{"id":101,"date":"2016-09-09T16:08:09","date_gmt":"2016-09-09T16:08:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=101"},"modified":"2017-02-15T17:02:14","modified_gmt":"2017-02-15T17:02:14","slug":"o-caso-do-piraha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2016\/09\/09\/o-caso-do-piraha\/","title":{"rendered":"O caso do Pirah\u00e3"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"color: #ff0000;\">\u00a0O que o estudo das l\u00ednguas ind\u00edgenas pode nos dizer sobre o funcionamento das l\u00ednguas em geral?<\/span><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Conhecer um caso emblem\u00e1tico de pol\u00eamicas entre linguistas sobre o funcionamento das l\u00ednguas ind\u00edgenas e sua descri\u00e7\u00e3o nos ajuda a compreender como os estudos lingu\u00edsticos avan\u00e7am a partir da explora\u00e7\u00e3o de diversas l\u00ednguas no mundo e seu confronto com os modelos de an\u00e1lise gramatical dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>Uma dessas pol\u00eamicas, que ficou famosa no campo da Lingu\u00edstica, \u00e9 apresentada por <em>Fabio Mesquita<\/em> na sua an\u00e1lise do filme <em>The Grammar of Happines.<br \/>\n<\/em><!--more--><\/p>\n<p>O document\u00e1rio <a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt2145426\/\" target=\"_blank\"><em>The<\/em> <em>Grammar of Happiness<\/em><\/a> <a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt2145426\/\" target=\"_blank\">(1)<\/a> mostra o trabalho de campo do linguista americano <a href=\"https:\/\/faculty.bentley.edu\/details.asp?uname=deverett\" target=\"_blank\">Daniel Everett<\/a> sobre a l\u00edngua e a cultura dos pirah\u00e3s, um povo ind\u00edgena que habita as margens do rio Maici, no estado do Amazonas. O trabalho de Everett, que vem sendo elaborado h\u00e1 mais de trinta anos, traz muitos dados interessantes tanto para an\u00e1lise antropol\u00f3gica quanto lingu\u00edstica. A hist\u00f3ria do linguista em si j\u00e1 constitui uma narrativa curiosa. Sua motiva\u00e7\u00e3o inicial, na d\u00e9cada de 1970, era de documentar a l\u00edngua pirah\u00e3 com fins religiosos, ou seja, ele pretendia traduzir a b\u00edblia protestante para esta que \u00e9 uma das muitas l\u00ednguas do mundo que n\u00e3o possuem forma escrita. Assim, ele poderia posteriormente convert\u00ea-los ao cristianismo. No entanto, o desfecho da empreitada foi exatamente o oposto. Everett relata que nunca conseguiu converter uma pessoa sequer, e ainda come\u00e7ou a questionar sua pr\u00f3pria f\u00e9, quando, segundo ele, percebeu que aquelas pessoas n\u00e3o necessitavam de salva\u00e7\u00e3o alguma \u2013 pelo contr\u00e1rio, eram felizes e perfeitamente adaptadas ao seu ambiente e estilo de vida comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Apesar de todas as quest\u00f5es religiosas e sociais do trabalho de Everett serem interessant\u00edssimas, neste texto falaremos especificamente de linguagem. Para quem estiver interessado na hist\u00f3ria detalhada descrevendo o per\u00edodo em que o linguista esteve com os pirah\u00e3s, recomendo o livro do pr\u00f3prio Everett chamado <em>Don\u2019t sleep, there are snakes: Life and language in the amazonian jungle <a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books\/about\/Don_t_Sleep_There_are_Snakes.html?id=iQV9l-s7y2IC&amp;source=kp_cover&amp;redir_esc=y\" target=\"_blank\">(2)<\/a><\/em>, e tamb\u00e9m o site com suas publica\u00e7\u00f5es, clicando <a href=\"https:\/\/daneverettbooks.com\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/youtu.be\/SHv3-U9VPAs\" target=\"_blank\"> Alguns dados<\/a> sobre a l\u00edngua pirah\u00e3 s\u00e3o realmente peculiares. Segundo o autor, ela teria o menor invent\u00e1rio de sons do mundo: apenas sete consoantes e tr\u00eas vogais, no caso das mulheres (homens possuem uma consoante a mais). Os falantes conseguem, atrav\u00e9s da rica pros\u00f3dia e alto grau de entendimento m\u00fatuo, fazer com que senten\u00e7as inteiras