{"id":4629,"date":"2026-07-02T16:14:17","date_gmt":"2026-07-02T19:14:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/?p=4629"},"modified":"2026-07-02T16:16:21","modified_gmt":"2026-07-02T19:16:21","slug":"mulheres-ciencia-e-cannabis-os-desafios-da-producao-de-pesquisa-num-pais-proibicionista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2026\/07\/02\/mulheres-ciencia-e-cannabis-os-desafios-da-producao-de-pesquisa-num-pais-proibicionista\/","title":{"rendered":"Mulheres, ci\u00eancia e cannabis: os desafios da produ\u00e7\u00e3o de pesquisa num pa\u00eds proibicionista."},"content":{"rendered":"<p>Por Thais Castilho<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A mulher, a cannabis e a ci\u00eancia, o artigo feminino que antecede essas palavras n\u00e3o \u00e9 apenas gramatical, \u00e9 tamb\u00e9m simb\u00f3lico, conectando personagens que hoje escrevem uma nova hist\u00f3ria nas pesquisas sobre uma planta ainda proibida no Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nos \u00faltimos seis anos, o uso medicinal da cannabis deu um salto consider\u00e1vel em n\u00fameros de pacientes. Segundo dados da Kaya Mind, empresa que monitora o setor no pa\u00eds, o total passou de cerca de 430 mil pessoas em 2023 para mais de 870 mil em 2025, consolidando o Brasil como um dos principais mercados globais de cannabis medicinal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esse movimento tem impacto direto no campo cient\u00edfico. Entre 2020 e 2026, as pesquisas sobre cannabis no pa\u00eds passaram por um processo de expans\u00e3o e amadurecimento, acompanhando a crescente demanda por evid\u00eancias cl\u00ednicas e laboratoriais sobre o uso terap\u00eautico da planta. \u00c1reas como neurologia, psiquiatria, dor cr\u00f4nica e sa\u00fade da mulher concentram parte significativa dessas investiga\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 nesse contexto que um grupo de pesquisadoras vem ganhando protagonismo. Mulheres de diferentes \u00e1reas do conhecimento,\u00a0 t\u00eam ocupado espa\u00e7o na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sobre cannabis, contribuindo para consolidar um campo de estudo que, at\u00e9 pouco tempo, era marginalizado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cEscolhi pesquisar Cannabis entre outros motivos, por esse paradoxo: como algo potencialmente ben\u00e9fico poderia permanecer interditado justamente nas institui\u00e7\u00f5es que, como a universidade p\u00fablica, tem como fun\u00e7\u00e3o social a supera\u00e7\u00e3o de estigmas por meio da produ\u00e7\u00e3o\u00a0 de conhecimento. A identifica\u00e7\u00e3o dessa lacuna foi a primeira motiva\u00e7\u00e3o para estudar cannabis. A segunda foi o desejo de formar os profissionais de sa\u00fade, desde a gradua\u00e7\u00e3o, para atender com qualidade a demanda pelo uso terap\u00eautico da cannabis, que \u00e9 crescente. Por fim, o interesse em conhecer o potencial de uso dessa planta em sa\u00fade mental, especialmente no que se refere aos quadros de ansiedade, que vem aumentando nas \u00faltimas d\u00e9cadas e onde s\u00e3o significativos os casos que n\u00e3o respondem aos tratamentos convencionais\u201d, comparou D\u00e9bora G. Medeiros, professora de psiquiatria na Unesp (Universidade Estadual de S\u00e3o Paulo) e pesquisadora da Cannabis na abordagem de transtornos ansiosos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas, como nem tudo s\u00e3o flores quando o assunto \u00e9 lideran\u00e7a feminina, esse desafio se torna mais intenso j\u00e1 que a cannabis ainda carrega um hist\u00f3rico de criminaliza\u00e7\u00e3o e desinforma\u00e7\u00e3o, o que impacta diretamente o desenvolvimento das pesquisas. Quando esse cen\u00e1rio se cruza com as desigualdades de g\u00eanero presentes no meio cient\u00edfico, o contexto \u00e9\u00a0 mais complexo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para muitas dessas pesquisadoras, investigar a cannabis significa lidar simultaneamente com o estigma associado \u00e0 planta e com barreiras estruturais enfrentadas por mulheres na ci\u00eancia. Ainda assim, \u00e9 justamente a partir dessa posi\u00e7\u00e3o que elas v\u00eam tensionando paradigmas, ampliando o debate p\u00fablico e produzindo conhecimento em uma \u00e1rea estrat\u00e9gica para a sa\u00fade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cA pesquisa com cannabis j\u00e1 \u00e9 um campo cercado por estigmas e quando uma mulher escolhe sustentar isso, surgem outras camadas de julgamento. Na minha experi\u00eancia, havia um estranhamento n\u00e3o s\u00f3 com o tema, mas tamb\u00e9m com o fato de eu, como mulher, estar me dedicando t\u00e9cnica e academicamente a ele. Eu vivi situa\u00e7\u00f5es muito expl\u00edcitas. J\u00e1 ouvi do professor perguntas como: \u201cpor que voc\u00ea quer estudar? Voc\u00ea \u00e9 bonita, n\u00e3o pensou em ser modelo?