{"id":4594,"date":"2025-12-12T14:39:00","date_gmt":"2025-12-12T17:39:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/?p=4594"},"modified":"2025-12-12T14:43:00","modified_gmt":"2025-12-12T17:43:00","slug":"cartas-para-um-campo-investigando-a-amamentacao-na-adolescencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2025\/12\/12\/cartas-para-um-campo-investigando-a-amamentacao-na-adolescencia\/","title":{"rendered":"Cartas para um campo: investigando a amamenta\u00e7\u00e3o na adolesc\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Laura Lino Mendes da Cruz<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sou enfermeira, atuo no SUS h\u00e1 mais de catorze anos, especialista em amamenta\u00e7\u00e3o e m\u00e3e desde os meus 18 anos. Essa trajet\u00f3ria pessoal e profissional molda profundamente o modo como me aproximo do campo do aleitamento materno e inspira a pesquisa que desenvolvo no mestrado em Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e Cultural na Unicamp. Minha inquieta\u00e7\u00e3o nasce de algo que sempre me atravessou: por que, em um pa\u00eds onde tanto se fala sobre amamentar, quase n\u00e3o se fala sobre amamentar na adolesc\u00eancia?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os n\u00fameros mostram o quanto essa realidade \u00e9 significativa. Dados do Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Nascidos Vivos (SINASC), divulgados pela Rede Ebserh e pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, indicam que cerca de 44 beb\u00eas nascem por hora de m\u00e3es adolescentes no Brasil, o que significa mais de mil adolescentes que se tornam m\u00e3es todos os dias. Segundo o UNFPA Brasil, aproximadamente 14% de todos os nascimentos no pa\u00eds s\u00e3o de m\u00e3es com at\u00e9 19 anos. Um estudo citado pela CNN Brasil, coordenado pela Universidade Federal de Pelotas, aponta ainda que uma em cada 23 meninas brasileiras de 15 a 19 anos se torna m\u00e3e por ano, n\u00famero que coloca o Brasil entre os pa\u00edses com maiores taxas de maternidade na adolesc\u00eancia nas Am\u00e9ricas. Em diferentes levantamentos, essa propor\u00e7\u00e3o aparece em torno de 60 a 70 nascimentos por mil adolescentes, valores muito superiores aos observados em pa\u00edses de maior renda.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mesmo com esses n\u00fameros expressivos, quando observamos os discursos, as pol\u00edticas e os materiais educativos sobre aleitamento, a adolesc\u00eancia aparece pouco ou quase n\u00e3o aparece. \u00c9 nesse sil\u00eancio que minha pesquisa se concentra. Meu objetivo \u00e9 compreender como o campo da amamenta\u00e7\u00e3o produz conhecimento, orienta\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas e, ao mesmo tempo, discutir de maneira cr\u00edtica o que \u00e9 dito e o que \u00e9 silenciado sobre a amamenta\u00e7\u00e3o na adolesc\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A pesquisa se ancora principalmente em um levantamento bibliogr\u00e1fico amplo. Estou mapeando artigos cient\u00edficos, manuais, diretrizes, protocolos e materiais de divulga\u00e7\u00e3o que estruturam o campo do aleitamento no Brasil. N\u00e3o se trata apenas de reunir textos, mas de discutir esses dados, analisar como as narrativas s\u00e3o constru\u00eddas, quais discursos se repetem, quais tens\u00f5es surgem e como a adolesc\u00eancia aparece nessas produ\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo, realizarei a etnografia do ENAM, o Encontro Nacional de Aleitamento Materno, que \u00e9 um dos mais importantes espa\u00e7os de circula\u00e7\u00e3o de ideias na \u00e1rea. Acompanhar as apresenta\u00e7\u00f5es, debates, bastidores e intera\u00e7\u00f5es desse congresso me permitir\u00e1 observar como o campo funciona de dentro, como se organizam consensos, quais disputas se tornam vis\u00edveis e como certos temas ganham ou n\u00e3o ganham voz.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m disso, pretendo realizar entrevistas pontuais com alguns atores de destaque no campo do aleitamento, como especialistas, pesquisadoras e profissionais de refer\u00eancia. Essas entrevistas n\u00e3o constituem o eixo principal da pesquisa, mas ajudar\u00e3o a aprofundar quest\u00f5es que surgirem no levantamento e na etnografia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Uma parte importante da proposta \u00e9 a forma como pretendo apresentar a disserta\u00e7\u00e3o. Minha op\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica \u00e9 construir o texto final em forma de carta, um gesto inspirado tanto pela minha trajet\u00f3ria pessoal quanto pelo desejo de aproximar pesquisa, escrita e cuidado. A carta me permite falar de modo situado, afetado e reflexivo, reconhecendo minha posi\u00e7\u00e3o como pesquisadora, profissional do SUS e algu\u00e9m que foi m\u00e3e na adolesc\u00eancia. Ao escrever nesse formato, quero abrir espa\u00e7o para um di\u00e1logo sens\u00edvel com o campo, permitindo que a an\u00e1lise dos dados, a experi\u00eancia vivida e os encontros da pesquisa apare\u00e7am de maneira entrela\u00e7ada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Minha pesquisa busca, enfim, iluminar os sil\u00eancios que cercam a amamenta\u00e7\u00e3o na adolesc\u00eancia, questionar certezas e ampliar o debate sobre quem s\u00e3o as m\u00e3es reconhecidas, escutadas e apoiadas nos discursos oficiais. \u00c9 tamb\u00e9m uma forma de honrar as hist\u00f3rias que me atravessam, tanto as que vivi quanto as que testemunhei, transformando tudo isso em reflex\u00e3o cr\u00edtica e compromisso com o cuidado.<\/span><\/p>\n<p><em>Cr\u00e9ditos da Imagem: Laura Lino\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Laura Lino Mendes da Cruz Sou enfermeira, atuo no SUS h\u00e1 mais de catorze anos, especialista em amamenta\u00e7\u00e3o e m\u00e3e desde os meus 18 anos. 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