{"id":4476,"date":"2025-07-17T11:40:43","date_gmt":"2025-07-17T14:40:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/?p=4476"},"modified":"2025-07-17T20:17:29","modified_gmt":"2025-07-17T23:17:29","slug":"redesenhar-e-renomear-nosso-corpo-traducao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2025\/07\/17\/redesenhar-e-renomear-nosso-corpo-traducao\/","title":{"rendered":"Redesenhar e renomear nosso corpo (tradu\u00e7\u00e3o)"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"font-weight: 400\">Por Laura Sim\u00f3n \u2013 Tradu\u00e7\u00e3o de K\u00e1tia Marchena\u00a0<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/discordiamag.com\/2021\/10\/20\/redibujar-y-renombrar-nuestro-cuerpo\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Confira texto original em espanhol clicando aqui.<\/span><\/a><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Buceta, perseguida, perereca, xoxota, xereca, pepeca, lola.<\/strong> Poder\u00edamos\u00a0 fazer uma lista intermin\u00e1vel dos nomes usados para nos referir aos nossos\u00a0 genitais, mas o que realmente sabemos sobre eles?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c0s vezes, nosso corpo \u00e9 um lugar que nos incomoda e nos causa rejei\u00e7\u00e3o. Mas essa vergonha n\u00e3o \u00e9 algo natural: o tabu e o desconhecimento \u00e9 que nos\u00a0 impedem de nos conectar com essas <strong>\u201cpartes proibidas\u201d.<\/strong>\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00f3s, mulheres, temos uma regi\u00e3o do corpo que sabemos que existe, mas\u00a0 sobre a qual pouco conhecemos e que nos provoca medo e vergonha ao tentar\u00a0 nos conectar com ela.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo o <strong>II Estudo sobre a Menstrua\u00e7\u00e3o da INTIMINA,<\/strong> realizado com espanholas, uma em cada tr\u00eas mulheres n\u00e3o sabe diferenciar <strong>vulva de vagina<\/strong>,\u00a0 e 45% n\u00e3o sabem onde fica o colo do \u00fatero. Seguimos duvidando sobre se \u00e9\u00a0 poss\u00edvel urinar com o coletor menstrual ou se o absorvente interno pode \u201cse\u00a0 perder\u201d nas profundezas do nosso corpo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Vivemos rodeadas de p\u00eanis. Na escola, vemos desenhos de p\u00eanis nos\u00a0 cadernos e nas lousas. Na rua, vemos mais p\u00eanis rabiscados em muros. \u00c9\u00a0 comum que homens nos mostrem seus genitais na rua ou nas redes sociais sem nosso consentimento e por a\u00ed vai. Mas e voc\u00ea: <strong>quantas vulvas j\u00e1 viu na\u00a0 vida?<\/strong>\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 a vulva?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A <strong>vulva<\/strong> \u00e9 o conjunto dos genitais externos que podemos ver com a ajuda de\u00a0 um espelho. Inclui os l\u00e1bios internos e externos, o clit\u00f3ris, o monte de V\u00eanus e\u00a0 o vest\u00edbulo, onde est\u00e3o a abertura da uretra, a entrada da vagina e os orif\u00edcios\u00a0 das gl\u00e2ndulas de Skene e de Bartolino.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sim, voc\u00ea leu certo: na nossa vulva podemos encontrar dois \u201csenhores\u201d.\u00a0<strong> Alexander Skene<\/strong> (1837\u20131900), que segundo a Wikipedia foi um ginecologista\u00a0 escoc\u00eas por ser o primeiro a descobrir as gl\u00e2ndulas que levam seu nome, e\u00a0 <strong>Caspar Bartholin<\/strong> (1655\u20131738), anatomista dinamarqu\u00eas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando comecei a pesquisar sobre os genitais femininos, o primeiro\u00a0 sentimento foi dor e tristeza pela minha falta de <strong>informa\u00e7\u00e3o <\/strong>sobre eles. Mas, \u00e0\u00a0 medida que fui aprendendo, <strong>me apaixonei<\/strong> por essa parte do corpo que sempre temos apagada.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como diz Marta Torr\u00f3n, especialista em fisiosexologia e crescimento sexual,\u00a0 comecei a \u201c<strong>redesenhar esse corpo apagado\u201d<\/strong>, <strong>olhando, tocando, movendo\u00a0<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\"><strong>e pensando<\/strong> nos meus genitais para ter mais consci\u00eancia sobre eles. Mas al\u00e9m\u00a0 de redesenhar nosso corpo, \u00e9 imprescind\u00edvel renome\u00e1-lo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>Renomear\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Gl\u00e2ndulas de Skene, gl\u00e2ndulas de Bartolino e trompas de Fal\u00f3pio<\/strong>: tr\u00eas\u00a0 homens dando nome a tr\u00eas partes do corpo das pessoas com vulva. N\u00e3o soa\u00a0 bastante violento e chocante que nossa fonte de prazer e vida tenham nomes\u00a0 de pessoas com p\u00eanis?