o, pensando o corpo como imagina\u00e7\u00e3o, refazendo o percurso que tracei no decorrer da pesquisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pergunto-me: como me libertar de uma estrutura de g\u00eanero colonial? Como deslocar meu corpo e como reprogramar minhas c\u00e9lulas sabendo-me herdeira de todo pensar hegem\u00f4nico que me moldou tendo uma Europa branca cis-h\u00e9tero-normativa como refer\u00eancia? Exilar-me, n\u00e3o do mundo, mas de uma ideia de mundo, tem sido a chave para uma transforma\u00e7\u00e3o pessoal e social, no sentido de que afeto os espa\u00e7os que me encontro, no desejo de construir uma dissid\u00eancia que permitir\u00e1 produzir um pensamento cr\u00edtico sobre estar nesse mundo que habito, re-politizando feridas (ANZALD\u00daA apud GONZ\u00c1LEZ, 2019) atrav\u00e9s da escrita e da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sou constitu\u00edda de muitos encontros. Alguns sou incapaz de enxergar, outros me assombram nos sonhos. Saber-me violentada, impedida, silenciada hoje \u00e9, em certo sentido, motor para deixar de imaginar o <em>status familiae<\/em> e seu futuro esperan\u00e7oso e reprodutor, que enseja a posse subjetiva do meu \u00fatero: mulher, por isso m\u00e3e, por isso compreensiva, por isso guerreira. Em Ex\u00edlia me pergunto se a viol\u00eancia sexual mis\u00f3gina ao meu corpo crian\u00e7a foi um projeto de silenciamento para \u201co meu pr\u00f3prio bem\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para o processo de cria\u00e7\u00e3o-cura me fiz algumas perguntas: Quem estou eu agora? Como se apresenta o momento? O que consigo relatar dessa minha experi\u00eancia de presente? Repeti essas perguntas durante todo o processo de cria\u00e7\u00e3o. Elas funcionaram como uma necessidade psicof\u00edsica antes mesmo de formul\u00e1-las na boca, ou nas palavras que saem para o mundo. Percebo a import\u00e2ncia desses questionamentos, pois atrav\u00e9s deles a metodologia do trabalho foi se constituindo, dia a dia, como uma busca de tornar-me outra daquilo de que fui constitu\u00edda. Ou simplesmente, tornar-me.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2016\">\n<li>Demitida de um trabalho relevante para mim por causa um processo pol\u00edtico de troca de governos, e ao mesmo momento, um casamento fechou seu ciclo. Foi nessa crise come\u00e7aram os primeiros esbo\u00e7os de um poss\u00edvel trabalho c\u00eanico que eu nem saberia como se daria. Sem produ\u00e7\u00e3o, sem ideia de produtividade. No in\u00edcio apenas eu e minha vontade insana de chorar (ainda vou criar um treinamento sobre os l\u00edquidos, eles foram fundamentais para a minha reestrutura\u00e7\u00e3o molecular!). Comecei tocando a rabeca, instrumento musical que se tornou express\u00e3o de um sentimento de perdas e dor. Sa\u00eda pelo som. Algumas vezes por semana ia para uma sala de ensaio e movia o corpo para expurgar a dor e viver o luto. O trabalho come\u00e7a como elabora\u00e7\u00e3o desse luto.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2017\">\n<li>Em 23 de abril, mudei de cidade, de Belo Horizonte para S\u00e3o Paulo, a babil\u00f4nia, a cidade que n\u00e3o dorme, mas eu s\u00f3 queria dormir. Queria ficar na cama ou no ch\u00e3o fazendo exerc\u00edcios de auto-observa\u00e7\u00e3o, lentos. Queria ler, escrever, tocar, cantar, mover. Mas tudo bem lento. E era s\u00f3 para mim, mais que para outras pessoas. O tempo por fora corria, mas dentro de mim havia uma dilata\u00e7\u00e3o. E eu tentava trabalhar \u2013 a cidade do trabalho, \u201cpoxa eu vim para trabalhar e produzir!\u201d \u2013 eu n\u00e3o conseguia.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2018\">\n<li>Li muito. Devorei mulheres. Admirei mulheres. Admirei minha m\u00e3e ainda mais, como uma mulher que n\u00e3o pariu. Tem sido um reencontro. Minha m\u00e3e \u00e9 uma rocha com uma nascente dentro. Escrevi isso tempos atr\u00e1s. No fim do ano resolvi iniciar o que vem a ser o processo de constru\u00e7\u00e3o de Ex\u00edlia. Chamei Ana Lu\u00edsa Santos e Manu Pessoa<sup>3<\/sup>&nbsp;para me acompanharem no processo inicial de pesquisa. Partilhava com elas minhas ideias, alguns textos, conversas, encontros. Em princ\u00edpio, eu tinha uma ideia de fun\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o de equipe \u2013 Ana na dramaturgia e Manu na assist\u00eancia de dire\u00e7\u00e3o \u2013 mas o processo era muito experimental e sem uma perspectiva de financiamento ent\u00e3o naquele momento aconteceram apenas algumas trocas, viv\u00eancias e um apoio testemunhal da minha experi\u00eancia. Com Ana, a parceria acabou se aprofundando mais, com trocas de textos e costura dramat\u00fargica.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2019\">\n<li>Nas conversas com Ana, falamos muito de ex\u00edlio, de autoex\u00edlio. Est\u00e1vamos ambas morando em S\u00e3o Paulo e ainda na tentativa de adapta\u00e7\u00e3o, sem nos entregar totalmente \u00e0 vida precipitada da cidade, do pragmatismo, do cansa\u00e7o, da polui\u00e7\u00e3o, do sufocamento dos afetos, das pessoas como cart\u00f5es ambulantes prontas a sacar seu curr\u00edculo no primeiro <em>oi <\/em>para fazerem sua <em>network<\/em>, da competitividade, da acumula\u00e7\u00e3o, da concentra\u00e7\u00e3o na ideia de capital cultural do Brasil. Tent\u00e1vamos rir disso. Todas essas conversas chegaram ao nome do trabalho, proposto por Ana. Est\u00e1vamos exiladas. Fui percebendo que o ex\u00edlio do qual fal\u00e1vamos tamb\u00e9m vinha de uma escolha volunt\u00e1ria de despencar de mim mesma \u2013 brinco com a palavra despencar em oposi\u00e7\u00e3o a padecer. Par\u00eantese. Ser m\u00e3e \u00e9 padecer no para\u00edso ou o prazer \u00e9 apagado do seu corpo. Fecha par\u00eantese.