Mulheres, ciência e cannabis: os desafios da produção de pesquisa num país proibicionista.

Por Thais Castilho

A mulher, a cannabis e a ciência, o artigo feminino que antecede essas palavras não é apenas gramatical, é também simbólico, conectando personagens que hoje escrevem uma nova história nas pesquisas sobre uma planta ainda proibida no Brasil.

Nos últimos seis anos, o uso medicinal da cannabis deu um salto considerável em números de pacientes. Segundo dados da Kaya Mind, empresa que monitora o setor no país, o total passou de cerca de 430 mil pessoas em 2023 para mais de 870 mil em 2025, consolidando o Brasil como um dos principais mercados globais de cannabis medicinal.

Esse movimento tem impacto direto no campo científico. Entre 2020 e 2026, as pesquisas sobre cannabis no país passaram por um processo de expansão e amadurecimento, acompanhando a crescente demanda por evidências clínicas e laboratoriais sobre o uso terapêutico da planta. Áreas como neurologia, psiquiatria, dor crônica e saúde da mulher concentram parte significativa dessas investigações.

É nesse contexto que um grupo de pesquisadoras vem ganhando protagonismo. Mulheres de diferentes áreas do conhecimento,  têm ocupado espaço na produção científica sobre cannabis, contribuindo para consolidar um campo de estudo que, até pouco tempo, era marginalizado.

“Escolhi pesquisar Cannabis entre outros motivos, por esse paradoxo: como algo potencialmente benéfico poderia permanecer interditado justamente nas instituições que, como a universidade pública, tem como função social a superação de estigmas por meio da produção  de conhecimento. A identificação dessa lacuna foi a primeira motivação para estudar cannabis. A segunda foi o desejo de formar os profissionais de saúde, desde a graduação, para atender com qualidade a demanda pelo uso terapêutico da cannabis, que é crescente. Por fim, o interesse em conhecer o potencial de uso dessa planta em saúde mental, especialmente no que se refere aos quadros de ansiedade, que vem aumentando nas últimas décadas e onde são significativos os casos que não respondem aos tratamentos convencionais”, comparou Débora G. Medeiros, professora de psiquiatria na Unesp (Universidade Estadual de São Paulo) e pesquisadora da Cannabis na abordagem de transtornos ansiosos.

Mas, como nem tudo são flores quando o assunto é liderança feminina, esse desafio se torna mais intenso já que a cannabis ainda carrega um histórico de criminalização e desinformação, o que impacta diretamente o desenvolvimento das pesquisas. Quando esse cenário se cruza com as desigualdades de gênero presentes no meio científico, o contexto é  mais complexo.

Para muitas dessas pesquisadoras, investigar a cannabis significa lidar simultaneamente com o estigma associado à planta e com barreiras estruturais enfrentadas por mulheres na ciência. Ainda assim, é justamente a partir dessa posição que elas vêm tensionando paradigmas, ampliando o debate público e produzindo conhecimento em uma área estratégica para a saúde.

“A pesquisa com cannabis já é um campo cercado por estigmas e quando uma mulher escolhe sustentar isso, surgem outras camadas de julgamento. Na minha experiência, havia um estranhamento não só com o tema, mas também com o fato de eu, como mulher, estar me dedicando técnica e academicamente a ele. Eu vivi situações muito explícitas. Já ouvi do professor perguntas como: “por que você quer estudar? Você é bonita, não pensou em ser modelo?”. E isso é muito violento, porque desloca completamente a conversa da capacidade intelectual e técnica para um lugar de deslegitimação pessoal. Então sim, muitas vezes eu senti que precisava me provar o tempo todo. Não apenas sobre a relevância da pesquisa, mas sobre a legitimidade das minhas próprias escolhas”, relata a biomédica e pesquisadora de Cannabis na Unicamp, Aline Borges

Dados sobre as mulheres nas pesquisas científicas no Brasil

A participação das mulheres na ciência e pesquisa no Brasil é marcada por uma forte presença na base acadêmica, mas por uma representação ainda minoritária em cargos de liderança e no topo da carreira científica. Segundo dados do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), organização social do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação mostram que, embora sejam a maioria em mestrados e doutorados, as mulheres enfrentam desafios para ascender a posições de destaque. 

  • Participação Total: As mulheres representam 43,7% do total de pesquisadores no Brasil.
  • Formação: Mulheres são maioria nas bolsas de mestrado e doutorado.
  • Ranking Global: O Brasil é considerado o terceiro colocado na participação feminina na ciência.
  • Liderança e Pesquisa: Ocupam 35,5% das bolsas de produtividade (PQ) do CNPq, que destacam os pesquisadores mais produtivos.
  • Áreas de atuação: A presença feminina é desproporcional. Elas são maioria na saúde e áreas de cuidado, mas representam apenas 1/3 da pós-graduação em ciências exatas e tecnológicas. 

