{"id":2989,"date":"2022-05-30T17:54:56","date_gmt":"2022-05-30T20:54:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.labirinto.labjor.unicamp.br\/?p=2989"},"modified":"2022-05-30T17:54:56","modified_gmt":"2022-05-30T20:54:56","slug":"18-de-maio-memoria-e-novas-subjetivacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2022\/05\/30\/18-de-maio-memoria-e-novas-subjetivacoes\/","title":{"rendered":"18 de maio. Mem\u00f3ria e novas subjetiva\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>18 de maio \u00e9 a data que marca a mem\u00f3ria e o desejo da luta antimanicomial. Data que nos convida a olhar para a loucura e para a desraz\u00e3o. Um outro olhar que cinde as violentas l\u00f3gicas de um pensamento m\u00e9dico constitu\u00eddo em uma pol\u00edtica colonial, e que nos abre para novas possibilidades de subjetiva\u00e7\u00e3o. Diante das importantes quest\u00f5es que ganharam for\u00e7a nas ruas e nas redes nas \u00faltimas semanas, uma em espec\u00edfico me chamou bastante aten\u00e7\u00e3o: o reconhecimento das viol\u00eancias de ra\u00e7a como um dos fundamentos da pol\u00edtica manicomial.<\/p>\n<p>Lima Barreto, em seu \u201cDi\u00e1rio do Hosp\u00edcio\u201d ou em \u201cCemit\u00e9rio dos Vivos\u201d e Abdias Nascimento, em sua obra \u201cO genoc\u00eddio do negro brasileiro\u201d (1978), nos mostram como essa pol\u00edtica sempre esteve alicer\u00e7ada em um racismo cientifico, \u201ceficazmente institucionalizado nos n\u00edveis oficiais de governo, assim como difuso no tecido social (&#8230;) da classifica\u00e7\u00e3o grosseira dos negros como selvagens e inferiores, ao enaltecimento das virtudes da mistura de sangue\u201d (Nascimento, 1978, p. 93). Muitas s\u00e3o as atualiza\u00e7\u00f5es do reconhecimento dessas viol\u00eancias. Emiliano David (2018), por exemplo, realiza um resgate hist\u00f3rico de barbaridades que v\u00e3o desde o reconhecimento dado pela comunidade cient\u00edfica do Rio de Janeiro, no in\u00edcio do s\u00e9culo 20; da inferioridade intelectual das pessoas negras, com o processo de manicomializa\u00e7\u00e3o; de interna\u00e7\u00f5es for\u00e7adas da popula\u00e7\u00e3o negra brasileira, inclusive de crian\u00e7as; at\u00e9 os tempos atuais, com encadeamentos entre a produ\u00e7\u00e3o de iniquidades em sa\u00fade mental e o racismo enquanto estrutura, assim como em suas manifesta\u00e7\u00f5es institucionais, por meio do acompanhamento de um Centro de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial Infantojuvenil, na zona norte da cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Me chama a aten\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, que viol\u00eancias raciais muitas vezes n\u00e3o tenham sido ou n\u00e3o sejam profundamente consideradas at\u00e9 mesmo por aqueles que dedicaram e dedicam suas vidas para a transforma\u00e7\u00e3o dessa pol\u00edtica. O questionamento \u201cHolocausto ou navio negreiro\u201d, de Rachel Gouveia (2018) \u00e9 certeiro, pois abre o debate sobre como autores como Fanon, L\u00e9lia Gonzalez, diretores como Z\u00f3zimo Bulbul, e tantos outros, tiveram t\u00e3o pouco espa\u00e7o no reconhecimento coletivo desse processo.<\/p>\n<p>L\u00e9lia Gonzalez, em seu texto \u201cracismo e sexismo na cultura brasileira\u201d (1984), trabalha com as no\u00e7\u00f5es de \u201cconsci\u00eancia\u201d e \u201cmem\u00f3ria\u201d. Por meio delas, ao tensionar as produ\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas a partir das produ\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas dos movimentos feministas e negros, a autora coloca a \u201cconsci\u00eancia\u201d como a forma pela qual a ideologia se faz presente, sendo o lugar \u201cda aliena\u00e7\u00e3o, do esquecimento e at\u00e9 do saber\u201d. J\u00e1 a \u201cmem\u00f3ria\u201d estaria em outra via, como aquilo que d\u00e1 lugar a um \u201cn\u00e3o-saber que conhece\u201d, \u00e0 restitui\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria. De forma que a \u201cconsci\u00eancia\u201d acabaria por excluir o que a \u201cmem\u00f3ria\u201d inclui. Nesse o questionamento de Gouveia nos compele a uma radicalidade. Nos compele a uma cis\u00e3o da &#8220;consci\u00eancia&#8221; que abra espa\u00e7o para a \u201cmem\u00f3ria\u201d, sem a qual novas possibilidades de subjetiva\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e3o poss\u00edveis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Imagem de Pexels from Pixabay<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>18 de maio \u00e9 a data que marca a mem\u00f3ria e o desejo da luta antimanicomial. Data que nos convida a olhar para a loucura e para a desraz\u00e3o. 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