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De uma perspectiva feminista, a ginecologia pretende renomear essas partes\u00a0 do nosso corpo que ainda hoje carregam nomes de homens que, na maioria\u00a0 dos casos, realizaram suas pesquisas em mulheres <strong>racializadas e pobres<\/strong> sem consentimento para levar a cabo seus \u201cdescobrimentos\u201d, como explica o\u00a0 artigo \u201cAs origens racistas e anti\u00e9ticas da ginecologia moderna\u201d, de Annabel\u00a0 Sowemimo. Ele tamb\u00e9m denuncia a viol\u00eancia ainda existente, como a viol\u00eancia\u00a0 obst\u00e9trica e falta de aten\u00e7\u00e3o ginecol\u00f3gica de qualidade no atendimento a\u00a0 mulheres negras no Reino Unido e nos EUA.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Diante dessa realidade, a artista e performer chilena<strong> Klau Chiche<\/strong> criou o\u00a0 projeto <strong>Anarchagrand<\/strong>, que estuda a hist\u00f3ria da <strong>ginecologia moderna<\/strong> e\u00a0 prop\u00f5e renomear as partes do nosso corpo que receberam nomes de homens.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>Gl\u00e2ndulas renomeadas\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Imagino que voc\u00ea n\u00e3o tem ideia para que servem e onde se encontram estas\u00a0 partes com nomes de homens. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o sabia at\u00e9 que eu busquei essa\u00a0 informa\u00e7\u00e3o. Aqui vai um pequeno resumo de sua localiza\u00e7\u00e3o e suas fun\u00e7\u00f5es.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<ul>\n<li><span style=\"font-weight: 400\"> Gl\u00e2ndulas de Skene que chamaremos de <strong>gl\u00e2ndulas parauretrais,<\/strong>\u00a0<strong> ejaculat\u00f3rias ou de Anarcha.<\/strong> Ficam ao lado da uretra e desembocam\u00a0 no exterior da vagina por dois orif\u00edcios ejaculadores. Estas gl\u00e2ndulas\u00a0 s\u00e3o respons\u00e1veis pela ejacula\u00e7\u00e3o feminina, um l\u00edquido esbranqui\u00e7ado\u00a0 que \u00e9 liberado antes ou durante o orgasmo, muitas vezes confundido\u00a0 com a lubrifica\u00e7\u00e3o vaginal. Na realidade, o famoso \u201cponto G\u201d, um\u00a0 montinho que notamos com os dedos ao introduzirmos com a palma\u00a0 para cima da vagina ao fazer o t\u00edpico movimento de \u201cvem\u201c, s\u00e3o as\u00a0 gl\u00e2ndulas parauretrais cheias de l\u00edquido, que ao produzir as contra\u00e7\u00f5es\u00a0 do orgasmo, se expulsa. Aten\u00e7\u00e3o, o squirt n\u00e3o \u00e9 o mesmo que\u00a0 ejacula\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-weight: 400\"> Gl\u00e2ndulas de Bartolino, para n\u00f3s agora, <strong>gl\u00e2ndulas vestibulares\u00a0 maiores, lubrificantes ou de Lucy e Betsey<\/strong> se encontram ao lado da\u00a0 entrada vaginal e s\u00e3o encarregadas de produzir a lubrifica\u00e7\u00e3o sexual, <\/span>que surge quando estamos excitadas para lubrificar os l\u00e1bios internos da\u00a0 vulva.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li><span style=\"font-weight: 400\"> Trompas de Fal\u00f3pio, melhor cham\u00e1-las de trompas uterinas. Esses\u00a0 \u00f3rg\u00e3os nos soam mais familiares porque nos falaram mais sobre elas.\u00a0 S\u00e3o dois condutores situados ao lado do corpo do \u00fatero e que se\u00a0 comunicam com os ov\u00e1rios. Neles, h\u00e1 pequenos c\u00edlios que transportam o\u00a0 \u00f3vulo liberado de um dos ov\u00e1rios, ajudando os espermatozoides a\u00a0 chegarem at\u00e9 ele.\u00a0<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>As secre\u00e7\u00f5es foram renomeadas tamb\u00e9m\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Feministas francesas retomaram os escritos de Monique Wittig e do coletivo\u00a0 Les Infemmes para propor novos nomes:\u00a0<\/span><\/p>\n<ul>\n<li><span style=\"font-weight: 400\"><strong> Ciprina:<\/strong> lubrifica\u00e7\u00e3o das gl\u00e2ndulas Lucy e Betsey.\u00a0<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-weight: 400\"><strong> Kuprina:<\/strong> ejacula\u00e7\u00e3o das gl\u00e2ndulas de Anarcha.\u00a0<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-weight: 400\"><strong> Perlina:<\/strong> fluido ou mucosa das paredes vaginais durante a excita\u00e7\u00e3o, que\u00a0 se forma como got\u00edculas \u2014 tipo suor \u00edntimo.