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A dramaturgia de Ex\u00edlia foi sendo constru\u00edda, ent\u00e3o, a partir dessas experi\u00eancias corporais, de conversas, da produ\u00e7\u00e3o de textos e leitura de muitos materiais feministas (<em>podcasts<\/em>, v\u00eddeos, palestras, filmes, literatura, ensaios, artigos acad\u00eamicos, manifestos<span style=\"text-decoration: line-through\">,<\/span> etc.) e outros que traziam o tema do ex\u00edlio. O recorte do ex\u00edlio foi um tema importante, articulando em seus v\u00e1rios sentidos: aquele baseado na expuls\u00e3o por causa da desobedi\u00eancia feminina contida no mito ad\u00e2mico (SEGATO, 2018; MUSZKAT, 2019), a desterritorializa\u00e7\u00e3o, a err\u00e2ncia e a criatividade, como necessidade de inven\u00e7\u00e3o de uma nova realidade (FLUSSER, 2011). O trabalho busca uma episteme que reconhece as possibilidades m\u00faltiplas de ser mulher e o autoex\u00edlio como recria\u00e7\u00e3o de si para entender os modos de coloniza\u00e7\u00e3o do corpo feminino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse ano de 2019 tamb\u00e9m foi o de entender que o processo se daria <em>em performance<\/em>, buscando a convic\u00e7\u00e3o do trabalho, o que era o mais importante. Isso fez sentido \u00e0 medida que Ana me provocava no lugar da performer, da presen\u00e7a. Fui desconstruindo essa tecnologia da prepara\u00e7\u00e3o para cena t\u00e3o cara \u00e0s t\u00e9cnicas de atua\u00e7\u00e3o, e aceitando que cada vez que eu encontrasse o p\u00fablico seria uma performance dentro do material que eu gostaria de disponibilizar para aquele encontro. Ent\u00e3o fui escolhendo formas de trocar com a audi\u00eancia e, ao mesmo tempo, definindo o modo de cria\u00e7\u00e3o, realizando um di\u00e1rio-mapa-de-percurso em cada apresenta\u00e7\u00e3o e explicitando o caminhar. Nesse ano foram cinco experimentos, entre mar\u00e7o e dezembro de 2019, em S\u00e3o Paulo (3), Belo Horizonte (1) e Uberl\u00e2ndia (1). Gosto de pensar no p\u00fablico (audi\u00eancia, espectador) como um atuante transformador da performance, pensando na energia de troca que se estabelece em cada encontro e na capacidade imaginativa que o trabalho possa abarcar em cada pessoa. &nbsp;Finalizei o ano participando da Resid\u00eancia Art\u00edstica da Casa da Pau Brasil, que me possibilitou esbo\u00e7ar a dramaturgia da maneira mais pr\u00f3xima que editei na publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/EXILIA_ensaio-set-2019_foto-JESSICALAURIANO-1024x683.jpg\" alt=\"\" data-id=\"2612\" data-full-url=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/EXILIA_ensaio-set-2019_foto-JESSICALAURIANO-scaled.jpg\" data-link=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/?attachment_id=2612\" class=\"wp-image-2612\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/EXILIA_ensaio-set-2019_foto-JESSICALAURIANO-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/EXILIA_ensaio-set-2019_foto-JESSICALAURIANO-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/EXILIA_ensaio-set-2019_foto-JESSICALAURIANO-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/EXILIA_ensaio-set-2019_foto-JESSICALAURIANO-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/EXILIA_ensaio-set-2019_foto-JESSICALAURIANO-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/EXILIA_ensaio-set-2019_foto-JESSICALAURIANO-810x540.jpg 810w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" width=\"576\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/exilia_ensaio-set-2019-FOTO-JULIANA-576x1024.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"2613\" data-full-url=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/exilia_ensaio-set-2019-FOTO-JULIANA.jpeg\" data-link=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/?attachment_id=2613\" class=\"wp-image-2613\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/exilia_ensaio-set-2019-FOTO-JULIANA-576x1024.jpeg 576w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/exilia_ensaio-set-2019-FOTO-JULIANA-169x300.jpeg 169w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/exilia_ensaio-set-2019-FOTO-JULIANA.jpeg 581w\" sizes=\"(max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\"><em>Fotos de ensaio na Casa da Pau Brasil Resid\u00eancias Art\u00edsticas, S\u00e3o Paulo, 2019.<br>Foto: Juliana Pautilla e J\u00e9ssica Lauriano.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pergunto-me: como me libertar de uma estrutura de g\u00eanero colonial? Como deslocar meu corpo e como reprogramar minhas c\u00e9lulas sabendo-me herdeira de todo pensar hegem\u00f4nico que me moldou tendo uma Europa branca cis-h\u00e9tero-normativa como refer\u00eancia? Exilar-me, n\u00e3o do mundo, mas de uma ideia de mundo, tem sido a chave para uma transforma\u00e7\u00e3o pessoal e social, no sentido de que afeto os espa\u00e7os que me encontro, no desejo de construir uma dissid\u00eancia que permitir\u00e1 produzir um pensamento cr\u00edtico sobre estar nesse mundo que habito, re-politizando feridas (ANZALD\u00daA apud GONZ\u00c1LEZ, 2019) atrav\u00e9s da escrita e da cria\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_5083-1-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2617\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_5083-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_5083-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_5083-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_5083-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_5083-1-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_5083-1-810x540.jpg 810w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption><em>Ensaio fotogr\u00e1fico para estreia em S\u00e3o Paulo, fev 2020. Foto: Nubia Fernamo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_8577-Copia-1-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2618\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_8577-Copia-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_8577-Copia-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_8577-Copia-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_8577-Copia-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_8577-Copia-1-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_8577-Copia-1-810x540.jpg 810w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption><em>Making off v\u00eddeo-performance, fev 2021. Foto: Nubia Fernamo.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm;text-align: justify;line-height: 150%\"><span style=\"color: #808080\">2021. Foi no in\u00edcio do ano que decidi publicar a dramaturgia, pensando que talvez o trabalho n\u00e3o viesse a ser encenado ao vivo algum dia. Em fevereiro, atrav\u00e9s da Lei Aldir Blanc, realizei uma v\u00eddeo-performance com uma apresenta\u00e7\u00e3o virtual atrav\u00e9s da plataforma zoom, seguida de debate. Foi um momento importante para o trabalho se manter vivo. Em 19 de novembro de 2021 estreei a performance ao vivo na Mostra Reencontro do Galp\u00e3o Cine Horto, em Belo Horizonte e fa\u00e7o o lan\u00e7amento da dramaturgia no mesmo evento. Nessa performance, uso elementos da v\u00eddeo-performance feita no inicio de fevereiro, no intuito de interconectar as linguagens sonoras e visuais junto ao texto. