{"id":3478,"date":"2023-04-18T20:52:03","date_gmt":"2023-04-18T23:52:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.labirinto.labjor.unicamp.br\/?p=3478"},"modified":"2023-04-18T20:52:03","modified_gmt":"2023-04-18T23:52:03","slug":"o-no-de-escrever-a-partir-de-si","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2023\/04\/18\/o-no-de-escrever-a-partir-de-si\/","title":{"rendered":"O n\u00f3 de escrever a partir de si"},"content":{"rendered":"<p><span data-sheets-value=\"{&quot;1&quot;:2,&quot;2&quot;:&quot;Repetimos \u00e0 exaust\u00e3o que toda pesquisa \u00e9 escrita a partir de um lugar, seja ele explicitado ou dissolvido em meio \u00e0s \\&quot;objetividades\\&quot;. Incluir tal reflex\u00e3o em uma ressalva pode bastar para a maioria das pesquisas no campo das humanidades, mas a autoetnografia tensiona o limite do pr\u00f3prio lugar.\\r\\nEscolhi usar o meu local privilegiado de observa\u00e7\u00e3o para refletir sobre o of\u00edcio do divulgador cient\u00edfico na pandemia de Covid-19: como comunicadora, frequento os espa\u00e7os, converso na linguagem, observo mais que um pesquisador de fora. Engana-se quem pensa que a autoetnografia \u00e9 f\u00e1cil, j\u00e1 que o pesquisador est\u00e1 inserido no campo: realizar uma pesquisa autoetnogr\u00e1fica \u00e9, por vezes, percorrer os labirintos internos da minha pr\u00f3pria cogni\u00e7\u00e3o; for\u00e7ar o olhar para os detalhes que escolho deixar passar no cotidiano, expor minhas fragilidades e sentir-me nua diante do futuro leitor.\\r\\n\u00c9 preciso um certo descolamento de si, uma dissocia\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia vivida na pele, para escrever academicamente sobre o que se vive. Ao mesmo tempo, distanciar-se demais pode produzir uma farsa, j\u00e1 que a proposta \u00e9 n\u00e3o se deixar dissolver.\\r\\nRecebi um financiamento para um per\u00edodo sandu\u00edche e estou acompanhando o trabalho de uma importante comunicadora cient\u00edfica, Kimberly Prather, do campo da qu\u00edmica atmosf\u00e9rica. Meu di\u00e1rio de campo \u00e9 tamb\u00e9m um di\u00e1rio de adapta\u00e7\u00e3o com a l\u00edngua, com a ci\u00eancia das part\u00edculas, com os colegas de universidade. Aqui tamb\u00e9m me envolvi com a divulga\u00e7\u00e3o e amplio minha no\u00e7\u00e3o de, habilidade em e reflex\u00e3o sobre comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica a partir de outro lugar.\\r\\nNunca senti um desafio de escrita t\u00e3o grande quanto o de falar academicamente sobre mim mesma. Falar sobre mim n\u00e3o \u00e9 um problema, fa\u00e7o com frequ\u00eancia. Mas no papel\u2026 Acordo alguns dias com a inten\u00e7\u00e3o de pesquisar o que \u00e9 que esteja mais distante de mim poss\u00edvel: a adapta\u00e7\u00e3o de ursos polares ao gelo, quem sabe? Com certeza \u00e9 mais interessante e \u00fatil do que o que eu venho escrevendo.\\r\\nTem dias melhores: o afastamento dos primeiros e mais dolorosos anos da pandemia me ajudam a colocar quest\u00f5es em perspectiva; o extenso registro que fiz da minha vida nas redes sociais enquanto estava em isolamento, tamb\u00e9m. Agora, o deslocamento geogr\u00e1fico tamb\u00e9m me ajuda com um impulso de mais dist\u00e2ncia da n\u00e9voa que vivi.\\r\\nSempre que me deparo com a vontade de sair correndo da frente do texto, tento ser gentil comigo. Falar sobre a pandemia \u00e9 tamb\u00e9m falar sobre o maior trauma coletivo da minha gera\u00e7\u00e3o e, como todo trauma, \u00e9 poss\u00edvel tentar soterrar ao m\u00e1ximo a mem\u00f3ria e nunca deix\u00e1-la sair do fundo da minha cabe\u00e7a. No fim, essa pesquisa me faz encarar a dor de frente e mergulhar nela.\\r\\nDas dezenas de autoetnografias que j\u00e1 li, nenhuma delas se parecia com a outra. Ainda n\u00e3o enxergo o formato da minha disserta\u00e7\u00e3o, mas sei que ela ter\u00e1 as l\u00e1grimas inevit\u00e1veis de aceitar usar o trauma que corroeu o meu corpo para produzir uma reflex\u00e3o para fora dele.