{"id":2696,"date":"2021-10-06T09:59:27","date_gmt":"2021-10-06T12:59:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.labirinto.labjor.unicamp.br\/?p=2696"},"modified":"2021-10-06T09:59:27","modified_gmt":"2021-10-06T12:59:27","slug":"a-tecnologia-de-escrita-de-michaela-coel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2021\/10\/06\/a-tecnologia-de-escrita-de-michaela-coel\/","title":{"rendered":"A tecnologia de escrita de Michaela Coel"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>\u201cNomear \u00e9 um assunto s\u00e9rio, isto \u00e9, pragm\u00e1tico, quando significa dar \u00e0quilo que nomeamos o poder de induzir o pensar e o sentir de uma maneira particular.\u201d Isabelle Stengers, 2014, p. 1 (tradu\u00e7\u00e3o minha)<\/p><\/blockquote>\n<p>Em 2020, a HBO exibiu a s\u00e9rie I May Destroy You, que rendeu o Emmy de Melhor Roteiro \u00e0 brit\u00e2nica Michaela Coel, tamb\u00e9m produtora, diretora e atriz principal. I May Destroy You parte da hist\u00f3ria de uma viol\u00eancia sexual sofrida pela protagonista, a jovem e estreante escritora Arabella, drogada por um estranho em um bar. A s\u00e9rie circula entre o tema pesado e dif\u00edcil e um tratamento realista e fascinante do desenrolar da vida de pessoas que foram violentadas, com personagens complexos que n\u00e3o t\u00eam suas personalidades constru\u00eddas em torno das viol\u00eancias sofridas. O objetivo do Coel n\u00e3o \u00e9 conquistar a empatia do p\u00fablico sobre os personagens. Ao fazer isso, incita o debate sobre o direito \u00e0 autonomia e respeito que n\u00e3o passa por uma avalia\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter, comportamento ou prefer\u00eancia das pessoas.<br \/>\nO fato de ser constitu\u00edda por personagens de maioria negra aprofunda a quest\u00e3o na medida em que n\u00e3o aposta em uma hist\u00f3ria estereotipada do racismo, embora o tema, evidentemente, esteja presente o tempo todo. S\u00e3o jovens que trabalham, \u201cralam\u201d, e tamb\u00e9m se divertem, sentem prazer em estar juntos, fazer festas e usar drogas. A concentra\u00e7\u00e3o no tema do abuso\/consentimento e sua rela\u00e7\u00e3o com o racismo \u00e9 bem manifesta em uma fala de Arabella, quando ela diz que passou a vida toda t\u00e3o atravessada pelo fato de ser pobre e negra que n\u00e3o havia se dado conta de que era, tamb\u00e9m, uma mulher, revela\u00e7\u00e3o que parece ter sido feita pela pr\u00f3pria viol\u00eancia.<br \/>\nEm meio ao processo de lidar com o epis\u00f3dio vivido, entre flashes de mem\u00f3ria, depoimentos na delegacia e conversas com os amigos, Arabella est\u00e1 travada na escrita de seu segundo livro. A hist\u00f3ria que a s\u00e9rie encena parece se confundir com a hist\u00f3ria do livro, embora a espectadora n\u00e3o tenha muito acesso a ela, e mistura-se tamb\u00e9m com a realidade da autora. I May Destroy You \u00e9 um \u201cresultado\u201d da experi\u00eancia de viol\u00eancia sexual vivida por Coel, que a cena do abuso de Arabella reproduz quase totalmente &#8211; Coel escreveu I May Destroy You ap\u00f3s um epis\u00f3dio traum\u00e1tico ocorrido enquanto ela fazia um intervalo da escrita de Chewing Gum. A hist\u00f3ria (e a escrita) revelam-se tecnologias de Michaela Coel no enfrentamento de seu pr\u00f3prio processo, e assim tamb\u00e9m \u00e9 com Arabella, embora isso s\u00f3 fique mais claro nos epis\u00f3dios finais. Durante a s\u00e9rie, a escrita \u00e9 um produto que ela precisa entregar aos editores e funciona como um personagem-testemunho do seu trauma.<br \/>\nH\u00e1 v\u00e1rias formas de compreender o final da s\u00e9rie. Particularmente, chamou-me a aten\u00e7\u00e3o um elemento que pairava sobre a hist\u00f3ria desde o come\u00e7o: o ato de nomear. No \u00faltimo epis\u00f3dio, a noite do abuso \u00e9 reencenada em uma temporalidade de suspens\u00e3o, uma esp\u00e9cie de experimento da autora\/personagem para testar vers\u00f5es pr\u00f3prias para sua experi\u00eancia. A espectadora \u00e9 convidada a dar vida ao algoz da protagonista, ao repassar o acontecimento do ponto de vista de tr\u00eas \u201cvers\u00f5es alternativas\u201d do evento. Primeiro como vingan\u00e7a, depois como humaniza\u00e7\u00e3o que gera empatia pelo agressor (que aparece como uma pessoa que s\u00f3 \u00e9 violenta porque sofreu, ela mesma, traumas e viol\u00eancias) e, por fim, como uma vers\u00e3o ainda mais imaginativa. \u00c9 nesta terceira alternativa que a ideia de \u201cnomea\u00e7\u00e3o\u201d ganha for\u00e7a.