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"746\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-27-at-14.48.14-1-746x1024.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"2624\" data-full-url=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-27-at-14.48.14-1.jpeg\" data-link=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/?attachment_id=2624\" class=\"wp-image-2624\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-27-at-14.48.14-1-746x1024.jpeg 746w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-27-at-14.48.14-1-219x300.jpeg 219w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-27-at-14.48.14-1-768x1054.jpeg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-27-at-14.48.14-1.jpeg 933w\" sizes=\"(max-width: 746px) 100vw, 746px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"926\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-27-at-14.48.14-1024x926.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"2625\" data-full-url=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-27-at-14.48.14.jpeg\" data-link=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/?attachment_id=2625\" class=\"wp-image-2625\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-27-at-14.48.14-1024x926.jpeg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-27-at-14.48.14-300x271.jpeg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-27-at-14.48.14-768x695.jpeg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-27-at-14.48.14.jpeg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\"><em>Apresenta\u00e7\u00e3o presencial. Mostra Reencontro, Galp\u00e3o Cine Horto, Belo Horizonte.<br>Nov. 2021. Fotos: Patr\u00edcia Ferreira.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fa\u00e7o esse resumido relato ano a ano porque considero que esse processo criativo totalmente entrela\u00e7ado \u00e0 minha vida e foi nesse caminho que retornei \u00e0 performance\/atua\u00e7\u00e3o, diferente das fun\u00e7\u00f5es de dire\u00e7\u00e3o e dramaturgia que vinha me dedicando mais desde 2010. E esse texto acaba por articular, e eu mesma entender, como a vida est\u00e1 conectada aos meus processos art\u00edsticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A quest\u00e3o autobiogr\u00e1fica tem estado presente nos espet\u00e1culos que vinha dirigindo desde 2015, em um dispositivo criativo que chamei <em>po\u00e9ticas de si como pol\u00edtica<\/em>. O princ\u00edpio que trabalhava era uma conex\u00e3o com o corpo atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas som\u00e1ticas, produ\u00e7\u00e3o de textos \u00edntimos, mapeamento de sensa\u00e7\u00f5es e pesquisas tem\u00e1ticas que se interconectavam a partir dos desejos de fala e produ\u00e7\u00e3o de cada artista que dirigi e fiz co-dramaturgias<sup>4<\/sup>. Al\u00e9m dos espet\u00e1culos, dei oficinas e participei de outros processos criativos, usando o dispositivo de escuta de si, percebendo e considerando os movimentos, as falas e as escritas que surgem nesse processo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O objetivo aqui n\u00e3o \u00e9 me debru\u00e7ar sobre a teoria de pe\u00e7as autobiogr\u00e1ficas. O que procuro \u00e9 explicitar o processo da cria\u00e7\u00e3o em experi\u00eancia. Explicitar um processo que leva em considera\u00e7\u00e3o uma percep\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de si, experimentando a escrita fluida e singular, poetizando traumas, fissuras, dores. Talvez chegue numa ideia de dramaturgia de sintomas, j\u00e1 que a escrita parte do reconhecimento de sintomas, porque \u00e9 necess\u00e1rio estar atenta para mudar perspectivas, vendo a si mesma, e poetizando fissuras, pensado-agindo no pessoal-social. Gosto da autodescri\u00e7\u00e3o que Anzald\u00faa faz de si: \u201cuna lesbiana feminista tercermundista inclinada al marxismo y al misticismo. Me fragmentar\u00e1n y a cada pedazo le pondr\u00e1 uma etiqueta\u201d (ANZALD\u00daA apud GONZ\u00c1LEZ, 2019). O reconhecimento da fragmenta\u00e7\u00e3o de que somos constitu\u00eddas \u00e9 parte de muitas camadas e entrela\u00e7amentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No processo de cria\u00e7\u00e3o de Ex\u00edlia e na pr\u00f3pria performance, permiti que aparecesse a mulher socialmente constitu\u00edda, aquela que \u201cencena demais sua adequa\u00e7\u00e3o\u201d (LEITE, 2017, p 4). Ver minha pr\u00f3pria performatividade, a partir do papel da m\u00e3e que deixou a filha com o pai e foi morar em outra cidade, num duplo processo simb\u00f3lico de separa\u00e7\u00e3o (do pai e da filha), foi importante (e \u00e9) para constituir-me outra. Escrevi no di\u00e1rio:<\/p>\n<p>O quanto sou rid\u00edcula em performar a mulher ou compactuar com as tecnologias que me fazem mulher: a\u00e7\u00f5es, rituais cotidianos, limpar para o outro, administrar a casa para o outro, achar que algu\u00e9m vai me sustentar, o marido rico que vai me tirar do sufoco financeiro para ser uma artista, o marido que tem a casa e me d\u00e1 abrigo, o homem que diz que seu desejo insaci\u00e1vel de preencher com porra meus buracos \u00e9 o mais absoluto amor, o ci\u00fame e a competi\u00e7\u00e3o, seduzir e atrair a presa, a bunda e os peitos desejados, deixar o cabelo longo e pintado, esconder os cabelos brancos, esconder as rugas e a flacidez. Posso fazer isso tudo. Posso n\u00e3o fazer isso tudo. (ARQUIVO PESSOAL)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essas escritas de di\u00e1rio foram importantes, ainda que muitas n\u00e3o entraram para a cena. Escrever e reler gerou um distanciamento para a percep\u00e7\u00e3o dessa adequa\u00e7\u00e3o. Sem uma cr\u00edtica e na dimens\u00e3o da intimidade, fui tateando e me permitindo ver e me reconhecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Voltando \u00e0s perguntas que fiz no in\u00edcio \u2013 Quem estou eu agora? Como se apresenta o momento? O que consigo relatar dessa minha experi\u00eancia de presente? \u2013 elas foram o motor dos ensaios e me ajudaram a conectar com essa paisagem de mim mesma. O corpo prostrado do in\u00edcio dos ensaios dizia algo mais do que meu v\u00e3o julgamento de improdutividade. Passei um bom tempo observando o que ele queria dizer. Trabalhando respira\u00e7\u00e3o e micro-movimentos. Transitando entre movimentar, tocar, gravar, escrever. Fui criando uma biblioteca de sons e um caderno de anota\u00e7\u00f5es (f\u00edsico e virtual). Percebi que tr\u00eas din\u00e2micas de movimento se repetiam: o corpo muito pesado anunciando um cansa\u00e7o, um leve balan\u00e7o como um ninar e depois chacoalhar e tremer. Repeti muito esse caminho e brincava com essas din\u00e2micas. Um dos textos surgiu da din\u00e2mica de chacoalhar, em que s\u00edlabas t\u00f4nicas s\u00e3o pontuadas pelo movimento: \u201cobjetificada, violentada, falada, queimada, difamada, empregada, criada, mundana, cantada, dada, danada, morena (&#8230;)\u201d (PAUTILLA; 2021).