\\r&quot;}\" data-sheets-userformat=\"{&quot;2&quot;:33558972,&quot;5&quot;:{&quot;1&quot;:[{&quot;1&quot;:2,&quot;2&quot;:0,&quot;5&quot;:{&quot;1&quot;:2,&quot;2&quot;:0}},{&quot;1&quot;:0,&quot;2&quot;:0,&quot;3&quot;:3},{&quot;1&quot;:1,&quot;2&quot;:0,&quot;4&quot;:1}]},&quot;6&quot;:{&quot;1&quot;:[{&quot;1&quot;:2,&quot;2&quot;:0,&quot;5&quot;:{&quot;1&quot;:2,&quot;2&quot;:0}},{&quot;1&quot;:0,&quot;2&quot;:0,&quot;3&quot;:3},{&quot;1&quot;:1,&quot;2&quot;:0,&quot;4&quot;:1}]},&quot;7&quot;:{&quot;1&quot;:[{&quot;1&quot;:2,&quot;2&quot;:0,&quot;5&quot;:{&quot;1&quot;:2,&quot;2&quot;:0}},{&quot;1&quot;:0,&quot;2&quot;:0,&quot;3&quot;:3},{&quot;1&quot;:1,&quot;2&quot;:0,&quot;4&quot;:1}]},&quot;8&quot;:{&quot;1&quot;:[{&quot;1&quot;:2,&quot;2&quot;:0,&quot;5&quot;:{&quot;1&quot;:2,&quot;2&quot;:0}},{&quot;1&quot;:0,&quot;2&quot;:0,&quot;3&quot;:3},{&quot;1&quot;:1,&quot;2&quot;:0,&quot;4&quot;:1}]},&quot;10&quot;:0,&quot;11&quot;:3,&quot;15&quot;:&quot;Roboto Condensed&quot;,&quot;28&quot;:1}\">Repetimos \u00e0 exaust\u00e3o que toda pesquisa \u00e9 escrita a partir de um lugar, seja ele explicitado ou dissolvido em meio \u00e0s &#8220;objetividades&#8221;. Incluir tal reflex\u00e3o em uma ressalva pode bastar para a maioria das pesquisas no campo das humanidades, mas a autoetnografia tensiona o limite do pr\u00f3prio lugar.<br \/>\nEscolhi usar o meu local privilegiado de observa\u00e7\u00e3o para refletir sobre o of\u00edcio do divulgador cient\u00edfico na pandemia de Covid-19: como comunicadora, frequento os espa\u00e7os, converso na linguagem, observo mais que um pesquisador de fora. Engana-se quem pensa que a autoetnografia \u00e9 f\u00e1cil, j\u00e1 que o pesquisador est\u00e1 inserido no campo: realizar uma pesquisa autoetnogr\u00e1fica \u00e9, por vezes, percorrer os labirintos internos da minha pr\u00f3pria cogni\u00e7\u00e3o; for\u00e7ar o olhar para os detalhes que escolho deixar passar no cotidiano, expor minhas fragilidades e sentir-me nua diante do futuro leitor.<br \/>\n\u00c9 preciso um certo descolamento de si, uma dissocia\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia vivida na pele, para escrever academicamente sobre o que se vive. Ao mesmo tempo, distanciar-se demais pode produzir uma farsa, j\u00e1 que a proposta \u00e9 n\u00e3o se deixar dissolver.<br \/>\nRecebi um financiamento para um per\u00edodo sandu\u00edche e estou acompanhando o trabalho de uma importante comunicadora cient\u00edfica, Kimberly Prather, do campo da qu\u00edmica atmosf\u00e9rica. Meu di\u00e1rio de campo \u00e9 tamb\u00e9m um di\u00e1rio de adapta\u00e7\u00e3o com a l\u00edngua, com a ci\u00eancia das part\u00edculas, com os colegas de universidade. Aqui tamb\u00e9m me envolvi com a divulga\u00e7\u00e3o e amplio minha no\u00e7\u00e3o de, habilidade em e reflex\u00e3o sobre comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica a partir de outro lugar.<br \/>\nNunca senti um desafio de escrita t\u00e3o grande quanto o de falar academicamente sobre mim mesma. Falar sobre mim n\u00e3o \u00e9 um problema, fa\u00e7o com frequ\u00eancia. Mas no papel\u2026 Acordo alguns dias com a inten\u00e7\u00e3o de pesquisar o que \u00e9 que esteja mais distante de mim poss\u00edvel: a adapta\u00e7\u00e3o de ursos polares ao gelo, quem sabe? Com certeza \u00e9 mais interessante e \u00fatil do que o que eu venho escrevendo.<br \/>\nTem dias melhores: o afastamento dos primeiros e mais dolorosos anos da pandemia me ajudam a colocar quest\u00f5es em perspectiva; o extenso registro que fiz da minha vida nas redes sociais enquanto estava em isolamento, tamb\u00e9m. Agora, o deslocamento geogr\u00e1fico tamb\u00e9m me ajuda com um impulso de mais dist\u00e2ncia da n\u00e9voa que vivi.<br \/>\nSempre que me deparo com a vontade de sair correndo da frente do texto, tento ser gentil comigo. Falar sobre a pandemia \u00e9 tamb\u00e9m falar sobre o maior trauma coletivo da minha gera\u00e7\u00e3o e, como todo trauma, \u00e9 poss\u00edvel tentar soterrar ao m\u00e1ximo a mem\u00f3ria e nunca deix\u00e1-la sair do fundo da minha cabe\u00e7a. No fim, essa pesquisa me faz encarar a dor de frente e mergulhar nela.<br \/>\nDas dezenas de autoetnografias que j\u00e1 li, nenhuma delas se parecia com a outra. Ainda n\u00e3o enxergo o formato da minha disserta\u00e7\u00e3o, mas sei que ela ter\u00e1 as l\u00e1grimas inevit\u00e1veis de aceitar usar o trauma que corroeu o meu corpo para produzir uma reflex\u00e3o para fora dele.<\/span><\/p>\n<p><em>Legenda da imagem: O ambiente da pesquisadora. Cr\u00e9ditos da imagem: Ralph Holzmann<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Repetimos \u00e0 exaust\u00e3o que toda pesquisa \u00e9 escrita a partir de um lugar, seja ele explicitado ou dissolvido em meio \u00e0s &#8220;objetividades&#8221;. Incluir tal reflex\u00e3o em uma ressalva pode bastar para a maioria das pesquisas no campo das humanidades, mas a autoetnografia tensiona o limite do pr\u00f3prio lugar. 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