{"id":4347,"date":"2025-05-29T11:27:06","date_gmt":"2025-05-29T14:27:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/?p=4347"},"modified":"2025-06-02T14:54:23","modified_gmt":"2025-06-02T17:54:23","slug":"mantenha-fora-do-alcance-das-criancas-medicamentos-antipsicoticos-infancias-e-uma-pesquisa-em-andamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2025\/05\/29\/mantenha-fora-do-alcance-das-criancas-medicamentos-antipsicoticos-infancias-e-uma-pesquisa-em-andamento\/","title":{"rendered":"\u201cMantenha fora do alcance das crian\u00e7as\u201d: medicamentos antipsic\u00f3ticos, inf\u00e2ncias e  uma pesquisa em andamento"},"content":{"rendered":"<p><em>Texto de Lu\u00eds Philipe Nagem Lopes.<br \/><\/em>Este texto faz parte da sess\u00e3o \u201cseguindo o fio\u201d do blog do Labirinto, em que fui convidado por uma amiga muito querida, Fernanda Mariath, a apresentar minha pesquisa de doutorado em andamento. Sou farmac\u00eautico e os medicamentos est\u00e3o no meu campo de vis\u00e3o desde 2016, quando iniciei a gradua\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, essa n\u00e3o \u00e9 uma especificidade de profissionais de sa\u00fade: todas as pessoas lidam, direta ou indiretamente, com os medicamentos diariamente. No Brasil, tal fato est\u00e1 materializado na estimativa de que 9 a cada 10 pessoas <a href=\"https:\/\/site.cff.org.br\/noticia\/Noticias-gerais\/23\/04\/2024\/pesquisa-revela-que-9-entre-10-brasileiros-se-automedicam\">se automedicam<\/a>.<\/p>\n<p>Nas inf\u00e2ncias, por\u00e9m, os medicamentos s\u00e3o objetos de cautela. As bulas s\u00e3o expl\u00edcitas na recomenda\u00e7\u00e3o de que \u201ctodo medicamento deve ser mantido fora do alcance de crian\u00e7as\u201d. Todavia, a depender do contexto, outras farmaco-l\u00f3gicas podem operar. Este \u00e9 o caso dos antipsic\u00f3ticos para crian\u00e7as no espectro autista, que t\u00eam como principal representante a risperidona. Esses medicamentos, desde os anos 1990, t\u00eam sido constantemente estudados, seja em pesquisas com modelos animais em laborat\u00f3rio, ou em ensaios cl\u00ednicos com crian\u00e7as e adolescentes no espectro autista. O uso desses medicamentos al\u00e9m de indicado, \u00e9 incitado por certas moralidades e discursos adultocentrados que conformam a imagem da crian\u00e7a a uma certa expectativa social de obedi\u00eancia e submiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando comecei a olhar historicamente para os antipsic\u00f3ticos, fiquei surpreso ao perceber que tais medicamentos presentes diariamente na vida dessas crian\u00e7as foram primariamente desenvolvidos para docilizar pacientes psiqui\u00e1tricos nos anos 1950. Como um dos meus interlocutores me ensinou: \u201cantipsic\u00f3tico \u00e9 o manic\u00f4mio em p\u00edlulas\u201d. Diante disso, durante o doutorado no Instituto de Medicina Social (IMS-UERJ), sob orienta\u00e7\u00e3o da professora Rosana Castro, tenho acompanhado esses medicamentos em diferentes circuitos relacionais: regulamenta\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria, incorpora\u00e7\u00e3o e recomenda\u00e7\u00f5es de uso no Sistema \u00danico de Sa\u00fade e em rotinas de cuidado. Meu esfor\u00e7o etnogr\u00e1fico \u00e9 acompanhar os fluxos e processos que mobilizaram os antipsic\u00f3ticos como uma possibilidade farmacoterap\u00eautica e de cuidado para crian\u00e7as no espectro autista.<\/p>\n<p>Nesse momento, estou passando tempo com uma fam\u00edlia muito querida que abriu as portas de sua casa para me receber durante o pr\u00e9-campo. Nesses encontros, passamos algumas tardes conversando, tomando caf\u00e9 juntos e falando sobre os medicamentos. No primeiro encontro, pude perceber na pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o da casa que esses medicamentos s\u00e3o parte intr\u00ednseca da rotina da fam\u00edlia, sobretudo pelo local onde estavam armazenados: no arm\u00e1rio da cozinha, ao lado de insumos alimentares fundamentais para a sobreviv\u00eancia. Nas conversas informais com essa fam\u00edlia, tenho percebido que os antipsic\u00f3ticos fazem parte de uma rotina de cuidado que entrela\u00e7a de maneira intensiva rela\u00e7\u00f5es familiares dif\u00edceis, precariza\u00e7\u00f5es, instabilidade financeira, rotina escolar e a vida de uma crian\u00e7a. Me parece que para al\u00e9m de uma efic\u00e1cia terap\u00eautica ou da expectativa de \u201ctratar a irritabilidade\u201d (\u00e9 para isso que esses medicamentos costumam ser indicados), existem din\u00e2micas relacionais mais profundas mediadas por esses medicamentos.<\/p>\n<p>Posso dizer que ao longo dos pr\u00f3ximos tr\u00eas anos terei uma hist\u00f3ria, n\u00e3o necessariamente linear, acerca de uma rede espessa de agentes humanos, n\u00e3o humanos e mais que humanos que fizeram os antipsic\u00f3ticos funcionarem para crian\u00e7as no espectro autista. Quero mostrar como os aparatos biom\u00e9dicos, como medicamentos, se misturam \u00e0 vida ordin\u00e1ria das pessoas e como essas hibridiza\u00e7\u00f5es formam tessituras (ou composi\u00e7\u00f5es) relacionais imprevis\u00edveis. Passando tempo com essa fam\u00edlia, tamb\u00e9m tenho aprendido sobre a artesania de construir uma pesquisa sobre o cuidado medicamentoso apoiada em uma \u00e9tico-pol\u00edtica do conhecimento feminista. Isso significa que muito diferente da l\u00f3gica massificante e hegem\u00f4nica das pesquisas nas ci\u00eancias farmac\u00eauticas que aprendi, a jornada no doutorado tem me ensinado a cultivar o toque como parte insepar\u00e1vel da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico. Inspirado em <a href=\"https:\/\/periodicos.unb.br\/index.php\/anuarioantropologico\/article\/view\/49154\">Maria Puig de la Bellacasa<\/a>, considero a relacionalidade como uma reivindica\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de um conhecimento situado e longe das abstra\u00e7\u00f5es e distanciamentos de certas epistemologias dominantes. Pesquisar enquanto toca; tocar enquanto pesquisa evidencia as proximidades imanentes e o afeto como parte indispens\u00e1vel na lida com pessoas, medicamentos e cuidado.<\/p>\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><em>Legenda da imagem: Medicamento sendo retirado da embalagem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><em>Fonte da imagem: <a href=\"https:\/\/site.cff.org.br\/noticia\/Noticias-gerais\/23\/04\/2024\/pesquisa-revela-que-9-entre-10-brasileiros-se-automedicam\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/site.cff.org.br\/noticia\/Noticias-gerais\/23\/04\/2024\/pesquisa-revela-que-9-entre-10-brasileiros-se-automedicam<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Lu\u00eds Philipe Nagem Lopes.Este texto faz parte da sess\u00e3o \u201cseguindo o fio\u201d do blog do Labirinto, em que fui convidado por uma amiga muito querida, Fernanda Mariath, a apresentar minha pesquisa de doutorado em andamento. 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