possam ser assobiadas ao inv\u00e9s de faladas, recurso que \u00e9 usado como estrat\u00e9gia de ca\u00e7a no meio da floresta, por exemplo. Outras observa\u00e7\u00f5es que chamam a aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o a aus\u00eancia de marca\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica de n\u00famero (n\u00e3o h\u00e1 marcas de contraste entre singular, dual ou plural), a aus\u00eancia de numerais, e a aus\u00eancia de quantificadores como <em>todo<\/em>, <em>algum<\/em> e <em>cada<\/em>, entre outros. O pirah\u00e3 seria, segundo Everett, a \u00fanica l\u00edngua do mundo sem termos espec\u00edficos para nomear cores <a href=\"http:\/\/philpapers.org\/rec\/EVECCO\" target=\"_blank\">(3)<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/pirah\u00e3.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-140 alignright\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/pirah\u00e3-150x150.jpg\" width=\"220\" height=\"220\" \/><\/a><\/p>\n<p>Todas estas descri\u00e7\u00f5es j\u00e1 representam um material formid\u00e1vel de estudo ling\u00fc\u00edstico. No entanto, algumas das afirma\u00e7\u00f5es de Everett sobre a sintaxe desta l\u00edngua acabaram se tornando o centro de uma grande controv\u00e9rsia entre linguistas de todo o mundo, especialmente entre os de cunho formalista. A disputa tem dois aspectos interdependentes: um emp\u00edrico e outro te\u00f3rico.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o emp\u00edrica mais controversa de Everett \u00e9 que a l\u00edngua pirah\u00e3 n\u00e3o apresentaria estruturas encaixadas, um recurso muito vis\u00edvel na maioria absoluta das l\u00ednguas do mundo. Um exemplo de encaixamento \u00e9 dado na senten\u00e7a \u201ceu disse que o homem chegou\u201d, ou seja, a senten\u00e7a \u201c(que) o homem chegou\u201d estaria encaixada na senten\u00e7a \u201ceu disse\u201d. Everett n\u00e3o afirma que n\u00e3o seria poss\u00edvel dizer algo com significado equivalente ao da senten\u00e7a em portugu\u00eas mencionada acima, mas sim que as express\u00f5es lingu\u00edsticas do pirah\u00e3 n\u00e3o apresentariam as marcas caracter\u00edsticas de encaixamento pr\u00f3prias das outras l\u00ednguas. A hip\u00f3tese do autor \u00e9 que as descri\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas de eventos em pirah\u00e3 seriam organizadas em senten\u00e7as distintas, um fen\u00f4meno conhecido como <em>parataxe <\/em><a href=\"http:\/\/ling.auf.net\/lingbuzz\/001141\" target=\"_blank\">(4)<\/a>. Em outras palavras, a senten\u00e7a exemplificada acima poderia ser estruturada aproximadamente como \u201ceu disse, o homem chegou\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, foram as afirma\u00e7\u00f5es <em>te\u00f3ricas<\/em> de Everett sobre recurs\u00e3o que fizeram a disputa acad\u00eamica ter se tornado t\u00e3o intensa. Em um de seus artigos <a href=\"http:\/\/philpapers.org\/rec\/EVECCO\">(5)<\/a>, Everett afirma que suas descobertas contradizem uma das assun\u00e7\u00f5es fundamentais do linguista mais citado da atualidade, o tamb\u00e9m americano <a href=\"https:\/\/chomsky.info\/\">Noam Chomsky<\/a>. No filme, Everett conta que a partir do momento em que suas afirma\u00e7\u00f5es tornaram-se populares no meio acad\u00eamico e fora dele, ele passou a receber cr\u00edticas ferozes e criou inimizades entre linguistas e outros estudiosos.<\/p>\n<p>Chomsky, um forte proponente da descri\u00e7\u00e3o da mente em termos computacionais, foi um dos respons\u00e1veis pela vis\u00e3o moderna de que uma l\u00edngua n\u00e3o pode ser tratada como um conjunto finito de senten\u00e7as. Algum componente da linguagem deve ser <em>recursivo<\/em>, ou seja, precisa ser respons\u00e1vel pelo fato de que os falantes produzam senten\u00e7as in\u00e9ditas o tempo todo. Todos os modelos propostos por ele desde a d\u00e9cada de 1950 colocam a <u><em>recurs\u00e3o<\/em><\/u> sint\u00e1tica como um elemento crucial, sendo que recentemente ele prop\u00f4s como hip\u00f3tese de trabalho, junto com colegas bi\u00f3logos, que talvez esta recurs\u00e3o seja a \u00fanica distin\u00e7\u00e3o evolucion\u00e1ria entre os modelos de linguagem humana e os de comunica\u00e7\u00e3o animal <a href=\"http:\/\/science.sciencemag.org\/content\/298\/5598\/1569\" target=\"_blank\">(5)<\/a>.