&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A movimenta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e lenta reverberou em uma composi\u00e7\u00e3o musical que aparece no in\u00edcio da performance. Transpus a din\u00e2mica de movimento para o gesto lento da arcada na rabeca, em que exploro os harm\u00f4nicos do instrumento usando as cordas soltas.&nbsp; Depois esse som foi trabalhado pelo Lucas Morais (m\u00fasico e fil\u00f3sofo parceiro, autor da trilha e instala\u00e7\u00e3o sonora). Ele ampliou os harm\u00f4nicos usando dispositivos eletr\u00f4nicos.&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na performance brinco com a materialidade das palavras, seus significantes e significados. \u00c0s vezes, isso \u00e9 borrado pelo jogo com a grava\u00e7\u00e3o e composi\u00e7\u00e3o ao vivo feita pelo Lucas. Buscando o desgaste das palavras e as falhas e erros da voz, tanto do ponto de vista f\u00edsico-sonoro, quanto da perda e fal\u00e1cia de seus significados. Isso se d\u00e1 principalmente pela repeti\u00e7\u00e3o, distor\u00e7\u00e3o e falha. A quest\u00e3o sonora musical da pe\u00e7a merece maior aprofundamento para outro texto, principalmente porque na \u00faltima vers\u00e3o realizada em novembro de 2021, dei bastante \u00eanfase na palavra e no jogo sonoro entre voz e a imagem projetada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os quatro movimentos base \u2013 peso passivo em movimento cont\u00ednuo, ninar, chacoalhar e tremer \u2013 se tornaram repeti\u00e7\u00f5es de movimento que eu fui colando na composi\u00e7\u00e3o c\u00eanica do trabalho. Durante a cria\u00e7\u00e3o fiz um acompanhamento com Thiane Nascimento<sup>5<\/sup>, com foco no movimento p\u00e9lvico (pr\u00e1ticas som\u00e1ticas e padr\u00f5es de movimento relacionados a dan\u00e7as como o <em>funk<\/em>, samba, etc). Percebi, atrav\u00e9s dessas pr\u00e1ticas, a import\u00e2ncia da organiza\u00e7\u00e3o espinhal, compondo com a rela\u00e7\u00e3o-alinhamento din\u00e2mico entre o peso da bacia e da cabe\u00e7a. Essa refer\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o espinhal vem da an\u00e1lise de movimento a partir dos Padr\u00f5es Neurol\u00f3gicos B\u00e1sicos\/BNP (BARTENIEFF, 1979; COHEN, 1993; HACKNEY, 1998). Essa organiza\u00e7\u00e3o se tornou uma investiga\u00e7\u00e3o basilar de movimento e traspusemos para a ideia de pelve-boca. &nbsp;Foi uma descoberta importante porque pensei muito na rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do <em>chacra<\/em> sexual violentado que impede uma fala livre. E uma fala livre \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o do desejo. Na cena, n\u00e3o <em>fecho<\/em> uma coreografia, mas penso sempre em estabiliza-desestabilizar essa organiza\u00e7\u00e3o corporal, numa ideia po\u00e9tica de uma vers\u00e3o artificial da costela em descontrole remoto. Ao liberar a pelve, a partir de pr\u00e1ticas som\u00e1ticas e literalmente rebolar, libero minha voz, falo, comunico, penso, confesso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ideia de confiss\u00e3o apareceu no trabalho desde o primeiro experimento aberto<sup>6<\/sup>. Apresentei para um grupo de 8 mulheres em uma atmosfera de troca e proximidade. A aten\u00e7\u00e3o e interesse da audi\u00eancia ao material exposto se estabeleceu muito rapidamente. Criei um roteiro que consistia em ler um texto sobre as bases do processo, relatando as refer\u00eancias de estudo e explicitando as a\u00e7\u00f5es que eu faria ali: apresentar peda\u00e7os de texto, de sonoridades e de movimentos. Ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o conversamos longamente e ficou bem presente a ideia de intimidade e confiss\u00e3o como pot\u00eancia do material. Mas eu n\u00e3o usava nenhum texto em primeira pessoa e nem explicitava \u2013 o que passei a fazer a posteriori \u2013 que parte do material era a minha pr\u00f3pria experi\u00eancia de vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foucault (1976) fala do papel da confiss\u00e3o como reguladora de uma pr\u00e1tica que colocou no s\u00e9culo XIX a sexualidade no centro da pr\u00f3pria exist\u00eancia ocidental, porque a pr\u00e1tica sexual precisava ser examinada, vigiada. E \u00e9 no confession\u00e1rio que ela \u00e9 transformada em discurso. S\u00edlvia Federici (2017, p. 344-345) critica o fato de que o dispositivo da confiss\u00e3o usado para a ca\u00e7a \u00e0s bruxas, que matou milhares de mulheres na Europa, e depois na Am\u00e9rica Latina, atrav\u00e9s das pr\u00e1ticas de inquisi\u00e7\u00e3o nas col\u00f4nias, foi negligenciado na an\u00e1lise foucaultiana. Essa perspectiva de Federici \u00e9 importante para pensar em como muitas narrativas invisibilizam o corpo da mulher, corroborando para uma episteme hegem\u00f4nica, a partir de uma suposta humanidade neutra. Mas Foucault tamb\u00e9m pensa na confiss\u00e3o como uma t\u00e9cnica de si para construir uma integridade. No caso de Ex\u00edlia, ao colocar o p\u00fablico como testemunha de uma fala confessional, exercito um modo n\u00e3o privado (igreja, consult\u00f3rio, fam\u00edlia, etc). A quest\u00e3o se torna p\u00fablica, &nbsp;portanto, pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sem perceber, eu fazia uma distin\u00e7\u00e3o entre a escrita que era de di\u00e1rio (eu) e a escrita que era \u201cdramat\u00fargica\u201d (a performer). Demorei a colocar os textos mais confessionais porque fugia inconscientemente dessa perspectiva. Mas percebi que muitos dos textos, que eu pensava n\u00e3o serem sobre mim, eram. No div\u00e3, analisando meus sonhos, percebi que muitas das