{"id":3171,"date":"2022-11-21T13:51:05","date_gmt":"2022-11-21T16:51:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.labirinto.labjor.unicamp.br\/?p=3171"},"modified":"2022-11-21T13:51:05","modified_gmt":"2022-11-21T16:51:05","slug":"dia-da-consciencia-negra-como-pensar-o-papel-da-branquitude-e-seus-privilegios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2022\/11\/21\/dia-da-consciencia-negra-como-pensar-o-papel-da-branquitude-e-seus-privilegios\/","title":{"rendered":"Dia da Consci\u00eancia Negra: como pensar o papel da branquitude e seus privil\u00e9gios."},"content":{"rendered":"<p>Bell Hooks em seu livro \u201cEscrever Al\u00e9m da Ra\u00e7a\u201d (2013), transcorre o quanto o discurso da ira e da raiva de pessoas pretas no decorrer de nossas lutas, foram mais bem aceitos pela m\u00eddia, do que os que desvelavam os mecanismos da supremacia branca. Segundo a autora, isso ocorre porque, al\u00e9m de nos colocar como o \u201cirracional\u201d, acabavam reafirmando aos racistas o quanto seus mecanismos de opress\u00e3o estavam funcionando.<br \/>\nSua provoca\u00e7\u00e3o me leva a dissertar sobre esse lugar no dia da consci\u00eancia negra. Desde muito cedo n\u00f3s, pessoas pretas, somos racializadas. Devemos saber de que cor somos, seguidamente de quem somos, ou seja, o racismo cobra que pessoas pretas saibam \u201cseu lugar\u201d desde crian\u00e7as. A hierarquia do racismo que organiza nossos corpos na sociedade, tem pressa que ocupemos o lugar produzido por eles, como o \u201coutro\u201d, \u201cdiferente\u201d e \u201cinferior\u201d. As viol\u00eancias que sofremos a partir desse lugar moldam as nossas intera\u00e7\u00f5es sociais, trazendo consequ\u00eancias ps\u00edquicas, f\u00edsicas e financeiras.<br \/>\nLembro-me de uma ocasi\u00e3o em que minha filha, na \u00e9poca, com tr\u00eas anos, contou que uma colega perguntou a ela, o porqu\u00ea de sua pele preta e se ela n\u00e3o tomava banho. Essa mesma coleguinha, tinha o costume de deix\u00e1-la de lado durante as brincadeiras. Minha filha buscou respostas naquele momento sobre o ocorrido, queria saber o motivo da colega a tratar dessa maneira, se havia algum problema com ela. E com tr\u00eas anos de idade tive que alert\u00e1-la sobre o racismo, e como deveria lidar com essa situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFiquei abalada. N\u00e3o pensei que iniciaria essa conversa enquanto ela ainda aprendia as primeiras letras do abeced\u00e1rio. Por alguns estantes o meu desejo de viver em um mundo menos racista, me deixou cair na fal\u00e1cia de que sua inf\u00e2ncia poderia ser diferente da minha. Infelizmente, me enganei. Afinal, quantas vezes as escolas como institui\u00e7\u00f5es, deram espa\u00e7os para uma conversa arejada e transparente sobre o racismo? Quantas vezes a branquitude se movimentou para mudar sua consci\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao racismo dentro das institui\u00e7\u00f5es que os privilegiam?<br \/>\nEsse epis\u00f3dio que ocorreu com a minha filha, entre outros, que ocorrem com recorr\u00eancia na vida de pessoas pretas, me faz pensar que: os pilares da supremacia branca inseridos dentro das institui\u00e7\u00f5es e estruturas, continuam impedindo que ocorram mudan\u00e7as na sociedade.<br \/>\nDificilmente pessoas brancas recordam o momento em que come\u00e7aram a ser racistas em suas vidas. E os mecanismos que facilitam esse tipo de \u201cesquecimento\u201d est\u00e3o ligados diretamente ao suporte que as institui\u00e7\u00f5es promovem para o racismo, ou o que chamamos de \u201cpacto da branquitude\u201d como descreve a psic\u00f3loga, escritora e ativista Cida Bento.<br \/>\nEssa l\u00f3gica se d\u00e1 como um modo de autopreserva\u00e7\u00e3o, como se os brancos se colocassem no papel de \u201cuniversal\u201d, agindo em defesa de seus privil\u00e9gios, e afastando todos os \u201coutros\u201d, os negros, ind\u00edgenas, em uma marca\u00e7\u00e3o territorial \u201celes e n\u00f3s\u201d. Nesta l\u00f3gica seria muito mais f\u00e1cil agir violentamente na prote\u00e7\u00e3o de seus espa\u00e7os contra o \u201cinvasor\u201d, \u201cviolento\u201d e \u201cperigoso\u201d. Uma heran\u00e7a colonial da branquitude, que continuam marcando os nossos corpos diariamente.<br \/>\nMesmo que o conceito tenha surgido para explicar o mercado de trabalho, a autora estende para outros espa\u00e7os da nossa sociedade, como sa\u00fade, seguran\u00e7a p\u00fablica, educa\u00e7\u00e3o. Todos esses espa\u00e7os partem do mesmo mecanismo de defesa: \u00e9 preciso aniquilar o \u201cinvasor\u201d, e proteger seus privil\u00e9gios.<br \/>\nNos encontramos nesse ponto. Entre a comunh\u00e3o da branquitude que insiste em manter seus privil\u00e9gios, atrav\u00e9s de seu arcabou\u00e7o racista. Contra os esfor\u00e7os di\u00e1rios de uma popula\u00e7\u00e3o negra e ind\u00edgena que precisa sobreviver diante uma sociedade que mata sem nenhum remorso, sem gerar horror ou qualquer constrangimento, para a manuten\u00e7\u00e3o de seus privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Legenda da imagem: Ilustra\u00e7\u00e3o produzida pela artista Seneg\u00e2mbia, para o segundo epis\u00f3dio do F\u00f3rum de Investiga\u00e7\u00f5es Po\u00e9ticas. Cr\u00e9ditos da imagem: Seneg\u00e2mbia<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/em><\/p>\n<p>BENTO, Maria Aparecida da Silva. Pactos narc\u00edsicos no racismo: Branquitude e poder nas organiza\u00e7\u00f5es empresariais e no poder p\u00fablico. (Tese de doutorado), S\u00e3o Paulo: Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo, Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade, 2002. Dispon\u00edvel em:&lt;<a href=\"https:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/47\/47131\/tde-18062019-181514\/publico\/bento_do_2002.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/47\/47131\/tde-18062019-181514\/publico\/bento_do_2002.pdf<\/a>&gt;. Acesso em: 14 de novembro. de 2022.<br \/>\nHOOKS, bell. Escrever al\u00e9m da ra\u00e7a: teoria e pr\u00e1tica. Tradu\u00e7\u00e3o de Jess Oliveira. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bell Hooks em seu livro \u201cEscrever Al\u00e9m da Ra\u00e7a\u201d (2013), transcorre o quanto o discurso da ira e da raiva de pessoas pretas no decorrer de nossas lutas, foram mais bem aceitos pela m\u00eddia, do que os que desvelavam os mecanismos da supremacia branca. 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