{"id":3911,"date":"2024-10-09T19:15:16","date_gmt":"2024-10-09T22:15:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.labirinto.labjor.unicamp.br\/?p=3911"},"modified":"2024-10-09T19:15:16","modified_gmt":"2024-10-09T22:15:16","slug":"questoes-sobre-a-laqueadura-em-mulheres-jovens-e-sem-filhos-um-mestrado-em-andamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2024\/10\/09\/questoes-sobre-a-laqueadura-em-mulheres-jovens-e-sem-filhos-um-mestrado-em-andamento\/","title":{"rendered":"Quest\u00f5es sobre a laqueadura em mulheres jovens e sem filhos: um mestrado em andamento"},"content":{"rendered":"<p>Esta pesquisa nasceu da inquieta\u00e7\u00e3o sobre os motivos que levam mulheres jovens e sem filhos a buscarem a esteriliza\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, apesar da ampla oferta de m\u00e9todos contraceptivos revers\u00edveis e eficientes. Ela se construiu em di\u00e1logos profundos com 24 mulheres e pessoas n\u00e3o-bin\u00e1rias, todas entre 21 e 35 anos, que decidiram pela laqueadura. Cada uma dessas hist\u00f3rias foi sistematizada com a ajuda do software ATLAS.ti, resultando em 220 p\u00e1ginas de transcri\u00e7\u00f5es que revelam narrativas marcantes. O perfil dessas entrevistadas reflete um cen\u00e1rio socioecon\u00f4mico pouco peculiar: em sua maioria, s\u00e3o brancas, heterossexuais, com renda m\u00e9dia de dois sal\u00e1rios m\u00ednimos e forma\u00e7\u00e3o superior. Dessas pessoas, mais de 75% optaram pela salpingectomia bilateral, mesmo que n\u00e3o haja dados conclusivos sobre sua efic\u00e1cia contraceptiva. O que se destaca, no entanto, \u00e9 a forte desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos m\u00e9todos hormonais. A laqueadura surge, para muitas, como um caminho de seguran\u00e7a, uma op\u00e7\u00e3o definitiva diante do temor constante de uma gravidez indesejada, num pa\u00eds onde o aborto \u00e9 ainda criminalizado. A rejei\u00e7\u00e3o aos horm\u00f4nios, alimentada por experi\u00eancias frustrantes com contraceptivos e pela sensa\u00e7\u00e3o de abandono por parte dos profissionais de sa\u00fade, tamb\u00e9m emerge como um tema recorrente. A decis\u00e3o de realizar a laqueadura, portanto, ultrapassa a esfera do controle reprodutivo, envolvendo quest\u00f5es de poder, autonomia e o desejo de n\u00e3o depender mais de um sistema de sa\u00fade que parece falhar com elas. O que percebi, portanto, atuando como um fator aglutinador dessas mulheres e pessoas com \u00fatero que escolheram um m\u00e9todo irrevers\u00edvel &#8211; sublinhando essa palavra em suas justificativas &#8211; foi o medo: medo de uma gesta\u00e7\u00e3o indesejada, medo de ter seus consentimentos violados, medo de terem que lidar sozinhas com os resultados de uma rela\u00e7\u00e3o conjunta, medo de terem seus poderes de escolha ceifados. Medos perfeitamente justific\u00e1veis em um pa\u00eds com um dos maiores \u00edndices de viol\u00eancia contra a mulher, onde mais de 60% das gesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o indesejadas, o aborto \u00e9 crime e moralmente penalizado e milh\u00f5es de crian\u00e7as sequer possuem o nome do pai no registro. Evidentemente, existe aqui um campo de pesquisa ainda bastante inexplorado, com diversas possibilidades de an\u00e1lises que podem ser feitas a partir das ci\u00eancias sociais e da sa\u00fade em suas m\u00faltiplas frentes. Por este campo perpassam temas que envolvem disputas de poder entre indiv\u00edduos, entre institui\u00e7\u00f5es, entre indiv\u00edduos e institui\u00e7\u00f5es; poderes impl\u00edcitos e expl\u00edcitos. S\u00e3o temas na \u00e1rea dos estudos da ci\u00eancia e da tecnologia, dos estudos legislativos, de pol\u00edticas p\u00fablicas e de pr\u00e1ticas do Estado; da viol\u00eancia de g\u00eanero, institucional, simb\u00f3lica; do g\u00eanero, da sexualidade, das rela\u00e7\u00f5es e ra\u00e7a, classe e regionalidade. Mais uma vez encontram-se os corpos capazes de gestar como territ\u00f3rios de disputas, tensionamentos, batalhas, revolu\u00e7\u00f5es e vislumbres do futuro que desejamos alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Descri\u00e7\u00e3o da imagem: Imagem ilustrando o \u00fatero, uma trompa descontinuada e um ov\u00e1rio, representando a cirurgia de esteriliza\u00e7\u00e3o feminina popularmente conhecida como laqueadura. Cr\u00e9dito: Revista AzMina.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta pesquisa nasceu da inquieta\u00e7\u00e3o sobre os motivos que levam mulheres jovens e sem filhos a buscarem a esteriliza\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, apesar da ampla oferta de m\u00e9todos contraceptivos revers\u00edveis e eficientes. Ela se construiu em di\u00e1logos profundos com 24 mulheres e pessoas n\u00e3o-bin\u00e1rias, todas entre 21 e 35 anos, que decidiram pela laqueadura. 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