{"id":4576,"date":"2025-10-14T09:39:28","date_gmt":"2025-10-14T12:39:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/?p=4576"},"modified":"2025-10-14T09:39:28","modified_gmt":"2025-10-14T12:39:28","slug":"onde-a-historia-foi-arrancada-a-memoria-cria-raizes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2025\/10\/14\/onde-a-historia-foi-arrancada-a-memoria-cria-raizes\/","title":{"rendered":"Onde a hist\u00f3ria foi arrancada, a mem\u00f3ria cria ra\u00edzes."},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Escrevo porque o silenciamento me atravessa. Ele sempre esteve presente nos espa\u00e7os institucionais, nas rela\u00e7\u00f5es de poder e nas narrativas que definem quem pode ser lembrado e quem deve ser esquecido. Esse silenciamento n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia, \u00e9 estrutura. Ele opera como uma for\u00e7a que limita o que pode ser dito e as vozes que podem existir. \u00c9 justamente por compreender essa for\u00e7a que escolho escrever em primeira pessoa, me situar dentro da narrativa e reivindicar a escrita como um ato pol\u00edtico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em minha disserta\u00e7\u00e3o<a href=\"https:\/\/repositorio.unicamp.br\/Busca\/Download?codigoArquivo=587661&amp;tipoMidia=0\"> N\u00f3s, mulheres negras: trajet\u00f3rias jornal\u00edsticas e experi\u00eancias com a m\u00eddia e o jornalismo brasileiro,<\/a> busquei compreender como o silenciamento se manifesta na comunica\u00e7\u00e3o e na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. Ao analisar as trajet\u00f3rias de mulheres negras no jornalismo, encontrei muito mais do que exclus\u00e3o. Encontrei a pot\u00eancia da resist\u00eancia. \u00c9 sobre essa for\u00e7a que quero falar neste texto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As viv\u00eancias de n\u00f3s, mulheres negras, s\u00e3o pe\u00e7as fundamentais quando discutimos pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o. Quando olho para as periferias, vejo a resist\u00eancia pulsando nas margens e principalmente no corpo de mulheres negras. Educadoras sociais que, com poucos recursos, continuam escrevendo suas hist\u00f3rias por meio da arte e da cultura. Projetos que recontam a hist\u00f3ria a partir dos corpos negros. M\u00e3es e artistas que transformam o cotidiano em uma pedagogia da encruzilhada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Todos fazem parte desse movimento de enfrentamento ao que chamo de necromem\u00f3ria: o apagamento sistem\u00e1tico da mem\u00f3ria negra como extens\u00e3o da necropol\u00edtica, conceito formulado por Achille Mbembe. A necromem\u00f3ria atua como for\u00e7a que tenta nos destituir de passado, presente e futuro. Resistir a ela \u00e9 tamb\u00e9m disputar o direito de narrar e existir.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O apagamento da mem\u00f3ria n\u00e3o acontece apenas quando destroem nossas exist\u00eancias e contribui\u00e7\u00f5es na forma\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o, da cultura e da educa\u00e7\u00e3o. Ele tamb\u00e9m ocorre quando nossas vozes s\u00e3o retiradas do discurso p\u00fablico. Ao retirar nossas vozes, reduz-se a qualidade das discuss\u00f5es e assim a capacidade de manuten\u00e7\u00e3o de projetos sociais, o acesso a verbas e editais. E, com isso, diminui-se nossa pot\u00eancia de luta contra as desigualdades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As pol\u00edticas p\u00fablicas de mem\u00f3ria e comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam papel central nesse processo. Programas como os editais de cultura negra, os planos municipais de igualdade racial e as a\u00e7\u00f5es afirmativas no ensino superior s\u00e3o caminhos para fortalecer essas vozes, garantindo recursos e visibilidade para quem produz conhecimento a partir das margens. Mas pensar em repara\u00e7\u00e3o exige mais do que a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas. \u00c9 preciso o fortalecimento sistem\u00e1tico dos territ\u00f3rios.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em um pa\u00eds onde a escravid\u00e3o cal\u00e7ou todas as estruturas, reparar n\u00e3o \u00e9 suficiente. Precisamos ir al\u00e9m. A repara\u00e7\u00e3o n\u00e3o se encerra na esfera do Estado ou nas pol\u00edticas de inclus\u00e3o. Ela deve ser tamb\u00e9m simb\u00f3lica, pedag\u00f3gica e epistemol\u00f3gica, alcan\u00e7ando as formas como produzimos e valorizamos o conhecimento. A mem\u00f3ria e a educa\u00e7\u00e3o promovidas nos territ\u00f3rios precisam ser urgentemente reconhecidas como parte do patrim\u00f4nio intelectual e pol\u00edtico do pa\u00eds.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando a periferia educa, quando a quebrada ensina, ela tamb\u00e9m formula teoria. E isso \u00e9 algo que o Brasil ainda insiste em n\u00e3o compreender. Pois isso, significa compreender que mem\u00f3ria e educa\u00e7\u00e3o, quando promovidas nos territ\u00f3rios, s\u00e3o instrumentos de transforma\u00e7\u00e3o social. Significa tamb\u00e9m valorizar as experi\u00eancias e saberes que emergem das periferias, das mulheres negras, dos educadores e artistas que fazem do cotidiano um ato pol\u00edtico de reexist\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como lembra Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, escrever \u00e9 um ato de escreviv\u00eancia, e toda vez que uma mulher negra escreve, ela reescreve a hist\u00f3ria. Falar \u00e9 um gesto pol\u00edtico. Relembrar \u00e9 um ato de resist\u00eancia. Quando a palavra \u00e9 pronunciada por quem sempre foi empurrada para o sil\u00eancio, ela carrega o peso e a beleza da hist\u00f3ria coletiva.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrevo porque o silenciamento me atravessa. Ele sempre esteve presente nos espa\u00e7os institucionais, nas rela\u00e7\u00f5es de poder e nas narrativas que definem quem pode ser lembrado e quem deve ser esquecido. Esse silenciamento n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia, \u00e9 estrutura. 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