frases que escrevi eram imagens latentes de um passado que remetia \u00e0 momentos violentos da minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. Como escrevi muitos textos usando a t\u00e9cnica de escrita autom\u00e1tica, colocando ideias soltas e associa\u00e7\u00f5es, s\u00f3 fui perceber as imagens depois que organizei os textos em um primeiro roteiro e comecei a decor\u00e1-los, buscando sentido para as palavras. Os sonhos apontavam para a investiga\u00e7\u00e3o de traumas que eu havia esquecido, ou melhor, escondido de mim mesma. Quando percebi isso, usei mais conscientemente a confiss\u00e3o como dispositivo c\u00eanico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Voltando aos ensaios, enquanto me movia era tomada por alguns pensamentos ou imagens, n\u00e3o negava, anotava at\u00e9 coisas que n\u00e3o tinham conex\u00e3o com o trabalho. Outras vezes, anotava minha pr\u00e1tica do dia, ensaiando uma metodologia de treinamento. Anotei as conversas com Ana, minhas dificuldades, estagna\u00e7\u00f5es, avan\u00e7os, organiza\u00e7\u00e3o de treinos, hor\u00e1rios de trabalho, etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o ambiente imediato ao meu redor, a sala de ensaio, foi se tornando parte do trabalho. A espacialidade c\u00eanica em Ex\u00edlia partiu da sala da minha casa. E tem sentido com uma imagem que trago no texto, a partir de uma mem\u00f3ria da inf\u00e2ncia: \u201crodava na sala para os parentes nas festas de natal\u201d (PAUTILLA; 2021). H\u00e1 uma no\u00e7\u00e3o de abrigo. A cenografia n\u00e3o tem por objetivo reproduzir a sala da minha casa, mas a subjetividade que constru\u00ed nesse espa\u00e7o est\u00e1 na espacialidade que levo comigo a cada apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-3 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/diario-1-FOTO-NICOLE-PARTHOS-1024x576.jpg\" alt=\"\" data-id=\"2631\" data-full-url=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/diario-1-FOTO-NICOLE-PARTHOS-scaled.jpg\" data-link=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/?attachment_id=2631\" class=\"wp-image-2631\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/diario-1-FOTO-NICOLE-PARTHOS-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/diario-1-FOTO-NICOLE-PARTHOS-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/diario-1-FOTO-NICOLE-PARTHOS-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/diario-1-FOTO-NICOLE-PARTHOS-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/diario-1-FOTO-NICOLE-PARTHOS-2048x1152.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/diario-2-FOTO-NICOLE-PARTHOS-1024x576.jpg\" alt=\"\" data-id=\"2632\" data-full-url=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/diario-2-FOTO-NICOLE-PARTHOS-scaled.jpg\" data-link=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/chao\/?attachment_id=2632\" class=\"wp-image-2632\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/diario-2-FOTO-NICOLE-PARTHOS-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/diario-2-FOTO-NICOLE-PARTHOS-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/diario-2-FOTO-NICOLE-PARTHOS-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/diario-2-FOTO-NICOLE-PARTHOS-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/diario-2-FOTO-NICOLE-PARTHOS-2048x1152.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\"><em>Fotos do caderno de anota\u00e7\u00f5es, S\u00e3o Paulo, 2019. Foto: Nicole Partos<\/em>.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda falando sobre a produ\u00e7\u00e3o textual, al\u00e9m da escrita autom\u00e1tica, usei o recurso de colagem. Copiar, recortar e colar, compondo peda\u00e7os de frases conhecidas de maneira a criar uma fala disruptiva. Como fiz uma escolha anterior de materiais, o sentido final do texto mant\u00e9m o seu enunciado: eu procurava a ideia de feminilidade como \u201cuma performance, uma imita\u00e7\u00e3o sem original\u201d (BOURCIER, 2015, p 14). N\u00e3o h\u00e1 origem, portanto, por isso a import\u00e2ncia de ironizar o aspecto m\u00edtico sobre o feminino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As fontes principais da produ\u00e7\u00e3o desse texto foram: <em>memes<\/em> e frases clich\u00eas de autoria duvidosa sobre machismo\/feminismo, cancioneiro popular, propaganda de beleza racista, voc\u00e1bulos Lilith e Deusa do <em>wikipedia<\/em>, peda\u00e7os do v\u00eddeo do YouTube \u201cPor que sou feminista\u201d, uma entrevista com Simone de Beauvoir de 1975; Donna Haraway no texto \u201cAntropologia do Ciborg: As vertigens do p\u00f3s-humano\u201d (2009) e o discurso de Emma Watson, Embaixadora da Boa Vontade da ONU-Mulheres (2014). No jogo textual brinquei de constituir\/desconstituir a ideia de feminilidade-masculinidade atrav\u00e9s desses recortes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir do exposto, mapeio tr\u00eas elementos importantes na cria\u00e7\u00e3o de Ex\u00edlia: 1) observa\u00e7\u00e3o de si e os princ\u00edpios som\u00e1ticos na cria\u00e7\u00e3o dos movimentos, sonoridades e textos; 2) modo de cria\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o em formato processual conferindo ao trabalho sempre abertura para o risco; 3) entender o corpo a partir de uma perspectiva descolonial, percebendo seu sentido sociol\u00f3gico. Uma outra percep\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a que parte da paisagem do meu pr\u00f3prio corpo nessa sociedade que vivo e a consci\u00eancia de ser parte de um amplo espectro diverso de narrativas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Todo o processo apontou para a inven\u00e7\u00e3o de um modo de organiza\u00e7\u00e3o criativa sem uma cartografia reconhec\u00edvel <em>a priori<\/em>, atrav\u00e9s de uma categoriza\u00e7\u00e3o \u00e0 moda racional moderna, ou uma consci\u00eancia autodeterminada. Lan\u00e7o um olhar para uma pr\u00e1tica que se fez de muitos feixes de implos\u00e3o, imprevisibilidades, ires, vires e devires.