<br \/>\nPela primeira vez o bar \u00e9 imaginado como algo absurdo: vazio e silencioso, pois s\u00f3 est\u00e3o ali Arabella, Patrick (o agressor) e outras duas pessoas. Arabella se aproxima, deseja e seduz o homem, convida-o para sua casa e transa com ele em sua cama, produzindo uma certa hist\u00f3ria de consentimento. Numa parte da cena da transa, Arabella fica por cima de Patrick, que est\u00e1 de costas para ela. A cena se passa como uma alegoria da nova posi\u00e7\u00e3o de Arabella, agora \u201cpor cima\u201d de Patrick. Na manh\u00e3 seguinte, este Patrick vai embora da casa de Arabella levando consigo os \u201coutros Patricks\u201d imaginados nas vers\u00f5es anteriores.<br \/>\nO estranhamento a que Coel nos conduz tem a ver com trazer \u00e0 cena o homem que a violentou, dar-lhe cara e hist\u00f3ria, mas, talvez principalmente, dar ao acontecimento o seu toque pr\u00f3prio. Tem a ver com uma nomea\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do que lhe ocorreu como forma de express\u00e3o de sua hist\u00f3ria controversa, confusa, onde viol\u00eancia e cria\u00e7\u00e3o se emaranham. Ao trazer o inesperado \u00e0 cena (as vers\u00f5es inesperadas), Coel constr\u00f3i uma vers\u00e3o para sua hist\u00f3ria sem que ela seja um desfecho: ela \u00e9 mais um convite \u00e0 especula\u00e7\u00e3o como forma de viver. Contar hist\u00f3rias menos como forma de resolver, e mais como forma de seguir. I May Destroy You n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria de vingan\u00e7a, mas sim um povoado de pessoas e de modos de rela\u00e7\u00e3o que tensionam nossas expectativas sobre v\u00e1rias coisas: sobre pessoas negras, mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, perigo, vulnerabilidade, viol\u00eancia, consentimento e \u201cjusti\u00e7a\u201d. Gente que se diverte, faz besteira, vive perrengues e tem algo a dizer sobre si.<br \/>\nNem todas as pessoas lidam com seus traumas sob signos esperados, na mesma medida em que o \u201cideal\u201d de v\u00edtima de uma viol\u00eancia sexual n\u00e3o existe &#8211; n\u00e3o tem a ver com a roupa que se usa, seu comporatamento, idade, sexualidade ou g\u00eanero. Esta \u00e9 uma quest\u00e3o complexa que esbarra em limites sobre os corpos, desejos e consentimento, isto \u00e9, quest\u00f5es sobre o desejo de viver ao seu modo e se deparar com obst\u00e1culos a isso. O que a s\u00e9rie parece levantar \u00e9 o problema de como as pessoas nomeiam, narram suas experi\u00eancias, e a efic\u00e1cia deste ato de nomear, ou seja, a capacidade destas narra\u00e7\u00f5es de efetivamente produzir algo (diferente) em suas vidas.<br \/>\nGrupos minorit\u00e1rios lutam para n\u00e3o serem definidos pelas viol\u00eancias que as estruturas de domina\u00e7\u00e3o lhes causam. Essas experi\u00eancias d\u00e3o o contorno de boa parte de suas vidas, mas n\u00e3o s\u00e3o a \u00fanica coisa que se tem a dizer sobre elas. Identidades e certas narrativas (sejam elas hegem\u00f4nicas ou forjadas dentro de grupos por raz\u00f5es de estrat\u00e9gia pol\u00edtica) n\u00e3o s\u00e3o tudo que h\u00e1 para dizer sobre algu\u00e9m ou um grupo de pessoas. A possibilidade de inventar as pr\u00f3prias vers\u00f5es das experi\u00eancias dif\u00edceis que vivemos \u00e9 potente na medida em que rompe com o que \u00e9 esperado, com defini\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias ou tentativas de capturar algo em torno de uma \u00fanica defini\u00e7\u00e3o ou de uma \u00fanica cena, deixando aberturas para novas rela\u00e7\u00f5es e novas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Legenda ou descri\u00e7\u00e3o da imagem: Arabella diante dos post-its que usa para organizar a hist\u00f3ria do seu livro.<\/em><\/p>\n<p><em>Cr\u00e9ditos da imagem: HBO<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNomear \u00e9 um assunto s\u00e9rio, isto \u00e9, pragm\u00e1tico, quando significa dar \u00e0quilo que nomeamos o poder de induzir o pensar e o sentir de uma maneira particular.\u201d Isabelle Stengers, 2014, p. 1 (tradu\u00e7\u00e3o minha) Em 2020, a HBO exibiu a s\u00e9rie I May Destroy You, que rendeu o Emmy de Melhor Roteiro \u00e0 brit\u00e2nica Michaela [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":740,"featured_media":2698,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[40,43,49,72],"tags":[],"class_list":["post-2696","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ensaios","category-escrita","category-feminismo","category-narrativas-especulativas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2696","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/wp-json\/wp\/v2\/users\/740"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2696"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2696\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2698"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2696"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2696"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2696"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}