\u201d. E isso \u00e9 muito violento, porque desloca completamente a conversa da capacidade intelectual e t\u00e9cnica para um lugar de deslegitima\u00e7\u00e3o pessoal. Ent\u00e3o sim, muitas vezes eu senti que precisava me provar o tempo todo. N\u00e3o apenas sobre a relev\u00e2ncia da pesquisa, mas sobre a legitimidade das minhas pr\u00f3prias escolhas\u201d, relata a biom\u00e9dica e pesquisadora de Cannabis na Unicamp, Aline Borges<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dados sobre as mulheres nas pesquisas cient\u00edficas no Brasil<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A participa\u00e7\u00e3o das mulheres na ci\u00eancia e pesquisa no Brasil \u00e9 marcada por uma forte presen\u00e7a na base acad\u00eamica, mas por uma representa\u00e7\u00e3o ainda minorit\u00e1ria em cargos de lideran\u00e7a e no topo da carreira cient\u00edfica. Segundo dados do Centro de Gest\u00e3o e Estudos Estrat\u00e9gicos (CGEE), organiza\u00e7\u00e3o social do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o mostram que, embora sejam a maioria em mestrados e doutorados, as mulheres enfrentam desafios para ascender a posi\u00e7\u00f5es de destaque.\u00a0<\/span><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Participa\u00e7\u00e3o Total: As mulheres representam 43,7% do total de pesquisadores no Brasil.<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Forma\u00e7\u00e3o: Mulheres s\u00e3o maioria nas bolsas de mestrado e doutorado.<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Ranking Global: O Brasil \u00e9 considerado o terceiro colocado na participa\u00e7\u00e3o feminina na ci\u00eancia.<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Lideran\u00e7a e Pesquisa: Ocupam 35,5% das bolsas de produtividade (PQ) do CNPq, que destacam os pesquisadores mais produtivos.<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">\u00c1reas de atua\u00e7\u00e3o: A presen\u00e7a feminina \u00e9 desproporcional. Elas s\u00e3o maioria na sa\u00fade e \u00e1reas de cuidado, mas representam apenas 1\/3 da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em ci\u00eancias exatas e tecnol\u00f3gicas.\u00a0<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os desafios de conciliar maternidade e pesquisa cient\u00edfica<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As desigualdades de g\u00eanero na ci\u00eancia se manifestam de forma estrutural e persistente, impactando diretamente a trajet\u00f3ria das pesquisadoras. Um dos principais desafios est\u00e1 na concilia\u00e7\u00e3o entre maternidade e carreira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mulheres cientistas com filhos produzem, em m\u00e9dia, menos artigos do que homens na mesma condi\u00e7\u00e3o, diferen\u00e7a que se intensificou durante a pandemia, quando a produtividade feminina caiu para 47,4%, contra 65,3% entre os homens, segundo o movimento Parent in Science.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201c\u00c9 sempre desafiador conciliar a carreira acad\u00eamica com a maternidade, especialmente diante das m\u00faltiplas demandas e da falta de estruturas institucionais adequadas. No meu caso, me considero bastante privilegiada, pois consegui construir, junto com meu marido, uma rotina que tem funcionado ao longo dos anos, com divis\u00e3o de responsabilidades e apoio m\u00fatuo. No entanto, sei que essa n\u00e3o \u00e9 a realidade de muitas colegas. Ainda h\u00e1 uma sobrecarga sobre as mulheres, e a maternidade frequentemente impacta diretamente a produtividade acad\u00eamica, a participa\u00e7\u00e3o em eventos e at\u00e9 as oportunidades de progress\u00e3o na carreira. Ainda h\u00e1 um caminho importante a ser percorrido para que a academia reconhe\u00e7a e acomode melhor essas m\u00faltiplas jornadas sem penalizar a trajet\u00f3ria profissional de mulheres que tamb\u00e9m exercem a maternidade, esclarece Priscila Mazola, M\u00e3e, farmac\u00eautica, cientista, professora na Unicamp.