{"id":3914,"date":"2024-10-15T17:10:31","date_gmt":"2024-10-15T20:10:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.labirinto.labjor.unicamp.br\/?p=3914"},"modified":"2024-10-15T17:10:31","modified_gmt":"2024-10-15T20:10:31","slug":"o-reaparecimento-da-mascara-durante-as-queimadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2024\/10\/15\/o-reaparecimento-da-mascara-durante-as-queimadas\/","title":{"rendered":"O reaparecimento da m\u00e1scara durante as queimadas"},"content":{"rendered":"<p>Durante uma intensa pesquisa de campo do p\u00f3s-doutorado sobre qualidade do ar em outro hemisf\u00e9rio, meu pa\u00eds come\u00e7ou a acordar cinza. Setembro de 2024 ficar\u00e1 marcado na nossa hist\u00f3ria recente como o &#8220;m\u00eas do fogo&#8221; no Brasil. E com isso, comecei a ter flashbacks da minha experi\u00eancia de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no auge da pandemia: acordar com taquicardia com o celular cheio de mensagens de amigos, colegas, semi-conhecidos pedindo informa\u00e7\u00f5es e dicas para lidar com um cen\u00e1rio apocal\u00edptico. Jornalistas procurando a mim ao inv\u00e9s dos \u00f3rg\u00e3os federais para trazer recomenda\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 qualidade do ar para a popula\u00e7\u00e3o. Passar horas respondendo a mensagens individuais de pessoas desesperadas por ajuda.<\/p>\n<p>Apertava o peito saber que, mais uma vez, esse trabalho n\u00e3o cabia \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica independente. Faltavam novamente informa\u00e7\u00f5es claras vindas do Governo Federal e do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para informar adequadamente a popula\u00e7\u00e3o: vieram tarde demais, com erros demais, silenciosas demais.<\/p>\n<p>Me vi repetindo informa\u00e7\u00f5es sobre m\u00e1scaras PFF2: explicando porque funcionam, onde comprar, sugerindo distribui\u00e7\u00e3o pelo poder p\u00fablico. Um coment\u00e1rio dizia que est\u00e1vamos de novo querendo &#8220;emplacar&#8221; as m\u00e1scaras em um novo contexto reeditado, como se fosse interessante. Em <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-56780405\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">entrevista para a BBC<\/a> em abril de 2021, destaquei o quanto desej\u00e1vamos que o perfil acabasse: &#8220;A gente quer ser o contr\u00e1rio de um influenciador. O plano \u00e9 que o perfil fique obsoleto, que n\u00e3o tenha mais relev\u00e2ncia, seja pelo fim da pandemia ou porque as informa\u00e7\u00f5es j\u00e1 chegaram a todo mundo&#8221;.<\/p>\n<p>Com o aumento das queimadas, a pergunta &#8220;Qual M\u00e1scara?&#8221; voltou a fazer sentido por uma s\u00e9rie de desconex\u00f5es desastrosas na comunica\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. A politiza\u00e7\u00e3o da m\u00e1scara transformou a palavra em tabu, e o tabu se consolida quando os \u00f3rg\u00e3os que deveriam mobilizar a m\u00e1quina p\u00fablica de comunica\u00e7\u00e3o para super\u00e1-lo n\u00e3o o fazem &#8211; como foi o caso da <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/cotidiano\/ultimas-noticias\/2024\/08\/27\/queimadas-protecao-mascara.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">recomenda\u00e7\u00e3o de bandana<\/a> para prote\u00e7\u00e3o respirat\u00f3ria durante as queimadas.<\/p>\n<p>Entre os meus maiores desejos nesta vida ainda est\u00e1, sem d\u00favida, imaginar um mundo sem m\u00e1scaras. Ao mesmo tempo, sou grata a elas pela prote\u00e7\u00e3o que oferecem. Infelizmente, no apocalipse clim\u00e1tico pr\u00e9-p\u00f3s-pand\u00eamico &#8211; ou como queira chamar -, part\u00edculas pequenas carregam v\u00edrus, bact\u00e9rias, fuligem e muitas outras camadas de polui\u00e7\u00e3o para os nossos pulm\u00f5es e corrente sangu\u00ednea. Al\u00e9m da pandemia da Covid seguir em curso, cada vez mais negligenciada, usos da m\u00e1scara em outros contextos v\u00e3o fazendo cada vez mais sentido.<\/p>\n<p>Em setembro, o que essas part\u00edculas carregaram para dentro dos corpos humanos e n\u00e3o-humanos <a href=\"https:\/\/www.intercept.com.br\/2024\/09\/16\/os-mais-frageis-morrerao-antes-do-tempo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">podia matar<\/a>: adoeceu e matou uma parcela da popula\u00e7\u00e3o, sempre afetando desproporcionalmente os mais pobres. Assim como a pandemia de Covid n\u00e3o foi a \u00faltima das pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, o &#8220;m\u00eas do fogo&#8221; tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1. Infelizmente, teremos que esperar uma pr\u00f3xima cat\u00e1strofe para ver se v\u00e3o optar por uma educa\u00e7\u00e3o continuada sobre qualidade do ar e prote\u00e7\u00e3o respirat\u00f3ria, ou deixar\u00e3o novamente a popula\u00e7\u00e3o abandonada para lidar com os efeitos da crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p><em>Legenda da imagem: Monitores de qualidade do ar mostrando o impacto das queimadas. Cr\u00e9dito: Beatriz Klimeck, site Purple Air.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante uma intensa pesquisa de campo do p\u00f3s-doutorado sobre qualidade do ar em outro hemisf\u00e9rio, meu pa\u00eds come\u00e7ou a acordar cinza. Setembro de 2024 ficar\u00e1 marcado na nossa hist\u00f3ria recente como o &#8220;m\u00eas do fogo&#8221; no Brasil. 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