{"id":4648,"date":"2026-09-16T12:01:38","date_gmt":"2026-09-16T15:01:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/?p=4648"},"modified":"2026-09-16T12:02:29","modified_gmt":"2026-09-16T15:02:29","slug":"a-dor-so-e-maior-quando-ninguem-cuida-uma-pesquisa-que-nasceu-de-perdas-e-se-transformou-em-cuidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2026\/09\/16\/a-dor-so-e-maior-quando-ninguem-cuida-uma-pesquisa-que-nasceu-de-perdas-e-se-transformou-em-cuidado\/","title":{"rendered":"A dor s\u00f3 \u00e9 maior quando ningu\u00e9m cuida: uma pesquisa que nasceu de perdas e se transformou em cuidado"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">O c\u00e2ncer nunca foi, para mim, um tema distante. Perdi dois irm\u00e3os v\u00edtimas dessa doen\u00e7a e, tive uma irm\u00e3 em tratamento de c\u00e2ncer de mama. Essas viv\u00eancias atravessaram minha trajet\u00f3ria pessoal e profissional e me trouxeram at\u00e9 aqui: desde 2016 atuo como orientador educacional no GRAACC, o Grupo de Apoio ao Adolescente e \u00e0 Crian\u00e7a com C\u00e2ncer, um espa\u00e7o que aprendi a enxergar n\u00e3o apenas como hospital, mas como territ\u00f3rio de resist\u00eancia, dignidade e afeto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Foi nesse cotidiano que conheci L., um jovem com sonhos de ser artista, cuja maturidade diante da terminalidade me marcou profundamente e me fez perceber que os cuidados paliativos n\u00e3o deveriam ser tratados como \u00faltimo recurso, e sim como uma pr\u00e1tica \u00e9tica e humanizadora desde o momento do diagn\u00f3stico. Foi dessa convic\u00e7\u00e3o que nasceu minha tese de doutorado, onde qualifiquei em 2025 no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais da Unicamp.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Minha pesquisa busca compreender as pr\u00e1ticas de cuidado desenvolvidas pela equipe multiprofissional de Cuidados Paliativos e Dor do GRAACC no atendimento a crian\u00e7as e adolescentes com c\u00e2ncer. Quero entender como m\u00e9dicos, enfermeiros, psic\u00f3logos, professores hospitalares, capel\u00e3es e volunt\u00e1rios d\u00e3o sentido ao que fazem, considerando n\u00e3o s\u00f3 o corpo, mas tamb\u00e9m as dimens\u00f5es emocionais, sociais e espirituais do sofrimento o que Cicely Saunders chamou de &#8220;dor total&#8221;. Para mim, ficou claro que o cuidado paliativo n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de interven\u00e7\u00e3o, mas o redirecionamento da aten\u00e7\u00e3o para aliviar o sofrimento e sustentar a vida at\u00e9 o \u00faltimo instante, recusando qualquer l\u00f3gica de abandono.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para dar conta dessa complexidade, escolhi o etnodocument\u00e1rio como inspira\u00e7\u00e3o metodologia . Aliando etnografia cl\u00e1ssica imers\u00e3o no campo, escuta, conviv\u00eancia, entrevistas ao registro audiovisual, tento capturar o que muitas vezes escapa \u00e0 palavra escrita: gestos, sil\u00eancios, olhares, atmosferas. N\u00e3o \u00e9 um recurso ilustrativo; \u00e9 parte constitutiva da pr\u00f3pria an\u00e1lise. Ao longo do trabalho de campo no GRAACC, realizei observa\u00e7\u00e3o participante, entrevistas semiestruturadas e registros em v\u00eddeo, sempre com consentimento informado e sob os cuidados \u00e9ticos exigidos pela Resolu\u00e7\u00e3o CNS n\u00ba 466\/2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sei que minha presen\u00e7a como pesquisador n\u00e3o \u00e9 neutra trago comigo a mem\u00f3ria dessas perdas e reconhe\u00e7o que essa inser\u00e7\u00e3o pessoal, longe de fragilizar o rigor cient\u00edfico, confere \u00e0 pesquisa densidade \u00e9tica e afetiva. Por isso, a qualifica\u00e7\u00e3o apresentada estava organizada em tr\u00eas cap\u00edtulos: o primeiro estabelece as bases te\u00f3ricas e metodol\u00f3gicas; o segundo mergulha no cotidiano hospitalar, revelando o cuidado como pr\u00e1tica relacional; o terceiro amplia a discuss\u00e3o para pensar como os cuidados paliativos reconfiguram no\u00e7\u00f5es de vida, morte, sofrimento e dignidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Neste momento da qualifica\u00e7\u00e3o, ainda tenho um caminho pela frente: aprofundar a an\u00e1lise das entrevistas j\u00e1 coletadas e desenvolver o cap\u00edtulo &#8220;Hist\u00f3ria do cuidar&#8221;, no qual pretendo narrar, a partir de hist\u00f3rias pessoais de profissionais da equipe, como suas trajet\u00f3rias de vida se entrela\u00e7am com a pr\u00e1tica cotidiana do cuidado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No fim, essa pesquisa \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de elaborar meu pr\u00f3prio luto, transformando dor em conhecimento compartilh\u00e1vel. Acredito que dar visibilidade a essas pr\u00e1ticas pode contribuir para pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade e para a forma\u00e7\u00e3o de equipes mais humanizadas. Minha aposta central segue a mesma que d\u00e1 nome ao trabalho: a dor s\u00f3 \u00e9 maior quando ningu\u00e9m cuida\u00a0 e o cuidado, em sua forma mais profunda, \u00e9 sempre um ato de resist\u00eancia, dignidade e humanidade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>imagem criada por IA &#8211; Flux Pro <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O c\u00e2ncer nunca foi, para mim, um tema distante. Perdi dois irm\u00e3os v\u00edtimas dessa doen\u00e7a e, tive uma irm\u00e3 em tratamento de c\u00e2ncer de mama. 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