<\/p>\n<p>Embora a proposta de Chomsky diga respeito a este aspecto criativo da linguagem humana, ou seja, a possibilidade de cria\u00e7\u00e3o de infinitas senten\u00e7as, Everett tenta demonstrar que n\u00e3o haveria ind\u00edcios desta recurs\u00e3o em alguns aspectos da sintaxe do pirah\u00e3, como o encaixamento de senten\u00e7as ou sintagmas, e, assim, a concep\u00e7\u00e3o chomskyana de linguagem enfrentaria problemas de fundamenta\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 importante notar que o debate, colocado neste termos, apresenta uma s\u00e9rie de ru\u00eddos terminol\u00f3gicos que pode confundir tanto leigos quanto especialistas. Recurs\u00e3o \u00e9 um conceito pr\u00f3prio da matem\u00e1tica e das ci\u00eancias computacionais, que pode ser utilizado para descrever tanto mecanismos mentais como encaixamento em l\u00ednguas naturais. Boa parte dos atuais debatedores ainda discute do que trata a recurs\u00e3o proposta por Chomsky.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a parte saud\u00e1vel da controv\u00e9rsia, mas \u00e9 uma pena que nem sempre as disputas acad\u00eamicas estejam confinadas \u00e0 busca do conhecimento em si. Embora a vida dos pirah\u00e3s possa ser considerada id\u00edlica, como \u00e9 sugerido no filme, as discuss\u00f5es geradas pelas descobertas sobre sua l\u00edngua e cultura apresentam as caracter\u00edsticas de acrimoniosa polariza\u00e7\u00e3o pr\u00f3prias das controv\u00e9rsias humanas.<\/p>\n<blockquote>\n<h6>REFER\u00caNCIAS<\/h6>\n<ol>\n<li>\n<h6>THE grammar of happiness. Dire\u00e7\u00e3o: Michael O\u2019Neil, Randall Wood. Produ\u00e7\u00e3o: Michael O\u2019Neil, Chris Hilton. Roteiro: Michael O\u2019Neil, Christopher Thorburn. Narra\u00e7\u00e3o: Linda Cropper. Sydney: Esssential Media and Entertainment, 2012. 1 DVD (55 min), color. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt2145426\/\">http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt2145426\/<\/a>.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>EVERETT, Daniel. Don\u2019t sleep, there are snakes: Life and language in the amazonian jungle. New York: Pantheon Books, 2008. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books\/about\/Don_t_Sleep_There_are_Snakes.html?id=iQV9l-s7y2IC&amp;source=kp_cover&amp;redir_esc=y\">https:\/\/books.google.com.br\/books\/about\/Don_t_Sleep_There_are_Snakes.html?id=iQV9l-s7y2IC&amp;source=kp_cover&amp;redir_esc=y<\/a>.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>EVERETT, Daniel. Cultural constraints on grammar and cognition in Pirah\u00e3. Current Anthropology<em>, <\/em> v. 46, n. 4, 2005, p. 621-646. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/philpapers.org\/rec\/EVECCO\">http:\/\/philpapers.org\/rec\/EVECCO<\/a>.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>EVERETT, Daniel<em>. <\/em>You drink. You drive. You go to jail. Where\u2019s recursion?, 2010. Dispon\u00edvel em &lt;<a href=\"http:\/\/ling.auf.net\/lingbuzz\/001141\">http:\/\/ling.auf.net\/lingbuzz\/001141<\/a>&gt;.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>HAUSER, Marc D.; CHOMSKY, Noam; FITCH, W. Tecumseh. The Faculty of Language: What Is It, Who Has It, and How Did It Evolve? Science, v. 298, n. 5598, 2002, p. 1569-1579. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/science.sciencemag.org\/content\/298\/5598\/1569\">http:\/\/science.sciencemag.org\/content\/298\/5598\/1569<\/a>.<\/h6>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>\u00a0O que o estudo das l\u00ednguas ind\u00edgenas pode nos dizer sobre o funcionamento das l\u00ednguas em geral? 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