{"id":4656,"date":"2026-10-03T07:45:21","date_gmt":"2026-10-03T10:45:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/?p=4656"},"modified":"2026-10-03T08:34:28","modified_gmt":"2026-10-03T11:34:28","slug":"hoje-vai-ter-plateia-ensaio-sobre-mulheres-musica-e-menstruacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/labirinto\/2026\/10\/03\/hoje-vai-ter-plateia-ensaio-sobre-mulheres-musica-e-menstruacao\/","title":{"rendered":"Hoje vai ter plateia? &#8211; Ensaio sobre mulheres, m\u00fasica e menstrua\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">12\/9\/2026 &#8211; Alice Kuschnir &#8211; Rio de Janeiro &#8211; RJ<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Caminho com o guitarrista de uma banda nova, da qual fui convidada para fazer parte. Ele conhece a dire\u00e7\u00e3o para o est\u00fadio onde est\u00e1 marcado o primeiro ensaio teste. O cen\u00e1rio \u00e9 uma porta dentro de uma galeria no bairro da Tijuca no Rio de Janeiro. Dentro , encontro com um est\u00fadio de m\u00fasica min\u00fasculo e o seu dono: um homem branco de meia-idade careca vestido com uma blusa de flanela fedida, que abre a porta para n\u00f3s, cumprimenta o guitarrista, olha para mim, olha pra ele e diz: \u201cAh, hoje vai ter plateia?\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essa simples pergunta desencadeou em mim uma s\u00e9rie de outras perguntas: Que pessoa iria apenas assistir ao ensaio enquanto carrega 15 quilos de pratos de bateria nas costas? Em que espa\u00e7o algu\u00e9m poderia assistir o ensaio naquela sala min\u00fascula? E sem cadeiras? Ser\u00e1 que alguma mulher j\u00e1 aturou isso? Teria ele pensado que eu namorava o guitarrista pelo simples fato de eu ter chegado junto dele? Quantas mulheres devem frequentar esse est\u00fadio? Ser\u00e1 que j\u00e1 foram mais musicistas ou namoradas? Como que esse cara pode gerar essa conclus\u00e3o em quest\u00e3o de milissegundos e falar com tanta confian\u00e7a?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Eram 9 da manh\u00e3 quando isso tudo aconteceu, eu tinha acordado \u00e0s 6:30, feito alongamentos durante 20 minutos para me preparar para o ensaio, tomado caf\u00e9 da manh\u00e3, aquecido as m\u00e3os com t\u00e9cnicas de baquetas, arrumado os itens de bateria que eu precisaria, pego dois transportes p\u00fablicos e andado por mais 20 minutos carregando peso. Apenas olhei para a cara do sujeito, e disse \u201cn\u00e3o\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o foi a primeira vez que me ocorreu algo assim, e talvez a pior parte dessas situa\u00e7\u00f5es seja que eu sempre fico com a sensa\u00e7\u00e3o amarga de que eu gostaria de ter respondido algo a altura do inc\u00f4modo que o sujeito causou em mim. E depois quando conto para outras pessoas sempre surgem ideias \u00f3timas de respostas igualmente \u00e1cidas e engra\u00e7adas que me d\u00e3o tanta vontade de voltar no tempo para diz\u00ea-las e ver a rea\u00e7\u00e3o, como: \u201cs\u00f3 se a plateia for voc\u00ea! \u201c. Mas a realidade \u00e9 que para mim, que dedico a minha vida inteira \u00e0 m\u00fasica, \u00e9 uma afronta t\u00e3o absurda desassociar a minha pessoa desse ambiente, que um simples \u201cn\u00e3o\u201d r\u00e1pido vem como uma nega\u00e7\u00e3o imediata para algo t\u00e3o fantasioso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Estou menstruada nesse dia. Depois de participar como instrumentista do ensaio, tocando bateria durante duas horas, pe\u00e7o ao dono a dire\u00e7\u00e3o para o banheiro do lugar. Ele me aponta para uma privada ao lado da porta de vidro que d\u00e1 para a galeria, com uma porta sanfonada que mal fecha, uma pia por cima da privada, um \u00fanico rolo de papel higi\u00eanico escondido atr\u00e1s de itens de manuten\u00e7\u00e3o, e nenhuma lixeira. Esse \u00faltimo fator \u00e9 determinante para constatar a rela\u00e7\u00e3o entre aquele espa\u00e7o e a presen\u00e7a de mulheres nele.