{"id":2350,"date":"2020-12-11T19:34:29","date_gmt":"2020-12-11T22:34:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.labirinto.labjor.unicamp.br\/?p=2350"},"modified":"2020-12-11T19:34:29","modified_gmt":"2020-12-11T22:34:29","slug":"conhecimento-tecnologia-e-colonialismo-por-achille-mbembe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2020\/12\/11\/conhecimento-tecnologia-e-colonialismo-por-achille-mbembe\/","title":{"rendered":"Conhecimento, tecnologia e colonialismo por Achille Mbembe"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\">A coloniza\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo 21 trata de extra\u00e7\u00e3o, captura, culto aos dados e a mercantiliza\u00e7\u00e3o da capacidade humana de pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Cr\u00e9dito foto: Gerd Altmann\/Pixabay<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo e cientista pol\u00edtico camaron\u00eas Achille Mbembe \u00e9 daquelas pessoas que em apenas uma resposta de uma pergunta, um par\u00e1grafo de um livro, um resumo de um artigo, cinco minutos com um microfone nas m\u00e3os e at\u00e9 arrisco dizer que em um simples recado no guardanapo de papel \u00e9 capaz de expor ideias e conceitos complementados com argumentos que provocam reflex\u00f5es profundas. Mas se engana quem pensa que ele escreve e fala de modo dif\u00edcil. Mbembe \u00e9 tamb\u00e9m professor e por isso se faz compreens\u00edvel para seus interlocutores, estudantes e leitoras(es). Complexos mesmo s\u00e3o os temas que ele estuda e traz \u00e0 tona em seus livros, aulas, entrevistas e palestras. Necropol\u00edtica, racismo, escravid\u00e3o, conhecimento, tecnologia, colonialismo s\u00e3o alguns dos assuntos que Mbembe coloca na roda para debater com a sociedade.<\/p>\n<p>Neste post quero compartilhar apenas uma resposta da extensa e recomendada entrevista <i>Thoughts on the planetary: An interview with Achille Mbembe<\/i> (<i>Pensamentos sobre o planet\u00e1rio: uma entrevista com Achille Mbembe<\/i>) que foi divulgada em setembro de 2019 pela <i>New Frame<\/i>, uma publica\u00e7\u00e3o sul africana de m\u00eddia social sem fins lucrativos. Essa revista, por sua vez, traduziu para o ingl\u00eas a entrevista que Mbembe concedeu ao jovem jornalista noruegu\u00eas Torbj\u00f8rn Tumyr Nilsen em 30 de novembro de 2018, em Bergen, na Noruega.<\/p>\n<p>A minha vontade era divulgar a conversa completa, mas o espa\u00e7o aqui n\u00e3o permite. Ent\u00e3o, escolhi apenas uma pergunta e uma resposta, que por si s\u00f3 j\u00e1 valem por um artigo. A tradu\u00e7\u00e3o para a l\u00edngua portuguesa foi feita por mim, por\u00e9m ao final deste texto h\u00e1 o link da vers\u00e3o completa da entrevista em ingl\u00eas. Agora deixo voc\u00eas com essa inquietante resposta. Apenas o aperitivo para abrir o apetite para o banquete de saberes que Mbembe nos oferece.<\/p>\n<p><b>Nilsen: <\/b>At\u00e9 que ponto nossos sistemas de conhecimento de hoje ainda s\u00e3o determinados pelo colonialismo ou pela opress\u00e3o?<\/p>\n<p><b>Mbembe:<\/b> Precisamos desenvolver uma compreens\u00e3o mais ampla de \u201ccoloniza\u00e7\u00e3o\u201d. Os sistemas de conhecimento em todo o mundo ainda s\u00e3o sustentados pela l\u00f3gica da extra\u00e7\u00e3o de valor. De fato, o conhecimento como tal \u00e9 cada vez mais concebido como o principal meio de extra\u00e7\u00e3o de valor. A coloniza\u00e7\u00e3o est\u00e1 acontecendo quando o mundo que habitamos \u00e9 entendido como um vasto campo de dados aguardando extra\u00e7\u00e3o. A coloniza\u00e7\u00e3o ocorre quando jogamos pela janela o papel da raz\u00e3o cr\u00edtica e do pensamento te\u00f3rico, e reduzimos o conhecimento \u00e0 