{"id":105,"date":"2016-09-09T21:09:41","date_gmt":"2016-09-09T21:09:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=105"},"modified":"2017-02-15T17:01:32","modified_gmt":"2017-02-15T17:01:32","slug":"itard-vs-pinel-o-problema-tostines-na-aquisicao-da-linguagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2016\/09\/09\/itard-vs-pinel-o-problema-tostines-na-aquisicao-da-linguagem\/","title":{"rendered":"Itard vs. Pinel: o problema Tostines na aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"color: #ff0000;\">\u00a0Uma crian\u00e7a que nunca teve contato com uma l\u00edngua humana nem se relacionou com outros seres humanos pode chegar a falar?<\/span><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma das grandes quest\u00f5es sobre a linguagem que se coloca desde a antiguidade e que <em>Fernanda Mendes <\/em>(P\u00f3s-doutoranda, IEL, UNICAMP) nos apresenta a partir da an\u00e1lise do filme <em>O garoto selvagem.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O filme <em><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0064285\/\" target=\"_blank\">L\u2019Enfant Sauvage<\/a> <strong>[1]<\/strong><\/em> (<em>O garoto selvagem<\/em>), lan\u00e7ado em 1970 pelo aclamado cineasta franc\u00eas <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Fran%C3%A7ois_Truffaut\" target=\"_blank\">Fran\u00e7ois Truffaut<\/a>, se constitui como a parte final de uma sutil trilogia tem\u00e1tica, que se inicia em 1959, com o lan\u00e7amento de <em>Les quatre cent coup <\/em>(<em>Os incompreendidos<\/em>), seguida de <em>Fahreinheit 451<\/em>, lan\u00e7ado em 1966.<\/p>\n<p>Em cada um desses tr\u00eas filmes, o autor toma a linha tem\u00e1tica dos <em>recusados pela sociedade<\/em>, como apontaram Gon\u00e7alves &amp; Peixoto (2000)[2], por um vi\u00e9s diferente. Enquanto no primeiro filme o personagem \u00e9 rejeitado pela sociedade por falta de amor e ternura, no segundo, o personagem \u00e9 recusado por ela por falta de cultura. No terceiro, por fim, o personagem n\u00e3o se insere socialmente por uma falta muito mais radical, a linguagem.<\/p>\n<p>O filme, que se baseia em dois livros [3, 4] do psiquiatra franc\u00eas <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Jean_Marc_Gaspard_Itard\" target=\"_blank\">Jean Itard<\/a>, conta o caso ver\u00eddico de um garoto capturado, em 1798, num bosque depois de ter vivido cerca de 12 anos afastado do conv\u00edvio social. Victor de Aveyron[5], como ele foi chamado pelo seu tutor, \u00e9 apenas mais uma entre as in\u00fameras <em>crian\u00e7as selvagens<\/em> que j\u00e1 foram encontradas e registradas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/l_enfant_sauvage.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-106 alignright\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/l_enfant_sauvage-300x137.jpg\" alt=\"l_enfant_sauvage\" width=\"300\" height=\"137\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/l_enfant_sauvage-300x137.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/l_enfant_sauvage-768x351.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/l_enfant_sauvage.jpg 885w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O trabalho de Gon\u00e7alves &amp; Peixoto (2000), por exemplo, exibe uma tabela com 53 registros de <em>crian\u00e7as selvagens<\/em> encontradas ao redor do mundo desde 1344 at\u00e9 1961, estando, entre elas, al\u00e9m dos chamados meninos lobo ou meninos urso, um outro caso c\u00e9lebre tamb\u00e9m presente nas telonas de cinema: Kaspar Hauser.<\/p>\n<p>Quando encontrado, Victor n\u00e3o andava como b\u00edpede, n\u00e3o falava, n\u00e3o lia e muito menos escrevia. Por apresentar s\u00e9rios problemas lingu\u00edsticos, o garoto selvagem foi considerado portador de defici\u00eancia mental pelo mais c\u00e9lebre psiquiatra da \u00e9poca, Pinel, e, por isso, chegou a ficar internado no famoso hosp\u00edcio parisiense Bic\u00eatre at\u00e9 que fosse resgatado por Itard.<\/p>\n<p>Neste momento, em que Pinel e Itard discutem sobre a origem dos problemas do garoto, o filme apresenta ao expectador um dilema paradoxal do ponto de vista lingu\u00edstico e, tal qual o famoso comercial transmitido na televis\u00e3o brasileira nos anos 80 que gerou a express\u00e3o <em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7lwJLapvXj0\" target=\"_blank\">problema Tostines <\/a><\/em>, deixa a pergunta no ar: o garoto n\u00e3o teve acesso \u00e0 linguagem porque ele n\u00e3o fala, ou ele n\u00e3o fala porque n\u00e3o teve acesso \u00e0 linguagem?<\/p>\n<p>Por um lado, do ponto de vista de Pinel, que considerava que Victor tivesse algum tipo de defici\u00eancia, o garoto teria sido v\u00edtima de abandono por apresentar, desde muito cedo, algum tra\u00e7o at\u00edpico no desenvolvimento cognitivo e, consequentemente, n\u00e3o seria capaz de adquirir nenhum tipo de linguagem, dada essa sua defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Por outro lado, do ponto de vista de Itard, que n\u00e3o considerava que Victor apresentasse qualquer tipo de defici\u00eancia, o garoto teria sido v\u00edtima de abandono por outras quest\u00f5es \u2013 tal como ser um filho ileg\u00edtimo \u2013 e foi justamente esse isolamento que o impediu de desenvolver suas capacidades cognitivas e lingu\u00edsticas de forma adequada.