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Durante todo o processo de cria\u00e7\u00e3o pensei na ideia de cultivo. Realizar o trabalho atrav\u00e9s de resid\u00eancia art\u00edstica e fazendo experimentos abertos usando formatos distintos (leitura de roteiro, mostra de fragmentos, debates, viv\u00eancias) possibilitou uma pr\u00e1tica cont\u00ednua de pesquisa e an\u00e1lise porque, em cada encontro, pude pensar nas estrat\u00e9gias que usei nos ensaios, desenvolvendo, concomitantemente, a pr\u00e1tica reflexiva e a criativa. A cada experimento pude expandir mais o material. E, mais ainda, aceitar o que era poss\u00edvel realizar no momento de cada encontro. Era meu tempo de an\u00e1lise tamb\u00e9m. Por isso o processo apontou para a inven\u00e7\u00e3o de um modo de organiza\u00e7\u00e3o criativa sem uma cartografia reconhec\u00edvel <em>a priori<\/em>, atrav\u00e9s de uma categoriza\u00e7\u00e3o \u00e0 moda racional moderna, ou uma consci\u00eancia autodeterminada. Uma pr\u00e1tica que se fez de muitos feixes de implos\u00e3o, imprevisibilidades, ires, vires e devires.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aliada \u00e0 quest\u00e3o acima, tenho consci\u00eancia do modo de produ\u00e7\u00e3o que inclui a no\u00e7\u00e3o de precariedade, trabalhando nos tempos poss\u00edveis, com os materiais dispon\u00edveis, e em um contexto de aus\u00eancia institucional de promo\u00e7\u00e3o, diante da p\u00e9ssima realidade das pol\u00edticas culturais pelas quais vimos passando desde o golpe de 2016, e ainda tendo que lidar com curadorias afuniladas, que n\u00e3o est\u00e3o dando conta da enorme produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica no pa\u00eds.<\/p>\n<p><br><strong>Caminhos<\/strong><\/p>\n<p>Na metodologia em arte h\u00e1 um arcabou\u00e7o de pensadoras que consideram o processo e a experi\u00eancia partes da investiga\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, fazendo do percurso do processo criativo a pr\u00e1tica da pesquisa. N\u00e3o vem antes, nem depois, mas durante. Citarei aqui algumas refer\u00eancias que apontaram para mim um caminho de pensamento e pr\u00e1tica.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jane M. Bacon e Vida L. Midgelow prop\u00f5em o \u201cPAC\/Processo de Articula\u00e7\u00f5es Criativas\u201d (2015) que sugerem uma abordagem de um modelo de acompanhamento de estrat\u00e9gias para o desenvolvimento de uma pr\u00e1tica reflexiva que d\u00e1 voz ao processo criativo. Ciane Fernandes prop\u00f5e o contexto som\u00e1tico-performativo (2014) que coloca a pesquisa no centro da pr\u00e1tica para uma metodologia de autonomia, \u201cimprevis\u00edvel e, por isso mesmo, coerente\u201d. Posso citar ainda a an\u00e1lise do movimento a partir de Fundamentos Bartenieff (1979) que prop\u00f5e um processo de percep\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de movimento, por meio de marcos corporais som\u00e1ticos, como apoio para pensar e agir no mundo. Podemos elencar alguns princ\u00edpios abordados: aceitar que o processo de mudan\u00e7a \u00e9 constante, aprofundar a compreens\u00e3o da pr\u00f3pria pr\u00e1tica, atitude de curiosidade e abertura para uma reflex\u00e3o orientada para novas formas de trabalhar e fazer, aproximar o criativo do som\u00e1tico, colocar em evid\u00eancia o corpo vivido, conhecimento e verbaliza\u00e7\u00e3o podem surgir dentro do pr\u00f3prio processo de realiza\u00e7\u00e3o, ir mais profundamente para revelar mais do que tinha antes, pr\u00e1tica como \u201cparceira\u201d e lugar de descoberta, aten\u00e7\u00e3o e observa\u00e7\u00e3o. Todos esses princ\u00edpios citados est\u00e3o, com certeza, na base de qualquer processo criativo das artes c\u00eanicas. N\u00e3o se trata de criar nenhum modelo para seguir. Mas \u00e9 paradoxal, porque se convencer da simplicidade deles \u00e9 complexo, por v\u00e1rios motivos. Estamos inseridas numa tradi\u00e7\u00e3o escolar que privilegia linearidade e racionalidade. A voz feminina \u00e9 reiteradamente apagada, sob o discurso de que intui\u00e7\u00e3o \u00e9 loucura, sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 subjetivo. Temos ent\u00e3o o caminho normativo pronto para seguir? Tradi\u00e7\u00e3o, objetividade, racionalidade?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rita Segato (2015) faz uma cr\u00edtica muito contundente sobre a quest\u00e3o geopol\u00edtica do conhecimento a partir de colonialidade do saber e questiona a hierarquiza\u00e7\u00e3o dos meios e os sistemas de classifica\u00e7\u00e3o de programas e peri\u00f3dicos brasileiros que ainda s\u00e3o de base quantitativas, com medi\u00e7\u00f5es de impactos e internacionaliza\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s de conte\u00fado, numa l\u00f3gica de acelera\u00e7\u00e3o produtivista. Cito Segato porque, ainda que eu n\u00e3o esteja ligada diretamente \u00e0 produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, a pesquisa nas artes c\u00eanicas \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia para o desenvolvimento da \u00e1rea, para todas as pessoas envolvidas nesse campo, artistas e ou pesquisadores. Importar t\u00e9cnicas, teorias e ou modos de fazer, do que Segato (2015) chama de \u201cfobia de localiza\u00e7\u00e3o\u201d advindo de um \u201csaber universal, liberal, de interesses supostamente neutros, homem, branco propriet\u00e1rio, letrado, heterossexual (no sentido de que caracteriza uma posi\u00e7\u00e3o <em>pater-familias<\/em> independente das pr\u00e1ticas sexuais que pratica)\u201d reflete como essa base de pensamento habita nossas pr\u00e1ticas e saberes e indicam os supostos modelos a seguir e os marcos institucionais que priorizam saberes em detrimentos de outros.&nbsp; Convido novamente Anzald\u00faa (2000): \u201cjoguem fora a abstra\u00e7\u00e3o e o aprendizado acad\u00eamico, as regras, o mapa e o compasso. Sintam seu caminho sem anteparos. Para alcan\u00e7ar mais pessoas, deve-se evocar as realidades pessoais e sociais \u2014 n\u00e3o atrav\u00e9s da ret\u00f3rica, mas com sangue, pus e suor\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o em obra<\/strong><\/p>\n<p>A integridade do processo passa pelo corpo que se move em performance, de onde ele vem, qual sua hist\u00f3ria entranhada, onde ele est\u00e1 se movendo no momento da performance.