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A dualidade entre maternidade e ci\u00eancia afeta, inclusive, pesquisadoras que n\u00e3o s\u00e3o m\u00e3es, mas que enfrentam os mesmo estigmas sobre conciliar essas duas frentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cEu n\u00e3o sou m\u00e3e, mas essa pergunta me toca porque, mesmo sem ser m\u00e3e, eu j\u00e1 ouvi coment\u00e1rios de professores como: voc\u00ea n\u00e3o vai engravidar no meio do projeto, vai? Cuidado. Ent\u00e3o veja como essa l\u00f3gica j\u00e1 recai sobre a mulher antes mesmo da maternidade existir concretamente na vida dela, aparece como suspeita, como risco, como obst\u00e1culo presumido \u00e0 sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica. Isso mostra um problema que vai al\u00e9m da experi\u00eancia individual. Existe uma expectativa de que a mulher, dentro da academia, precise o tempo todo tranquilizar o ambiente sobre seu corpo, suas escolhas e sua disponibilidade. Ent\u00e3o, ainda que eu n\u00e3o tenha vivido a concilia\u00e7\u00e3o entre maternidade e pesquisa, eu j\u00e1 vivi a antecipa\u00e7\u00e3o desse julgamento\u201d, relata a cientista Aline Borges.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um cen\u00e1rio promissor para as pesquisas com Cannabis<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apesar dos desafios hist\u00f3ricos, a presen\u00e7a feminina em espa\u00e7os estrat\u00e9gicos da ci\u00eancia vem avan\u00e7ando, como no Conselho Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia, que atingiu n\u00edveis mais altos de participa\u00e7\u00e3o de mulheres em 2025, sinalizando um esfor\u00e7o por maior representatividade na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No campo da cannabis, o Brasil vive um momento de transi\u00e7\u00e3o. Enquanto a pesquisa avan\u00e7a nas \u00e1reas medicinal e agropecu\u00e1ria, ainda enfrenta entraves burocr\u00e1ticos e regulat\u00f3rios. A Anvisa passou a autorizar o cultivo para fins cient\u00edficos e produ\u00e7\u00e3o de medicamentos, incluindo iniciativas da Embrapa, e hoje cerca de 40 universidades desenvolvem estudos sobre a planta, com destaque para o uso terap\u00eautico, melhoramento gen\u00e9tico e cultivo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A pesquisadora da Embrapa, Daniela Bittencourt, v\u00ea esse momento com bastante entusiasmo, ap\u00f3s a Anvisa anunciar no come\u00e7o deste ano a nova regulamenta\u00e7\u00e3o para pesquisa com Cannabis no Brasil.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cUma regula\u00e7\u00e3o mais clara permite que institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas pesquisem com maior previsibilidade, construam infraestrutura adequada, estabele\u00e7am parcerias e gerem dados de qualidade sobre gen\u00e9tica, cultivo, processamento, rastreabilidade, qualidade e aplica\u00e7\u00f5es. No caso da Embrapa, esse movimento j\u00e1 havia come\u00e7ado antes, com a autoriza\u00e7\u00e3o excepcional concedida pela Anvisa, em novembro de 2025, para a execu\u00e7\u00e3o de projetos estruturantes de pesquisa e desenvolvimento com Cannabis sativa L.\u201d, explica.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mesmo assim, o cen\u00e1rio ainda \u00e9 marcado por limita\u00e7\u00f5es. Um levantamento identificou 481 barreiras \u00e0 pesquisa com cannabis no pa\u00eds, que v\u00e3o desde quest\u00f5es legais at\u00e9 o estigma social. Embora haja investimentos, como os R$ 25 milh\u00f5es destinados \u00e0 UFRN (Universidade Federal Do Rio Grande do Norte), a falta de uma regulamenta\u00e7\u00e3o mais ampla ainda restringe o avan\u00e7o em larga escala.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse contexto, a visibilidade das pesquisadoras, especialmente em eventos e publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, torna-se fundamental para promover maior equidade em um campo que tamb\u00e9m exige delas rigor redobrado e concilia\u00e7\u00e3o constante entre carreira e vida pessoal.<\/span><\/p>\n<p><em>Legenda ou descri\u00e7\u00e3o da imagem: Mulheres seguem avan\u00e7ando nas pesuisas com Cannabis, mesmo em meio ao preconceito e o proibicionismo.<\/em><\/p>\n<p><em>Cr\u00e9dito da imagem: FreePik .com<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Thais Castilho A mulher, a cannabis e a ci\u00eancia, o artigo feminino que antecede essas palavras n\u00e3o \u00e9 apenas gramatical, \u00e9 tamb\u00e9m simb\u00f3lico, conectando personagens que hoje escrevem uma nova hist\u00f3ria nas pesquisas sobre uma planta ainda proibida no Brasil. 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