Os desafios de conciliar maternidade e pesquisa científica

As desigualdades de gênero na ciência se manifestam de forma estrutural e persistente, impactando diretamente a trajetória das pesquisadoras. Um dos principais desafios está na conciliação entre maternidade e carreira.

Mulheres cientistas com filhos produzem, em média, menos artigos do que homens na mesma condição, diferença que se intensificou durante a pandemia, quando a produtividade feminina caiu para 47,4%, contra 65,3% entre os homens, segundo o movimento Parent in Science. 

“É sempre desafiador conciliar a carreira acadêmica com a maternidade, especialmente diante das múltiplas demandas e da falta de estruturas institucionais adequadas. No meu caso, me considero bastante privilegiada, pois consegui construir, junto com meu marido, uma rotina que tem funcionado ao longo dos anos, com divisão de responsabilidades e apoio mútuo. No entanto, sei que essa não é a realidade de muitas colegas. Ainda há uma sobrecarga sobre as mulheres, e a maternidade frequentemente impacta diretamente a produtividade acadêmica, a participação em eventos e até as oportunidades de progressão na carreira. Ainda há um caminho importante a ser percorrido para que a academia reconheça e acomode melhor essas múltiplas jornadas sem penalizar a trajetória profissional de mulheres que também exercem a maternidade, esclarece Priscila Mazola, Mãe, farmacêutica, cientista, professora na Unicamp.

A dualidade entre maternidade e ciência afeta, inclusive, pesquisadoras que não são mães, mas que enfrentam os mesmo estigmas sobre conciliar essas duas frentes.

“Eu não sou mãe, mas essa pergunta me toca porque, mesmo sem ser mãe, eu já ouvi comentários de professores como: você não vai engravidar no meio do projeto, vai? Cuidado. Então veja como essa lógica já recai sobre a mulher antes mesmo da maternidade existir concretamente na vida dela, aparece como suspeita, como risco, como obstáculo presumido à sua trajetória acadêmica. Isso mostra um problema que vai além da experiência individual. Existe uma expectativa de que a mulher, dentro da academia, precise o tempo todo tranquilizar o ambiente sobre seu corpo, suas escolhas e sua disponibilidade. Então, ainda que eu não tenha vivido a conciliação entre maternidade e pesquisa, eu já vivi a antecipação desse julgamento”, relata a cientista Aline Borges. 

Um cenário promissor para as pesquisas com Cannabis

Apesar dos desafios históricos, a presença feminina em espaços estratégicos da ciência vem avançando, como no Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, que atingiu níveis mais altos de participação de mulheres em 2025, sinalizando um esforço por maior representatividade na formulação de políticas públicas.

No campo da cannabis, o Brasil vive um momento de transição. Enquanto a pesquisa avança nas áreas medicinal e agropecuária, ainda enfrenta entraves burocráticos e regulatórios. A Anvisa passou a autorizar o cultivo para fins científicos e produção de medicamentos, incluindo iniciativas da Embrapa, e hoje cerca de 40 universidades desenvolvem estudos sobre a planta, com destaque para o uso terapêutico, melhoramento genético e cultivo.

A pesquisadora da Embrapa, Daniela Bittencourt, vê esse momento com bastante entusiasmo, após a Anvisa anunciar no começo deste ano a nova regulamentação para pesquisa com Cannabis no Brasil. 

“Uma regulação mais clara permite que instituições públicas e privadas pesquisem com maior previsibilidade, construam infraestrutura adequada, estabeleçam parcerias e gerem dados de qualidade sobre genética, cultivo, processamento, rastreabilidade, qualidade e aplicações. No caso da Embrapa, esse movimento já havia começado antes, com a autorização excepcional concedida pela Anvisa, em novembro de 2025, para a execução de projetos estruturantes de pesquisa e desenvolvimento com Cannabis sativa L.”, explica. 

Mesmo assim, o cenário ainda é marcado por limitações. Um levantamento identificou 481 barreiras à pesquisa com cannabis no país, que vão desde questões legais até o estigma social. Embora haja investimentos, como os R$ 25 milhões destinados à UFRN (Universidade Federal Do Rio Grande do Norte), a falta de uma regulamentação mais ampla ainda restringe o avanço em larga escala. 

Nesse contexto, a visibilidade das pesquisadoras, especialmente em eventos e publicações científicas, torna-se fundamental para promover maior equidade em um campo que também exige delas rigor redobrado e conciliação constante entre carreira e vida pessoal.

Legenda ou descrição da imagem: Mulheres seguem avançando nas pesuisas com Cannabis, mesmo em meio ao preconceito e o proibicionismo.

Crédito da imagem: FreePik .com

Leave A Comment