&nbsp; \u00c9 a paisagem que carrego por onde for. \u00c9 tamb\u00e9m a escolha do modo de cria\u00e7\u00e3o da obra, como sobreviv\u00eancia po\u00e9tica, resili\u00eancia art\u00edstica, como necessidade \u00edntima e social de pertencimento. Essa costura de pensamento come\u00e7ou a ser engendrada desde que me debrucei sobre a ideia de aprender a me ver e me observar aceitando medos, ansiedades e confiando na intui\u00e7\u00e3o e criatividade. Algo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o fazer. N\u00e3o se trata nem de perguntar a import\u00e2ncia do teatro nos tempos atuais, t\u00e3o sem perspectiva de futuro. A necessidade de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 o fluxo que n\u00e3o se escolhe. Encontraremos fissuras. E ela se expressa de muitas formas: nas nossas pr\u00e1ticas cotidianas, nas escritas, nas <em>lives<\/em>, nos grupos de estudo, nas leituras, nas novas parcerias, na reeduca\u00e7\u00e3o de percep\u00e7\u00e3o do tempo. Se ainda estivermos vivas. Muitas n\u00e3o est\u00e3o. Porque somos corpas controladas e estamos cercadas, buscando rotas de fuga, como considero a realiza\u00e7\u00e3o desse trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando desde o in\u00edcio da pandemia pude me debru\u00e7ar com mais dedica\u00e7\u00e3o aos estudos p\u00f3s-feministas, a perspectiva descolonial e as <em>corpas cuirs<\/em>, entendi com mais profundidade que carregamos h\u00e1 s\u00e9culos uma estrutura de destrui\u00e7\u00e3o programada de corpos racializados e sexualizados. E que o ex\u00edlio de que trato \u00e9 um misto da no\u00e7\u00e3o de expatria\u00e7\u00e3o e banimento, condi\u00e7\u00e3o da nossa ancestralidade \u2013 eva, bruxas, ind\u00edgenas, negras, mesti\u00e7as \u2013 que encontra na aceita\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o dessa condi\u00e7\u00e3o a percep\u00e7\u00e3o de seu desejo de err\u00e2ncia e mudan\u00e7a, o autoex\u00edlio. \u00c9 nessa condi\u00e7\u00e3o que conecto com minha exist\u00eancia no intuito de reencontrar porosidade para viver nessa realidade t\u00e3o castradora e violenta.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>NOTAS DE FIM:<\/p>\n\n\n\n<p>1. Ana Lu\u00edsa Santos \u00e9 performer, cr\u00edtica e escritora (www.anasantosnovo.com)<\/p>\n\n\n\n<p>2. Lucas Morais \u00e9 musicista, artista audiovisual e fil\u00f3sofo (www.lugaresdoinvisivel.wordpress.com)<\/p>\n\n\n\n<p>3. Manu Pessoa \u00e9 atriz e diretora, fundadora do coletivo Bacurinhas e co-diretora art\u00edstica do grupo de teatro do Espa\u00e7o Comum Luiz Estrela.<\/p>\n\n\n\n<p>4. Mais informa\u00e7\u00f5es sobre os espet\u00e1culos criados entre 2015 e 2018 podem ser vistos atrav\u00e9s do site www.julianapautilla.com<\/p>\n\n\n\n<p>5. Thiane Nascimento \u00e9 artista do corpo com interesse nas interfaces da dan\u00e7a, da performance e da instala\u00e7\u00e3o coreogr\u00e1fica. (https:\/\/thianef.wordpress.com\/)<\/p>\n\n\n\n<p>6. Evento \u201cO corpo da mulher sob diferentes perspectivas\u201d no dia 30 de mar\u00e7o de 2019, no Palacete Tereza, S\u00e3o Paulo. Realiza\u00e7\u00e3o: Avoa! N\u00facleo Art\u00edstico em parceria com Aqui, Ali Dan\u00e7a e Cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/p>\n<p>ANZALD\u00daA, Gl\u00f3ria. (2000). <strong>Falando em l\u00ednguas<\/strong>: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Revista Estudos Feminista, 8(1), 229-236<\/p>\n<p>BACON, Jane M.; MIDGELOW, Vida L., <strong>PAC: Processo de articula\u00e7\u00f5es criativas<\/strong>. In 5a Spa usp, ppgac, Resumos, v.3.1, 2015<\/p>\n<p>BADINTER, Elisabeth. <strong>Um amor conquistado<\/strong>: o mito do amor materno. Rio de Janeiro:&nbsp; Nova Fronteira, 1985<\/p>\n<p>BARTENIEFF, Irmgard. <strong>Body\/Space\/Effort: <\/strong>the art of body movement as a key perception. Unpublished Manuscript, 1979<\/p>\n<p>BEAUVOIR, Simone. <strong>Simone de Beauvoir<\/strong> \u2013 Porque sou feminista (1975). Entrevistador: Jean-Louis Servan-Schereibe. Paris: Une \u00c8mission (1975). 49 min. Entrevista concediad ao Programa Questionnaire. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=J-F2bwGtsMM\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=J-F2bwGtsMM<\/a>&gt;. Acesso em 22 julho 2020<\/p>\n<p>BOURCIER, Marie H\u00e9l\u00e8ne\/Sam. <strong>Entrevista.<\/strong> Entrevistador: Pedro Paulo Gomes Ferreira. CULT, S\u00e3o Paulo (S\u00e3o Paulo), ano 18, n\u00famero 205, p 11-15, setembro 2015<\/p>\n<p>COHEN, Bonnie Baingridge. <strong>Sensing, feeling, and action<\/strong>: the experiential anatomy of<\/p>\n<p>Body-Mind Centering. Northampton: Contact Editions, 1993<\/p>\n<p>DESPENTES, Virginie. <strong>Teor\u00eda King Kong<\/strong>. Melusina, 2009<\/p>\n<p>DEUSA. In WIKIPEDIA. Wikimedia, 2019. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Deusa\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Deusa<\/a>&gt;. Acesso em 20 jun 2020<\/p>\n<p>FEDERICI, Silvia. <strong>Calib\u00e3 e a bruxa<\/strong>: Mulheres, corpo e acumula\u00e7\u00e3o primitiva. S\u00e3o Paulo: Editora Elefante, 2017<\/p>\n<p>______. <strong>O ponto zero da revolu\u00e7\u00e3o<\/strong>. Trabalho dom\u00e9stico, reprodu\u00e7\u00e3o e luta feminista. S\u00e3o Paulo: Editora Elefante, 2019<\/p>\n<p>FERNANDES, Ciane. <strong>O corpo em movimento: <\/strong>o sistema Laban\/Bartenieff na forma\u00e7\u00e3o e pesquisa em artes c\u00eanicas. 2a Ed \u2013 S\u00e3o Paulo: Annablume, 2006<\/p>\n<p>______. <strong>Pesquisa Som\u00e1tico-Performativa:<\/strong> Sintonia, Sensibilidade, Integra\u00e7\u00e3o. Art Reasech Journal (Anais Eletr\u00f4nicos) Brasil, Vol. \u00bd, p. 76-95, 2014. Dispon\u00edvel em &lt; <a href=\"..\/..\/..\/..\/pauti\/Downloads\/5262-Texto%20do%20artigo-12861-3-10-20140706.pdf\">file:\/\/\/C:\/Users\/pauti\/Downloads\/5262-Texto%20do%20artigo-12861-3-10-20140706.pdf<\/a>&gt;. Acesso em 17 jun 2020<\/p>\n<p>FLUSSER, Vil\u00e9m. <strong>Ex\u00edlio e criatividade.<\/strong> Piseagrama, Belo Horizonte, n\u00famero 04, p\u00e1gina 50 &#8211; 52, 2011. Dispon\u00edvel em &lt; <a href=\"https:\/\/piseagrama.org\/exilio-e-criatividade\/\">https:\/\/piseagrama.org\/exilio-e-criatividade\/<\/a>&gt;. Acesso em 28 jun 2020<\/p>\n<p>FOUCAULT, Michel. <strong>Hist\u00f3ria da sexualidade I<\/strong>: A vontade de saber. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edi\u00e7\u00f5es Graal, 1988<\/p>\n<p>GONZ\u00c1LEZ, Carolina Meloni. <strong>B\u00e1rbara y mestiza: el feminismo de Gloria Anzald\u00faa<\/strong>. Peri\u00f3dico eletr\u00f4nico El Salto &#8211; <a href=\"https:\/\/www.elsaltodiario.com\">https:\/\/www.elsaltodiario.com<\/a>. Espanha. 