{"id":4612,"date":"2026-04-07T16:49:04","date_gmt":"2026-04-07T19:49:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/?p=4612"},"modified":"2026-04-07T16:52:23","modified_gmt":"2026-04-07T19:52:23","slug":"entre-dissidencias-de-genero-e-a-menstruacao-em-terreiros-de-umbanda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2026\/04\/07\/entre-dissidencias-de-genero-e-a-menstruacao-em-terreiros-de-umbanda\/","title":{"rendered":"Entre dissid\u00eancias de g\u00eanero e a menstrua\u00e7\u00e3o em terreiros de Umbanda"},"content":{"rendered":"<p>Por Michelle Perez<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De acordo com a intelectual Oy\u00e8r\u00f3nk\u1eb9\u0301 Oy\u011bw\u00f9m\u00ed, o pensamento ocidental estrutura o g\u00eanero a partir de uma l\u00f3gica bin\u00e1ria \u2014 mulher\/homem \u2014 fundamentada em atributos biol\u00f3gicos e sociais, naturalizando classifica\u00e7\u00f5es que organizam corpos, identidades e pap\u00e9is de forma fixa. Ao realizar a pesquisa de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, em 2025, intitulada \u201cCorpos dissidentes que menstruam nos terreiros de Umbanda\u201d, tornou-se evidente o quanto a pr\u00f3pria abordagem esteve atravessada por esse enquadramento, exigindo uma autocr\u00edtica metodol\u00f3gica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essa percep\u00e7\u00e3o emergiu da quest\u00e3o central: como pessoas trans masculinas e n\u00e3o bin\u00e1rias participam dos cultos religiosos considerando suas identidades de g\u00eanero e a experi\u00eancia da menstrua\u00e7\u00e3o? O termo \u201ccorpos dissidentes\u201d foi inspirado em Za Chacon (2024), cuja contribui\u00e7\u00e3o possibilitou pensar a pluralidade das experi\u00eancias menstruais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A discuss\u00e3o dialoga com interpreta\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas, como as de Roger Bastide (2001), que apontam tabus ligados \u00e0 menstrua\u00e7\u00e3o em contextos afro-diasp\u00f3ricos, frequentemente associados a corpos cisg\u00eaneros. A pesquisa tensiona essas leituras ao incluir corpos trans e n\u00e3o bin\u00e1rios como sujeitos de an\u00e1lise. Al\u00e9m disso, conforme Luis Nicolau Par\u00e9s (2008) e Cl\u00e1udia Santos (2023), as religi\u00f5es de matriz africana no Brasil passaram por processos hist\u00f3ricos de resist\u00eancia e negocia\u00e7\u00e3o, protagonizados sobretudo por mulheres negras, incorporando, em certa medida, categorias ocidentais de g\u00eanero.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Contudo, Oy\u011bw\u00f9m\u00ed destaca que sociedades iorub\u00e1s pr\u00e9-coloniais n\u00e3o se organizavam por g\u00eanero, mas pela senioridade \u2014 posi\u00e7\u00e3o relacional baseada em idade e experi\u00eancia. Assim, pap\u00e9is sociais eram definidos de forma contextual, e n\u00e3o por uma divis\u00e3o fixa entre homem e mulher.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os resultados mais significativos indicam que, nos dois terreiros analisados, n\u00e3o foram observadas hierarquiza\u00e7\u00f5es baseadas em g\u00eanero ou menstrua\u00e7\u00e3o. Evidencia-se uma din\u00e2mica pr\u00f3xima a l\u00f3gicas n\u00e3o ocidentais, permitindo que corpos dissidentes que menstruam participem plenamente. Mesmo em um contexto marcado por viol\u00eancias estruturais, como a transfobia, os terreiros configuram-se como espa\u00e7os de acolhimento e relativa suspens\u00e3o de normatividades excludentes, possibilitando a exist\u00eancia desses sujeitos sem constante negocia\u00e7\u00e3o social.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">REFERENCIAS BIBLIOGR\u00c0FICAS<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">ALEXANDRE, Cl\u00e1udia Regina. Exu-Mulher e o Matriarcado Nag\u00f4: sobre masculiniza\u00e7\u00e3o, demoniza\u00e7\u00e3o e tens\u00f5es de g\u00eanero na forma\u00e7\u00e3o dos candombl\u00e9s. 01. ed. Rio de Janeiro: Aruanda Editora, 2023.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BASTIDE, R. O Candombl\u00e9 da Bahia (Rito Nag\u00f4). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2001 (ou edi\u00e7\u00f5es anteriores como <\/span><a href=\"https:\/\/econtents.bc.unicamp.br\/inpec\/index.php\/tematicas\/article\/view\/13527\"><span style=\"font-weight: 400\">Ed. Nacional 1978<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">CHACON, Z. S. Bases para uma Educa\u00e7\u00e3o Menstrual Popular e LGBTQIAPN+. 2024.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">OY\u011aW\u00d9M\u00cd, Oy\u00e8r\u00f3nk\u1eb9\u0301. Estudos africanos de g\u00eanero. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes; Ita\u00fa Cultural; Funda\u00e7\u00e3o Tide Setubal, 2025.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">PAR\u00c9S, Luis Nicolau. A forma\u00e7\u00e3o do Candombl\u00e9: hist\u00f3ria e ritual da na\u00e7\u00e3o jeje na Bahia. 3. ed. rev. e ampl. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2018.<\/span><\/p>\n<p><em>Descri\u00e7\u00e3o da imagem: pintura feita \u00e1 m\u00e3o\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Cr\u00e9dito da imagem: Pintura inspirada no Trabalho intelectual do Za Chacon\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Michelle Perez De acordo com a intelectual Oy\u00e8r\u00f3nk\u1eb9\u0301 Oy\u011bw\u00f9m\u00ed, o pensamento ocidental estrutura o g\u00eanero a partir de uma l\u00f3gica bin\u00e1ria \u2014 mulher\/homem \u2014 fundamentada em atributos biol\u00f3gicos e sociais, naturalizando classifica\u00e7\u00f5es que organizam corpos, identidades e pap\u00e9is de forma fixa. 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