{"id":2787,"date":"2021-12-13T10:03:37","date_gmt":"2021-12-13T13:03:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.labirinto.labjor.unicamp.br\/?p=2787"},"modified":"2021-12-13T10:03:37","modified_gmt":"2021-12-13T13:03:37","slug":"seguindo-as-tramas-do-tecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2021\/12\/13\/seguindo-as-tramas-do-tecido\/","title":{"rendered":"Seguindo as tramas do tecido"},"content":{"rendered":"<p>De tecido ou n\u00e3o-tecido. De material el\u00e1stico, de algod\u00e3o, de renda, de acr\u00edlico. Tipo N95 ou com a bandeira do Flamengo. Com el\u00e1sticos atr\u00e1s da cabe\u00e7a ou das orelhas. Meu exerc\u00edcio de pesquisa de olhar para as m\u00e1scaras come\u00e7a, bem antes, com minhas pr\u00f3prias descobertas no individual e coletivo aprendizado de viver em uma pandemia. Entender como fazer minhas escolhas me fez pensar como as outras pessoas faziam suas pr\u00f3prias.<br \/>\nAs m\u00e1scaras faciais s\u00e3o a prote\u00e7\u00e3o respirat\u00f3ria recomendada pelos \u00f3rg\u00e3os nacionais e internacionais, classificadas junto \u00e0s &#8220;medidas n\u00e3o-farmacol\u00f3gicas&#8221;. Prefiro entend\u00ea-las, junto ao distanciamento entre pessoas e \u00e0 ventila\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os, como medidas de cuidado, sem que sejam nomeadas em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s interven\u00e7\u00f5es dos medicamentos e vacinas.<br \/>\nDiante do perigo de respirar o ar do outro, elas formaram barreiras opacas entre os sujeitos, que da noite para o dia precisaram aprender e desenvolver as t\u00e9cnicas corporais para o manuseio do material frente ao rosto. Argumento que as m\u00e1scaras s\u00e3o lembretes vis\u00edveis de que h\u00e1 uma amea\u00e7a silenciosa e invis\u00edvel no contato humano. Que os corpos devem estar a todo momento distantes, receosos, controlados, mas n\u00e3o se v\u00ea sangue, v\u00edrus, perigo iminente: \u00e9 preciso ser constantemente lembrado de sua exist\u00eancia, mesmo n\u00e3o estando diante de seus olhos.<br \/>\nO uso delas no cotidiano, portanto, envolve negocia\u00e7\u00f5es cotidianas das mais diversas, sejam ditas ou veladas. Funcion\u00e1rios de um estabelecimento que atende ao p\u00fablico precisam negociar se e quando cobrar o cumprimento da lei de uso obrigat\u00f3rio; amigos e colegas negociam entre si os encontros e as regras destes; e os pr\u00f3prios indiv\u00edduos, a todo o momento, negociam consigo mesmos as condi\u00e7\u00f5es para usar ou deixar de usar, escolher uma ou outra m\u00e1scara, decidir a hora de descart\u00e1-las&#8230; nada disso est\u00e1 posto ou \u00e9 pr\u00e9vio \u00e0s rela\u00e7\u00f5es.<br \/>\nDe acordo com an\u00e1lise do Science Pulse, a comunidade de divulgadores cient\u00edficos no Twitter pode ter sido importante para o crescimento do interesse na busca de m\u00e1scaras de alta efic\u00e1cia, as chamadas PFF2 ou N95, pois passou-se a falar de diferen\u00e7as entre elas.<br \/>\nCompus essa rede a partir do projeto Qual M\u00e1scara?, criado junto ao meu companheiro, Ralph Holzmann, que tem como objetivo auxiliar na resposta da pergunta central, que n\u00e3o \u00e9 simples. Como escolher, em que situa\u00e7\u00f5es usar, quando deixar de usar, s\u00e3o quest\u00f5es que se estendem para al\u00e9m da obrigatoriedade da lei. Em um pa\u00eds no qual o presidente da rep\u00fablica \u00e9 diretamente respons\u00e1vel pela veicula\u00e7\u00e3o de fake news relacionadas ao seu uso, como sequelas por aumento de CO2 dentro da m\u00e1scara, o caminho para estas respostas se torna mais nebuloso.<br \/>\nEscolhi seguir as m\u00e1scaras tamb\u00e9m na pesquisa e entender onde me levam, pois entendo-as como artefatos fundamentais na experi\u00eancia cotidiana dessa avassaladora pandemia. Por entre as tramas dos tecidos &#8211; ou n\u00e3o-tecidos &#8211; das m\u00e1scaras, atravessam juntos v\u00edrus, hist\u00f3rias, conversas, sorrisos, p\u00e2nico. Se acompanharmos os desfiados fios das m\u00e1scaras, j\u00e1 descartadas pelo tempo e reuso, emergem t\u00e9cnicas de cuidado, negocia\u00e7\u00f5es, traumas individuais e coletivos, dores, luto. Registrar o que surge com elas \u00e9 contar uma hist\u00f3ria poss\u00edvel, parcial e localizada, da pandemia de Covid-19.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Legenda da imagem: Banca de jornal na cidade de S\u00e3o Paulo anunciando a venda de m\u00e1scaras personalizadas. Cr\u00e9ditos da imagem: Acervo pessoal.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De tecido ou n\u00e3o-tecido. De material el\u00e1stico, de algod\u00e3o, de renda, de acr\u00edlico. Tipo N95 ou com a bandeira do Flamengo. Com el\u00e1sticos atr\u00e1s da cabe\u00e7a ou das orelhas. Meu exerc\u00edcio de pesquisa de olhar para as m\u00e1scaras come\u00e7a, bem antes, com minhas pr\u00f3prias descobertas no individual e coletivo aprendizado de viver em uma pandemia. 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