{"id":4653,"date":"2026-09-23T15:55:19","date_gmt":"2026-09-23T18:55:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/?p=4653"},"modified":"2026-09-23T16:28:13","modified_gmt":"2026-09-23T19:28:13","slug":"princesa-mononoke-e-a-teoria-da-bolsa-da-ficcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2026\/09\/23\/princesa-mononoke-e-a-teoria-da-bolsa-da-ficcao\/","title":{"rendered":"Princesa Mononoke e a teoria da bolsa da fic\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Por <span style=\"font-weight: 400\">Carolina Carettin<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cPrincesa Mononoke\u201d, de 1997, \u00e9 um dos filmes mais conhecidos do Studio Ghibli. Dirigida por Hayao Miyazaki, a anima\u00e7\u00e3o conta a hist\u00f3ria do pr\u00edncipe Ashitaka que busca a cura para uma infec\u00e7\u00e3o\/maldi\u00e7\u00e3o que o consome aos poucos. O pano de fundo s\u00e3o os conflitos na Vila de Ferro, entre deuses da floresta, humanos que exploram os recursos naturais e humanos amb\u00edguos, que ocupam posi\u00e7\u00f5es ambivalentes na hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cNesta narrativa criada por Miyazaki, as mudan\u00e7as trazidas pelas formas extrativistas foram irrevers\u00edveis: o \u2018cora\u00e7\u00e3o da floresta\u2019 foi decapitado e todos os deuses-animais foram mortos\u201d, diz Mar\u00edlia da Silva Lima em seu artigo para a revista Cadernos de Campo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A obra conecta-se profundamente \u00e0s discuss\u00f5es sobre materialidade, extra\u00e7\u00e3o e o inumano ao ilustrar o embate entre o progresso extrativista e os modos de vida que resistem \u00e0 \u201cGeologia Branca\u201d (Kathrin Yussof, 2025), descrevendo a transforma\u00e7\u00e3o da terra e dos corpos por meio da domina\u00e7\u00e3o e da destrui\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os deuses e a floresta s\u00e3o vistos como obst\u00e1culos a serem removidos, descartados, como os corpos negros, pobres (Sylvia Wynter, 2021). A transforma\u00e7\u00e3o de deuses em monstros (tatari-gami) \u00e9 uma resposta \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o perpetrada pelo extrativismo e pela tecnologia militar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 neste contexto de destrui\u00e7\u00e3o e ru\u00ednas que a resist\u00eancia \u00e0 l\u00f3gica extrativista e desumanizante surge atrav\u00e9s de perspectivas contra-coloniais e novas formas de narrar a hist\u00f3ria. Como prop\u00f5e Ursula Le Guin (2021) em \u201cA teoria da bolsa da fic\u00e7\u00e3o\u201d, a esperan\u00e7a n\u00e3o vem de um her\u00f3i solit\u00e1rio, mas de alian\u00e7as mais-que-humanas e do reconhecimento das ru\u00ednas deixadas pelo capitalismo (Mar\u00edlia da Silva Lima, 2024).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Enquanto a personagem de Lady Eboshi, a l\u00edder da Vila de Ferro que v\u00ea os seres da floresta como tolice, quer lutar com varas, lan\u00e7as e espadas, a hist\u00f3ria de Miyazaki busca outras sa\u00eddas. Como diz Le Guin (2021), n\u00f3s j\u00e1 ouvimos hist\u00f3rias sobre<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201c(\u2026) bast\u00f5es, lan\u00e7as e espadas \u2014 objetos para golpear, espetar e bater; coisas longas e duras -, mas n\u00e3o ouvimos falar sobre o objeto para guardar coisas dentro: o recipiente para o conte\u00fado. Essa \u00e9 uma hist\u00f3ria nova. Isso \u00e9 novidade.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O que Le Guin (2021) prop\u00f5e com a teoria da bolsa da fic\u00e7\u00e3o, Wynter (2021) tamb\u00e9m faz como \u201cuma nova fronteira do conhecimento, (\u2026) um novo horizonte que converge com outros horizontes em abertura\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No filme, a esperan\u00e7a n\u00e3o vem de um her\u00f3i solit\u00e1rio que salva a natureza, mas de alian\u00e7as mais-que-humanas entre lobos, macacos, javalis e humanos dissidentes, como a pr\u00f3pria Mononoke, que foi criada por lobos e ocupa esse lugar humana-animal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cO problema \u00e9 que todos n\u00f3s nos tornamos parte da hist\u00f3ria do assassino, e assim podemos terminar com isso. Por isso, \u00e9 com um certo sentimento de urg\u00eancia que busco a natureza, o sujeito, as palavras da outra hist\u00f3ria, a n\u00e3o contada, a hist\u00f3ria da vida\u201d. (Le Guin, 2021)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A proposta de Ashitaka de conviver e reconstruir sobre as ru\u00ednas conecta-se \u00e0 teoria da bolsa da fic\u00e7\u00e3o, que busca uma hist\u00f3ria de coleta e preserva\u00e7\u00e3o da vida, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 narrativa linear de progresso e exterm\u00ednio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Enfim, Princesa Mononoke \u00e9 um exemplo de hist\u00f3rias sobre bolsas, sementes, coletas. Exp\u00f5e como a extra\u00e7\u00e3o de recursos e a ambi\u00e7\u00e3o humana criam uma \u201cgeologia da inumanidade\u201d (Kathrin Yussof, 2025), onde o \u00fanico caminho para a sobreviv\u00eancia \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as que transcendam as categorias coloniais de humano e inumano, j\u00e1 que \u201cainda h\u00e1 sementes a serem coletadas e lugar na sacola das estrelas\u201d (Le Guin, 2021).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Refer\u00eancias<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Le Guin, Ursula. A teoria da bolsa da fic\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: N-1 Edi\u00e7\u00f5es, 2021, 44 p.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lima, Mar\u00edlia da Silva. A maldi\u00e7\u00e3o do tatari-gami: especula\u00e7\u00f5es sobre ru\u00ednas e alian\u00e7as em Princesa Mononoke (1997). Cadernos de Campo (S\u00e3o Paulo \u2014 1991), [S.L.], v. 33, n. 2, p. 2\u20137, 3 dez. 2024. Universidade de S\u00e3o Paulo. Ag\u00eancia de Bibliotecas e Cole\u00e7\u00f5es Digitais. http:\/\/dx.doi.org\/10.11606\/issn.2316-9133.v33i2pe217739.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Yussof, Kathrin. Geologia, Ra\u00e7a e Mat\u00e9ria. In: Um bilh\u00e3o de antropocenos negros ou nenhum. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2025, p. 13 a 35.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Wynter, Sylvia. Nenhum Humano Envolvido: carta aberta a colegas. In: Barzaghi, Clara; Paterniani, Stella; Arias, Andr\u00e9 (org.). Pensamento negro radical. S\u00e3o Paulo: Crocodilo; N-1 Edi\u00e7\u00f5es, 2021, p. 83 a 121.<\/span><\/p>\n<p><em>Legenda da imagem: Kodamas, os esp\u00edritos da floresta.<\/em><\/p>\n<p><em>Cr\u00e9dito da imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Studio Ghibli<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carolina Carettin \u201cPrincesa Mononoke\u201d, de 1997, \u00e9 um dos filmes mais conhecidos do Studio Ghibli. 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