<\/p>\n<p>Assim, de acordo com o \u00faltimo, se Victor tivesse crescido em um ambiente linguisticamente favor\u00e1vel, isto \u00e9, se n\u00e3o tivesse sido abandonado e isolado de todo o contato com outras pessoas \u2013 que se constituem, entre outras coisas, como fontes de <em>input<\/em> lingu\u00edstico \u2013, ele teria plena capacidade de adquirir uma l\u00edngua tanto quanto qualquer outra crian\u00e7a com desenvolvimento t\u00edpico, uma vez que ele apresentou grandes avan\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o a outras \u00e1reas de desenvolvimento cognitivo, durante o tempo em que esteve com Itard.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/1E1ZFlJuWgaHIbmFxTzCVhKLEvF.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-107 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/1E1ZFlJuWgaHIbmFxTzCVhKLEvF-300x169.jpg\" alt=\"1E1ZFlJuWgaHIbmFxTzCVhKLEvF\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/1E1ZFlJuWgaHIbmFxTzCVhKLEvF-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/1E1ZFlJuWgaHIbmFxTzCVhKLEvF-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/1E1ZFlJuWgaHIbmFxTzCVhKLEvF-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/1E1ZFlJuWgaHIbmFxTzCVhKLEvF-678x381.jpg 678w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/1E1ZFlJuWgaHIbmFxTzCVhKLEvF-128x72.jpg 128w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/1E1ZFlJuWgaHIbmFxTzCVhKLEvF.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que impediria, em especial, o desenvolvimento da linguagem de Victor, e n\u00e3o de outras \u00e1reas cognitivas do garoto selvagem?<\/p>\n<p>[simple_tooltip content=&#8217;Teoria lingu\u00edstica fundada nos anos 50 por Noam Chomsky.&#8217;]<span style=\"text-decoration: underline;\">Gerativismo<\/span>[\/simple_tooltip], uma das abordagens lingu\u00edsticas modernas, dando base cient\u00edfica ao pensamento apresentado por Itard no filme, explica esses fatos com base no que se chama de <em>per\u00edodo cr\u00edtico<\/em>.<\/p>\n<p>Segundo a teoria, esse per\u00edodo, que vai do nascimento at\u00e9 a puberdade, demarcaria um tempo em que a crian\u00e7a estaria biologicamente apta para a aquisi\u00e7\u00e3o de linguagem. Assim, da mesma forma que o <em>per\u00edodo cr\u00edtico<\/em> explicaria a n\u00e3o aquisi\u00e7\u00e3o de nenhuma l\u00edngua por parte das crian\u00e7as selvagens, uma vez que elas nunca foram expostas a nenhuma l\u00edngua at\u00e9 a puberdade, ele tamb\u00e9m explica porque \u00e9 t\u00e3o mais dif\u00edcil aprender uma l\u00edngua estrangeira quando se \u00e9 mais velho.<\/p>\n<blockquote><p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>[1] L\u2019Enfant Sauvage. Dire\u00e7\u00e3o: Fran\u00e7ois Truffaut. Produ\u00e7\u00e3o: Jean-Fran\u00e7ois St\u00e9venin, Claude Miller. Roteiro: Fran\u00e7ois Truffault, Jean Gruault. Fran\u00e7a: Les Films du Carrose, Artistes Auteurs Associ\u00e9 (AAA), 1970. Drama (86 min). Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0064285\/<\/p>\n<p>[2] GONC\u0327ALVES, J. e PEIXOTO, M. A. <em>O menino selvagem<\/em>: estudo de caso de uma crian\u00e7a selvagem retratado no filme \u201cO menino selvagem\u201d. Universidade de Lisboa, 2000.<\/p>\n<p>[3] ITARD, J. M. G. <em>De l&#8217;education d&#8217;un homme sauvage ou des premiers developpemens physiques et moraux du jeune sauvage de l&#8217;Aveyron<\/em>. Goujon. Paris, 1801. Dispon\u00edvel em: http:\/\/gallica.bnf.fr\/ark:\/12148\/btv1b8626267t\/f1.image<\/p>\n<p>[4] ITARD, J. M. G. <em>Rapports et memoires sur le sauvage de l&#8217;Aveyron<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o inglesa con introduc\u00e7\u00e3o e notas de G. y M. Humprey: The wild boy of Aveyron. Century. New York, 1932. Dispon\u00edvel em: http:\/\/gallica.bnf.fr\/ark:\/12148\/bpt6k5752734w<\/p>\n<p>[5] <em>Victor<\/em>, porque esse foi o primeiro nome pr\u00f3prio ao qual ele reagiu, dado que ele mostrava uma aten\u00e7\u00e3o maior \u00e0s palavras que continham o som [o], que pode ser \u201ctraduzido\u201d de uma maneira menos t\u00e9cnica por <em>\u00f4<\/em> \u2013 tal qual a palavra que significa <em>\u00e1gua<\/em> em franc\u00eas: <em>eau<\/em>, pronunciada apenas como [o]. <em>Aveyron<\/em>, porque esse era o nome da cidade onde ele foi encontrado.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>\u00a0Uma crian\u00e7a que nunca teve contato com uma l\u00edngua humana nem se relacionou com outros seres humanos pode chegar a falar? Esta \u00e9 uma das <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2016\/09\/09\/itard-vs-pinel-o-problema-tostines-na-aquisicao-da-linguagem\/\" title=\"Itard vs. Pinel: o problema Tostines na aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":141,"featured_media":106,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[9,8,1],"tags":[29,27,14,28],"class_list":["post-105","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-linguagem-e-mente","category-linguagem-e-subjetividade","category-sem-categoria","tag-cultura","tag-fala","tag-linguas","tag-mente"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/l_enfant_sauvage.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/105","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/141"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=105"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/105\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":604,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/105\/revisions\/604"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media\/106"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=105"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=105"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=105"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}