{"id":3010,"date":"2022-06-20T15:20:32","date_gmt":"2022-06-20T18:20:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.labirinto.labjor.unicamp.br\/?p=3010"},"modified":"2022-06-20T15:20:32","modified_gmt":"2022-06-20T18:20:32","slug":"relato-contextualizando-o-reconhecimento-da-minha-vivencia-de-racismo-na-moradia-estudantil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2022\/06\/20\/relato-contextualizando-o-reconhecimento-da-minha-vivencia-de-racismo-na-moradia-estudantil\/","title":{"rendered":"Relato: Contextualizando o reconhecimento da minha viv\u00eancia de racismo na moradia estudantil"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>\u201cNo livro da antrop\u00f3loga L\u00e9lia Gonzalez, \u2018Por um feminismo Afro-Latino-americano\u2019, a parte que mais me enredou foi a que ela discorre que a popula\u00e7\u00e3o branca, mesmo sendo pobre, possui mais privil\u00e9gios sociais que as pessoas negras. Para mim, isto n\u00e3o parecia ser real, pois a mo\u00e7a que morou comigo n\u00e3o parecia ter mais privil\u00e9gios que eu, por ser branca. Foi um engano.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Este \u00e9 um trecho retirado do relato de Michelle Perez dos Santos, pesquisadora do Labirinto, acerca de uma situa\u00e7\u00e3o que viveu na moradia estudantil da Unicamp, onde foi alvo do racismo e do descaso estruturais e cotidianos por meio dos quais a branquitude se infiltra nas atitudes di\u00e1rias e na forma\u00e7\u00e3o e din\u00e2micas das institui\u00e7\u00f5es. No relato, Michelle dialoga com as teorias e as experi\u00eancias de outras importantes escritoras e pensadoras negras &#8211; como bell hooks, L\u00e9lia Gonzalez e Grada Kilomba &#8211; para descrever e refletir a respeito da situa\u00e7\u00e3o que viveu, de seu pr\u00f3prio processo de reconhecimento do racismo que sofreu e de sua posicionalidade no mundo marcada pelo g\u00eanero e pela ra\u00e7a e, ainda, de sua frustra\u00e7\u00e3o e indigna\u00e7\u00e3o ao ver-se silenciada e ignorada ao tentar relatar e denunciar sua experi\u00eancia.<\/p>\n<blockquote><p>\nNo momento em que eu percebi que ficava relatando sobre o racismo e o roubo e nada acontecia, eu me resignei \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Percebi que o discurso, a voz de uma mulher branca \u00e9 muito mais legitimada que a minha. [&#8230;] Mais uma vez, eu me identifiquei com o escrito da bell hooks quando ela escreve: \u201cNosso sil\u00eancio n\u00e3o era mera rea\u00e7\u00e3o contra as brancas liberacionistas nem gesto de solidariedade aos patriarcas negros. Era o sil\u00eancio do oprimido: aquele profundo sil\u00eancio engendrado de resigna\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o perante seu destino\u201d (HOOKS, 2019). Meu destino naquela situa\u00e7\u00e3o era aceitar que ela estava certa, a mo\u00e7a branca, e eu tinha que esquecer que na moradia estudantil o racismo d\u00e1 puni\u00e7\u00f5es. Isso era s\u00f3 papel e discurso, n\u00e3o tinha nada de materialidade naquela regra de viv\u00eancia. Para o racismo, as puni\u00e7\u00f5es acabam n\u00e3o valendo.<\/p><\/blockquote>\n<p>As colegas, a representa\u00e7\u00e3o discente, a administra\u00e7\u00e3o estudantil da moradia, as assistentes sociais, a institui\u00e7\u00e3o, a pol\u00edcia. Foram muitas as inst\u00e2ncias que, orientadas por essa branquitude sufocante, se negaram e se negam a reconhecer e intervir na situa\u00e7\u00e3o que viveu e cujas consequ\u00eancias seguem se manifestando em sua vida: se recusam a reconhecer seus pr\u00f3prios privil\u00e9gios, seus erros hist\u00f3ricos e sist\u00eamicos, o racismo de suas atitudes mais cotidianas. Michelle, assim, identifica em sua viv\u00eancia como se manifestaram algumas das \u201cfases\u201d (ou, ainda, \u201cmecanismos de defesa do ego branco\u201d) de rea\u00e7\u00e3o dos brancos ao terem seu racismo apontado, como descreve Grada Kilomba em sua obra &#8220;Mem\u00f3rias da planta\u00e7\u00e3o: epis\u00f3dios do racismo cotidiano&#8221;: nega\u00e7\u00e3o; culpa e vergonha; (n\u00e3o) reconhecimento. Como aponta, ao final do relato, situa\u00e7\u00f5es como esta exigem respostas institucionais efetivas e comprometidas com o antirracismo:<br \/>\n\u201cSeria melhor e mais justo reconhecer que o racismo povoa todos n\u00f3s, \u00e9 parte da nossa sociedade, e que precisamos enfrentar de frente esse problema para poder super\u00e1-lo. Ler textos antirracistas e autoras negras n\u00e3o basta, \u00e9 preciso reconhecer o erro e reparar com mais justi\u00e7a as situa\u00e7\u00f5es de racismo cotidianas contra mulheres negras como eu.\u201d<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.labirinto.labjor.unicamp.br\/contextualizando-o-reconhecimento-da-minha-vivencia-de-racismo-na-moradia-estudantil-3\/?preview_id=3004&amp;preview_nonce=71551d0877&amp;_thumbnail_id=-1&amp;preview=true\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Confira aqui o relato na \u00edntegra<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Legenda da imagem: instala\u00e7\u00e3o \u201cThe Table of Goods\u201d de Grada Kilomba &#8211; MAAT, Lisboa, 2017. Cr\u00e9dito foto: Bruno Lopes.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNo livro da antrop\u00f3loga L\u00e9lia Gonzalez, \u2018Por um feminismo Afro-Latino-americano\u2019, a parte que mais me enredou foi a que ela discorre que a popula\u00e7\u00e3o branca, mesmo sendo pobre, possui mais privil\u00e9gios sociais que as pessoas negras. 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