{"id":3789,"date":"2024-05-07T10:24:30","date_gmt":"2024-05-07T13:24:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.labirinto.labjor.unicamp.br\/?p=3789"},"modified":"2024-05-07T10:24:30","modified_gmt":"2024-05-07T13:24:30","slug":"como-abordar-metodologicamente-menstruacoes-multiplas-seja-rabugenta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2024\/05\/07\/como-abordar-metodologicamente-menstruacoes-multiplas-seja-rabugenta\/","title":{"rendered":"Como abordar metodologicamente menstrua\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas? Seja rabugenta!"},"content":{"rendered":"<p>Passaram apenas algumas semanas desde que coloquei o ponto final na minha tese, que foi batizada de \u201cManchando: (o que) fazer (com) a menstrua\u00e7\u00e3o. Estrat\u00e9gias e experimentos para vazar quest\u00f5es feministas atrav\u00e9s das tecnoci\u00eancias\u201d. Eu amo pesquisar menstrua\u00e7\u00e3o, de verdade. Mas odeio ficar menstruada. E, quando estou menstruada, odeio o fato de pesquisar menstrua\u00e7\u00e3o, de verdade. E nesse ciclo mensal de amor e \u00f3dio, foram mais de quatro anos pesquisando sobre e com as menstrua\u00e7\u00f5es. Tentei transformar essa experi\u00eancia em problema metodol\u00f3gico que persegui (e que me perseguiu) ao longo da pesquisa: como abordar essa contradi\u00e7\u00e3o, que explode em complexidade quando consideramos os modos como diferentes pessoas vivenciam a menstrua\u00e7\u00e3o?<br \/>\nAs pesquisadoras Ela Przybylo e Breanne Fahs (2020) prop\u00f5em um caminho metodol\u00f3gico para abordar a menstrua\u00e7\u00e3o e pessoas menstruantes que coloque em evid\u00eancia tal diversidade, evitando cair em essencialismos. \u00c9 o que as pesquisadoras chamam de &#8220;&#8221;cranky approach&#8221;&#8221;. A palavra cranky \u00e9 muito interessante e repleta de significados:<\/p>\n<blockquote><p>CRANKY<br \/>\n1a: given to fretful fussiness; readily angered when opposed;<br \/>\n1b: marked by eccentricity;<br \/>\n2: full of twists and turns;<br \/>\n3: working erratically;<br \/>\n4: crazy, silly.<\/p><\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m das defini\u00e7\u00f5es acima, cranky pode significar manha, capricho, mas tamb\u00e9m algu\u00e9m fraco, abalado. No linguajar corrente, uma cranky person \u00e9 uma pessoa que n\u00e3o est\u00e1 sempre furiosa ou indignada, \u00e9 apenas mais f\u00e1cil irrit\u00e1-la que o normal: quando est\u00e1 com fome, cansada \u200b\u200bou desgastada, n\u00e3o \u00e9 preciso muito para deix\u00e1-la \u2018louca\u2019. A partir dessa defini\u00e7\u00e3o, uma tradu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para cranky approach seria uma abordagem irritada ou irrit\u00e1vel, por\u00e9m, cranky carrega consigo muito mais do que tal acep\u00e7\u00e3o que, ligada \u00e0 menstrua\u00e7\u00e3o, acaba por refor\u00e7ar estere\u00f3tipos.<br \/>\nConversando com minhas amigas sobre isso, chegamos ao consenso de que uma tradu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para portugu\u00eas seria \u201cabordagem rabugenta\u201d. Tal tradu\u00e7\u00e3o tira um pouco do brilho de uma palavra que parece t\u00e3o boa para os objetivos de Przybylo e Fahs: nos manter \u2013 n\u00f3s, que temos a menstrua\u00e7\u00e3o como centro das aten\u00e7\u00f5es \u2013 permanentemente alertas ao risco de estarmos produzindo um tipo de saber que \u201cforce a m\u00e3o\u201d para uma \u201cpositividade menstrual\u201d que n\u00e3o contempla grande parte da experi\u00eancia de pessoas que menstruam. Afinal, \u201cdor, vazamento, trauma, desconforto, disforia e sentimento dissidentes\u201d (2020, p. 386) fazem parte do dia a dia de muitas de n\u00f3s.<br \/>\nAssim como as autoras, tamb\u00e9m aposto em uma abordagem manhosa, caprichosa, irritadi\u00e7a, exc\u00eantrica, cheia de idas e vindas, err\u00e1tica, doida, besta, abalada, que seja capaz de trazer \u00e0 tona uma multiplicidade de menstrua\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. O ato de n\u00e3o suprimir tal dimens\u00e3o da experi\u00eancia vivida \u00e9, a meu ver, um movimento no sentido de criar espa\u00e7os de permiss\u00e3o para causar problemas compartilhados. O problema de resmungar est\u00e1 em que, provavelmente, algu\u00e9m vai ouvir nosso barulho. E o sil\u00eancio indesejado n\u00e3o nos cabe mais.<\/p>\n<p>Saiba mais:<\/p>\n<p>PRZYBYLO, Ela; FAHS, Breanne. <strong>Empowered Bleeders and Cranky Menstruators:<\/strong> Menstrual Positivity and the \u201cLiberated\u201d Era of New Menstrual Product Advertisements. In: BOBEL, C. et al. (eds.). <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/book\/10.1007\/978-981-15-0614-7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Palgrave Handbook of Critical Menstruation Studies<\/a>. Singapura: Palgrave Macmillan, 2020.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Legenda da imagem: Colagem feita a partir de fotografia de sangue menstrual seco. Cr\u00e9ditos: Clarissa Reche.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passaram apenas algumas semanas desde que coloquei o ponto final na minha tese, que foi batizada de \u201cManchando: (o que) fazer (com) a menstrua\u00e7\u00e3o. Estrat\u00e9gias e experimentos para vazar quest\u00f5es feministas atrav\u00e9s das tecnoci\u00eancias\u201d. Eu amo pesquisar menstrua\u00e7\u00e3o, de verdade. Mas odeio ficar menstruada. 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