{"id":3923,"date":"2024-10-30T16:50:29","date_gmt":"2024-10-30T19:50:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.labirinto.labjor.unicamp.br\/?p=3923"},"modified":"2024-10-30T16:50:29","modified_gmt":"2024-10-30T19:50:29","slug":"e-preciso-dar-o-nome-certo-para-as-coisas-gestantes-substitutas-e-a-importancia-da-linguagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2024\/10\/30\/e-preciso-dar-o-nome-certo-para-as-coisas-gestantes-substitutas-e-a-importancia-da-linguagem\/","title":{"rendered":"\u00c9 preciso dar o nome certo para as coisas: gestantes substitutas e a import\u00e2ncia da linguagem"},"content":{"rendered":"<p>Barriga de aluguel, do ingl\u00eas surrogacy: ato de gestar um feto para terceiro inabilitado de realizar essa atividade sozinho. Do latim surrogare, que significa \u201cse colocar no lugar do outro. Substituta\u201d. A \u201csubstituta\u201d em quest\u00e3o \u00e9 uma pessoa que n\u00e3o planejou nem deseja criar a futura crian\u00e7a, mas que acolhe o embri\u00e3o fecundado em seu \u00fatero por todo o per\u00edodo gestacional, podendo receber, ou n\u00e3o, uma compensa\u00e7\u00e3o financeira por seu trabalho. Aproveitando a d\u00e1diva que a l\u00edngua portuguesa nos d\u00e1, chamarei essa pessoa pelo termo neutro gestante substituta.<\/p>\n<p>A l\u00edngua \u2013 como nos ensina Jana Viscardi \u2013 \u00e9 social e mut\u00e1vel, um espa\u00e7o onde rela\u00e7\u00f5es de poder se manifestam. Em barriga de aluguel, a linguagem \u00e9 articulada para definir gestantes substitutas como \u201cm\u00e3es biol\u00f3gicas\u201d dos fetos que gestam, v\u00edtimas ou vil\u00e3s que vendem seus \u201cfilhos\u201d. Nesse cen\u00e1rio, o termo \u201cm\u00e3e\u201d \u00e9 uma ferramenta usada para gerar p\u00e2nico moral: o moralismo escolhe bem as palavras para convencer as pessoas que barriga de aluguel \u00e9 uma pr\u00e1tica degradante que explora mulheres que precisam ser salvas. Gestantes substitutas n\u00e3o s\u00e3o m\u00e3es dos fetos que gestam, mas sim trabalhadoras exercendo uma atividade laboral que se inicia antes mesmo da transfer\u00eancia do embri\u00e3o para o \u00fatero e persiste at\u00e9 o p\u00f3s-parto. Gestar n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de maternidade: n\u00e3o s\u00e3o apenas \u201cm\u00e3es\u201d nem apenas \u201cmulheres\u201d. Pessoas gestam.<\/p>\n<p>Pesquisas emp\u00edricas demostram que gestantes substitutas utilizam met\u00e1foras para definirem suas peculiares fun\u00e7\u00f5es: elas s\u00e3o o \u201cforno\u201d que ir\u00e1 assar o p\u00e3o-feto para seus futuros pais, a \u201cestufa\u201d que ir\u00e1 aquecer a planta-embri\u00e3o ou ainda uma \u201cbab\u00e1 ao extremo\u201d que realizar uma atividade de cuidado uterino. Os termos empregados desagradam muitas pessoas, mas precisam ser respeitados. Foram escolhidos pelas pr\u00f3prias gestantes, dotadas de ag\u00eancia e capacidade de consentir.<\/p>\n<p>Marilyn Strathern brinca com o significado do termo \u201csurrogare\u201d, alegando que a gestante substituta age no lugar de outra pessoa, representando uma poss\u00edvel (jamais imprescind\u00edvel) faceta da maternidade, que \u00e9 a gesta\u00e7\u00e3o, sem ser a m\u00e3e. O grande diferencial dessa substituta \u00e9 que ela age como uma dubl\u00ea, sempre em refer\u00eancia a outra pessoa que, por implica\u00e7\u00e3o, \u00e9 o eventual genitor (ou genitores) da futura crian\u00e7a. Para a autora, precisamos distinguir \u201ctomar o lugar\u201d (substituir permanentemente) de \u201cagir no lugar de outro\u201d (substituir temporariamente).<\/p>\n<p>Gestantes substitutas nada mais s\u00e3o que substitutas tempor\u00e1rias pelo per\u00edodo gestacional, trabalhadoras que merecem nosso respeito, embora n\u00e3o o tenham de uma parcela consider\u00e1vel da sociedade. Utilizar o nome correto n\u00e3o \u00e9 apenas um passo importante para vencer o moralismo, mas uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que beneficia todas as pessoas que gestam. Para pensarmos em um feminismo verdadeiramente inclusivo, \u00e9 preciso dar o nome certo para as coisas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Descri\u00e7\u00e3o da imagem: a imagem mostra um esbo\u00e7o simples de um feto em desenvolvimento dentro de um \u00fatero, representado de forma neutra e sem associa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas \u00e0 maternidade. A figura est\u00e1 posicionada dentro de uma forma oval que representa o \u00fatero ou a bolsa amni\u00f3tica, simbolizando o ambiente de prote\u00e7\u00e3o natural durante a gesta\u00e7\u00e3o, sem implica\u00e7\u00f5es sobre o papel de g\u00eanero ou a identidade da pessoa gestante. Cr\u00e9ditos: Bruna Kern Graziuso.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Barriga de aluguel, do ingl\u00eas surrogacy: ato de gestar um feto para terceiro inabilitado de realizar essa atividade sozinho. Do latim surrogare, que significa \u201cse colocar no lugar do outro. Substituta\u201d. 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