{"id":2386,"date":"2021-04-28T13:39:43","date_gmt":"2021-04-28T16:39:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.labirinto.labjor.unicamp.br\/?p=2386"},"modified":"2021-04-28T13:39:43","modified_gmt":"2021-04-28T16:39:43","slug":"estamos-protegendo-o-que-de-quem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2021\/04\/28\/estamos-protegendo-o-que-de-quem\/","title":{"rendered":"Estamos protegendo o que de quem?"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00d4nibus lotado com pouco espa\u00e7o para se locomover, e pessoas ap\u00e1ticas \u00e0 rotina.<\/em><\/p>\n<p><em>Cr\u00e9dito foto: Ilustradore Pips\/ Lantec UFSC.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O \u00faltimo ano tem sido t\u00e3o pesado por conta da pandemia da Covid-19 que fica muito dif\u00edcil refletir sobre outros assuntos que considero t\u00e3o preocupantes quanto. Foram tantas not\u00edcias de mortes e perdas em um curto per\u00edodo de tempo que o luto se tornou algo inevit\u00e1vel. Uma dor de luto que se refletiu em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Recordo que nos primeiros meses da chegada da pandemia no Brasil o sil\u00eancio era tanto que muitos estranharam os \u201cestrondos\u201d que ouviam dos poucos avi\u00f5es que cortavam o c\u00e9u. Era estranho poder ouvir sons, que at\u00e9 o momento ficaram abafados pela rotina exaustiva e barulhenta das metr\u00f3poles. O sil\u00eancio, soava como um sinal de respeito com aqueles que partiram e tamb\u00e9m com o v\u00edrus at\u00e9 o momento desconhecido.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel n\u00e3o fazer as assimila\u00e7\u00f5es com que vivemos. N\u00e3o que j\u00e1 tiv\u00e9ssemos passado por algo semelhante, eu mesmo desconhe\u00e7o ter vivenciado algo dessa magnitude. Mas, na minha inf\u00e2ncia, por exemplo, lembro da minha av\u00f3, que em dia de tempestade pedia para que todos fizessem sil\u00eancio, em sinal de respeito \u00e0 natureza. Fic\u00e1vamos todos juntos e quietos, olhando um ao outro, na pequena sala, esperando a tempestade passar e pedindo para Ians\u00e3 levar r\u00e1pido a chuva para longe.<\/p>\n<p>Considero a situa\u00e7\u00e3o semelhante apenas no sil\u00eancio e no pedido aos orix\u00e1s para que leve esse v\u00edrus para longe. N\u00e3o existem met\u00e1foras, nem s\u00edmbolos para a atual situa\u00e7\u00e3o: infelizmente existem pessoas se contaminando e morrendo. E no comando de nossas vidas um governo negacionista que rema contra qualquer ci\u00eancia que se diz favor\u00e1vel \u00e0 vida. A sensa\u00e7\u00e3o, portanto, que me toma \u00e9 de medo, ang\u00fastia e desalento.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, pensei como parte dessa sensa\u00e7\u00e3o que tomava o meu corpo, me parecia muito conhecida. N\u00e3o era estranho o que eu estava sentindo. Por alguns segundos esqueci o real motivo de sentir essa sensa\u00e7\u00e3o, mas logo recobrei os sentidos e lembrei. Sou preta e pobre que vive no Brasil. Ser preta, pobre e ind\u00edgena no Brasil significa saber que os n\u00fameros e estat\u00edsticas nunca estar\u00e3o do seu lado de forma positiva.<\/p>\n<p>O ambientalista Ailton Krenak em uma reflex\u00e3o no document\u00e1rio Guerras do Brasil.doc \u2013 exibido na Netflix \u2013 a respeito de sua viv\u00eancia como ind\u00edgena no Brasil, colocou de forma clara, essa experi\u00eancia dolorosa. \u201cN\u00f3s estamos em guerra, para nossa gente a guerra nunca acabou. A paz que se vende faz parte de uma falsifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica para mantermos a coisa funcionando\u201d.<\/p>\n<p>Poxa, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 realmente essa: vivemos em um campo de guerra e o nosso corpo \u00e9 o alvo inimigo. Exemplos de viol\u00eancia infelizmente n\u00e3o faltam. Seja na bala perdida da pol\u00edcia que encontra o corpo preto ou no feminic\u00eddio onde mulheres negras s\u00e3o maioria no n\u00famero de mortes. Uma finitude cruel de v-i-o-l-\u00ea-n-c-i-a.