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cUma das formas mais difundidas de discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero experimentadas diariamente pelas mulheres \u00e9 o acesso inadequado a banheiros privados. A alega\u00e7\u00e3o \u00e9 de um novo artigo de pesquisadores da Escola de Sa\u00fade P\u00fablica Mailman da Universidade de Columbia e do Comit\u00ea Internacional de Resgate, ambos dos Estados Unidos, publicado na revista Water, em uma edi\u00e7\u00e3o especial sobre \u00c1gua, Saneamento e Higiene em Contextos Humanit\u00e1rios. As mulheres t\u00eam necessidades de saneamento \u00fanicas em compara\u00e7\u00e3o aos homens. Isso porque cerca de 1\/4 de todas as adultas do planeta est\u00e3o menstruadas agora \u2013 ou a qualquer momento.Segundo Maggie Schmitt, uma das autoras da an\u00e1lise, a falta de banheiros adequados \u2013 com portas, fechaduras e latas de lixo \u2013 resulta em estresse, constrangimento, desconforto f\u00edsico e viol\u00eancia (f\u00edsica e moral) baseada em g\u00eanero.\u201d *<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ainda mais, quando consideramos que era um estabelecimento especializado, numa zona segura e movimentada de uma metr\u00f3pole como o Rio de Janeiro, com acesso a saneamento b\u00e1sico, ar condicionado, equipamentos de alta tecnologia, instrumentos musicais caros\u2026A aus\u00eancia de uma lata de lixo no banheiro nesse contexto reafirma a discrimina\u00e7\u00e3o verbal do momento em que entrei naquele ambiente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cA rua \u2013 e todo o espa\u00e7o p\u00fablico &#8211; n\u00e3o era um espa\u00e7o para mulheres. N\u00e3o era um espa\u00e7o de mulheres. A mulher pertencia \u00e0 casa, e seus assuntos pertenciam ao espa\u00e7o da casa. E podemos perceber, at\u00e9 os dias de hoje, quantos espa\u00e7os f\u00edsicos p\u00fablicos est\u00e3o despreparados para a presen\u00e7a e a perman\u00eancia de mulheres.\u201d Waquim, 2024**<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dessa forma, podemos entender o contexto hist\u00f3rico do amadorismo associado \u00e0s musicistas. Para as mulheres tocar um instrumento sempre foi um indicativo de intelig\u00eancia e sutileza desde que praticado dentro das paredes de casa. Sem a possibilidade de expans\u00e3o, reconhecimento e retorno financeiro que o p\u00fablico poderia oferecer. Assim, os espa\u00e7os que possibilitar\u00edam isso nunca foram moldados para nos favorecer, ou ao menos nos receber. E seguem sendo em muitos casos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Deixei o est\u00fadio de m\u00fasica com um papel ensanguentado dentro da privada de presente para o dono, e essa reflex\u00e3o que registro aqui para talvez da pr\u00f3xima vez que algo assim me ocorrer ou ocorrer a algu\u00e9m, possamos devolver o inc\u00f4modo para quem nos provoca.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">*SCHMITT, Margaret L., David Clatworthy, Tom Ogello, and Marni Sommer. 2018. &#8220;Making the Case for a Female-Friendly Toilet&#8221; , Water 10, no. 9: 1193. Dispon\u00edvel em: https:\/\/doi.org\/10.3390\/w10091193<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">**WAQUIM, Bruna Barbieri. 2024. Sobre Muros, Pontes e&#8230; Banheiros: uma breve cr\u00f4nica sobre espa\u00e7os femininos e feministas, IBDFAM- Instituto Brasileiro de Direito da Fam\u00edlia, dispon\u00edvel em:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">http:\/\/ibdfam.org.br\/artigos\/2104\/Sobre+Muros%2C+Pontes+e&#8230;+Banheiros%3A+uma+breve+cr%C3%B4nica+sobre+espa%C3%A7os+femininos+e+feministas<\/span><\/p>\n<p><em>Legenda ou descri\u00e7\u00e3o da imagem: Desenho de uma mulher de cabelos vermelhos tocando bateria\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>12\/9\/2026 &#8211; Alice Kuschnir &#8211; Rio de Janeiro &#8211; RJ Caminho com o guitarrista de uma banda nova, da qual fui convidada para fazer parte. Ele conhece a dire\u00e7\u00e3o para o est\u00fadio onde est\u00e1 marcado o primeiro ensaio teste. 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