mera coleta de dados, sua an\u00e1lise e seu uso por governos, burocracias militares e corpora\u00e7\u00f5es. A coloniza\u00e7\u00e3o ocorre quando estamos cercados pelos chamados dispositivos inteligentes que constantemente nos observam e nos registram, coletando grandes quantidades de dados, ou quando toda atividade \u00e9 capturada por sensores e c\u00e2meras embutidos neles. \u00c9 disso que se trata a coloniza\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo 21. Trata-se de extra\u00e7\u00e3o, captura, culto aos dados, mercantiliza\u00e7\u00e3o da capacidade humana de pensar e rejei\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o cr\u00edtica em favor da programa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o algumas das quest\u00f5es que o projeto de descoloniza\u00e7\u00e3o deve abra\u00e7ar se quiser ser mais do que um slogan. Agora, mais do que nunca, o que precisamos \u00e9 de uma nova cr\u00edtica da tecnologia, da experi\u00eancia da vida t\u00e9cnica. Por todos os tipos de raz\u00f5es. O que estamos testemunhando, quer vejamos ou n\u00e3o, \u00e9 o surgimento de uma esp\u00e9cie inteiramente nova de humanos. N\u00e3o \u00e9 o humano da Renascen\u00e7a ou do s\u00e9culo 18, nem o humano do in\u00edcio ou meados do s\u00e9culo 20. \u00c9 uma esp\u00e9cie de humano totalmente diferente, que est\u00e1 acoplada a seu objeto.<\/p>\n<p>As distin\u00e7\u00f5es que costum\u00e1vamos fazer entre o humano e o objeto n\u00e3o s\u00e3o mais inteiramente v\u00e1lidas. Porque hoje em dia n\u00e3o existe ser humano sem sua pr\u00f3tese. Nosso ambiente n\u00e3o est\u00e1 apenas saturado com todos os tipos de dispositivos tecnol\u00f3gicos. Na verdade, passamos a maior parte de nossas vidas vivendo com ou atrav\u00e9s das telas. Esta experi\u00eancia tem implica\u00e7\u00f5es muito s\u00e9rias em termos das novas naturezas de cogni\u00e7\u00e3o, em termos de como percebemos as coisas e a pr\u00f3pria realidade, em termos do que sabemos ou devemos saber, em termos de como sabemos o que sabemos, em termos da distin\u00e7\u00e3o entre fato e fic\u00e7\u00e3o, mat\u00e9ria e subst\u00e2ncia ou em termos da monopoliza\u00e7\u00e3o do pensamento dentro das infraestruturas t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p>Para que a \u201cdescoloniza\u00e7\u00e3o\u201d seja mais do que um slogan e ganhe vantagem, precisamos estar atentos a essas mudan\u00e7as, tanto particularmente em rela\u00e7\u00e3o ao antropoceno quanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza reticular das tecnologias computacionais e \u00e0 \u201csoftwariza\u00e7\u00e3o\u201d da nossa exist\u00eancia e de todas as outras entidades vivas na Terra.<\/p>\n<p>Devemos resistir ao impulso de reduzir o conhecimento ao que pode ser comprado e vendido e reinventar a categoria de \u201crelev\u00e2ncia\u201d. Isso s\u00f3 pode acontecer se colocarmos uma \u00eanfase renovada nas quest\u00f5es dos \u201cfins\u201d, e n\u00e3o apenas dos \u201cmeios\u201d. Dito isso, estou plenamente ciente do fato de que nosso mundo est\u00e1 passando por um per\u00edodo em que o niilismo est\u00e1 \u00e0 espreita, o brutalismo \u00e9 a nova norma e o desejo de um apocalipse n\u00e3o est\u00e1 longe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para ler a entrevista completa:<\/p>\n<p>https:\/\/www.newframe.com\/thoughts-on-the-planetary-an-interview-with-achille-mbembe\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A coloniza\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo 21 trata de extra\u00e7\u00e3o, captura, culto aos dados e a mercantiliza\u00e7\u00e3o da capacidade humana de pensar. 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