<\/p>\n<p>A pandemia em si, s\u00f3 escancarou a desigualdade social tendo em vista a forma com que foi conduzida no Brasil. Os mais ricos e escolarizados se beneficiam em todos os \u00e2mbitos, desde a preven\u00e7\u00e3o podendo ficar em suas casas e trabalhando de home office, at\u00e9 a estrutura hospitalar, tendo acesso aos melhores equipamentos, m\u00e9dicos e recentemente se vacinando em outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>O v\u00edrus ent\u00e3o que surgiu, para contaminar a todos sem distin\u00e7\u00e3o, se tornou mais uma arma de guerra nas m\u00e3os daqueles que sempre tiveram interesse na desumaniza\u00e7\u00e3o e extin\u00e7\u00e3o de preto pobres e ind\u00edgenas brasileiros.<\/p>\n<p>O bi\u00f3logo Atila Iamarino, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=spvxzjMNYbo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">afirmou em uma live com Deisy Ventura,<\/a> doutora em direito e professora titular da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP, que pretos, pardos e ind\u00edgenas j\u00e1 s\u00e3o maioria no n\u00famero de mortes por coronav\u00edrus no Brasil. E devido a isso, podemos categorizar o ocorrido como genoc\u00eddio. Houve bairros perif\u00e9ricos da Grande S\u00e3o Paulo em que o n\u00famero de mortos por coronav\u00edrus chegou a ser<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2021\/04\/atras-de-renda-e-sem-home-office-pobres-morremmais-de-covid.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> tr\u00eas vezes maior que os bairros de outras regi\u00f5es mais ricas<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cEu tenho vontade de parar de trabalhar, mas n\u00e3o vou parar pelos meus filhos\u201d disse uma colega minha de servi\u00e7o. Trabalho em um hospital como auxiliar de laborat\u00f3rio. E assim como eu, minhas colegas na lavanderia, na higiene, na cozinha, na manuten\u00e7\u00e3o e na seguran\u00e7a s\u00e3o as que mant\u00eam \u201ca coisa funcionando\u201d porque os nossos servi\u00e7os s\u00e3o classificados como essenciais.<\/p>\n<p>Antes da vacina\u00e7\u00e3o, grande parte desses meus colegas se contaminou. Alguns convivem com as sequelas at\u00e9 hoje, como: vis\u00e3o turva, fraqueza, tosse, cansa\u00e7o e dores que eram inexistentes antes da pandemia. Outros n\u00e3o conseguiram tomar a vacina a tempo. Se despediram da vida buscando manter seu sustento. N\u00e3o me recordo de grandes homenagens por parte da empresa para esses. Apenas me lembro dos tristes olhares por parte dos funcion\u00e1rios, que se intercruzam nos corredores seguidos de desabafos de amigos: \u201cMinha amiga se foi, ela foi t\u00e3o boa para mim, voc\u00ea se lembra dela?\u201d. Quando n\u00e3o, uma pequena nota de pesar na circular.<\/p>\n<p>Hoje pela manh\u00e3 ao abrir as not\u00edcias do jornal me deparei com uma foto que exemplifica o caos da desigualdade. Na imagem um \u00f4nibus lotado de pessoas sem espa\u00e7o para se locomover a caminho do trabalho. Fiquei novamente sem rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pergunta que fica \u00e9: estamos protegendo o que de quem? O v\u00edrus quando chegou ao Brasil, n\u00e3o esperava tamanha receptividade e aliados t\u00e3o fi\u00e9is. O racismo escancarado, o elitismo cruel, reflete nos resultados que vivenciamos diariamente. As perguntas ficam apenas a crit\u00e9rio de reflex\u00e3o, por\u00e9m a guerra, essa continua sem tr\u00e9guas e sem perd\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d4nibus lotado com pouco espa\u00e7o para se locomover, e pessoas ap\u00e1ticas \u00e0 rotina. Cr\u00e9dito foto: Ilustradore Pips\/ Lantec UFSC. &nbsp; O \u00faltimo ano tem sido t\u00e3o pesado por conta da pandemia da Covid-19 que fica muito dif\u00edcil refletir sobre outros assuntos que considero t\u00e3o preocupantes quanto. 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