7 Mar 2019. Dispon\u00edvel em &lt; <a href=\"https:\/\/www.elsaltodiario.com\/el-rumor-de-las-multitudes\/barbara-y-mestiza-el-feminismo-de-gloria-anzaldua\">https:\/\/www.elsaltodiario.com\/el-rumor-de-las-multitudes\/barbara-y-mestiza-el-feminismo-de-gloria-anzaldua<\/a>&gt;. Acesso em 28 jun 2020<\/p>\n<p>HAECKNEY, Peggy. <strong>Making Connections:<\/strong> Total Body Integration. Amsterdam: Gordon and Breach, 2001<\/p>\n<p>HARAWAY, Donna; KUNZRU, Hari. <strong>Antropologia do ciborgue:<\/strong> as vertigens do p\u00f3s-humano. Organiza\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o Tomaz Tadeu, 2. ed. Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2009<\/p>\n<p>LEITE, Janaina Fontes. <strong>Feminino abjeto na obra de Ang\u00e9lica Liddell<\/strong>. Semin\u00e1rio Internacional Fazendo G\u00eanero 11 &amp; 13th Women\u2019s Worlds Congress (Anais Eletr\u00f4nicos), p. 4, Florian\u00f3polis, 2017. Dispon\u00edvel em &lt; <a href=\"http:\/\/www.en.wwc2017.eventos.dype.com.br\/resources\/anais\/1498513914_ARQUIVO_OfemininoabjetonaobradeAngelicaLiddell.pdf\">http:\/\/www.en.wwc2017.eventos.dype.com.br\/resources\/anais\/1498513914_ARQUIVO_OfemininoabjetonaobradeAngelicaLiddell.pdf<\/a>&gt; Acesso em 20 jun 2020<\/p>\n<p>LILITH. In WIKIPEDIA. Wikimedia, 2019. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lilith\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lilith<\/a>&gt;. Acesso em 20 jun 2020<\/p>\n<p>LIMA, Daniella. <strong>Gesto:<\/strong> Pr\u00e1ticas e discursos. Rio de Janeiro: Cobog\u00f3, 2013<\/p>\n<p>MUSZKAT, Susana. <strong>Viol\u00eancia e masculinidades.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Casa do Psic\u00f3logo, s\/d.<\/p>\n<p>______. <strong>Revisitando Ad\u00e3o e Eva.<\/strong> In: CULT\/Dossi\u00ea Masculinidades. S\u00e3o Paulo: Editora Bregantini, Ed 242, ano 22, fevereiro de 2019<\/p>\n<p>ONU MULHERES. <strong>Discurso de Emma Watson, <\/strong>embaixadora da Boa Vontade da ONU Mulheres, no lan\u00e7amento da campanha HeForShe [2014]. Dispon\u00edvel em &lt; <a href=\"http:\/\/www.onumulheres.org.br\/noticias\/discurso-de-emma-watson-embaixadora-da-boa-vontade-da-onu-mulheres-no-lancamento-da-campanha-heforshe\/\">http:\/\/www.onumulheres.org.br\/noticias\/discurso-de-emma-watson-embaixadora-da-boa-vontade-da-onu-mulheres-no-lancamento-da-campanha-heforshe\/<\/a>&gt; Acesso em 20 jun 2020<\/p>\n<p>PAUTILLA, Juliana. <strong>Ex\u00edlia.<\/strong> S\u00e3o Paulo: publica\u00e7\u00e3o independente, 2021<\/p>\n<p>SEGATO, Rita Laura. <strong>Contra-pedagog\u00edas de la crueldade<\/strong>. I Rita Segato. la ed. Ciudad Aut\u00f3noma de Buenos Aires: Prometeo Libros, 2018<\/p>\n<p>______. <strong>Brasil: colonialidade, elites y universidad<\/strong>. Confer\u00eancia. Quito: Universidad Andia Sim\u00f3n Bol\u00edvar, 2015. 30:03 min. Dispon\u00edvel em &lt; <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=lXOuANRVpsc&amp;t=250s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=lXOuANRVpsc&amp;t=250s<\/a>&gt;. Acesso em 12 jun 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p>Em dezembro est\u00e1 acontecendo uma campanha de distribui\u00e7\u00e3o do livro e da videoperformance virtual. Acesse <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CW8yW-FsB1W\/?utm_medium=copy_link\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">AQUI<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>_LIVRO_<\/p>\n\n\n\n<p>35 $ (frete incluso)<\/p>\n\n\n\n<p>_VIDEOPERFORMANCE_<\/p>\n\n\n\n<p>20$ (link com senha dispon\u00edvel durante a campanha)<\/p>\n\n\n\n<p>_COMBO_<\/p>\n\n\n\n<p>50$ (livro com frete + videoperformance)<\/p>\n\n\n\n<p>_UM POUCO MAIS_<\/p>\n\n\n\n<p>A v\u00eddeo-performance foi gravada em janeiro de 2021 e fiz uma apresenta\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da plataforma Zoom. O livro \u00e9 uma auto-publica\u00e7\u00e3o com o texto da dramaturgia, al\u00e9m de imagens da performance e um trabalho de colagens, da artista Nicole Partos e arte gr\u00e1fica de Daniel Carneiro e Marcelo Gontijo.<\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ex\u00edlia \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o c\u00eanica minha (atua\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o, dramaturgia e textos) com a colabora\u00e7\u00e3o de Ana Lu\u00edsa Santos (textos e provoca\u00e7\u00f5es performativas) e Lucas Morais (cria\u00e7\u00e3o, atua\u00e7\u00e3o e instala\u00e7\u00e3o sonora). 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Esse artigo ensaia meu olhar sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o, pensando meu corpo como imagina\u00e7\u00e3o.\u00a0 Durante a pesquisa, que teve in\u00edcio em 2016 ainda como um desejo amorfo, venho colecionando materiais criativos e elaborando um caderno de anota\u00e7\u00f5es como dispositivo de observa\u00e7\u00e3o da minha pr\u00e1tica-vida-pesquisa, expondo pensamentos, treinamentos e metodologia na cria\u00e7\u00e3o.","og_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/exilia-trocando-segredos-em-relatos-de-criacao\/","og_site_name":"K\u00edNA","article_publisher":"http:\/\/www.facebook.com\/mucinadanza","article_author":"https:\/\/www.facebook.com\/mariliacarneirodanza","article_published_time":"2021-11-30T22:01:29+00:00","article_modified_time":"2021-12-10T14:37:13+00:00","og_image":[{"width":2560,"height":1707,"url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/wp-content\/uploads\/sites\/94\/2021\/11\/MG_5083-1-scaled.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"Juliana Pautilla","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Juliana Pautilla","Est. tempo de leitura":"25 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/exilia-trocando-segredos-em-relatos-de-criacao\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/exilia-trocando-segredos-em-relatos-de-criacao\/"},"author":{"name":"Juliana Pautilla","@id":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/kina\/#\/schema\/person\/63809ce0468d66ad7f352241c998cdff"},"headline":"EXILIA &#8211; 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Tem 20 anos de experi\u00eancia como artista autoral e educadora em ensino formal e n\u00e3o-formal.\u00a0 Tem forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica multidisciplinar \u2013 gradua\u00e7\u00e3o em m\u00fasica, p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o em dan\u00e7a e mestrado em teatro \u2013 e atua\u00e7\u00e3o art\u00edstica em colabora\u00e7\u00e3o com artistas de \u00e1reas distintas, principalmente nas artes c\u00eanicas. 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