\u00a0<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Fonte : Clitoralia\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>E por que renomeamos nossas gl\u00e2ndulas com os nomes de Anarcha,\u00a0 Lucy e Betsey?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Elas foram <strong>mulheres negras escravizadas<\/strong>, vindas da \u00c1frica, para os campos\u00a0 de algod\u00e3o do Alabama e que foram usadas como cobaias por James Marion\u00a0 Sims, considerado o \u201cpai\u201d da ginecologia moderna. Atrav\u00e9s dos di\u00e1rios de\u00a0 Sims, sabemos que ele <strong>realizou experimentos cir\u00fargicos em seus corpos,\u00a0 sem anestesia<\/strong>, em 1840. Anarcha, Lucy e Betsey sofriam de f\u00edstulas, que \u00e9\u00a0 ader\u00eancia de canais ou dois \u00f3rg\u00e3os que funcionavam autonomamente, como\u00a0 por exemplo vagina e anus ou vagina e bexiga. Isso acontece por excesso de\u00a0 partos, mau uso de F\u00f3rceps, viola\u00e7\u00f5es sexuais e desnutri\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo estudos da Klau Chinche, em Anarchagland, em registros do pr\u00f3prio\u00a0 Sims, Lucy, com 18 anos, foi a primeira a ser operada, sem anestesia, apoiada em suas m\u00e3os e seus joelhos e sofreu dores insuport\u00e1veis. A cirurgia durou\u00a0 uma hora e foi acompanhada por doze m\u00e9dicos. Sims escreveu em suas\u00a0 mem\u00f3rias: \u201cPensei que ela fosse morrer.\u201d A recupera\u00e7\u00e3o durou tr\u00eas meses.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A hist\u00f3ria de Anarcha foi a mais documentada. Ela passou por<strong> trinta cirurgias sem anestesia.<\/strong> Sims justificava isso dizendo que \u201co estoicismo dos negros\u201d\u00a0 era suficiente como anest\u00e9sico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mais tarde, fundou um hospital em Nova York e continuou a operar mulheres\u00a0 imigrantes pobres. A ginecologia moderna nasceu dessa viol\u00eancia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o: devolver nosso corpo a n\u00f3s mesmas\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Cada vez mais mulheres que buscam <strong>conhecer seu corpo e apagar dele o\u00a0 passado colonial e patriarcal,<\/strong> para se reapropriarem de sua hist\u00f3ria e de seu\u00a0 prazer.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E eu acredito que o melhor caminho \u00e9 esse: autoconhecimento e renomea\u00e7\u00e3o para honrar a mem\u00f3ria daquelas mulheres que foram <strong>torturadas<\/strong> por carniceiros e que ainda hoje chamamos de \u201cdescobridores\u201d do nosso corpo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o, eles n\u00e3o descobriram nada. Essas partes j\u00e1 nos pertenciam e nos\u00a0 proporcionavam prazer desde muito antes deles.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Agora \u00e9 hora de devolvermos o papel para seu verdadeiro lugar: <strong>Sermos\u00a0 donas de nossa sexualidade!<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u2014&#8211;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nota:\u00a0 O texto original fez parte da ementa da disciplina <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2025\/07\/15\/confira-como-foi-a-realizacao-da-disciplina-estudos-sociais-da-ciencia-e-tecnologias-feminismos-menstruacoes-e-direitos-reprodutivos\/\">\u201cEstudos Sociais da Ci\u00eancia e Tecnologias: Feminismos, Menstrua\u00e7\u00f5es e Direitos Reprodutivos\u201d<\/a> , oferecida no Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e Cultural (Labjor) e no Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais (IFCH), na Unicamp, e foi lido na \u201caula 6 &#8211; GynepunkLAB como performatividad m\u00e9dica: herramientas de salud transhackfeministas para la autodefensa y la justicia sanadora\u201d, por Klau Chinche e Janaina Morais. K\u00e1tia\u00a0 Marchena foi discente e produziu a tradu\u00e7\u00e3o como parte das atividades da disciplina.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-weight: 400\">Legenda da imagem: Ilustra\u00e7\u00e3o de James Marion Sims com Anarcha Westcott.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-weight: 400\">Cr\u00e9ditos da Imagem: ROBERT THOM\/MUSEU PEARSON<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Laura Sim\u00f3n \u2013 Tradu\u00e7\u00e3o de K\u00e1tia Marchena\u00a0 Confira texto original em espanhol clicando aqui. Buceta, perseguida, perereca, xoxota, xereca, pepeca, lola. 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